Semana Santa, que de santa não teve nada!

Respeito a crença de cada um, mas não sou religiosa. Para ser bastante sincera, gosto da Semana Santa simplesmente por ser feriado.

Na Espanha isso é coisa séria, saem umas procissões que  na minha opinião são bem assustadoras. O povo usa aqueles capuzes tipo ku klux klan, pagam penitência, se chicoteiam, andam descalços pela rua, levam santos pesadíssimos nas costas para lá e para cá… um festival de horrores! Não passo nem perto, mas gosto é gosto e fé é fé.

Enfim, nosso feriado começou na quarta-feira, quando fomos conhecer um lugar perto de casa chamado Olé Lola.  Achei bem legal, tem um ambiente charmoso, iluminação confortável, com drinks e comidinhas. Isso no Brasil pode ser lugar comum, mas aqui não. À noite, ou você sai para comer, em um restaurante, ou para beber, em um bar. A grande maioria dos bares, com raras exceções, não tem nada à noite que você possa beliscar, é basicamente bebida.

Portanto, chegamos, tomamos nossa garrafinha de vinho e beliscamos várias coisas para conhecer o cardápio. Acabou o vinho e fiquei olhando o bar. Falei com Luiz que queria rever o fato de não gostar de drinks. É que sou de bebidas puras, nunca gostei muito de misturar nada. Gosto de vinho, whisky e cachaça, pronto. Os drinks sempre me parecem doces e enjoativos demais. De qualquer maneira, não gosto de me limitar em sabores e resolvi que é hora de rever esse conceito. Luiz tomou a frente e tratou de me convencer que nem todos os drinks são doces. Foi conversar com o barman para escolher uma bebida para mim.

Só vejo o barman dar aquela olhadinha para meu lado, e claro que a primeira coisa que ele interpreta é que eu deveria gostar de alguma coisa levinha e docinha. Luiz explicou para ele, veja bem amigo, não! Ela toma whisky cowboy! Desafio lançado, ele comprou a briga, ok, deixa que preparo algo especial.

Não é que gostei? Mudei um pouco minha atitude em relação ao que esperar, mas não me decepcionei, nem era docinho nem levinho. Acho que chamava Good Old Days, ou algo do gênero, com sabores destacados de whisky e laranja. Depois me animei e quis provar algo com vodka negra, mas daí já não gostei tanto porque a própria vodka é um pouco doce, com sabor de ameixa. Enfim, novas portas abertas, agora é descobrir caminhos.

Chegamos em casa e não sei porque me pareceu uma excelente idéia me atracar compulsivamente a uma caixa de chocolates! Putz, para que? Além da culpa, isso me enjoou terrivelmente no dia seguinte pela manhã, quando a propósito, precisávamos acordar cedo.

Churrasco marcado para começar às 11 horas (Por que? Por que?) e fora de Madri. Levantei bravamente, com aquele gosto enjoado de chocolate na boca, além de que certamente a quantidade de álcool misturado não deve ter feito nada de bom ao meu organismo. As curvas do caminho então… afê!

Chegamos na casa dos nossos amigos e a primeira coisa que fiz, após cumprimentar as pessoas, desculpe o desabafo escatológico, foi dar uma vomitadinha básica e colocar para fora aquele absurdo de açucar! Pronto, minha vida mudou e fui uma pessoa muito mais feliz!

O dia foi uma delícia! Estava previsto uma quinta-feira de chuva, o que até aconteceu, mas também abriu um sol delicioso e não previsto que deu para queimar o musgo e levantar o astral. Somos um grupo de exagerados, então é lógico que havia comida para três festas, mas demos conta do recado. Levamos instrumentos de percussão e também aproveitamos para tocar e cantar um pouco.

Uma parte das pessoas ficou para dormir, nós voltamos com mais um casal e uma amiga. Foi nosso amigo que dirigiu, ele não bebe e assim Luiz podia ficar tranquilo e todos voltarmos em segurança. Bom, porque chovia a rodo!

A sexta-feira foi mais tranquila. Cheguei a ligar para alguns lugares para ver se estavam abertos para jantar e nada. Pensei em dar uma voltinha à noite, porque sempre se encontra algo. Luiz tratou de me enrolar com a irresistível proposta de acordarmos cedo no dia seguinte para fazer compras em um outlet de marcas. Foi golpe baixo, mas entubei, também queria ir lá.

