5 – Começando pelo começo

Quando vemos o resultado de alguma coisa, sempre dá essa impressão que foi fácil chegar ali. Cada dia que passa, chego a conclusão que quanto mais fácil e natural pareça qualquer coisa, é porque mais trabalho deu! 

Realizar uma exposição é assim também. Nos bastidores o negócio pega fogo, além de ser um trabalho operário pesado. E, de repente, a gente inaugura. Todo mundo com cara de aristocrata inteligente, perfumado, um certo glamour. São situações muito diferentes e contrastantes, mas são partes da mesma coisa. 

Portanto, para contar essa última exposição, vou começar do real começo, desde quando recebi o convite, até o dia seguinte à inauguração. Porque depois disso, inicia outro processo mais diferente ainda. 

Muito bem, tenho um amigo artista brasileiro que conheci logo que cheguei em Madri, ele já vivia aqui há cerca de um ano. Foi o primeiro artista que conheci na cidade e ele também naquele momento não conhecia tantos, talvez por isso, acabamos por nos tornar amigos. Respeito muito seu trabalho e sua postura. Sempre que possível, cada um à sua maneira, tentamos dar uma força para que o outro tenha oportunidades, porque a vida funciona assim. Hoje, ele está muito bem posicionado e com contatos importantes, e merece, porque trabalhou duro para isso. 

Continuando, todo ano há uma feira chamada ARCO, que é o principal evento de arte contemporânea na Espanha. São galerias de todo mundo que se reunem em um grande pavilhão de exposições. A cada ano, um país é o convidado especial e agora em 2008, o Brasil é esse convidado. A feira acaba mobilizando muita gente para a cidade, e fevereiro ferve em atividades culturais, dentro e fora da ARCO.   

Pois então, fora da ARCO, mas nesse mesmo período e aproveitando a onda, há um espaço cultural que optou por fazer uma exposição com artistas brasileiros. Um espaço novo, mas muito bacana e que vem alcançando respeito rapidamente. Esse meu amigo artista foi convidado a fazer a curadoria dessa exposição, e acabou me chamando para ajudá-lo nessa função. Para ele seria muito trabalho em uma época corrida e lhe caía bem uma mãozinha, por outro lado, acho que ele queria também me dar uma força. Para mim, curadoria é algo que não me interessa, gosto mesmo é de expor obra, mas achei que não custava ajudá-lo e ao mesmo tempo, era realmente uma super oportunidade de divulgar meu nome e fazer contatos bastante interessantes nessa área. Assim que mais ou menos por setembro do ano passado, topei montar com ele a tal da exposição.  

Não vou contar a história desde setembro, porque nem tem tanta coisa para contar. Como sempre, acabou ficando tudo para última hora. A única coisa que tínhamos definido desde o início era a linha de condução dos trabalhos e os artistas que convidaríamos. Buscamos trabalhos que tratassem da relação com o espaço e o tempo. Ao longo da seleção desses trabalhos e artistas, acabou se fortalecendo a questão do espaço. 

Tudo muito bom, tudo muito bem, virou 2008 e nossos prazos foram se apertando. Começamos a ver como os trabalhos chegaríam para exposição, já que todos viriam do Brasil. Também existia a possibilidade de alguns artistas comparecerem ao evento. Isso não seria exatamente um problema se houvesse algum orçamento disponível, mas a verdade é que absolutamente todo mundo trabalhou literalmente por amor à arte. 

Alguns artistas tinham a possibilidade de conseguir patrocínio, e isso também gerou um esquema deles trazerem alguns trabalhos junto com eles. Não era uma má solução, entretanto, significava que as obras chegaríam justo em tempo de serem expostas. 

Dois ou três artistas optaram por enviar as obras pelo correio mesmo. O primeiro deles enviou uma série de placas para uma intervenção urbana. A entrega atrasou um pouquinho, mas como veio com antecedência, não era preocupante. Acontece que ele enviou 12 placas, a aduana espanhola abriu para fiscalizar e pelo visto gostou muito do que encontrou, pois se apoderou (maneira elegante de dizer roubou) de duas delas. Chegaram na minha casa apenas 10 placas. Então tá, né? Pelo menos, não comprometia tanto o resultado, com as dez a gente conseguia executar o trabalho.  

Só que ele também enviaria um vídeo, que acabou esquecendo de colocar no pacote. E esse sim, já estávamos meio justos de tempo. Em princípio, também não era um problema sério, ele enviou logo na sequência, por correspondência expressa. Deveria chegar em um prazo de dois dias. Levou quase duas semanas, porque o tal do vídeo foi parar até no Japão, literalmente! A montagem começou na segunda-feira, o vídeo chegou na sexta-feira anterior.  

Uma das fotos enviadas, que levaría dois ou três dias para chegar, também levou quase duas semanas. Chegou um pouco antes do vídeo. 

A gente a essa altura nem imaginava que eram problemas pequenos, perto do que nos aguardava. 

Uma amiga que escrevería um texto sobre a exposição e nos apoiaría em textos individuais por artista, caiu no fim de semana anterior e fraturou a rótula. Precisou ser internada e operada, e obviamente, não teve a menor condição de pensar nos tais textos.  

O computador do meu amigo artista curador pifou e ele não conseguia checar e-mails. Parece bobagem, mas considerando que basicamente todos os contatos que fazíamos com os artistas eram por internet, imagina o rolo! Depois de alguns dias ele conseguiu um emprestado ou algo assim. 

É pouco? Então, vamos complicar mais um pouquinho. Um dos artistas traría o trabalho dele e de mais outros três, ou seja, ele traría um terço da exposição. Dois dias antes de embarcar para Madri ele teve um surto fortíssimo, precisou ser internado e medicado. Além da preocupação com ele, que já foi o maior susto, como é que a gente faría com os trabalhos? 

Um minutinho, só uma pequena pausa para meditação: puta que paril! Cacete! Que merda a gente faz agora? Pooooorrraaa! Pronto, respirar fundo, passou.  

Felizmente, a sorte alternava de lado, e se por várias vezes nos colocou em uma situação difícil, por outra também colaborava. Um dos trabalhos foi enviado por correio para vir com outro artista, eles trabalham juntos muitas vezes, e dessa vez chegou no prazo certinho para embarcar com o outro para Madri. Dois artistas moravam na mesma cidade desse artista que surtou e foram na casa dele procurar os trabalhos que faltavam. O pequeno detalhe é que eles não se conhecíam pessoalmente ainda, e a mãe do artista teve a maior boa vontade de, no meio do seu sofrimento, deixar os dois literalmente revirarem o quarto do cidadão para tentar encontrar as obras.  

