E não é que a gente cantou mesmo?

Eu já me acabei de rir com o vídeo que passou pelo website do bar onde cantamos. Fizemos tanta propaganda e no final eu mal apareço no escuro e o microfone não pega a nossa voz, hilário! Mas garanto que a gente cantou mesmo e, apesar do nervoso nos travar um pouco, juro que não chegamos a atrapalhar o show.

 

Mas vamos por partes, passei um dia completamente improdutivo. Não conseguia sair do orkut, de farra com os outros integrantes do coral. Na verdade, estamos buscando um nome para o grupo, o que tem gerado mil mensagens engraçadas. Mas acho que era um pouco de desculpa também para aliviar a tensão da nossa estréia.

 

Quando digo nossa estréia, parece até que o show era nosso! O que acontece é que a cantora é uma profissional, que pode ter seus momentos de nervosismo também, mas pelo menos em tese, está habituada. Para a gente, era tudo novidade.

 

Chegamos super cedo no local, por um lado, para guardar lugar na frente e facilitar nossa entrada no palco. Mas na realidade, queria mesmo era chegar logo e ver o tamanho da encrenca. Não conhecia o bar e estar ali antes me fazia sentir mais familiarizada. Os primeiros a chegar eram todos conhecidos e isso amenizou bastante as coisas. Em pouco tempo, com toda sinceridade, fiquei bem à vontade.

 

Muito bem, quando todos do coral já estavam no local, precisávamos dar uma última repassada na música. Mas onde? Porque as pessoas que assistiriam ao show também já haviam começado a chegar. Não houve dúvida: todo mundo para o banheiro feminino! Acontece que o tal banheiro era mínimo, desses que só tem um lugar para suas necessidades básicas e um espacinho de nada para a pia. E ali nos concentramos umas 15 pessoas, entre homens e mulheres, com todas as piadinhas possíveis! Fechamos a porta e mandamos bala, na música, óbvio.

 

Eu não sei se foram meus ouvidos, mas acho que nunca cantamos tão bem antes. Todo mundo concentrado e afinadinho. Além do mais, a acústica do banheiro era ótima. Isso ajudou muito a dar confiança.

 

Então, tá né? Agora não tinha volta e o show iria começar. Nossa professora-cantora entrou e arrebentou. Uma voz super bonita, carismática, e cantando Cartola ficava até covardia. O local era bastante aconchegante, estava cheio, e talvez por estarmos sentados muito próximos ao palco, ficou intimista e agradável.

 

Achei que não fosse conseguir aproveitar o show por ficar ansiosa. Mas isso não aconteceu. Em alguns momentos até esqueci que cantaríamos. Fomos aconselhados a não tomar bebida alcoólica antes de cantar, regra que respeitei. Já Luiz se auto-entitulou dicípulo de Tim Maia e Vinícius de Moraes e mandou ver uma dose de whisky. Bom, comprei minha dose também, mas deixei na mesa para tomar depois de cantar, ou em comemoração ou para esquecer, isso decidiria de acordo com o resultado da nossa apresentação.

 

Pouco antes da nossa entrada, houve um momento muito bonito e espontâneo. Ela começou a cantar “As Rosas Não Falam” e pouco a pouco as pessoas foram engrossando um coro baixinho, mas presente. Arrepiou.

 

E finalmente, nossa hora de entrar. O palco era pequenininho e não cabia todo mundo, fomos nos arranjando do jeito que dava. Os meninos aparecem bem. Já as meninas, eu inclusive, aparecemos pouco. Um dos amigos ficou na frente da luz, obviamente não fez de propósito, acho que era onde ele cabia. Mas o fato é que as mocinhas ficaram no escuro. Para quem estava no local, acredito que não foi um problema, mas na filmagem, ficamos invisíveis. Se eu soubesse disso antes, talvez não tivesse ficado nervosa.

 

Porque eu até achei que não estava mais nervosa, não estava mesmo, mas na hora que subi no palco e olhei aquele monte de gente assistindo, a garganta secou! E para a voz sair? Não sei se era impressão, mas escutava a voz do coro baixa e nervosa também, quase sumindo, e só pensava que não dava para parar dali e era melhor cantar mal que desanimar. Chega um momento em que você só pensa na música e a coisa flui mais fácil. A garganta continuava seca e o fôlego foi acabando, agradeci não haver bebido antes.

