VIII – Triacastela – Sarria

Acordei bem. Nossas roupas, lavadas muito tarde, ainda estavam molhadas, ou melhor, poco úmedas, mas ainda tinha um par de meias secas e curativos para o dia. Beleza! Só o que precisava. 

Estava aliviada, sabia que no fim do dia veria Luiz, que ia com o marido da minha amiga nos encontrar em Sarria. Eles já haviam reservado hotel para nós, e os amigos brasileiros reservaram no mesmo lugar. No início, achava que essa visita quebraria um pouco o clima da viagem, mas àquela altura, tanta coisa havia acontecido que achei bom. 

Na saída da cidade, duas opções, lembrei do veterano peregrino do trem, lá atrás quando íamos a Pontferrada, e sugeri o caminho que passa por Samos. No início, vamos margeando a estrada, o que nos fez pensar por um momento que talvez houvesse sido uma má opção, mas logo em seguida, entramos na trilha e, ao passar pelo enorme mosteiro de Samos, agradeci por ter feito essa escolha. 

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Ali paramos para um lanche mais caprichado, com vistas para o mosteiro. Tiramos algumas fotos. Encontramos uma americana, que já estava na estrada havia mais tempo e era amiga dos amigos, muito simpática, ia boa parte do trecho sozinha, devagar, mas sempre chegava.  

Nos lugares que a gente para pelo caminho, sempre tentamos carimbar a credencial do peregrino. É uma forma de provar que passamos por ali. Carimbar em espanhol se diz “sellar”. E na saída desse bar onde lanchamos, assim que selei minha credencial, disse ao meu amigo, aqui pode selar. Ele entendeu, aqui pode ser lá, e pensou, putz, aí vem uma discussão filosófico existencial… aqui pode ser lá, lá pode ser aqui… Não, não, aqui pode selar, carimbar a credencial! Bom, essa confusão fonética, que admito ser uma besteirinha, foi motivo de diversão e boas piadas. Será que aqui pode ser lá? 

E finalmente, conhecemos o alemão “Schleker”! 

Essa história do schlecker precisa ser explicada. Na verdade, é o nome de um alemão que possui uma cadeia de farmácias. É conhecido por ser riquíssimo e pagar mal aos seus funcionários. Muito bem, por algum motivo qualquer, esse nome surgiu em uma conversa entre o amigo brasileiro e esse amigo alemão (que não é o real Schleker). A partir daí, schleker passou a significar qualquer coisa. Podia funcionar como apelido dele, do amigo alemão. Podia ser um cumprimento de bom dia: schleker! Ou alguma coisa que ele estivesse fazendo: schleking… E não podíamos passar por nenhum outro alemão, que era um tal de schleker para cá e de schleker para lá! Não sei se fazia sentido para os alemães, mas para a gente era muito engraçado. 

Enfim, depois de schlekar um bocado, finalmente conhecemos o tal do alemão. Simpático, de comunicação verbal difícil, pelo idioma, mas gente boa. Depois disso, nos cruzamos por todo caminho até Santiago. 

Isso é outra coisa interessante. Você vai conhecendo e reconhecendo as pessoas. Às vezes já cumprimenta diretamente, outras, pouco a pouco vão se tornando familiares.

Durante as caminhadas a gente se desencontra. Há ritmos muito diferentes e em alguns segundos as pessoas desaparecem. Algumas vezes sentia vontade de caminhar sozinha, outras agradecia por estar acompanhada. Mas inevitavelmente, nas paradas a gente encontrava todo mundo e sabia de cara quem era e quem não era peregrino. Claro que a roupa ajudava, mas não é apenas isso, a atitude, o jeito de olhar, a maneira de caminhar… a gente simplesmente se reconhece. 

Leia-se peregrino como alguém que caminha, não necessariamente por motivos religiosos. Pode até ser, mas alí tinha de tudo, cada um com seu motivo. Não perguntei o motivo de ninguém, e só uma pessoa, no final, perguntou o meu. Gostei dela, mas não gostei da pergunta. 

Além do mais, um dos amigos brasileiros, o mais velho, era extremamente popular! Era carismático e falava com todo mundo. Usava uma barba enorme, alternava um chapéu esquisito e uma bandana que o deixavam facilmente reconhecível, parecido a um personagem de quadrinhos. Resultado, todos queriam fotografá-lo ou puxar papo. E ele, como um bom leonino, bem que gostava dos holofotes. Por tabela, acabávamos na mesma onda. O outro gostava de cantar e tinha boa voz. Ele e minha amiga tinham uma memória fantástica para letras de músicas, e das mais ecléticas possíveis! No início, achava estranho aquele negócio de ficar cantando alto na rua, nas mesas ou caminhando. Mas depois achei divertido e até me atrevia a acompanhar. Hoje em dia, já me peguei mais de uma vez cantando sozinha enquanto caminho pelas ruas de Madri. 