Foi quase tudo encontrado, exceto um CD, que me foi enviado em partes por e-mail. Santa internet! Claro que eu não tinha a menor idéia de como fazer que ele virasse um CD inteiro depois, mas Luiz me quebrou esse galho tecnológico. 

Os dois artistas que encontraram as obras, vieram para Madrid, cada um com uma parte dos trabalhos. Chegaram nas vésperas da inauguração. 

Mas lembra que um trabalho foi por correio para outro artista, né? Pois esse artista fez uma escala em Portugal, e quando chegou em Madri, a bagagem não veio! Ficou de ser entregue no dia seguinte, em seu hotel. Só que a gente também não sabia de nada disso, o que sabíamos era que o artista não desembarcou. Chegamos a pensar que ele havia ficado preso na imigração. Deixamos mensagens com nossos telefones, e esperamos ele aparecer. O dia seguinte era o dia da montagem e só descobrimos que o trabalho e ele haviam chegado, já dentro do espaço, conversando com o pessoal da galeria para iniciarmos a montagem. Parecia até coisa de filme, a gente com aquela cara de paisagem e o último trabalho chegando quase junto conosco. 

Falando em filme, ficou um detalhe para trás, voltamos um pouco a fita, quando entrei para trabalhar nessa exposição, era só como curadora e não como artista. Vou ser sincera, acho ser curadora um saco! Acontece que acredito que a gente tenha que aproveitar as oportunidades como elas chegam, porque é muito raro alguém fazer só o que gosta, o pacote vem com tudo junto. Muitas vezes me perguntei que raio estava fazendo nessa confusão? Eu nem quero ser curadora! Fiquei dividida me perguntando por que não era eu quem estava expondo? O que faltava fazer? Quando chegaria minha vez?  

Até que chegou um dia que percebi que estava com um pouco de má vontade com algo que era realmente uma oportunidade. Um amigo me chamou para isso, poderia ter chamado qualquer outra pessoa, mas me deu um voto de confiança por algum motivo. Pensei também no outro lado da história, eu poderia sim ser um daqueles artistas e, nesse caso, gostaria de que quem tratasse meu trabalho o fizesse com respeito. E essa empatia foi o que me moveu. Não sou altruísta, me esforcei porque quero crescer, mas se nesse processo puder trazer comigo ou pelo menos alavancar gente que merece, por que não? Se aceitei esse negócio, é para fazer direito. E fiz o melhor que pude. 

No dia em que tomei essa decisão, meu amigo artista e curador me perguntou, você não quer expor aquela sua peça negra aqui? Foi uma peça que apresentei na exposição de dezembro e ele gostou muito. O problema é que a essa altura eu já estava como curadora e ficava meio esquisito você ser curadora e expor ao mesmo tempo, fica parecendo que você escolheu seu próprio trabalho. Putz! Que dilema, perguntar a um artista se ele quer expor em um espaço legal é perguntar se macaco quer banana! Claro que eu quero! Simplesmente, nunca o colocaria na saia justa de me oferecer, mas ele me chamando é outra história. Bom, ficamos nesse põe-não-põe até os momentos finais. Assim, para dar bastante suspense, já que a gente quase não tinha pepino para resolver. 

E acabei expondo sim uma obra. Existe o mundo ideal e o possível. Outra vez, havia uma possibilidade e precisava tomar uma decisão, se foi a mais correta, o tempo dirá, mas é melhor assumir nossos próprios riscos que deixar passar uma oportunidade. Se é para me ferrar, que seja com o pé inteirinho na jaca! E vai que dá certo… 

Dentro desse clima de total relaxamento, iniciamos a montagem. 

Na segunda-feira, o espaço tinha uma jam session agendada para à noite, de maneira que podíamos adiantar algumas coisas, mas não dava para montar a parte de dentro da galeria. Tudo bem, deixamos todas as obras, discutimos melhor onde ficaria quem e fomos fazer a intervenção na rua. Um dos trabalhos, o das placas que foram roubadas, era feito na rua. Estávamos em quatro pessoas e a verdade é que foi bem divertido. Chegamos a precisar nos esconder da polícia umas duas vezes, mas gostei da confusão. 

A montagem dentro da galeria começou na terça-feira, véspera da abertura. Estávamos em cinco pessoas, o que em princípio acreditamos que facilitaria o trabalho. Acontece que só três montavam, eu incluída, e dois atrapalhavam.

Não era a intenção, mas quando você está correndo contra o tempo, pregando coisas na parede, tirando medidas etc, se alguém fica no seu ouvido falando e querendo atenção, por melhor que seja a conversa, atrapalha. Eu fico azuretada!  Não conseguimos terminar tudo na terça, como já imaginava, e o final da montagem ficou para o próprio dia da exposição. Sou caxias para burro! Não gosto desse negócio de improvisar, mas não tinha muito jeito. Uma das pessoas, que já não estava ajudando na montagem antes, resolveu ter um surto de ansiedade e a gerar tempestades em copos d’água. Deve ser porque a gente tinha pouco problema para resolver, né? Felizmente, no resto da tarde ficamos só os que estavam trabalhando. 

Bom, eu não podia me dar ao luxo de ter chiliques ou crises de carência, tinha muita coisa para fazer. Mas fiquei chateada porque apesar de todos os abacaxis, honestamente estava no maior bom astral e boa vontade. A parte que mais gosto é justamente desse processo de preparação da exposição, eu curto a montagem. E de repente, por besteiras perdi muito do gosto pela coisa. Paciência. 

O casal responsável pelo espaço não chegava! Por sorte, ficamos com a chave e fomos adiantando tudo o que era possível. Mas é que para completar a saga dos acontecimentos, a mãe do rapaz operou naquele dia de emergência e no caminho para a galeria, ainda bateram no carro deles. Cassilda, estávamos realmente cagados de arara! 

Saí do espaço depois das 19:00 e a inauguração era às 20:00hs. Fui voando em casa para, pelo menos, tomar um banho e voltar com a cara melhorzinha. Eu me atrasei um pouco e quando cheguei, alguns amigos já estavam lá. Aliás, foi a hora que respirei fundo e me senti querida, acolhida. Meus amigos estavam lá. 