 

Contando assim, parece que foi ruim, o que não é verdade. Apesar da ansiedade, era gostoso e divertido. Um nervosinho bom, vontade de acertar e melhorar. Sabíamos das nossas limitações, mas topamos o desafio e valeu a pena. Agora, naquela lista de coisas que precisamos fazer na vida, podemos dizer que cantamos em um bar. E quando nossa cantora-professora ficar muito famosa, poderemos falar com ar displicente: já cantei com ela…

 

 

 

 

Para quem quiser assistir o vídeo da nossa palhinha, segue o link. Estou meio escondida atrás da cantora e o Luiz está de camisa rosa na frente.

http://www.youtube.com/watch?v=MWyyz5AQiLo

 

<a href=”http://grupobalaio.blogspot.com/“>Cantoria</a>

 

<a href=”http://www.youtube.com/watch?v=MWyyz5AQiLo“>youtube</a>

A história das festas

Eu adoro festas e também fazer aniversário, logo, amo festas de aniversário!

 

Quando era pequena, achava um pouco estranho e tinha vergonha da hora do parabéns. Para ser sincera, até hoje me sinto um pouco constrangida nesse momento. Não sou tímida, mas não gosto de chamar atenção. Talvez, de uma maneira intuitiva, soubesse que toda festa é dos convidados e centralizar o protagonismo não fazia muito sentido. Criança, eu não queria festa de aniversário.

 

Fui felizmente adestrada muito cedo a comer bem. Desde que minha memória alcança, acompanhava meus pais a bons restaurantes e sempre comi como gente grande. Os meus preferidos tinham música ao vivo e gostava de sentar bem na frente para aplaudir os artistas. Pois bem, quando pude ter alguma opinião sobre o que queria de aniversário, pedia um jantar no meu restaurante favorito da época com minhas amigas mais próximas. Assim ficava feliz, ao redor de uma mesa, estava no meu elemento natural e na minha zona de conforto.

 

Quando estava para fazer 10 anos, achei que aquela idade era muito importante e que precisava ser celebrada. Era um ritual de passagem, ainda que não conhecesse com tanta propriedade o que significava esse conceito. De qualquer maneira, foi a primeira festa que pedi e tive. Eu gostei e consegui me divertir, não me sentia como uma noiva no centro das atenções. Na verdade, era praticamente outra convidada e esse foi o segredo para aproveitar uma festa que tive a sorte de descobrir jovem.

 

Na casa dos meus pais, sempre se recebeu muita gente. Cresci vendo comidas serem compradas, aromas dos alimentos sendo preparados, quantidades de bebidas, mesas desmontáveis de feltro verde para jogos, espetos de churrasco, guardanapos, toalhas de mesa, música e por aí vai. De maneira que, mesmo não sendo responsável por isso, para mim tudo parecia muito natural. Achava que toda casa era assim. A função de uma casa era morar, receber a família e os amigos, claro!

 

Aos poucos, fui notando que nem toda casa era assim, cada uma tinha sua própria dinâmica. Luiz por exemplo, nunca foi de dar festas. Para ele parecia algo complicado e trabalhoso. Além do clássico medo que inevitavelmente surge antes de qualquer festa, independente da sua experiência: será que as pessoas virão? Será que vai dar certo?

 

Bom, nos casamos relativamente cedo e fomos um dos primeiros casais do nosso grupo de amigos a ter a própria casa. Portanto, um ótimo local para nos reunirmos. Para completar, nessa época eu vivia na ponte aérea e ficava complicado para levar uma vida social, tinha pouco tempo disponível. O mais razoável, era fazer reuniões em casa mesmo, no sábado.