Era engraçado entrar pelos pueblos cantando alto e ver o sorriso dos moradores ou de outros peregrinos, será que esses malucos estão se divertindo? Estávamos. 

A gente cantava nas subidas também. Sei que parece incoerente, pois toma fôlego. Mas por outro lado, distrai, engana a dor. Quem canta, seus males espanta… Não foi tão simples traduzir esse refrão para a amiga americana, mas ela entendeu o espírito da coisa. 

Chegamos à tarde em Sarria, na maior fome, e descobrimos que o hotel reservado ficava há uns 5 Km fora da rota de Santiago. Putz grilo! Quer saber, ninguém aqui tacou pedra na cruz, então vamos deixar de frescura. Resolvemos pegar um taxi até o hotel e no dia seguinte, Luiz nos deixaria outra vez no mesmo lugar para retornar à caminhada.  

Foi muito engraçado entrar em um carro, não tinha muitos dias que havia saído de casa, mas parecia tão estranho. A passagem de tempo no Caminho é muito relativa. Acontece tanta coisa em um dia e às vezes é tudo tão intenso. É como se seguíssemos outra contagem e me sentia meio solta no calendário. 

Chegamos ao tal hotel, pouco afastado do caminho, mas muito bom. Quarto grande e uma enorme banheira que me fez perder a hora do jantar. Perdi a hora! Fui a última a descer, completamente atrasada, logo eu, tão britânica que chego a ser chata. Minha amiga estava preocupada, sabia que eu estava com fome, e com fome seria impossível atrasar para o jantar. Deve ter acontecido alguma coisa! Deve mesmo, porque esqueci que estava com fome e isso, para quem me conhece, é algo muito raro! 

Não era a única faminta, o amigo brasileiro mais jovem também estava. Engraçado, a gente se parecia muito, o mesmo signo, coisa que reconheci de cara e ele perguntou logo em seguida. Na verdade, em muitas de suas atitudes, me via quando era mais jovem. Tomou alguns caminhos que eu poderia, mas não fiz. Não sei se ele tem consciência do papel público que o aguarda no futuro, provavelmente sim, e é grande. 

O amigo brasileiro, mais velho, era uma impressionante mistura do meu sogro e meu cunhado. A voz era escrita do meu cunhado, algumas atitudes também. O gestual, a maneira de olhar e mover a cabeça para trás mexendo na barba, o senso de humor, apesar de bem mais novo, era meu sogro escrito. Como é que pode? E o senso crítico caústico, advinha quem me lembrava? Digamos, que sentia uma certa afinidade inquietante. Sua condição física era um milagre! Fumava para cassilda, bebia pacas, era o mais velho do grupo e o que andava mais rápido e com mais disposição! Mistérios do Caminho… 

Minha amiga tinha a confiança que as coisas se resolvem por si só e, portanto, para que se preocupar? Eu sempre acho que as coisas acontecem porque alguém faz, continuo acreditando nisso, mas bem que queria, de vez em quando, ter essa habilidade de deixar para lá. Que os outros resolvam sem me sentir tão responsável ou culpada. Manter tudo controlado e rígido é muito chato. Ela se divertia mais. 

Conheci outras pessoas, mas os três foram os mais presentes e importantes. Os motivos de cada um, parte desconfio, mas nunca quis perguntar diretamente. E se me voltasse um: e você? Com minha amiga, conversamos mais a respeito no início; com os dois, juntava partes de conversas como pequenas peças de quebra-cabeças. E agradeço ao fato de todos eles terem entendido ou ao menos respeitado minha dificuldade em falar sobre isso. Ou talvez simplesmente não importasse, todos já tínhamos muito em que pensar. 

Cada um deve ter sua própria visão e interpretação do caminho. Aqui, só conto a minha. 

Jantamos muito bem, acho que se não o melhor, um dos melhores jantares da viagem. O garçon, um senhor galego, uma simpatia. Demos nossa tradicional chutadinha de balde nos vinhos, enquanto esperávamos Luiz e o marido da minha amiga, que chegaram por volta das onze e meia da noite. 

Algumas coisas parecem que não mudam. Tenho a tendência ao exagero, gosto do vinho e da sensação de tomá-lo, gosto de comer bem e sempre beiro a gula. E aquela historinha que não beberia e comeria leve durante a viagem, foi para o saco desde o primeiro dia. Acredito que ao exagero não chegava, mas a abstinência nunca me fez muito sentido. Gosto do prazer. 

Era bom ver Luiz, me trazia uma sensação de segurança e normalidade, um pouco de casa. Queria contar um milhão de coisas, mas me sentia completamente incapaz de resumir. Desejei que ele tivesse feito o trajeto comigo, visse o que vi e passasse pelo que passei. Queria compartilhar de alguma maneira toda aquela história e não sabia como. Como iria explicar que estava completamente quebrada, mas amarradona, feliz da vida. 