Sábado, fizemos compritas e passamos um dia calmo, até receber um convite: 19:30 na casa de um casal de amigos. Nesse horário, marcado sem antecedência, só podia ser algo levinho, né? Se nós não fôssemos quem somos, claro! Porque logo o anfitrião colocou uma mesa de montar no meio da sala e ficou com pinta de boteco. O amigo músico puxou o violão, o outro a gaita, um cajón, um tamborim e um caxixi, confusão montada! Em que país a gente estava mesmo? Após colaborar com o consumo de quase três garrafas de cachaça, cerveja (não para mim, que não tomo), tacos mexicanos, calabresa acebolada, quibe e otras cosillas más, voltamos para casa nem sei que horas!

Um amigo que é câmara e estava na festa de boteco, nos convidou para assistir o jogo que ele ia filmar no dia seguinte. Achei o programa super diferente e daria uma ótima crônica assistir um jogo ali bem de pertinho, junto à imprensa. Infelizmente, se para eu acordar no domingo estava complicado, para Luiz estava impossível. Acordou passando mal, coisa rara de acontecer. Acho que o fígado dele devia estar pedindo arrego! Resultado, não fomos, ficou para uma próxima vez. O mais radical feito àquela noite foi tomar uma canjinha.

Na segunda-feira, acordei cheia de culpa. Aliás, “cheia” seria uma boa definição, estava era gorda mesmo! Depois de todos esses abusos, a balança se mexeu para o lado que não me agradava. Quer saber, vou começar a correr hoje!

Já havia um tempo ensaiando, mas sempre acontecia algo que logo virava uma desculpa e não ia. Na segunda, nem a chuva fraca me parou, it’s now or never! Fui. Só que primeiro, não sei correr, posso andar rápido como uma louca, mas quando corro perco o fôlego. Na verdade, acho que  não sei respirar direito. E depois desse feriadão, imagina, tinha a beleza, leveza e graça de um cruze de hipopótamo com albatroz. Tudo bem, tenho que começar de algum lugar. Fui alternando um pouco corrida e caminhada. Voltei com um pouco de dor no meu joelho mais fraco, mas satisfeita por ter feito alguma coisa para mudar. Hoje tem pilates, que estou adorando, só que não emagrece, é outra história. Então, vou tentar correr (ou andar muito rápido) nas segundas, quartas e sextas; e continuar com o pilates nas terças e quintas. Se conseguir fazer isso só essa semana, sei que nas próximas será mais fácil seguir. Coragem, Bianca, coragem! No pain, no gain!

Preciso me esforçar, porque desse jeito, como é que vou caber no vestido para a festa de casamento do William e da Kate? Íntima como sou da família real, não posso fazer feio…

Madri e sua noite incomparável

E a vida seguiu movimentada, principalmente, pelas noites madrileñas. Diga-se de passagem, apesar do planeta já saber, tenho lá minhas queixas em relação à Madri, como a qualquer outra cidade, mas a noite aqui é imbatível. Seja pelo prisma que você olhar, opções, preço, segurança, animação, qualidade da bebida (e quantidade também)… O único defeito era ser muito esfumaçada de cigarro, coisa que agora felizmente também já vem se corrigindo.

Outra coisa que é bastante comum por essas bandas, quando salimos de marcha, é não ficar em apenas um lugar. As casas tem horários de pico diferentes e a gente vai montando uma colcha de retalhos divertida pela madrugada do melhor local para aquele momento. E morando aqui no centro, com um bar ao lado de outro, é correr para o abraço!

Normalmente, saímos só nos fins de semana, Luiz acorda muito cedo para trabalhar. Mas a rua está cheia todos os dias e não é raro ele se deparar com o povo com cara de ressaca chegando, quando ele está saindo de paletó e gravata! Bizarro!

Prefiro muito mais sair com ele, assim que, mesmo não tendo a obrigação de acordar tão cedo, costumo seguir sua rotina, com algumas exceções. Uma delas na semana passada, foi aniversário do Kabocla, bar que frequentamos e, de qualquer maneira, Luiz tinha um jantar de trabalho e nem estaria em casa.

Pensei, conheço um monte de gente mesmo e não me incomodo em falar com estranhos, vou sozinha! Toda independente! Depois que falei que ia, confesso que me desanimou um pouco esse negócio de ir só, é chato, né? Mas estava decidida e na pior das hipóteses, se não me sentisse à vontade, voltava. Acabou que uma amiga me ligou dizendo que ia também, beleza! Nos vemos por lá. Por via das dúvidas, levei meu caxixi, vai que me deixam tocar… É engraçado, porque minha bolsa sai fazendo barulho de chocalho e parece que levo um guizo pela rua para não me perderem, mas tudo bem. Os instrumentos, ainda que não os domine, me funcionam como amigos. Também não domino meus amigos e não me importa, não é necessário. Talvez sejam amuletos, o fato é que me fazem companhia. Prefriro meu djembe, que é mais forte, se estou eu e meu tambor posso tudo, mas com meu caxixi estava bem acompanhada.