 

Confesso que nas primeiras Luiz ficava tenso, não se divertia. Mas isso não durou muito tempo. Ele logo conseguiu relaxar e disfrutar das festas. Até porque acabou se tornando o programa de sábado, a gente não precisava mais convidar ninguém nem se preocupar se as pessoas viriam, porque elas mesmas ligavam à tarde, perguntando se poderíam vir. Compras também não era um problema, porque a bebida e a comida chegavam junto com os convidados. Era divertido ver a geladeira e a dispensa encher e esvaziar na mesma noite. Época boa, onde reforçamos laços de amizade e conseguimos levar com boa energia um período que nos era difícil. Passei quase um ano, o primeiro de casada, trabalhando em São Paulo e só encontrava Luiz nos finais de semana, no nosso apartamento no Rio.

 

A vida é complexa e composta de muitas coisas para dizermos que um ou outro motivo isolado garantem determinada situação, mas posso assegurar que essas festas, ou em outras palavras, a presença dos amigos e o entrosamento do Luiz nessa maneira de viver, ajudaram e muito a fazer minha vida melhor. Festas ajudam a fazer de uma casa um lar e mostram aos seus amigos o quanto eles são especiais. Receber amigos junto com o Luiz, reforça nossa cumplicidade e é um dos momentos onde podemos ser um time. Quando ele não entra no espírito da festa, para mim é sempre mais triste, ainda que funcione. Felizmente, isso acontece pouco e dançamos nossa coreografia aperfeiçoada ao longo dos anos.

 

Voltando à história das festas, finalmente faria 30 anos! Na minha opinião era a melhor idade que uma mulher poderia ter! E depois de contar toda essa saga das festas, não é muito difícil prever que é lógico que precisava de uma de arromba! Foi em São Paulo, onde já tínhamos muitos amigos, e o legal é que minha família e os amigos do Rio foram também. Em casa tínhamos bem umas 15 pessoas hospedadas e deu tudo incrivelmente certo. Foi também a festa em que fiquei mais nervosa antes de começar, a primeira grande, umas 80 pessoas, onde eu tinha total responsabilidade. Até um DJ a gente contratou!

 

Modéstia às favas, foi um sucesso e deixou a vontade e a expectativa que viessem outras. Vieram. Maiores ou menores, de acordo com as nossas possibilidades e em diferentes cidades ou países. Sei que em novembro há festa em casa e no que depender de mim, sempre haverá. Entre erros e acertos, me importa celebrar o fato que ainda estou aqui e bem viva. Ter amigos para compartilhar esse momento pessoalmente, por telefone ou internet, é uma benção. E se for em uma festa, é correr literalmente para o abraço!

 

Esse ano não poderia ser diferente. Só realmente sinto não ter espaço suficiente para chamar todos os amigos e sinceramente sofro com essa escolha. Fazemos o que é possível e sempre convido mais gente do que cabe em casa. Daí no dia saio arrastando os móveis para os cantos e dando um jeito para que a coisa funcione.

 

Gosto de festas temáticas, ajudam a preparar o clima, a decoração e as comidas. Esse ano fiquei meio na dúvida que tema escolher. Sou um pouco subversiva, mesmo quando tão sutil que não se percebe, mas assim parece que é ainda melhor. A questão do preconceito com a imigração aqui na Espanha anda me enchendo a paciência… eu ando influenciada pelas culturas orientais… pois caiu como uma luva, fiz uma festa árabe. Admito que havia um grau de pirraça, mas achava que podia ser divertido.

 

O que acho legal é que nossos amigos são muito alto astral e embarcam mesmo na brincadeira. Veio de gente com traje legítimo a outros com pano de prato xadrez na cabeça! Foi muito engraçado! Nenhum vizinho reclamou da música, afinal de contas, quem é o louco que vai se meter com uma aparente célula da Al-Caeda?

 

Fiz quibe, salada de grão-de-bico, tabule, pepino com iogurt, salpicão de frango, beringela assada, queijinhos e pão árabe. Um amigo trouxe dois pudins, e um deles escondi na geladeira, porque afinal de contas, ele disse que era meu presente! A propósito, é claro que me cantaram parabéns com o pudim. Ainda fico sem graça, mas consigo me divertir e cantar também.