De alguma maneira, acho que parte ele entendeu. Disse que se empolgou com a idéia e que da próxima vez faria a caminhada também. Fiquei feliz, era confortante saber que um dia ele vai entender exatamente o que estava sentindo naquele momento. Não porque contei, mas porque viveu. 

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IX – Sarria – Portomarín, a primeira bolha a gente nunca esquece

Acordamos cedo e me despertei séria. Precisava de uma disciplina alemã para não entrar no carro com Luiz e deixar aquilo tudo. Que tentação! O que estou fazendo aqui mesmo? Por que simplesmente não pôr essa bosta dessa mochila na mala e aproveitar o ar condicionado do automóvel? Por que não sento com eles num bar e curto o fim de semana? 

Porque não. 

Ele me perguntou, já encarnou a peregrina? Sim, não tinha jeito, entrei no meu transe de arrumar mochila e fazer os curativos dos pés. E nesse dia tinha um problema complicado, não tinha nenhuma meia seca. Tentei usar uma emprestada do Luiz, mas não deu certo, fui com a menos úmida e o resto foi pendurado de fora da mochila. Segundo o marido da minha amiga, pareciam uns peixinhos. 

Luiz nos deixou exatamente de onde saímos da rota. Ninguém cogitou ir nem mais, nem menos. No carro, o telefone dele tocou em viva voz. Era um amigo que eu gostava, mas não queria falar com ninguém, tudo que me remetia à vida fora do caminho me atrapalhava, soava fora de lugar. É radical, mas era assim. O carro estava me irritando. 

Atravessamos Sarria e ainda não havíamos alcançado a primeira pausa de descanso, quando recebi a mensagem do Luiz. Eles já haviam chegado em Portomarín e encontrado hotel. Como os tempos se medem diferente quando você está a pé e de carro! Resolvi desligar o telefone, melhor. Na verdade, durante todo trajeto costumava desligá-lo. Quando parava, checava se havia alguma mensagem. 

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Mesmo desligando o celular, deu uma vontade danada de chegar logo, tanto em mim como na minha amiga. Apressamos o passo e abrimos frente em relação aos amigos brasileiros. A meia úmida já havia começado a fazer seu estrago. Na pressa de chegar, demorei muito a sentar em alguma parada e colocar um curativo no local. Quando o fiz, era tarde, nasceram duas inconvenientes bolhas no calcanhar: uma na parte lateral, menos incômoda, e outra bem embaixo, que foi minha cruz até Santiago. 

Depois disso aprendi, se tiver qualquer desconfiança que vai nascer uma bolha, que a mochila está mal posicionada, enfim, qualquer coisa que precise ser conferida ou reparada, é melhor fazer o mais rápido possível. Já dizia o velho Murphy, nada é tão ruim que não possa piorar! 

Nesse mesmo trecho, quando ficamos sozinhas, finalmente ela tocou no assunto da noite difícil que tivemos em Vega de Valcarce. Parecia um pesadêlo distante, que já não tinha certeza se realmente havia acontecido. Ela pediu desculpas e fiquei com vergonha de ter me aborrecido tanto. Certamente havia sido mais difícil para ela que para mim. Isso tinha sido há tanto tempo … Vamos deixar isso para lá. Achava que já havia esquecido, mas só depois que conversamos me senti mais leve.  

Nesse momento, percebi que o dia abriu e éramos contornadas por borboletas, por várias que nos rodeavam ao longo do caminho. Elas estavam lá pelas flores, mas quis acreditar que era por minha causa. Queria acreditar que era capaz de atrair borboletas, que tinha poderes para controlar o tempo e que era uma pessoa boa.  

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Muita gente quer saber se o caminho possui algum poder especial, místico, sei lá. Como é que vou responder isso? E que diferença faz o que responder se as pessoas só enxergam o que querem e mesmo assim insistem em um sim ou um não absoluto. Não existe uma verdade absoluta, posso tentar descrever o que vi e senti, e mesmo assim será impossível uma conclusão absoluta, irrefutável.  

O que posso contar é que é um trajeto trilhado há anos e anos por gente que busca, ou que acredita, ou que quer mudar de alguma maneira, ou tudo isso junto e sabe-se lá mais o que. E que quando tomamos a decisão de trilhá-lo, também nós buscamos alguma coisa e vivemos em uma situação limite, uns mais outros menos, mas dá no mesmo, porque os limites também são diferentes entre as pessoas. 