E finalmente, como foi a inauguração? Na minha leitura, um sucesso! Foi bastante gente e algumas figuras importantes. E o principal, na minha opinião, está uma exposição forte e coerente. Os artistas são bons, os trabalhos são consistentes e ficou bem montada. Sei que já repercutiu no Brasil e isso também é um bom sinal. 

Problemas sempre existem, o importante é resolvê-los. Administramos a crise e não enlouquecemos no processo. Sobraram alguns arranhões, mas espero que sejam superficiais, pelo menos, são para mim. Se tudo na vida tem um preço, talvez estivéssemos pagando o nosso, agora quem sabe cheguem os resultados.  

Tudo bem quando acaba bem.  

4 – Pré-carnaval madrileño

Eu sempre adorei carnaval, mas já há tanto tempo que eles são frustrantes que fui perdendo o gosto. Tento me convencer que não vou mais ligar para isso, mas fica aquela coisa bem despeitada mesmo. Porque é só ouvir uma batucadazinha de nada que o coração vai junto. Não adianta, é mais forte que eu, amo carnaval e pronto! 

Muito bem, há um restaurante e bar brasileiro aqui chamado Kabocla. Nós sempre ouvimos falar muito de lá, mas admito que tinha uma certa implicância. Podia ser preconceito. 

Infelizmente, precisamos tomar cuidado quando escutamos sobre bares brasileiros aqui, porque tem essa tendência irritante em virar local de putas. Nada contra as mocinhas que querem trabalhar, mas sobra a fama para o resto da mulherada que acaba tendo que lidar com a questão sem nada a ver com o ofício. Eu não quero confusão e muito menos tenho paciência com gracinha, então não passamos nem perto. 

No caso do Kabocla, isso não acontece, pelo menos nunca ouvi falar nada a respeito e essas notícias sempre correm na comunidade de brasileiros. Uma vez fui com lá o Luiz, faz mais de dois anos, e não sei se porque chegamos cedo, achamos meio caído. Mas todo mundo falava tão bem que a gente ficou com aquela impressão de ter ido em um mal dia ou horário errado. Ficamos de voltar em algum momento, sem grandes compromissos. 

Com a proximidade do carnaval, o grupo do coral, que é sempre animadíssimo, começou a combinar de se encontrar ou de organizar alguma coisa. Chegamos a pensar em montar um bloco e fazer a percussão, mas somos muito iniciantes para toda essa ambição. No fim das contas, alguém sugeriu de se juntar ao tal do bloco do Kabocla, que sai todo ano. Por que não? Talvez fosse uma boa oportunidade de voltar ao local. 

Resumo da ópera, juntamos alguns amigos e fomos na sexta-feira passada para uma festa de pré-carnaval. Para variar, chegamos cedo, Luiz e eu costumamos estar sempre entre os primeiros a chegar nos lugares, mas tudo bem. A noite mesmo ainda não havia começado, tinha uma professora ensaiando coreografias com um grupo de pessoas, na maioria espanhóis, que se juntariam ao bloco. Para falar a verdade, parecia que ia virar meio roubada, não tinha cara que ia encher e tudo muito claro. Mas dessa vez, a gente resolveu que daria uma chance ao lugar e ficamos. 

Pois ainda bem que ficamos! A casa lotou, encontramos um monte de amigos e para completar, começou a tocar uma banda com um repertório ótimo! Soltamos a franga e nos acabamos de dançar. Saímos até um pouco cedo, porque tinha muita coisa para fazer no dia seguinte, mas ficou o gostinho de quero mais e uma impressão radicalmente melhor do Kabocla. É um local democrático, com todo tipo de gente, misturado como o Brasil, e ao mesmo tempo, muito família. Até onde entendi, a dona do negócio é uma mulher, que leva a casa na rédea curta, no que faz muito bem, está sempre presente e aberta a sugestões. E a propósito, fazem uma boa caipirinha, tem coxinha e pão de queijo. 

Havia muitos brasileiros, mas me surpreendeu a quantidade de espanhóis e outros estrangeiros tentando aprender a sambar. E olha que não estavam indo tão mal assim, o espanhol não é tão duro para dançar. Ainda que não tenham a mesma ginga, tem o quadril solto, não tem vergonha de rebolar e isso ajuda muito.  

Duas espanholas me pediram para ensiná-las a sambar, imagina isso? Pequeno detalhe, estava com meu dedinho do pé direito quebrado. Sim, fui pular carnaval com dedo quebrado. Jurei que ia pegar leve, mas quem é que aguenta ficar quieta com uma batucada no fundo? Muito bem, fui eu tentar ensiná-las alguma coisa, mas quem disse que sabia o que fazer?

A gente samba por instinto, já não lembro mais quando aprendi. Pedi ajuda a uma amiga brasileira, que me socorreu na função. As espanholas não se converteram exatamente em mulatas do Sargentelli, mas bem que eram animadas e simpáticas. Aliás, no nosso coral tem outras duas espanholas que botam para quebrar! E essas sabem sambar. A banda que tocava anunciou que voltaria no domingo. Nós gostamos muito do repertório deles, aquelas músicas que ficam na memória e a gente canta inteiras quase aos berros.  

É um pouco surreal essa quantidade de música brasileira, em pleno pré-carnaval, na Espanha. Dentro do bar está quente tropical, com amigos falando em português e tomando caipirinha. Quase um culto à identidade cultural. E, de repente, a gente sai e é inverno, no meio de Madri. Nessas situações eu sempre me sinto como se estivesse solta no tempo e no espaço, é uma sensação de total deslocamento. A gente muda de país ao atravessar uma porta, parece ficção científica. 

Cantando a gente lembra de lugares e de pessoas importantes para a gente. Dá vontade de sair ligando para todo mundo e falar a clássica frase do bêbado-gente-boa: putz, gosto de você pra caramba… Mas logo ao passar pela porta e sentir o vento frio no rosto, a gente lembra que está um pouco tarde para isso, nem estamos bêbados e nunca conseguiríamos transmitir esse sentimento em cinco minutos de ligação, e para pessoas que não estão sentindo a mesma coisa naquele momento. 

Senti saudades, mas não fiquei triste. Na verdade, voltei feliz para casa. E no domingo, Luiz e eu voltamos ao Kabocla para dançar junto, encontrar os amigos, falar português e cantar aos berros de novo. 