 

É verdade que algumas doses de whisky cowboy ajudam muito. Desde que vim morar em Madri, quase não bebo whisky, troquei por vinho. Mas era meu aniversário e queria mesmo meu copinho de shot com um belo whiskão!

 

Pela madrugada, nossa amiga cantora nos deu uma palhinha e nós, com aquela voz de “borrachos”, fomos tentando acompanhar entre uma gargalhada e outra. Uma das amigas, digamos, interpretava a alma da música.  Felizmente, ninguém gravou! Esse negócio de cantar em coral pode se tornar perigoso, porque agora eu acredito que canto!

 

A última convidada saiu às 6 da matina e fui dormir feliz com meus 38 anos.

 

A vida é curta e passa voando. Preciso de referências, de marcos em ciclos fechados ou iniciados, lembrar que algumas coisas faço certo. Minha maior ambição em uma festa é que cada uma das pessoas saia se sentindo especial e querida, sabendo que foi lembrada individualmente, especificamente, e que a ocasião não seria a mesma se não estivesse ali. Eu não seria a mesma se elas não estivessem ali. E isso é uma festa de aniversário.

A primeira cirurgia no exterior a gente nunca esquece

Ninguém gosta de hospital. Acho que nem médico gosta de hospital, a gente vai porque precisa. Acontece que passei minha infância frequentando hospitais e, mesmo não achando divertido, não tenho medo, nunca tive.

 

Assim que quando recebi a notícia que Luiz precisava operar, foi chato, me deu pena, mas encarei com naturalidade. Parecia simples e tinha total condição de cuidar dele, sou quase acompanhante hospitalar profissional.

 

Muito bem, eu achei que estava levando tudo com naturalidade, mas às vezes o corpo te avisa o que você não quer admitir. Minha boca, por exemplo, ficou toda ferida, era óbvio que devia estar nervosa.

 

A situação era diferente, não estava na minha zona de conforto. Estava em um país estrangeiro, com outro tipo de tratamento onde não conheço todos os códigos. E quando me vi sozinha com Luiz no quarto do hospital, sem a família por perto, foi foda!

 

Ter o apoio dos amigos foi fundamental, pelo menos a gente não se sente tão só. Mas na hora que buscaram ele no quarto e fiquei eu e a TV esperando o tempo passar, o buraco foi bem mais embaixo. Não tem como não pensar, e se acontece alguma coisa mais grave? O que faço? Por onde começo?

 

Chegamos ao hospital ao meio dia, Luiz foi preparado às 15:00 horas, mas só entrou para operar às 19:30. Nem sabia que alguém começava a operar a essa hora. Mas enfim, por volta das 22:30 o médico veio me encontrar no quarto para informar como foi a cirurgia.

 

Começou dizendo que foi mais complicado do que eles esperavam, o que me tirou o chão, como assim? Mas ele está bem, está acordado? Ele disse que sim, que subiria em breve, a cirurgia no ombro é que foi mais complicada. Médicos precisam tomar cuidado como começam suas frases. Recuperada do susto, tentei prestar atenção na explicação técnica que a essa altura me importava bem menos. Realmente, a operação foi mais complexa, ele precisará de mais tempo de recuperação, mas foi um sucesso.

 

Por volta das onze da noite chegou Luiz no quarto, ainda meio grogue da anestesia, mas lúcido. E roxo de fome, claro! Estava em jejum desde às nove da matina e só poderia comer e beber no dia seguinte.

 

A noite foi difícil para nós dois, mais para ele. Sentia muita dor, fome e não conseguia dormir. Ele não dormindo, também não dormi. No dia seguinte, logo que ele pôde tomar um suco de laranja, vim correndo em casa para ver como estava o Jack, que dormiu sozinho. O gato estava em uma carência só, mas estava bem. Voltei rápido para o hospital, a tempo de cruzar com o médico, que havia acabado de explicar ao Luiz toda a saga do ombro. Ele estaria liberado para voltar para casa à tarde.

 

O horário de saída não ficou muito claro, ninguém veio dizer para ele que já era hora de ir. E acho que ninguém diria se a gente não perguntasse. Fui eu mesma quem dei banho nele e nem perdemos tempo em ficar perguntando o que podia ou não podia. Enfim, por volta das seis da tarde estávamos em casa.