É difícil admitir que temos o bem e o mal dentro de nós. Sabemos, mas confrontar esse lado considerado mal é difícil. Nas situações de limite a gente sempre quer acreditar que o que vai saltar é a determinação, a força, o sucesso. Mas muita vezes, o que salta é o egoísmo, a crueldade e a mesquinharia. Por uma simples questão de sobrevivência, ou porque talvez seja parte da nossa natureza. Portanto, quando me perguntam se a energia do caminho é boa ou má, só consigo pensar que é humana, às vezes é boa e outras é má, mas é um mero reflexo do que somos. 

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Vive-se de maneira muito simples e preenchendo necessidades básicas. Há pouco ruído de carro, de televisão e de tudo mais que nos distrái na rotina diária. Você escuta melhor, vê melhor, sente mais, por um motivo óbvio, está prestando mais atenção. Seus instintos estão aguçados, é propício perceber mais intensamente tudo que te cerca. 

O que cada um vai ver? Isso é problema de cada um. 

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X – Portomarín que não chega!

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No caminho entre Sarria e Portomarín, começou a demorar muito para os amigos brasileiros nos alcançarem. Será que a gente tinha ligado o turbo tão rápido? Em uma parada para retocar a vaselina dos pés, liguei o telefone e tinha recado deles. Cadê vocês? 

Os amigos brasileiros não demoraram tanto assim, mas é que a gente estava numa ansiedade daquelas para chegar logo. Era difícil imaginar os maridos tão perto e tão longe. E minha bolha só aumentando…  

Os esperamos em frente a um bar, com uma gente estranha. Moradores do local cheios de gracinhas inconvenientes. Reconheci logo o jeito de gente sem opção, que a determinação alheia lhes incomoda, bate na cara e os lembra da própria incompetência.  Mas não me incomodaram e me surpreendi com a falta de vontade em reagir, não porque não soubesse como, mas porque não me valia em nada. 

Sentamos para almoçar umas duas e meia. Lugar simpático, ficamos do lado de fora, onde a temperatura era agradável. Já sem um pingo de vergonha, arranquei as botas e fui cuidar do pé ali mesmo, na mesa do almoço.  

Comemos bem e tomamos uma boa garrafa de vinho, dessa vez, uma que Luiz havia trazido de casa. Pedi a ele alguns bons vinhos para tomarmos no fim de semana. O amigo brasileiro sempre levava uma ou duas garrafas para tomar durante o caminho. Eu não queria carregar a garrafa, mas bem que gostava de participar dela. Não muito, e não mais porque me parecesse errado, mas porque não dava conta mesmo.  

Nesse local, a simpática dona e uma moça muito bonita, que parecia sua filha, nos explicaram sobre os “hórreos”. Havíamos notado uma frequente construção pequena que lembrava uma casinha, capelinha ou algo religioso. Elas nos explicaram que não era nada disso, era uma construção galega típica para secar o milho. Eventualmente, também se usava para secar carne de porco ou algo mais, uma maneira de proteger dos ratos. Fiquei sabendo depois que antigamente era utilizada como simbolismo econômico, quanto maior a longitude do hórreo, maior a riqueza dos donos.

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Fomos cantando pelo resto do caminho. A paisagem era agradável e não havia tantas subidas. Em alguns trechos foi confuso encontrar a trilha certa, mas o olhar já estava treinado. 

Minha amiga e eu combinamos que no dia seguinte ficaríamos com os maridos. Pensei muito a respeito e cheguei a conclusão que estava sendo radical, sem necessidade. O mínimo para se merecer a tal da Compostelana era de 100 Km e já havíamos caminhado mais que isso. Qual era o problema de pular um dia e descansar um pouco? Talvez precisasse de uma porcaria de uma bolha no pé para entender que era mais importante estar com Luiz e que ele também fazia parte do meu caminho. 

Avistamos Portomorín, pouco antes de uma descida íngrime, que muitas vezes exige tanto quanto uma subida. Tentava fazer diagonais e assim proteger os joelhos. Até aquele momento, eles haviam se comportado muito bem comigo, melhor que não me distraísse. 

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Na chegada, uma grande ponte e a vontade de saltar na água. Na entrada da cidade, sentei logo abaixo de uma enorme escadaria que leva ao centro e liguei para Luiz vir nos encontrar. Os brasileiros preferiram caminhar um pouco mais e conhecer o local. 

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Sentia dor, a bolha foi me minando. Não era tão grande, mas incômoda e fez com que fosse pisando diferente para proteger o pé. Na prática, acredito que estivesse caminhando meio torta e cheguei bem dolorida e cansada. 

Na recepção do hotel, o marido da minha amiga fez uma surpresa para a gente. Deixou as taças de vinho branco geladinhas nos esperando. Mas a verdade é que não conseguia ser simpática, estava com dor e doida para arrancar as botas e ver o tamanho do estrago. Lição aprendida, checar o mais rápido possível o que te incomoda e resolver. 