Juramos que ficaríamos só até às 22:00hs, todo mundo ocupado na segunda-feira, dia seguinte. E quem é que quis ir embora? Minha amiga até incorporou Alcione e mandou ver no microfone um “não deixe o samba morrer”. 

Da minha parte, espero que sempre exista uma Marrom que não deixe o samba acabar. 

3 – Serviço espanhol, esse mistério mercadológico

Ando fazendo as pazes com a cultura espanhola, mas às vezes também vejo defeitos. Hoje, por exemplo, estou com vontade de falar do serviço espanhol, o atendimento que recebemos nas lojas, restaurantes e comércio da cidade. 

Primeiro, serei justa, não é algo típico só daqui, é mais uma coisa européia. Apesar do que, a espanha seja especialmente primorosa em demonstrar esse mal atendimento ao cliente. Também não é algo xenofóbico, eles se tratam mal entre si da mesmíssima maneira. 

Na minha opinião, há dois fatores fundamentais que contribuem para esse fenômeno mercadológico: falta de necessidade e uma visão limitada. 

Muito bem o que seria a falta de necessidade? Simples, pelo lado do dono do negócio, não tem concorrência. E se há concorrência, na imensa maioria, é tão ruim quanto. E pelo lado do empregado, ainda que se reclame pelos índices de desemprego, a verdade é que isso na prática não é um problema. Um garçon que seja despedido, ou peça demissão, estará trabalhando na semana seguinte em algum outro lugar e pronto.  

A falta de visão tem a ver com o que costumo chamar de lógica ibérica. É verdade que está muito mais relacionada a uma maneira de pensar do que com inteligência, mas às vezes é absolutamente irritante. A interpretação das palavras é sempre literal, aquela coisa de você perguntar, sabe que horas são? E a pessoa te responder: sei. E, claro, não te dizer as horas, porque não foi isso que você perguntou. A parte que me parece especial é o fato deles se sentirem muito superiores a você nesse momento, porque óbvio que é você que não entende bem as coisas. Quem é o tonto que pergunta se eu sei as horas? Para que você quer saber isso? Porque esse esquisito não me pergunta que horas são? É assim que eles pensam. 

Essa lógica literal atrapalha muito quando você precisa pensar dois centímetros fora da caixa. Essa, por exemplo, é uma vantagem do brasileiro, aprendemos desde cedo a resolver problemas. Parte é uma questão de necessidade e parte é cultural mesmo. 

E pumba! Isso se reflete nos serviços. As pessoas não sabem resolver problemas muito básicos, se forem um pouquinho diferentes do que estejam acostumadas. Também não se esforçam para tentar resolver, nem tem interesse, porque entendem que é trabalho a mais sem retorno. E por um lado eles tem razão, porque é raro haver algum sistema de comissão sobre vendas por aqui. Os salários são sempre fixos. 

Salário fixo em qualquer coisa que envolva vendas é uma burrice! É ignorar a natureza humana. Achar que um garçon vai atender igual sem uma expectativa de gorjeta é uma piada. Imaginar que uma vendedora irá se esforçar o mesmo se seu pagamento depender de determinada venda ou não, é ridículo.  

E treinamento, então? Nem se fala! A maioria dos supostos profissionais são jogados no trabalho sem noção de como se atender ao cliente. Culpa do empregador. E quando há alguma tentativa de treinamento, a reação do empregado é enorme. Insiste sempre em sua zona de conforto, na famosa frase: mas aqui funciona assim! 

Por exemplo, uma grande churrascaria brasileira abriu as portas em Madri, a Rubayatt. Trouxe profissionais do Brasil, que fizeram um estágio na Argentina antes, para aprender o idioma. Mas claro, buscaram também contratar gente aqui na Espanha. Acostumados a manter um padrão de atendimento, no nível de exigência paulista, foram treinar esses novos funcionários espanhóis. Foi uma dificuldade imensa encontrar gente que conseguisse se integrar nessa cultura de bom atendimento ao cliente. Durante os treinamentos, o que mais se ouvia dos espanhóis era a frase: mas aqui é diferente, não funciona assim! Ou seja, o empregado queria ensinar ao dono do negócio como ele deveria funcionar, que ele não precisava ser tão eficiente assim, porque aqui as pessoas não exigiam tanto! 

Óbvio e felizmente, esses candidatos eram eliminados durante o próprio treinamento. A maioria dos funcionários da casa me parece ser de imigrantes legais, os únicos que conseguiram se adaptar ao ritmo e ao atendimento exigido. Por que eram mais inteligentes? Claro que não, porque precisavam mais. E a propósito, no primeiro ano de funcionamento foram eleitos o melhor restaurante estrangeiro em Madri. É grande e vive cheio, coisa que não é tão comum acontecer aqui em restaurantes que não sejam espanhóis.  

E é onde quero chegar, para mim é um mistério que ainda se  insista em trabalhar tão mal em um mundo tão competitivo! E ainda por cima, escuto idiotices dizendo que o serviço aqui era melhor antes, ficou ruim depois da imigração, porque os salários cairam muito. Francamente, o serviço aqui sempre foi uma bosta! Se houve algum movimento depois da entrada do serviço dos imigrantes foi para melhor. Aumentou a competição e a exigência. Só fez a vida dos acomodados mais difícil. Que se danem! Quero ser melhor atendida! E o espanhol que é bem atendido também começa a se acostumar com isso. 

Pela primeira vez, desde que moro aqui, fui a um restaurante espanhol onde havia uma garçonete sendo bem treinada, no El Rincón de Jaén. Não tem milagre! Tanto eu como Luiz já havíamos elogiado o bom atendimento ali antes. A gente nota a diferença de cara. É uma taberna absolutamente informal e tipicamente espanhola, mais espanhola impossível! E não houve uma vez em que não fôssemos bem recebidos e atendidos. Resultado, casa lotada todos os dias! Eu duvido que os clientes espanhóis que estejam frequentando esse lugar, queiram se submeter a um atendimento ruim em outra taberna.  

Do El Fogón de Trifón então, já nem falo mais, porque para mim é um dos exemplos de sucesso de excelente atendimento ao cliente. Outra vez, absolutamente espanhol. Também sempre lotado! Não tenho um amigo que leve e não fique totalmente satisfeito. A gente sai do restaurante mais feliz! Não passo uma semana inteira sem ir até lá e não é um lugar nada barato, só que compensa. Certamente a comida é o carro-chefe, mas não há sombra de dúvida que o que faz o lugar especial é o serviço. 

