91 – A mudança de olhar

Há alguns anos atrás vi um filme francês que gostei muito, acho que se chamava “Uma Relação Pornográfica”, apesar de não haver absolutamente nada de pornográfico. Não pretendo contá-lo inteiro, mas apenas uma frase que me chamou atenção, o homem dizia em relação a sua parceira: “primeiro não vi nenhum defeito, depois vi seus defeitos e depois, novamente não os vi mais…” 

Nesse caso, estava sendo descrita uma relação amorosa, onde ele se apaixonou. Acho que o amor funciona assim, primeiro a gente está tão empolgado que não vê os problemas, depois, pouco a pouco, a gente vai aprofundando o conhecimento e também vendo as características negativas. E chega um momento, onde esses defeitos não importam mais, pois se tornam pequenos dentro de todo o contexto da relação. 

Mas nem é de relacionamento amoroso que gostaria de falar, é sobre olhar mesmo. Acredito que o funcionamento do nosso olhar é o mesmo para as coisas que nos cercam. 

Foi assim que meu olhar se comportou aqui em Madri. Primeiro não vi defeitos, gostei de tudo, até as desvantagens me pareciam divertidas. Depois vi os defeitos, alguns me incomodavam, outros nem tanto. Agora, sinto que estou muito próxima a não me surpreender mais. A dúvida nesse momento é se isso é amor ou acomodação pela cidade.  

Algumas pessoas, mais sábias que eu, conseguem viver em um mesmo lugar por toda sua vida e, no entanto, também conseguem ver as mesmas coisas de maneira diferente e se desenvolver com elas. Outras, são acomodadas mesmo, o que não deixa de ser uma opção. No meu caso, preciso da mudança. É meu estímulo para aprender. Mudar me dá um novo ângulo, um olhar fresco. Não preciso mudar de país a cada semana, não é a isso que me refiro. Mas necessito algum tipo de mudança, mesmo sabendo que há um preço por ela. Sempre há.  

Entretanto, qual o preço para se conhecer profundamente a alma humana? E que no fundo significa conhecer a nós mesmos,  a mim mesma. Qual o preço de chegarmos ao nosso limite? Qual o preço de se deixar um legado e como deixá-lo sem a experiência? E por que raios isso me importa tanto? 

Outro dia li um trecho interessante de um livro do Calvino, que dizia o seguinte: “…conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos…deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos… Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá”.* 

Acho que mudo para saber quem sou. O que gera um paradígma, pois ao mudar, sou outra pessoa novamente.  

Não me prendo aos sapatos, nem aos móveis, nem às casas, nem às cidades… Há muitos nomes para isso, alguns chamam de desapego, outros de irresponsabilidade ou loucura e sabe-se lá de mais o que; chamo de liberdade. Quando não tenho nada, posso tudo. E me doeu abrir meu coração e minhas mãos no início, mas só assim entendi que as pessoas e as coisas não são minhas, apenas passam pela minha vida e me dão a oportunidade de conhecê-las. Quando posso aprender com elas, agradeço, pois meu apredizado é meu patrimônio. Com o tempo estou aprendendo também a compartilhá-lo e quem sabe esse será meu legado ou minha pretensão. De qualquer maneira, já sei que nada ou quase nada que não se possa compartilhar serve. 

Sinto que tenho pouco tempo para admirar Madri com os olhos de novidade. Por um lado, não posso negar que isso me entristeça, mas, por outro, não quer dizer que não possa admirá-la, nem que será pior, simplesmente não será mais da mesma maneira. Talvez essa seja minha próxima mudança e meu próximo aprendizado.  

* do livro “As cidades invisíveis” de Italo Calvino

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