 

Chegar no nosso apartamento foi um alívio. Jack estava um pouco estressado, mas até à noite foi normalizando. Luiz ainda tinha bastante dor e nesse dia fomos deitar bem cedo, exaustos! Acho que estava meio descompensada.

 

A partir do fim de semana, tudo foi melhorando, a dor foi se acalmando, o humor foi voltando e as coisas foram tomando seu rumo. No sábado já começamos a receber visitas de amigos, o que deu uma animada na casa.

 

Em paralelo, surgiu a oportunidade de fazer uma exposição individual no dia 04 de dezembro, na Casa do Brasil. Na verdade, tudo começou com a apresentação de fim de ano do coral que participamos, que será nesse mesmo dia. Daí nossa professora-cantora perguntou se eu não toparia inaugurar também uma exposição nesse dia e achei muito legal. Por outro lado, como ficou meio em cima da hora, tenho trabalho pelas orelhas. Por sorte, meu atelier é em casa, estar um pouco internada foi até bom, me deixou bem produtiva, apesar de ocupada.

 

E assim se passou uma semana da operação e mal consegui sentar no computador para checar mensagens, que dirá para escrever. Agora as coisas estão mais tranquilas, Luiz está bem independente e meus trabalhos vão no prazo para a exposição.

Entre boas e más notícias

Temos recebido muitos amigos em casa. Luiz já pode sair, mas não estamos saindo muito, assim que os amigos mesmo ligam perguntando se podem passar por aqui e a coisa às vezes acaba virando quase uma festa.

 

Chegou de férias do Brasil uma amigona nossa, sempre saímos juntas e, quase em paralelo, também de visitas a Madri um casal de amigos que adoramos, moraram aqui por um ano e voltaram para o Rio. Enfim, esse casal ligou perguntando se podia passar aqui em casa, claro que sim. Chamamos também essa outra amiga e outros amigos que foram ligando.

 

Muito bem, por volta dàs quatro da tarde, começamos a tomar um vinhozinho, ou melhor ótimos vinhos, e a reunião foi crescendo. No fim da tarde, chegou um outro amigão que faz um super pudim e perguntou se não queríamos ir ao show do Armandinho. Sim, o Armandinho de Dodô e Osmar está em Madri. Topamos.

 

Pouco antes de sairmos para o show, chega uma correspondência registrada para mim. Achei estranho, mas assim que vi o envelope entendi do que se tratava. Há mais ou menos quatro meses, dei entrada no pedido de visto de trabalho, uma longa história. Enfim era a resposta. Abri o envelope brincando e dizendo que tinha mais um motivo para beber, para comemorar ou para esquecer. A verdade é que não tinha um bom presságio. A resposta foi negativa, me negaram o visto de trabalho e fiquei bem aborrecida. Luiz ainda leu em voz alta as piores partes o que me irritou um pouco mais. Fica todo mundo com aquela cara de nádegas, tentando te animar e eu com aquela vontade de xingar todos os palavrões que conheço. O que fazer? Amigos em casa, tudo certo para sair, segurei minha onda e prossegui com a noite.

 

Ali tomei uma decisão séria. Não tinha vontade de conversar sobre isso. Mais tarde, quando Luiz e eu chegássemos em casa ele saberia.

 

Fomos para o show, chegamos em cima da hora, mas ainda estava vazio. As coisas aqui sempre atrasam muito. Nosso amigo conseguiu uma mesa bem na frente do palco, para umas dez pessoas. Pedi uma dose de whisky cavalar, que se repetiu depois. Queria mesmo chutar o balde.

 

Nossa amiga cantora também foi e o mesmo baterista que tocou conosco no show do Cartola foi tocar com o Armandinho. Até me senti meio profissional e enturmada.

 

Resumo da ópera, um dos melhores shows que fui na vida, um privilégio! Ele é muito bom e arrebentou! Os outros músicos não ficavam atrás, mas a estrela era definitivamente o Armandinho.