Ou seja, realmente acredito que exista um movimento de melhoria geral nos serviços, mas ainda é muito básico e na minha opinião, está atrasado. Conto no dedo os lugares que recomendo de olhos fechados e tenho prazer em voltar. E quando isso acontece, está sempre vinculado a um determinado dono que não tenha uma visão de mercado tão limitada, mas ainda não é um conceito disseminado. Quantas vezes você vê empresários gastando os tubos para abrir um negócio, mas “esquece” de investir em treinamento dos funcionários, bota gente despreparada na frente de grandes apostas. 

Às vezes, vejo tentativas de entrar em um padrão mais alto de negócio, mas pecam em detalhes que não sei se dá mais vontade de rir ou de chorar. Outro exemplo, encontramos uma loja de queijos, a Poncelet, que no primeiro momento, achei sensacional! Um atendimento simpático, olha aí, já havia uma melhora; queijos de vários lugares do mundo e não só da Espanha, outra coisa que demonstrava uma visão mais global; promoção de degustações etc. E um aspecto fantástico que me chamou a atenção, a higiene, os funcionários cortavam os queijos com luvas! Putz! Até que enfim alguém lembrou que é nojento pegar com seus dedões, que ninguém sabe onde esteve antes, um produto alimentar sem embalagem. E sim, aqui isso é uma coisa normal, ou você acha que alguém põe luvas para cortar um jamón ou pegar um pão? Continuando, tudo muito bom, tudo muito bem, até que também percebi que a luva não era tirada nem trocada. Com a mesma luvinha que o atendente cortava o queijo, ele pegava o dinheiro para dar seu troco, caminhava pela loja, provavelmente também ia ao banheiro… Resumindo, a luva protegia a mão dele do cheiro do queijo e não ao contrário! Sabe o que é isso? Falha em treinamento, porque a boa intenção existia. Mas já diz o ditado, que de boas intenções o inferno está cheio. Uma pena, porque dei as costas e não comprei mais lá. 

E nem comecei a falar do atendimento nas lojas de roupas! Esse então, é de matar! Isso quando as vendedoras fazem o favor de te atender, porque claro, é um favor, né? Outra vez, para mim é inacreditável, e o pior é que costuma haver filas nos provadores e para pagar. O povo compra assim mesmo! Eu tendo a comprar minhas  roupas quando viajo, as lojas aqui me desanimam. E caraca, uma mulher desanimar em fazer compras! Pode apostar que algo está estranho. 

Enfim, ainda sou otimista que as coisas melhorem, acho que é uma tendência mundial inevitável, mas bem que gostaria que esse processo fosse mais acelerado. De certa forma, também tento me adaptar culturalmente e manter a expectativa de atendimento dentro do esperado. A única coisa que  não tolero de maneira nenhuma é falta de educação. Ser educado, com qualquer pessoa, é obrigação de todos. Isso nem discuto. 

Aliás, esse é um conselho que dou a todos meus visitantes, não esperem uma gentileza extrema nem grandes cortesias, mas não tolere falta de educação. Não aceite como normal. Se te derem uma resposta atravessada, reaja, no idioma que souber. Num instantinho eles voltam atrás e baixam a guarda. Infelizmente, não vão resolver seu problema do mesmo jeito, mas pelo menos você não volta tão frustrada para casa. E não compre, não gaste mais seu dinheiro ali. 

O principal, há um formulário de reclamações obrigatório nas lojas, chamado “hoja de reclamaciones”. Te atenderam mal? Ficou insatisfeito? Peça na hora uma “hoja de reclamaciones” e registre o problema. 

E se foi bem atendido, por que não elogiar? Por que não uma gorjeta? Ou que tal um sorriso? Acredito que gentileza gera gentileza e não custa nada também fazer nossa parte.  

2 – Um dia de privamera no meio do inverno

Gosto de metáforas e de analogias. Para mim, é comum aprender comparando situações ou histórias. Não no sentido da comparação entre o que seja melhor ou pior, mas por suas semelhanças. Acredito que uma experiência só sirva se você puder usar esse aprendizado também em outro momento. 

Hoje em dia, até a mudança da temperatura em determinado contexto, me faz pensar, me deixa atenta aos sinais. Ontem, em Madri foi um dia assim, 17 graus e um sol maravilhoso, bem no coração do inverno. Totalmente fora do lugar, mas um alívio, uma recarga de energias. 

A gente ainda sai de casaco, claro, afinal é inverno e a temperatura pode cair a qualquer momento. Mas me pareceu curioso que,  a medida que a temperatura se elevava, quase ninguém tirasse suas jaquetas ou desamarrasse seus cachecóis. Às vezes, as pessoas não acreditam em suas próprias sensações físicas. Elas não podem estar com calor, é inverno. 

Não sei se mais alguém percebeu, mas no início desse ano se abriu uma onda de oportunidades. Como se o tempo parasse e abrisse uma fresta para quem quiser embarcar para uma próxima fase, ou consolidar a que está. Pode ser apenas porque é início de ano, mas tive a sensação que vários amigos, com os quais estou em sintonia, estão passando por um período de decisão por alguma mudança. Sinto que é um ano de apostas e resultados, ando prontinha para saltar no cavalo selado. 

Ontem foi um dia bom e estranho. Essa semana fomos visitados por um casal de amigos holandeses. Profissionalmente, ambos são contatos bastante importantes na área de negócios. Mas a sinergia não caminha em mão única, e por gostarmos deles como pessoas e da sua companhia, tornaram-se amigos. Muito bem, o marido veio trabalhar um dia em Madri, e a esposa veio acompanhando, porque queria nos encontrar. Saímos para jantar e, como sempre, foi extremamente agradável.  

No dia seguinte, ele trabalharia e ela daria uma volta pela cidade até a hora do vôo de volta à Amsterdam. Passei por um certo dilema, porque tinha um monte de coisas para fazer, estava realmente ocupada. Mas ao mesmo tempo, não queria deixá-la sozinha, porque afinal de contas eles vieram nos ver, ela não fala espanhol e ninguém aqui fala inglês. E apesar de não gostar de admitir isso, também não quero perder totalmente a ligação com o mundo de negócios, eu posso precisar dele. Ainda que a gente converse de assuntos totalmente diferentes, ela é uma pessoa que admiro e de certa forma é um vínculo que ainda reluto a perder. 

