54 – Um ótimo dia, porém longo e difícil

Os pais do Luiz também nos deram o prazer de uma visita. Tenho a sorte de gostar dos meus sogros. Contrariando a fama das sogras, a minha me defende.Vieram com um casal de amigos, muito simpáticos, que ficaram hospedados em um apart hotel bem próximo à nossa casa. 

No primeiro dia em Madri, decidimos dar um passeio a pé pelo centro da cidade. O tour tradicional, mas imperdível. Não conheço outra maneira melhor de conhecer o centro histórico que não seja caminhando. E nunca me cansa! Começamos por Opera, de lá fomos ao Palácio Real, subimos a Calle Mayor e entramos na rua do antigo Mercado de San Miguel. Paramos para almoçar no Maestro Villa, em frente ao Arco de Cuchilleros. Muito agradável! 

Depois de almoçar e, claro, tomar um vinhozinho de Ribera, prosseguimos em direção à Plaza Mayor. Na minha opinião, considero o ponto alto da visita. Seus quatro lados vermelhos e encravados de história sempre me intrigam. É como se fosse uma sala pública de visitas com o teto aberto para o céu. Ali, coisas boas e más ocorreram.  Inclusive, fatos duros, como por exemplo, julgamentos da inquisição católica. Mas por algum motivo, essa energia estranha não me faz sentir mal, como ocorre no Coliseo de Roma. 

Entretanto, nesse dia foi diferente. Pela primeira vez não me senti nada bem logo que entrei na praça. Havia um protesto, ainda por iniciar, do povo saharaui. Explicando um pouco dessa confusão, existe uma região no Sahara Ocidental que foi reclamada como colonia pela Espanha em 1885. A ocupação efetiva do território não se realizou até 1934. Seu território foi cedido em 1976 a Marrocos e Mauritania, entretanto, a Frente Polisaria proclamou a República Árabe Saharaui Democrática (RASD), iniciando uma Guerra que duraria até 1991. Continuam a espera de um referendo, o qual Marrocos se negou a convocar em repetidas ocasiões. O status legal do território e a questão da soberania continuam sem se resolver. Atualmente, Marrocos tem um muro com radares, artilharia e minas no interior do deserto. Uma missão da ONU tenta controlar a situação para organizar eleições livres que decidam o destino do território. O objetivo desse protesto era de pedir ajuda à Espanha. 

Talvez fosse por isso, não tenho certeza, repentinamente senti o ar pesado. Fiquei muito incomodada. Tenho um tipo de intuição que às vezes me assusta, mas me protege. Sinto a proximidade de situações de risco, sei quando algo ruim está propenso a ocorrer. Não chega a ser uma premonição porque não consigo saber o que é, mas funciona como um sinal de alerta. Algumas coisas acontecem sem que você possa evitá-las, mas a maior parte delas é uma questão de não estar prestando a atenção suficiente. Ninguém consegue ser atento 24 horas por dia, porém consigo ser quando meu radar me avisa. Fico séria, mais calada e concentrada. 

Nesse dia não quis ficar muito tempo na praça. Também não queria estragar o passeio de ninguém com meus devaneios, então só comentei com Luiz que não estava gostando dali.  

Saímos em direção a Calle de Postas, que leva à Puerta del Sol. Vi três garotos, arrumados como os outros garotos. No Brasil, a gente crê que pode identificar o risco através da aparência relacionada à pobreza. É um engano, nesse caso, por exemplo, a aparência era de garotos da classe média. Só que tinham um olhar familiar que reconheço, o de quem não tem muito a perder. O maior subia a rua com um mastro de bandeira na mão, sem bandeira nenhuma. Quando viram um carro de polícia estacionado, voltaram do caminho. Não sei se mais alguém percebeu, porque a rua estava bem cheia. Mostrei ao Luiz e entendi que não era só a Plaza Mayor. As bruxas estavam soltas e era melhor se cuidar. Foi a primeira vez que senti Madri assim. 

Subimos a Calle de Preciados, uma rua movimentadíssima, em direção ao El Corte Inglés. Estava atenta, entretanto cometi um erro. Minha sogra e sua amiga estavam comigo, então achei que estava tudo bem e relaxei. Os maridos vinham atrás, o último era o amigo do meu sogro, que estava um pouco distraído filmando e fotografando a rua. 

Entramos, as mulheres conversando, no El Corte Inglés e de repente me ocorreu que eles não entraram. Na hora sabia que havia acontecido algo e voltei para rua sem saber bem o que fazer. 

Um cidadão meteu a mão na carteira do amigo do meu sogro e, provavelmente, a passou rapidamente para outro. Acontece que eles  perceberam e agarraram um dos ladrões. Um outro homem entregava dinheiro ao Luiz e apontava uma carteira no chão. Acho que era o outro ladrão, mas não dava para ter certeza. Como ele mostrava a carteira para o Luiz, ele acreditou que o sujeito estava ajudando. Nunca saberemos. 