Brindei com eles e subi rápido. Quando tirei a bota, o estrago era menor que pensei. Uma parte que achava ser pele solta, era apenas o compeed saindo do lugar. O tal do compeed fica uns dois dias ou mais na pele de todo mundo, mas nunca resistia mais de um dia no meu pé. Talvez pela vaselina que usava, não sei. Enfim, de qualquer forma, as tais bolhas estavam lá e não eram agradáveis. Pensei, não importa, é uma droga, mas vou continuar com vocês ou sem vocês, então é melhor melhorarem e se curarem logo. 

Coloquei a papete e fui lavar o rosto para descer e continuar o brinde com o pessoal na recepção. Quando me olhei no espelho, pela primeira e única vez na viagem, me senti orgulhosa, era capaz de mudar um hábito. Era realmente capaz de mudar. 

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XI – Estamos sempre entre o bem e o mal

O hotel era ótimo!

Desproporcionalmente grande para o tamanho da cidade. 

Fomos os dois casais para terraza e ali encontramos os dois brasileiros, que chegaram um a um, e outras duas peregrinas espanholas, que cruzávamos de vez em quando pela estrada, mas ali sentamos um pouco juntas. A primeira vez que as vi foi no Cebreiro, no dia que não estava para muitos amigos, almoçamos no mesmo restaurante.  

Luiz havia trazido bons vinhos de casa, e fomos tomando um a um. Não estava preocupada com o dia seguinte, já havíamos decidido não caminhar, então estava mais relaxada e curtindo o momento. Era bom. 

A vista, em frente ao rio Miño, me lembrava algo de praia, não sei porque, alguma coisa ali me remetia a um passado que não tenho certeza, mas era familiar. 

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Entretanto, algumas garrafas depois, me senti incômoda outra vez, como um reflexo condicionado. Achei que o limite havia sido passado de novo. E lá ia eu para o papel de espectadora, como se assistisse a um filme onde não tinha nada com isso. Será que não tinha nada com isso? Como meu amigo brasileiro citou em Vega, tudo que é humano me interessa.* E na minha cabeça ressoava, e se não me interessar? Sou menos ou mais humana?  

Fiquei eu e o brasileiro mais jovem um pouco calados, observando e bebendo mais água. Não sei os motivos dele, talvez fosse só cansaço, mas às vezes achava que parecíamos tanto, talvez ele também estivesse incomodado, mas não tinha vontade de perguntar. Sei os meus motivos, e era um enorme não-vim-aqui-para-isso. Não quero mudar o meu rumo. Isso está me atrapalhando.  

O brasileiro mais velho conseguia navegar com facilidade naquela confusão, e saía dela quando queria, parecia imune ao bem e ao mal; se era mesmo, não sei, e o que passou antes para ser assim, é assunto dele. Me olhava de vez em quando, como se entendesse que me sentia fora do lugar. Por que tenho sempre essa sensação de estar fora do lugar? Dividíamos um senso crítico parecido e até o fim do caminho, às vezes só precisávamos trocar alguns olhares sarcásticos e a mensagem estava passada. 

Os outros três, estavam em um planeta feliz. Bom para eles. 

Eu estava no inferno. Sentimentos contraditórios outra vez, mas agora sem grande intensidade. Recuperei meu calculismo e a frieza cética de quem tem uma missão a cumprir, e não importa o preço. I’m a woman in a mission. Lembrei da minha gata caçando, não tinha raiva, não tinha culpa, havia o alvo e acabou. 

Não me preocupei em disfarçar, nem em ser generosa. E só sorri quando achei graça. Aquela conversa não me adicionava nada, ouvia, blá blá blá… Não era o assunto, não eram as pessoas, estava em outra sintonia, em outra estação. Na hora que o jantar acabou e estava com sono, chamei Luiz para subirmos. Os outros quatro ficaram na mesa, não sei até que horas, nem tive curiosidade de perguntar. 

De qualquer forma, a companhia dos brasileiros me interessava. Não entendia bem porque, mas a presença deles me confortava. Mesmo não caminhando no dia seguinte, oferecemos levar as mochilas para eles e nos encontrarmos em um ponto de parada. Não queria forçar uma barra, talvez eles não nos aguentassem mais. Quando a gente julga os outros, lembramos que também podemos estar sendo julgados e talvez eles não quisessem minha companhia. 

Portanto, me restringi a dizer que eles pensassem com calma e se quisessem prosseguir conosco, eram bem vindos. Deixassem as mochilas na recepção que nos encontraríamos mais tarde. 

Não tive uma boa noite de sono. Estava irritada e acordei com algumas alucinações. Às vezes demorava alguns segundos para reconhecer Luiz na cama, para reconhecer em que lugar estava. Meus pés, que normalmente são gelados, suavam. 