Pois resolvi acordar mais cedo e dar um jeito de fazer caber tudo no meu dia. Mas antes de sair de casa para encontrá-la, chequei os e-mails para ver se havia alguma emergência. Havia. Uma outra amiga brasileira me pedia um currículo urgente! Para uma empresa que intermedia eventos artísticos, governo e empresas. O ideal seria marcar uma entrevista o mais rápido possível. 

Caramba! Mas minha amiga holandesa já estava me esperando naquele minuto e agora? 

Pensei o seguinte, ainda que a tal empresa que me pedia o currículo urgente estivesse interessada, não posso trabalhar oficialmente a curto prazo. Além do mais tinha um compromisso agendado, que também me interessava. Respondi rápido à amiga brasileira que não tinha como enviar naquele momento, mas falava com ela mais para o fim da tarde do mesmo dia. 

Saí correndo para encontrar a amiga holandesa, estava em cima da hora, até um pouco atrasada. Enfim, passamos a manhã passeando e conversando, e não me arrependi dessa decisão. Fui deixá-la no ponto de encontro com seu marido, para de lá eles seguirem para o aeroporto e eu para casa. Minha cabeça já estava voltada para resolver a questão do tal currículo que tinha que enviar. 

Muito bem, no taxi, ainda com a amiga holandesa, toca o celular. Era uma outra amiga brasileira, casada com um amigo espanhol. O marido dela conseguiria um convite para que eu entrasse na “Madrid Fusion”, mas precisava ser naquela mesma tarde. Basicamente algo assim, dá para você ir, mas é agora! 

Explicando melhor, um dos caminhos que venho pensando em seguir esse ano é o da gastronomia. Esse meu amigo espanhol trabalha no ramo e tem me orientado sobre possibilidades, cursos, pessoas etc. A Madrid Fusion é uma feira de gastronomia voltada para profissionais da área. Só vai o topo do topo, super chefs, donos de restaurantes, fornecedores, enfim, gente grande que atua nesse mercado. Conseguir um convite não é tão fácil, e perder a chance de ir em um evento assim, nem se fala! 

Cassilda! Tanta coisa interessante e eu não conseguindo dar conta! 

Despedi dos amigos holandeses e tomei o caminho de casa. A idéia era ligar para a amiga brasileira para entender melhor como eu encontrava o marido dela e tal. Lei de Murphy, o telefone me avisava que estava praticamente sem crédito!  

Putz! Enviei então uma mensagem, avisando que ia para casa, ligava para ela de lá e se ela pudesse já enviar o telefone do seu marido, eu também já ligava direto para ele para ver se ainda dava tempo da gente se encontrar.  

E tinha planos ingênuos de conseguir enviar o currículo para a outra amiga antes disso. 

Andando para casa, meio como barata tonta, de repente percebi que estava bem no meio de uma encruzilhada de decisões. Quase me queixei, mas me parecia absurdo, porque todas eram oportunidades interessantes. Talvez pudesse ser um bom momento para sentir e decidir o quero mais, o que gosto mais. Decidir entre opções é muito melhor do que decidir pela falta delas. Mesmo assim ainda é difícil. 

Por um lado eu tinha o contato no mundo de negócios. Um mundo onde ainda sei navegar, mas que não me traz realização. Traria dinheiro, e não é isso que no fundo a gente busca com várias caras? As pessoas são legais, os ambientes frequentados são fantásticos, a proximidade do poder é sedutora, mas por algum motivo, não tenho vontade de voltar. Mas também não consigo simplesmente deixar de vez. 

Depois havia a opção da empresa de eventos, que talvez seja o meio termo entre o lado artístico e o de negócios. Da mesma maneira, sei como navegar. Mas me pergunto se as concessões que faria não me trariam a um mundo muito próximo ao da consultoria, só que ganhando menos. Ao mesmo tempo, poderia viabilizar algum salário e não estar tão desvinculada a artes. O problema é que normalmente o “meio termo”, também pode se parecer muito à metade, ao mais ou menos, e isso me preocupa. 

Em paralelo, as outras coisas que já tinha para fazer e empurrei um pouco com a barriga, pelo dia cheio. Sou curadora, junto com outro amigos artista, para uma exposição que acontecerá agora em fevereiro. Um trabalho do cão, totalmente vinculado a artes, mas sem nenhuma possibilidade financeira. E vamos ser francos, como artista eu nunca vou me sustentar no padrão que estou acostumada, é incompatível. É uma carreira que não quero deixar, mas está mais do que claro que não pode ser a única. 

Não esquecendo desse universo da escrita, que se abriu para mim e hoje é mais do que uma realização, é um vício. Tive meu primeiro trabalho pago como escritora, a biografia de uma amiga. Acho que posso ampliar esse aspecto, mas me faltam contatos, por onde ir, e novamente é muito mais uma possibilidade de prazer e realização do que financeira. De toda maneira, também não poderia ser uma única carreira. 

E de repente uma coisa nova, o mundo da gastronomia. Um setor que escutei por anos que deveria investir meu tempo e habilidades. Não era o momento e não teria cacife para entrar antes mesmo, sempre foi algo que ficou meio de lado me rondando. Só que agora talvez seja o momento e pode dar certo. É compatível com uma carreira artística e pode dar dinheiro, se os passos forem corretos. Entretanto, o tempo e o risco de investimento são altos. E, outra vez, estaria recomeçando, tudo de novo. 

Não consegui decidir o que queria mais, acho que quero tudo. Encontrei minha amiga holandesa, corri para o Madrid Fusion, enviei o currículo para a empresa de eventos, sentei rápido para escrever as crônicas e fui resolver unas cosillas dos artistas da exposição. Daqui a pouco vou ao Madrid Fusion outra vez e de lá sigo para o coral. 

Talvez em algum momento eu precise escolher entre tudo isso, mas hoje, não. Se até o inverno pode ser primavera de vez em quando…

1 – O caminho mais curto ao paraíso pode passar pelo inferno

Meu primeiro ataque de cólera sério com o mundo foi logo após terminar a faculdade, pelo menos que me lembre. Não que fosse exatamente calminha, mas não sou de me queixar da vida. Às vezes, saio praguejando um pouco, entretanto, estou falando daqueles chiliques mesmo, que você toca o fundo do poço e por alguns momentos tem vontade de não subir. 