Não demorou muitos segundos até encontrar rostos conhecidos e em minutos estava à vontade. E quando a banda, amigos de sempre, me chamaram para acompanhar, me senti bem vinda e fui para o meu canto aprender. Acho um privilégio conhecer tanta gente legal e simplesmente relaxo, disfruto e toco o que estiver ao alcance.

Pelas três da matina, volto eu a pé, sozinha pela rua, me sentindo bem. Sem medo, sem culpa, livre. Isso não é o máximo? Deve haver luxos e drogas mais intensas, mas para mim liberdade é especial e para poucos.

Na sexta saímos juntos para um show de um amigo na Bogui Jazz, uma sala que ficou fechada muito tempo nem sei porque, mas que os músicos tem muito carinho, por algum motivo será.

Fui pela primeira vez e pretendo voltar. Preciso dizer que a acústica de modo geral nos lugares por essas bandas é bem ruim. Mesmo no El Junco, que amo pelo ambiente e pela seleção musical, deixa muito a desejar. Pois o Bogui Jazz tem seus méritos técnicos, o que já interpretei como respeito.

Depois veio um show impecável de um amigo, que adorei! Fomos bem iniciados na casa. O interessante é que o acaso nos favorece. Chegamos cedo, pegamos uma mesa pela lateral do palco. Daqui a pouco chega nosso amigo que vai tocar e nos apresenta uma amiga que iria dar uma palhinha e nos pergutou se nos incomodávamos se ela ficasse pela nossa mesa. Claro que não! Chegaram mais duas meninas e se juntaram, não tínhamos nem idéia que uma delas era filha do amigo que tocava e também daria uma palhinha. Resultado, ficamos na mesa dos músicos! Maravilha! Encontramos conhecidos e ainda fizemos amizade com o garçon, que descobrimos que era brasileiro! Resumo da ópera, amigos novos e mais um lugar muito legal para frequentar.

De quebra, um insight interessante, observando a percurssionista, me dei conta do que porque gosto tão mais de percussão. Porque conceitualmente, é como cozinhar você vai adicionando os temperos e é possível corrigir. Há mais de intuição do que matemática. Não é patisserie. Fiquei contente com essa descoberta.

Dia seguinte, não podíamos acordar muito tarde pois havíamos combinado um almoço. E era um filet à parmegiana, vamos combinar que o assunto era sério! Não é que estivesse bom, estava di-vi-no! Me atraquei com a carne coberta de mozzarela e um arrozinho criminoso! Na sequência, fomos para uma terraza papear e ver o tempo passar.

Quando chegamos em casa, Luiz se enfiou debaixo das cobertas para que não restasse dúvida em relação se sairíamos àquela noite! Nem me atrevi a falar nada e me enfiei nas cobertas também! E não foi nada mau!

Dupla personalidade… digo, cidadania

Cheguei em Madri no dia 6 de abril de 2005 e cravados seis anos depois consegui minha cidadania espanhola. Jurei a bandeira exatamente em 6 de abril de 2011. Nada a ver com o processo, foi a mais pura coincidência, que para ser mais curiosa ainda, cai justo no aniversário do meu irmão.

E assim, da noite para o dia, era tudo tão igual e ao mesmo tempo completamente diferente. Renasci. Exagero? Prometo que não, um dia você é uma pessoa e no outro acorda diferente, uma cidadã.

Essa gigantesca diferença está em um fator bastante simples chamado oportunidade. Ter uma oportunidade não te dá nenhuma garantia, mas te abre uma porta para poder realizar se realmente quiser. E isso faz toda a diferença do mundo, porque te faz livre.

Tenho a sorte de possuir vocação para a felicidade, mas confesso que nos últimos três anos, por uma série de fatores, ela tem sido muito mais uma opção do que um fator espontâneo. Porque muitas vezes ser feliz é uma escolha que você pode tomar ou não. Pois agora, estou feliz porque sim, nem precisei escolher ou fazer força. E não importa por quanto tempo dure, porque a vida é assim e nunca tive a ambição que essa sensação fosse eterna.

Simplesmente, me sinto livre. É possível que a gente mude ou se mude, ou talvez siga estando exatamente no mesmo lugar, tudo bem. Mas agora essa decisão é minha (nossa). E isso é muito bom, essa é a minha natureza, é onde sei quem sou.

Só tem um probleminha, como passei a ter dois aniversários, sou uma brasileira de escorpião e uma espanhola de áries, fala sério, combinaçãozinha dos infernos! Vou ficar insuportável!