Finalmente, a noite passou, e a luz do dia sempre nos traz uma perspectiva mais realista das coisas. Nada me parecia grave. 

Luiz reclamava que estava podre e, parecendo arrependido, dizia que havia exagerado na noite anterior. Ouvi como se fosse uma coisa estranha e que já fazia tanto tempo. 

O que mesmo queria? Que o mundo seguisse minhas regras? Obedecesse ou advinhasse minha vontade? Honestamente, sim, era o que queria. Mas nesse caso, eu que caminhasse sozinha. Uma vez que optei pela companhia das pessoas, o que elas fazem me afeta e me diz respeito. E o que faço também. Algumas coisas vou gostar, outras não. E é bom lembrar que a recíproca seria verdadeira. 

Perguntei, a gente não tinha marcado às 10:00 para tomar café? Ele dizia que não lembrava e que provavelmente ninguém lembrasse. Acabamos enrolando até quase a hora do café da manhã acabar. E, a propósito, sim havíamos marcado e todo mundo lembrou. 

* (Terêncio) homo sum: humani nihil a me alienum puto, sou homem e nada do que é humano me é estranho; ou tudo que é humano me interessa.

XII – Melide

Não acordei aliviada por ter me livrado de andar. Pelo contrário, estava triste e decepcionada. Saí um pouco na frente, andando, em direção à praça principal da cidade de Portomarín. A desculpa, em parte real, de comprar novas meias e evitar uma futura bolha. 

A verdade é que era difícil caminhar até de papete, a qual tirei a parte de trás e comecei a usar como chinelo. Que droga, como fui dar esse vacilo! E se não tivesse o carro, aguentaria caminhar? E de novo a resposta de sempre, e que diferença isso faz agora.Fui até a igreja, carimbar a credencial. É uma construção bonita e interessante, anteriormente ficava na parte de baixo da cidade, que foi alagada. Transportaram pedra por pedra e a remontaram onde é hoje o centro. 

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Luiz e o casal de amigos chegaram logo, com o carro. Também caminharam um pouco e todos tiramos algumas fotos. Vi peregrinos chegando para se instalar, era por volta do meio dia, acredito. 

Os amigos brasileiros haviam deixado as mochilas, o que era um sinal de que nos veríamos mais tarde. Ainda não seria nesse dia que nos separaríamos. Combinamos de nos encontrar em Melide, próxima parada.  

Pelo caminho, Luiz dirigia bem devagar, acho que era uma maneira de tentar fazer o caminho, ou que pelo menos eu sentisse um pouco do que seria fazer aquele trecho. Ele deve ter percebido que estava frustrada. Fui de janelas abertas e tirando fotos. A velocidade era estranha, mareava. Reconheci alguns rostos, algumas mochilas, mas não tinha a menor vontade de parar e falar com ninguém. Acho que atrapalharia e me sentia um pouco constrangida. 

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Luiz estava no clima de voltar para casa, preocupado com a distância que dirigiria e com as coisas que tinha que fazer no dia seguinte. Ele também já estava no seu próprio transe e eu não tinha vontade de conversar sobre isso. Havia saído o máximo que conseguiria do meu caminho proposto. 

Chegamos em Melide num piscar de olhos. Era domingo e a cidade estava repleta de gente. Uma feira na praça principal. A cidade era feia e sem personalidade, nem antiga nem moderna, tinha cara de velha e pouco cuidada. Nem sei o que aquele povo todo achava bom fazer ali. 

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Luiz nos deixou em frente a um hostal, quase na saída da cidade. O lugar era bem simples, acho que o quarto mais sem graça que ficamos, mas felizmente, o banheiro e a roupa de cama eram limpos, só isso me interessava. De qualquer maneira, não haviam muitas opções e o preço também foi o mais barato que pagamos, 27 euros, dos quais metade cada uma.  

Dali liguei para os amigos brasileiros e confirmei se queriam que reservássemos para eles também. Apesar da viagem ter passado muito rápido, meus olhos já estavam treinados a identificar uma distância a pé, e não me parecia nada curta. Qualquer coisa, podia pedir para Luiz deixar suas mochilas em uma parada anterior. Mas isso não foi necessário, eles preferiram nos encontrar em Melide mesmo. Ainda que a distância fosse maior, não estavam carregando o peso das mochilas e isso contribuía. Muito bem, pois então deixamos suas mochilas em um segundo quarto, tão sem graça quanto o nosso, e nos despedimos de nossos maridos. 

Nem ficamos no hostal, fomos para a cidade procurar algum lugar para almoçar. Melide é famosa por suas pulperías, ou seja, restaurantes onde se come polvo. Ficamos andando como baratas tontas no meio de toda aquela gente e custamos a encontrar um local para almoçar, que a propósito, não era uma pulpería. Paciência, a fome era grande. 