Pois o meu primeiro foi no fim da faculdade, parecia haver uma nuvenzinha negra na minha cabeça. Nos meus planos, a essa altura eu já deveria estar morando sozinha e me sustentando, isso era muito importante para mim. Acontece que, por ter mudado de faculdade logo no início do curso, meus créditos ficaram uma bagunça e no último semestre, precisei fazer apenas três matérias, sendo uma pela manhã, uma à tarde e outra à noite, parecia uma piada de mal gosto. Assim que precisei deixar o trabalho, pois não me sobrou nem um período livre. A outra opção era adiar minha formatura por mais um ano, optei pela formação. 

Nesse mesmo ano, participei do famoso programa de trainee de uma indústria de bebidas, era mais difícil que vestibular, coisa de 400 bons candidatos para 20 vagas. Fui até a última entrevista, que foi fatalmente marcada para o mesmo dia em que recebi antes a notícia da morte da minha avó. Não sei se em outras condições teria conseguido entrar na empresa, mas certamente não fui capaz de ir tão bem na última etapa. Meus nervos estavam à flor da pele, e em um momento onde se contam os detalhes, isso não ajudou.  

Aliás, também nesse mesmo ano, alguns meses antes, também morreu minha outra avó, as duas se foram quase juntas e houve um período de luto forte em casa. Completando o drama mexicano, namorava um dependente químico, que acreditava que eu era a salvação da sua vida, e eu, parte por inexperiência e parte por vaidade, acreditei. Um inferno! 

O chute no pau da barraca foi logo após a formatura, quando fui recusada em um emprego porque estava super estimada para o cargo. Como assim? Eu recebi um não porque era melhor do que eles queriam? Eles estavam certíssimos, mas não podia enxergar isso naquele momento e foi a gota d’água para minha explosão.  

Eu me rebelei contra o mundo! Estava fazendo tudo certo, tudo que seria importante para o meu futuro, tudo que escutei a vida inteira que me garantiria o sucesso, sinceramente estava tentando fazer o bem e fazer direito. E a mensagem que recebia era que não adiantava, parecia que estava patinando no mesmo lugar. 

Na virada do ano, rompi com tudo e literalmente fugi do Rio de Janeiro. Meus pais adoraram, para eles estava rompendo com o namorado que ninguém gostava, ainda que não soubessem da missa a metade, mas acredito que havia o instinto de que ali havia algo errado. Para mim era muito mais que isso, era uma maneira de ir embora, de deixar para trás um ano de merda que achei que poderia ser minha vida. 

Fui para Cabo Frio com uma amiga e ali conheci outras, fomos juntas para Búzios no reveillon, no mesmo dia. Foi amizade instantânea. Com uma delas, que vivia uma situação muito parecida à minha, a empatia foi imediata e nos tornamos grandes amigas. Tomei um porre histórico, daqueles de roubar bebida de macumba! Chorei o que podia e não podia. Paguei mico e não me importou. Lavei a alma e desinfetei com álcool. Nessa época, por algum motivo inexplicável, quando bebia começava a falar francês. 

Por outra coincidência impressionante, no meio daquela muvuca, encontramos meu irmão, junto com os irmãos da amiga que foi comigo para Cabo Frio. Considerando que era reveillon, à noite, na praia, e com uma multidão em volta, foi um tanto bizarro, mas divertido. Voltamos juntos para casa. 

No dia seguinte, tinha ressaca, é óbvio, mas me sentia bem. O fato do ano ter mudado me trouxe uma dose de otimismo. Talvez mais do que otimismo, me trouxe a vontade de mudar também. Era como se tivesse ganho fôlego para nadar mais um pouco, mas ainda não sabia para que lado. Tinha algumas escolhas importantes a fazer. 

Alguns dias depois seria minha festa de formatura, no Rio de Janeiro. Meus pais haviam pago pela festa e eu deveria voltar. Eu não voltei, me recusei a participar. Para mim era um símbolo de fracasso, de um esforço inútil, com pessoas que nem eram minhas amigas.  

Eu parei o tempo e me perguntei seriamente se tudo aquilo fazia algum sentido, se a vida valia a pena. No fundo, o que me questionava era se o esforço em seguir o caminho do bem e fazer as coisas consideradas corretas, me levaria a algum lugar. Não gosto de admitir, mas estive em dúvida entre o bem e o mal. 

Era possível que houvesse um caminho mais rápido e mais fácil, e por muito pouco acho que não optei pelo lado negro da força. Decidi que não voltaria para o Rio, ia ficar por ali, aproveitando a praia e sem planos. Enterrar a cabeça de avestruz na areia me parecia uma escolha tentadora e confortável. Eu poderia ter escolhido esse caminho, a grande amiga que conheci no reveillon escolheu e seu fim foi triste. Mas hoje estou falando do meu umbigo. 

Não demorou tanto assim e recebi uma ligação dos meus pais. Uma empresa multinacional estava me procurando para uma entrevista. O engraçado é que era um lugar para onde não havia enviado nenhum dos meus 939 currículos. Eu podia ser um pouco rebelde, mas não era idiota e resolvi tentar mais uma vez. Talvez tenha sorte, talvez seja protegida, mas talvez, e preciso acreditar nisso, minha natureza seja boa. Voltei para casa. 

A empresa era de embalagens de alumínio para bebidas, ou seja, ainda que nunca tivesse provas porque é informação confidencial, tudo indica que foi alguém da tal empresa onde perdi a vaga de trainee que me recomendou para lá. Fui contratada em seguida, com um ótimo salário para a minha idade e experiência. De uma certa maneira, voltava para os trilhos. E a propósito, foi lá que conheci Luiz. 

Há poucos meses nessa empresa, recebi outra ligação. Um banco estava premiando os primeiros colocados da faculdade. Foi quando descobri que havia sido a primeira colocada do curso, eu não sabia, afinal de contas, nem fui à minha formatura. Com o dinheiro do prêmio, paguei minha pós-graduação. Achei que era o melhor a fazer, reinvestir e acreditar novamente que o esforço compensaria. 

Às vezes, algum acontecimento faz com que várias pontas se unam e eu consiga entender que um ciclo foi fechado. Esse foi um deles. Para mim foi um tapa de luva, como se de repente uma voz me respondesse com outra pergunta, você não queria saber se seu esforço seria reconhecido? Se valia a pena? Valia. 