 O fato é que meu sogro e seu amigo seguraram o primeiro ladrão e começamos a gritar por polícia. As esposas se juntaram em volta e os quatro não deixaram que o homem saísse de lá. Foram muito corajosos! Uma roda de pedestres rapidamente se fez em volta da confusão. Luiz correu em direção à Plaza Callao tentando pegar o segundo homem. Não fazia muito sentido pois não sabia quem era. Mas nessas horas a gente não pensa claramente, é tudo muito rápido. Fiquei com medo de deixá-lo sozinho agarrando o suposto segundo ladrão e fui atrás dele. Quando vi que ele nunca o alcançaria e não entendi o que ele estava tentando fazer, olhei em volta para ver se havia polícia e não havia. Voltei correndo para o El Corte Inglés para chamar a segurança. Meus sogros e seus amigos ainda seguravam o bandido. No que saí da loja com o segurança, alguém já havia conseguido avisar os policiais que chegaram pelo outro lado e prenderam o assaltante. 

Enquanto a polícia revistava o homem, conferimos se faltava algo na carteira. Por sorte, não havia tido tempo de nada ser levado. Até o dinheiro retirado foi recuperado, pois os batedores de carteira, quando percebem que o golpe deu errado, deixam as provas para trás. O ladrão foi detido e entramos na loja para acalmar os ânimos. Subimos até a cafeteria, sentamos e tentamos relaxar um pouco. A verdade é que tudo aconteceu tão rápido que só depois as peças foram se juntando. 

Acho que Luiz e eu fizemos errado, não deveríamos tê-los deixado sozinhos com o bandido. Meu reflexo foi de buscar ajuda, mas não sei se foi o melhor. Me senti um pouco impotente de ter percebido que alguma coisa poderia ir mal e mesmo assim não estar preparada. Sabia o que fazer se acontecesse comigo, mas não estava pronta para ajudar outra pessoa. 

Na mesa, meu sogro contou que enquanto segurava o cidadão que tentou fugir, usou o velho-truque-índio de apontar um dedo firme em suas costelas. O ladrão poderia ficar na dúvida se era uma arma.  

Acho que não teriam reagido se fosse no Brasil, até porque lá os bandidos usam armas. Aqui raramente as usam. Costumam se aproveitar da distração dos turistas. De toda maneira, achei os quatro muito corajosos e de pensamento rápido. O homem era jovem e forte. Naquele dia, ele e seu possível parceiro pensaram que se aproveitariam de um senhor distraído, alvo fácil! O que ele nunca poderia esperar é que o senhor poderia ser rápido, e que seu amigo e as esposas estariam dispostos a ajudá-lo. E que os outros alvos fáceis fariam uma roda em sua volta apontando quem era o alvo dessa vez.  

Apesar da sorte e de estarmos todos bem, logicamente, a adrenalina foi alta. Saímos da loja por outra porta, por precaução, e tomamos direção à Gran Via para pegar o metrô. No caminho, ainda não estava tranquila. A frequência do lugar estava diferente. Pelo menos, dessa vez, estávamos todos mais atentos. 

Ainda pude notar um outro cidadão na porta do metrô, que desceu um pouco antes da gente e, logo em seguida,  subiu outra vez pela escada rolante. Estava procurando vítimas e o mostrei para Luiz, mas não seríamos nós.  A medida que o metrô chegava na nossa estação, meu coração também ia sossegando. Soube que estaríamos em segurança novamente. No bairro de Salamanca, o ar já estava mais leve. Respirei aliviada, nenhuma das bruxas nos seguiu. 

No apartamento, assistindo ao noticiário, soube que houve outro grande protesto no mesmo dia, além da manifestação da Plaza Mayor. Esse era contra uma lei referente à educação na Espanha. Na Puerta del Sol também houve uma concentração de Marroquinos. Não houve nenhum incidente grave, mas movimentou muita gente e o clima da cidade não estava para muitos amigos.  

Dormir naquela noite foi difícil para todos nós. O que passou na cabeça de cada um, quem pode saber? Na minha passava uma sensação de incompetência e a dúvida se aquele era realmente o ladrão. E se fosse, o que deveria estar passando naquele momento. A cena se realizou no meu pensamento de várias maneiras diferentes, imaginava formas como poderia ter certeza que a coisa certa foi feita. Era absurdo! Sei disso, já estava feito, mas era inevitável, não conseguia apertar o botão de desligar. 

Até que ouvi a chuva caindo, levantei e fui para janela da sala. A chuva lavava a rua e as calçadas. O ar ficou mais limpo também. As bruxas se dissolviam. No corredor, meu gato me seguiu com cara de sono, curioso para saber o que fazia ali. Agarrei meu felino gordo e voltei para cama. 

Fiquei pensando se não poderia passar uma tesoura na metade daquele dia que havia sido tão agradável em quase sua totalidade. Se apagar não era possível, ao menos dividí-lo em dois e chamar um deles de dia bom. Acontece que a vida é inteira e ensina que a verdade é sempre melhor, mesmo que de maneiras tortas. A vida não é toda boa, mas aprendemos a superar e a compensar as dificuldades e os erros.  Aprendi que o bem une e o mal divide. 

Nesse dia, na sala de justiça, os super-amigos decidiram que o bem ganharia. 

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