Não parava de mancar e fiquei imaginando como é que iria caminhar no dia seguinte. Mas não dava para descansar outro dia, ainda mais naquele lugar sem graça. 

Encontramos um cyber café! E agora? Checava as mensagens? Fazia de conta que não tinha visto. Bom, nem tanto, nem tão pouco. Resolvi checar as mensagens, mas resistir a tentação em respondê-las. 

Foi uma surpresa ver que havia várias mensagens de incentivo e de curiosidade com que estaria acontecendo. Fiquei emocionada. Por um lado, pensava que não podia desanimar, havia gente, de alguma maneira, contando comigo. Por outro, quando imaginava o que realmente teria para contar, me gelava a espinha. As pessoas gostam de finais felizes, eu também, e será que teria uma história feliz para contar? Não era para mim que estava trilhando o caminho? Por que de repente outras opiniões ganharam importância? Do que se tratava toda essa confusão afinal de contas? 

Não respondi as mensagens, não estava preparada para interagir com o mundo real, digamos assim. A única pessoa de fora com quem mantinha contato era Luiz. 

Saímos dali e fomos caminhar. Acho que o corpo pedia. De qualquer forma, tentávamos buscar algum ângulo melhor onde as fotos fizessem a cidade mais bonita. Sinto muito, mas era difícil. 

Fomos até a igreja, para carimbar as credenciais. Pois não é que o carimbo havia sido roubado? Quem rouba um carimbo da igreja? Só em Melide! 

E nada dos amigos brasileiros chegarem. Não estava preocupada, sabia que tardariam, mas esperava que conseguissem chegar antes que escurecesse. Escurece tarde essa época do ano, por volta dàs nove e meia, dez horas. 

Resolvemos jantar cedo e, dessa vez, achamos uma boa pulpería, onde o polvo era realmente divino. Descobri depois que era considerada entre as melhores da cidade. O problema é que a quantidade foi tanta que não poderei desfrutar da iguaria por alguns meses! Na mesa de trás, dois espanhóis se ofereceram para tirar nossa foto, antes, estávamos tirando uma da outra. No início achei gentil, mas a gentileza se converteu rapidamente em inconveniência. Na hora em que nos ofereceram um café ou algo assim, tratamos de pular logo fora. O plano inicial era esperar pelos amigos brasileiros por ali, mas eles poderíam demorar e já estávamos com sono. Os dois chatos da mesa de trás só nos ajudaram a tomar a decisão que queríamos. 

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Fomos para o quarto, entretanto fiquei pronta para sair assim que os brasileiros chegassem. Não deveriam demorar muito. Precisava entregar as chaves. Esses lugares são pequenos e a sua chave do quarto costuma vir com uma chave da portaria também. Depois de determinada hora, não há ninguém tomando conta, só entra quem pegou as tais chaves.  

A cidade não era tão grande, mas eles já haviam caminhado bastante e errar o caminho logo quando você está quase chegando, ninguém merece! O que não queria admitir é que os três, minha amiga e eles, eram o mais próximo que tinha de família naquele momento. Vê-los me trazia um mínimo de rotina, de casa. E só conseguiria dormir sabendo que todos chegaram bem. 

Não demorou muito, o amigo brasileiro ligou, haviam entrado na cidade. Fui encontrá-los e avisei, sigam andando na rua principal que acho vocês. Pouco depois os avistei, junto com o casal de italianos, com quem também encontrávamos a todo momento. Eles haviam acabado de se achar. 

Nos encontramos e foi bom recebê-los. O amigo brasileiro disse algo como, puxa te ver agora foi bom porque sabia que havia chegado! Não respondi em palavras, mas pensei com meus botões, a recíproca é verdadeira. 

Estavam exaustos, claro, mas ainda queriam parar para comer e beber algo. Eu não podia mais, sabia que precisava de energia para o dia seguinte, a bolha me debilitava. Não é só a dor, que nem é esse desespero todo, mas me sentia vulnerável, com a moral meio baixa.  

Mostrei o caminho, entreguei as chaves e eles acabaram ficando no restaurante, logo abaixo do hostal. Esse é outro padrão, quase toda pousada possui um bar restaurante no primeiro andar. Essa pousada tinha uma curiosidade, pelo menos no andar que estávamos, parecia um labirinto, a ordem não era lógica. A gente podia se perder lá dentro. 

Avisei que no dia seguinte iríamos até Arzúa, uns 13 km.

Disse um pouco triste, acho que amanhã nos separamos. Não acreditei que eles quisessem andar tão pouco. Mas sabia que, pela minha condição física, não poderia muito mais que isso. Essa é outra característica que imagino ser comum, você não quer prender ninguém. Disse que sairíamos cedo e que provavelmente eles nos alcançariam, porque estava meio lenta. Minha amiga e eu gostávamos de sair mais cedo que eles, não precisava ser nada tão radical, mas a parte fresca do dia ajudava. Nunca gostei de acordar cedo, mas não dormíamos tão tarde e era razoável despertar logo que clareava. Enfim, quem sabe almoçávamos todos em Arzúa e depois eles seguiam viagem. 