 

Cheio de brasileiros na casa, na hora que tocou “vassourinha” foi impossível para qualquer mortal ficar sentado. Até trenzinho rolou! Uma farra! Fiquei com vontade de voltar no dia seguinte. Quando acabou o show, a casa abriu a pista e aproveitei para terminar de soltar a franga dançando. Conhecemos o próprio Armandinho e os outros músicos, todos muito simpáticos.

 

Voltamos para casa dividindo um taxi com mais dois amigos. Vim calada, ainda tínhamos um assunto pendente. Quando saltei sozinha com Luiz, disse o que ele já deveria desconfiar.

 

Só fico em Madri até o ano que vem. Não posso continuar assim, para mim chega. Ele me apoiou, como sempre, e isso ajuda muito. Ainda não sei o que fazer, não sei se quero voltar ao Brasil, há outras possibilidades, mas sei que aqui não quero mais. Cansei.

 

Desse fim de semana infernal, prefiro guardar a parte boa, o encontro com os amigos e o som da guitarra baiana do Armandinho. O resto está resolvido e é só uma questão de tempo.

Sin prisa, pero sin pausa

Vou fazer uma retrospectiva e entender como cheguei até essa situação absurda de estar há quatro anos sem um visto de trabalho.

 

Quando estávamos em São Paulo e Luiz recebeu a proposta para irmos morar nos EUA, eu gostei. Achei que era uma excelente oportunidade de ter uma experiência fora do país, buscávamos isso há algum tempo. Não tinha a menor idéia do que era a burrocracia de vistos e documentações, mas me parecia tudo relativamente simples e achei que tudo seria cuidado pelos advogados da empresa.

 

Com nossa mudança tratada e tudo acertado, descobri que não teria direito a trabalhar em Atlanta. E aí, o que fazer? Para mim parecia que o bonde já havia partido e era tarde demais para desistir, no fundo acreditava que no futuro daríamos um jeito. Além do mais, trabalhando como artista e autônoma, isso não poderia ser tão complicado.

 

Era sim tão complicado, era praticamente impossível. Para viabilizar essa possibilidade, ou conseguia um green card ou precisaria retornar ao Brasil e entrar com um novo e longo processo de visto. Não foi necessário, bem antes disso soubemos que não ficaríamos, viríamos para a Espanha. Fazer o que? Esperar um pouco mais que se resolveria.

 

Luiz, como sempre otimista, me afirmava ser muito mais simples para que eu tivesse meu visto de trabalho aqui. Ainda não o teria quando chegasse, mas depois de um ano, na primeira renovação, ele seria automático.

 

Não foi automático e entendi que estava no mesmo loop maluco de antes, mas tinha a sensação de que só eu achava isso. Acredito que de certa forma era difícil para ele aceitar a situação como ela era, se sentiria responsável pela minha insatisfação em ser meia pessoa. Então, sempre minimizava as dificuldades óbvias, às vezes comparando com seu caso, nem remotamente parecido ao meu, e onde quem cuidava do assunto eram advogados de uma multinacional. A responsabilidade nunca foi dele, eu aceitei essa vida porque quis, mas não seria para sempre. E ser tratada como uma pessimista que colocava dificuldades onde não existia não me ajudou em nada. As dificuldades existem e não estou nem estava exagerando. No máximo, estava me protegendo, porque algumas impossibilidades são muito frustrantes.

 

Muito bem, continuando o conto da carochinha, recebi a notícia que depois do segundo ano vivendo legalmente em Madri, a situação seria bem mais fácil, era só arranjar um emprego que meu visto seria garantido.

 

Veja bem, como arranjar um emprego razoável onde o empregador queira ficar esperando por um mínimo de três meses para sua papelada ficar pronta, sem garantias de ser aprovada. Aqui ninguém quer fazer nada diferente ou que pareça que dará mais cinco minutos de trabalho. Não é impossível, mas é bastante improvável e outra vez terrivelmente frustrante. E pior, nem queria um emprego fixo, queria ao menos a possibilidade de expor e vender legalmente meu trabalho em artes.