O mesmo mundo que praguejei conspirava a meu favor e eu não percebi, porque tomei como base um momento que ainda não era o fim. De perto, não vi a imagem em perspectiva e quase tomo o caminho equivocado. Eu nunca fui muito paciente. Fiquei com a história e a lição, sem saber que sensação se repetiria no futuro. 

No fim do ano passado, também toquei o fundo do poço e perdi a paciência outra vez. O lamentável sentimento de vítima impotente. Por que me aborreci tanto? E de novo a mesma pergunta, será que vale a pena?  

Eu não quero sofrer de graça, sou contra. Escrevo crônicas e não poesia, só sofro o necessário. 

O problema é que tinha outros planos para os 38 anos, achava que seria mais, mais qualquer coisa. Qualquer coisa que pudesse ser definida. Um trabalho que não precisasse explicar o que era, um caminho. Ficar perdida aos vinte anos abala a esperança, mas você sabe que tem tempo; ficar perdida com quase quarenta, me pareceu ridículo. 

Parte desse sentimento se deve à situação. A impossibilidade de trabalhar legalmente, o eterno questionamento da identidade e da língua-pátria não ajudam muito. Mas faço mea culpa e acho que também interpretei isso de maneira limitada. Talvez tenha vestido a carapuça da imigrante discriminada antes mesmo que ela tenha sido posta na minha cabeça. É importante estar atenta a essas questões, mas a crítica só dói quando tem um mínimo de credibilidade, ou quando no fundo você acredita nela. 

Acho que o que me doeu tanto foi o fato de por um instante acreditar que não era nada mesmo. Que não faria diferença um visto de trabalho, porque talvez não soubesse o que fazer com ele. Porque era a representação literal de que eu não tinha mais o que fazer, que meu esforço de um dia apostar em um sonho não valia mais merda nenhuma. Valeu um dia, mas esse dia passou e preciso seguir adiante. 

Tempere-se essa panela com o fato de que minha família está envelhecendo e vez por outra me bate a preocupação de não estar fazendo o suficiente. Meu avô faleceu ano passado e eu não estava lá. Será que toda essa distância vale a pena? E os amigos que ficaram? Fico sempre oscilando entre a pretenção e a culpa, mudaria se eu estivesse lá? 

Na hora da raiva não vi nada disso, só queria ir embora. Pela segunda vez, praguejei contra o mundo e minha vida. E me vinha na cabeça toda a história do fim da faculdade. Era engraçado porque a situação era completamente distinta, mas depois entendi que o que se parecia era a sensação, os sentimentos. A diferença é que dessa vez já havia aprendido que precisava de um pouco mais de distância para entender o quadro. E pouco a pouco a pintura impressionista começou a fazer sentido. 

Passeei muito por Madri com olhar de despedida e, ao invés disso me trazer alívio, me deixou melancólica. Quando conversava com meus amigos espanhóis, me sentia injusta pela sua simpatia e consideração. Sem perceber, quase deixei as pessoas mesquinhas ganharem, elas não são maioria, só fazem mais barulho, aqui ou em qualquer lugar do planeta. 

E quando achei que não tinha mais nada a perder, as pontas das histórias começaram a se juntar novamente. Oportunidades apareceram, os amigos se aproximaram, a família se aproximou, o peso da cruz foi amenizado e levei outro tapa de luva. Ainda que esbravejasse, a vida continuava a me oferecer a outra face e a me lembrar da lição do perdão. 

Meus amigos vieram passar Natal em casa, meu irmão veio do Brasil passar o reveillon. O ano passou e a ira ficou para trás. Entrei zerada e de alma lavada, sóbria e serena. 

Não sei que caminhos tomarei esse ano, mas estou disposta a mudar se for necessário, quantas vezes for necessário. Não estou mais cansada. É que às vezes, nossas apostas são tão altas, custam tanto, que qualquer mudança de curso depois tem gosto de fracasso. Dá vergonha ter que recomeçar. Mas pensando bem, foi sempre quando arrisquei mais que fui mais feliz. Quando fazemos nossas escolhas, elas são sempre as certas, só se tornam erradas se a gente não souber corrigir o curso ou não quiser admitir que necessita de correção. Eu posso recomeçar e pode ser bom. 

Logo depois do reveillon, fui para Paris, em uma viagem cheia de metáforas e conclusões de ciclos. Caminhava pelas calçadas lembrando do final do filme “Henry e June”, gosto quando a Anais rompe a relação e sai arrasada, refletindo que odiou aquelas ruas porque elas a levavam para longe dele, mas em seguida ela amou aquelas ruas porque no fundo, sabia que eram as mesmas que a trariam de volta. 

No último dia da viagem, me recusei a pagar o preço absurdo do café do hotel e resolvi tomá-lo na rua. Saí sozinha caminhando com intimidade de quem conhece a cidade, entrei pela Rue Scribe em direção ao Boulevard des Capucines, sabia que logo ao atravessar havia um café com um cappuccino divino. Sentei de frente para a rua, olhando o movimento das pessoas, e decidi que era um bom momento para fazer uma retrospectiva do ano, da vida. Estou próxima aos quarenta, esse ano farei 39, e o que fiz? O que realizei? Onde estou? 

Acontece que não consegui lembrar de nada específico, só me vinha a estranheza da naturalidade em que sentei ali. Eu me senti uma senhora e não foi ruim, foi só uma consciência do tempo. Não me fez velha, me trouxe segurança e tranquilidade. Senti conforto na própria pele e essa nem sempre me foi uma sensação comum.  Comecei pensando que moro na Espanha, em Madri, e não é o primeiro lugar que moro fora do meu país de origem. Quantos kilômetros e um oceano de distância entre o que eu fui. Estava sentada em Paris, que já nem me lembro quantas vezes estive, totalmente à vontade, sem deslumbramentos, simplesmente tomando um café. Em paz. Saboreei a experiência com gosto de cappuccino. 

Não importa mais o que fiz ou o que tenho, mas no que isso me converteu, a pessoa que sou. Não adianta a gente ter tanta certeza para onde vai, porque os caminhos podem mudar. As perguntas mudam.  Felizmente, algumas das respostas são as mesmas: sim, ainda tenho tempo, ainda sei perdoar e ainda acredito que vale a pena.