98 – As tribos madrileñas

Desde que o mundo é mundo o homem se classifica. Essas classes sociais mudam de nomes, entretanto os conceitos se perpetuam e se alternam de lados, demonstrando uma necessidade de categorização que me perturba, mas parece inevitável. 

Madri não poderia ser diferente, aqui também temos as divisões. Sei que é quase uma heresia uma brasileira falar das diferenças sociais na Europa, o Brasil é um rei em discrepâncias nesse sentido, sei olhar para meu umbigo, mas não uso uma bitola e, infelizmente, noto que isso também existe aqui. Talvez em um nível mais horizontal, não só em função de dinheiro, e não tão vertiginosamente vertical como o nosso, mas está presente.  

Existe a burguesia, a população mais abastada, chamada coloquialmente de pijos. Os pijos usam roupas de marca e falam com muita freqüência o termo “o sea” (ou seja). Pelo menos, esse é o estereótipo do burguês, sua caricatura, que muitas vezes me parece uma bela dor-de-cotovelo de quem não chegou lá. Sabe essa deformação católica da impossibilidade do rico entrar no reino dos céus? Algo assim. Óbvio que também há os superficiais, mas de modo geral, não conheço ninguém que tenha dinheiro que não trabalhe muito por ele. Sei que existe, mas não convivo nem aqui nem no Brasil.  

Tem os alternativos, que aqui não possuem uma nomenclatura específica, mas se dizem majos (descolados, gente legal). Também usam marcas da mesma forma, mas outros tipos de marca, lógico, as marcas majas. Passam horas se produzindo para parecerem informais e gastam uma enorme energia em desenvolver um estilo próprio para parecerem que não se preocupam com estilos. Existe uma obrigação de serem, ou ao menos parecerem, mais inteligentes, como se um tipo de óculos aumentasse o número de neurônios. É verdade que na noite, onde todos os gatos são pardos, eles são ou se parecem realmente majos. 

Há os imigrantes, com subdivisões de categorias: os com dinheiro e os ferrados. Os com dinheiro, podem ser de qualquer cor e falar com sotaque, pois normalmente são bem tratados. Na pior das hipóteses, são confundidos com turistas. Podem inclusive ser majos ou pijos. Não digo que seja uma vida fácil, porque nunca é, mas definitivamente é muito melhor que o segundo grupo. Os ferrados costumam ser ilegais no país, ou foram em algum momento. Esses últimos possuem outra divisão: os negros, os do leste europeu, os sul americanos (os sudakas, essa terminação em “aka” é pejorativa aqui), os orientais (os chinos, não importa se são chineses, japoneses, vietnamitas… tem olho puxado é chino)  e os que se misturam à população por seu tipo físico. A última categoria tem um pouco de sorte, o resto, como denominei duramente, se ferram, comem muita grama até possuírem uma qualidade de vida razoável, quando conseguem.    

Ainda na categoria imigrante, há os marroquinos e os ciganos. Acho que são os que mais tem problemas, seguidos pelos negros africanos. Os ciganos, não sei se podemos considerar exatamente como imigrantes, mas assim são vistos. A verdade é que a cultura é muito diferente e há um choque horroroso para se acomodarem. Adicionando-se a isso o estado de pobreza, é muito comum se dedicarem a atividades ilegais, o que aumenta o preconceito, pois de uma maneira maluca acaba justificando a má fama. É um círculo vicioso.  

Os sudakas, mesmo não sendo tão bem tratados, de certa forma, não são mal vistos. É considerada uma imigração positiva, pois exerce as funções que o espanhol não quer fazer. Os brasileiros, apesar de serem sul americanos, são vistos meio que em separado das outras nacionalidades, talvez pelo idioma. As mulheres brasileiras, assim como as do leste europeu, levam fama de prostitutas, mas no resto não vejo ainda um preconceito grande. As músicas são muito bem recebidas, as pessoas são consideradas animadas e amáveis e amam os jogadores de futebol.  