 

Muito bem, próximo plano, poderia tentar um visto como autônoma e montar uma empresa. Assim o fiz, há quase quatro meses. Apresentei toda documentação redondinha. Até uma carta de um potencial cliente para minha futura empresa o Luiz conseguiu. Mesmo assim, meu visto de trabalho acaba de ser negado. Para o governo, interessa mais que eu fique aqui parada do que pagando impostos. Esse é o brilhante pensamento ibérico que não enxerga um palmo adiante do nariz.

 

Nesse momento, que mais posso desejar a esse maravilhoso país? Pois que vão todos a tomar por sus culos españoles! Que continuem com sua cafonice dos anos 80, suas mesmas comidas de toda la vida, sua paupérrima e dramática música nasal, sua completa incapacidade de falar outro idioma, seu mau humor contagiante, seu péssimo atendimento e seu racismo de merda. Mas me incluam fora dessa província.

 

Tem gente legal? Claro que sim, em qualquer lugar do planeta se encontra gente legal. Mas hoje não estou com saco de ficar defendendo ninguém não.

 

Às vezes, a gente precisa de um ponto mais radical, um golpe de misericórdia para tomar uma decisão. No último ano por essas bandas tenho me decepcionado bastante e me questionado se é aqui meu lugar, se é aqui que quero que seja meu lugar. Não quero. Vai muito além do despeito, vai além da frustração ou da raiva. Simplesmente cansei e decidi que vou embora.

 

A cabeça ainda está quente, mas vai esfriar. Posso ser bastante calculista com uma decisão tomada. Não tenho pressa, não preciso sair correndo, mas é uma questão de tempo. Como se diz por aqui, e uma amiga me lembrou, sin prisa pero sin pausa. Agora é trabalhar os próximos passos.

Meu lugar

Então tá, né? Depois de surtar, ofender meio mundo e assustar os amigos, lembrei que quando a gente escreve tem uma responsabilidade. Às vezes me esqueço que tem gente que lê e na hora da raiva, novembro sempre borbulha mais alto nas veias. Muita calma nesse momento.

 

Cada passo a seu tempo e agora tenho um importante, não seria justo subestimá-lo.

 

Ontem comecei a montar minha exposição que inaugura semana que vem, isso tem o poder de me transformar da água para o vinho. E vinho pode não ser necessário, ms é muito melhor. Ainda gosto e ainda é meu território, mas só tenho certeza disso quando estou nele. Vai dar uma trabalheira do cão, que bom, é tudo que preciso.

A primeira exposição individual em Madri

Fim de ano é sempre corrido, mas esse último foi brincadeira! Novembro mexeu com meus nervos em todos os sentidos.

 

A ira me subiu a cabeça e soltei mesmo o verbo, às vezes a gente chega no limite. Não retiro o que disse, porque é verdade, mas não é inteligente generalizar e poderia ter feito com mais educação. Ou não, talvez tenha sido bom dar uma desabafada. Enfim, ainda há informações que preciso digerir melhor. O engraçado é que acho que nossa atitude acaba atraindo as coisas e sinceramente me preparei para receber o troco, a raiva faz a gente forte, ainda que emburreça um pouco. Aconteceu o contrário que esperei, só recebi gentileza, o que me fez lembrar que também passei por muita coisa boa e tenho muita sorte com as pessoas que cruzam meu caminho. Portanto, o melhor a fazer era esfriar as idéias e retomar o rumo correto.

 

Tinha uma exposição marcada, muita trabalheira, isso eu sei fazer. E queria fazer bem. Precisava de equilíbrio e de uma boa energia, porque só assim a mágica dá certo. É que de alguma maneira doida sei que posso me comunicar através dos trabalhos, mas fazia tanto tempo que estava me esquecendo desse idioma. De tanto esperar, e já não importa mais porque, talvez estivesse próxima a perder a coragem. O medo mata qualquer artista, mas ele ainda não me pegou dessa vez.

 

Aprendi a ser menos orgulhosa e aceitar ajuda. Essa exposição foi uma lição nesse sentido, desde o início. A propria idéia da exposição não foi minha, foi de uma amiga, e foi ela quem tomou a iniciativa de propor ao espaço cultural. Em um momento duvidei se realmente deveria fazê-la, pois em princípio não teria tempo para a montagem e seria muito rápida,  não queria fazer nada mais ou menos, quase desisti. Luiz insistiu e pensei que se ele estava acreditando, como eu poderia recusar. E nesse momento lembrei que ainda tenho coragem.

 

O prazo aumentou, tive o tempo de montagem necessário e os caminhos foram se abrindo pouco a pouco. Sozinha seria muito difícil dar conta de tudo, organizar, montar e divulgar uma exposição individual é um trabalho insano, muitos detalhes. Só que não estava sozinha, na verdade, nunca tanta gente se ofereceu para ajudar, e sem nem precisar pedir. Tive amigas e amigos carregando peso, pintando pilar, dirigindo o carro para levar as peças, fazendo convite, fotografando, divulgando e apoiando. Caramba, eu precisava fazer direito!

 

Além do mais, a noite não seria só minha, era também a apresentação do coral que faço parte. Uma das melhores coisas que me aconteceram esse ano! Amigos generosos e de bom astral, o grupo que sempre diz sim.

 

Foi trabalhoso, mas não foi difícil. Como andar de bicicleta, em algum lugar da memória está todo o cronograma. Eu me transformo, sempre sou uma pessoa melhor quando estou fazendo. Cinco minutos depois de começar a montagem, me esqueço do resto do mundo, de comer, de ir ao banheiro… I’m a woman in a mission. Chega a ser curioso, normalmente, tenho vertigem e mania de limpeza, mas no fim das contas me peguei feliz da vida esculpindo o ar por cima da escada suja, pendurada nas estruturas do altíssimo teto. Sabia que isso ia acontecer.

 

Muita gente acha que a melhor parte é a inauguração ou a criação, mas para mim não é. A delícia é esse trabalho operário de fazer acontecer. A criação é um sofrimento. A inauguração é o glamour e a atenção em tecer corretamente a rede de contatos.

 

Estive tão ocupada que nem deu muito tempo para ficar nervosa. Pelo menos até a véspera. No dia, com tudo montado, bateu o frio na barriga do “é hoje”! Acho que nunca vou conseguir fazer uma inauguração sem ficar nervosa. E nesse caso, era nervoso duplo, vernissage e cantoria. Inverno em Madri, eu de sandalinha e blusa fina, sentindo um calor danado, óbvio que estava com a adrenalina a mil!

 

Cheguei cedo ao local, queria checar com calma se estava tudo no lugar. Estava. Recuperei a confiança, de qualquer forma, já não tinha mais o que fazer. As pessoas começaram a chegar e com isso fui relaxando e desfrutando um pouco mais. Não dá para relaxar muito, porque também é um momento de trabalho. Seus amigos estão lá, mas não são os únicos.

 

Resumo da ópera, foram mais de cem pessoas e isso é muita coisa para uma inauguração de exposição, principalmente considerando que sou estrangeira. Lógico que o pessoal do coral trouxe bastante público e até nisso dei sorte. Fiz contatos interessantes que podem render frutos. Mas o mais importante é que tive a sensação de que as pessoas gostaram, entraram no espírito da coisa, se divertiram, viajaram e isso é muito realizador.

 

Quando respirei fundo mais tranquila, era hora de cantar. Pronto! Fiquei nervosa outra vez, mas agora menos, porque a responsabilidade estava dividida. Foi muito legal. Cheguei a conclusão que o palco não me assusta tanto quanto imaginava. E falando em palco, nossa maestra é muito carismática e é ali o seu lugar, na frente dos holofotes ela cresce e nos leva na mesma onda.

 

Quando dei por mim, estava me despedindo das pessoas e passou tudo em três minutos! Fiquei emocionada, mas não era lugar nem momento de chorar.

 

De lá saímos com uma amiga e outro casal para jantar. Minha noite precisava de um encerramento. Imagina se ia conseguir dormir, estava quicando!

 

Onde poderíamos ir? No Trifón, é lógico! Fechar com chave de ouro uma noite de diamantes. O que mais gosto de fazer, junto do Luiz, cercada de amigos e amigas especiais e ainda por cima cantando! O que mais poderia pedir?