Bom, também há os pobres espanhóis, que acabam se ferrando tanto quanto os imigrantes. Não é incomum observar depois de certa hora da noite, pessoas com boa aparência revirando as latas de lixo que ficam nas calçadas. Normalmente, são provenientes de algum pueblo (cidades pequenas do interior, povoados, vilarejos) e estão na capital tentando melhorar a vida.  

Há os turistas, que aqui, por seu volume, acredito possuírem também um status de classe social. São espanhóis ou estrangeiros e normalmente se concentram pelo centro da cidade. Quase nenhum turista gosta de assumir que é turista, pois isso costuma ser sinônimo de trouxa em qualquer lugar do mundo. O centro da cidade também é freqüentado por madrileños, mas que detestam admitir, pois afinal de contas, não são turistas e, mesmo que os lugares sejam bons, isso não soaria muito majo 

Ainda há os mayores (pessoas mais velhas). As mulheres sempre vestem saias, normalmente negras e na canela e os homens vestem terno. São muito conservadores e tem o costume de passear de braços dados pela rua, sempre nos mesmos lugares.  

Que tenha percebido até agora, esses são os principais grupos de gente que observo nas ruas madrileñas. Não tenho nenhuma base científica, é pura observação pessoal. Além do mais, dentro de cada tribo, sempre há gente boa ou não. Dou sorte em conhecer pessoas e costumo conhecer as legais. 

Assim como no Brasil, gosto de navegar por diferentes tribos, apesar de não me sentir parte de nenhuma delas e não é que não queira, é que não sei mesmo. Não gosto da idéia de rótulos, até a palavra já se desgastou. Mas entendo e acho importante observar as diferenças. Diferenças sempre vão existir e o poder costuma estar exatamente nelas. Acho importante reconhecê-las, mas mais importante ainda respeitá-las. 

Ainda dentro dessa temática de diferenças entre tribos, tive uma experiência bizarra quando mudei de vida profissional. Mantive meus amigos executivos e ganhei novos amigos artistas, boêmios, enfim, alternativos. Na minha opção pela mudança, me preparei para não ser compreendida por meus amigos “homens e mulheres de negócio”, mas a verdade é que isso nunca aconteceu. Todos estavam abertos e foram grandes incentivadores, talvez por serem meus amigos. Alguns podiam nem entender bem, mas aceitaram com curiosidade e boa vontade. Chamo isso de respeito. Por outro lado, sinto uma certa dificuldade em que meus amigos “alternativos” naveguem com facilidade em outros mundos. Claro que não estou falando de todos nem que sejam assim todo tempo, felizmente, mas sinto muitas vezes um preconceito maior e uma atitude defensiva em entenderem e desfrutarem outras formas de vida. Sinto constantemente um ar de deboche que não entendo bem se é sinal de visão ou de despeito, talvez um pouco dos dois. Acho triste imaginar cabeças que teoricamente tem por missão estar a frente dos tempos, tantas vezes estejam tão fechadas em seu próprio microcosmo. Minha esperança é o fato de ser comum precisarmos negar algo para entendê-lo com profundidade. Espero um dia chegar a certeza de que não somos tão diferentes e originais quanto pensávamos e conseguir aprender a simplificar a vida. 

Sinceramente, não sei o que sou. Acho que sou um pouco pija porque posso e aproveito os prazeres da vida, gosto de ser feliz, de ver gente bonita, de comer bem, de degustar vinhos e de vestir as roupas que me valorizam. Sou um pouco alternativa, porque de todos esses prazeres sei diferenciar os que gosto dos que preciso. Depois de mudar tanto, serei sempre imigrante, dentro ou fora do meu país e hoje posso também dizer que sou um pouco madrileña, porque aprendi a respeitar as diferenças dessa cidade e, assim mesmo, continuar apaixonada por ela. E cada dia fico mayor, não quero usar as saias negras longas, mas quero passear pela rua de braços dados. Claro que também possuo os defeitos, mas isso eu é que não vou apontar, muito menos classificar. 

…Oh, sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que não acredito mais em você… eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus, e não me importa, e não me importa não, oh, minha honey baby…

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