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XIII – No meio do caminho tinha uma bolha

“No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra/ Nunca me esquecerei desse acontecimento/ na vida de minhas retinas tão fatigadas./ Nunca me esquecerei que no meio do caminho/ tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ no meio do caminho tinha uma pedra”                                                                      (Drumond de Andrade) 

Acordei preocupada, não tinha mais como adiar, precisava seguir adiante.  

Gostando ou não de onde se dorme, no dia seguinte a gente não consegue continuar no mesmo lugar. Alguma coisa te empurra para frente. Não dá para voltar e o único motivo que te justifica parar é a total incapacidade física. Não era o caso. 

Fiz o melhor curativo que pude, até acolchoei a bolha do calcanhar com um pedaço de silicone. Pensei que poderia acabar por forçar o joelho da perna oposta, na tentativa de aliviar o peso. Achei que seria boa estratégia já sair de joelheira.  

Vontade de reclamar de dizer que não dava. Mas cassilda, minha amiga já havia se levantado em condições bem piores e não deu um pio, como é que vou parar por causa de uma merreca de uma bolhinha? Quem está na merda não pia, lembra? Então, cala a boca e anda. 

Subi as escadas da pousada mancando para tomar o rumo da estrada. Putz! Vou andar 13 Km mancando? Bom, não tem jeito, mudar a postura, são só 13 Km, normalmente caminhamos bem mais. Vai passar. Na hora do almoço já estaremos na próxima parada. Todo mundo aqui anda com bolha, minha dor não é maior do que a de ninguém. Que se dane! 

Fui lenta, mas fui. O corpo vai aquecendo e viramos umas maquininhas de caminhar. Havia um lado bom em ir mais devagar, via melhor o que passava em volta. Minha amiga tinha melhor ritmo nesse dia e estava difícil acompanhar. Para ela também seria ruim diminuir o ritmo, tem horas que a gente engata e não dá para reduzir. 

Parei para acertar os curativos e tinha a sensação que tudo que fazia era lento, difícil, demorado. Ser ultrapassada normalmente não me incomodava em nada, mas nesse dia era como se me lembrasse a própria incompetência. 

Honestamente, tinha vontade de ir um pouco só, estava angustiada. Quando não estou bem, me isolo. Em determinado momento, diminuí mais ainda o passo, e me desencontrei da minha amiga. Precisava ficar sozinha. Vontade de desistir e muita dor nos pés.  

Às vezes, não só nesse dia, tinha a sensação de estar sendo seguida ou observada, olhava para trás e não via ninguém. Não dá medo nem deixa a gente impressionada, pode ser bicho, pode ser alguém que ficou para trás, pode ser qualquer coisa. Mas de novo aquela sensação de ser seguida. 

Sei que foi dando vontade de chorar, me senti sozinha de verdade. Como nunca me importo em ficar, a solidão raramente me incomoda.   

Por que nunca peço ajuda a ninguém? Por que é tão difícil? Com a desculpa de não incomodar, camuflo uma autosuficiência irritante e arrogante. Nem sempre o que é humano me interessa e não gosto de mudar por ninguém. Talvez, se pedisse ajuda, se errasse um pouco mais, quem sabe fosse mais humana e desse chance às outras pessoas de serem úteis, ouvidas e respeitadas. Minha certeza é rígida e minha independência incondicional pode ser ofensiva. Minha solidão bem resolvida desrespeita quem me cerca. Essa é minha natureza, não sei porque sou assim, mas sou e essa consciência me deixou com vergonha. 

Minhas avós sabiam como eu era, sempre souberam, mas não se importavam. Na hora que a coisa ficava preta, era a elas que recorria. Não precisava explicar, dizer nada, só a presença funcionava como um porto seguro. Ultimamente, quase não chamo, acho que estão ocupadas. De novo, em minha arrogância, acho que preciso menos. Mas estava no fundo do poço e admiti que precisava muito dos meus fantasmas. Pois uma apoiou meu braço, a outra me deu a mão, e assim fomos caminhando caladas até que matasse minha saudade e não me sentisse mais só.

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XIV – Arzúa

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Meus pés melhoraram. Havia uma pequena bolha, novinha em folha em um dos dedinhos, mas essa não preocupava. Dependendo de onde se localizem, não são exatamente um problema. A bolha chata era a mesma, a tal que ficava na parte de baixo do calcanhar esquerdo, essa não tinha como não forçar, nem como fazer de conta que não doía. No máximo, aprendia a tolerar. Ela havia duplicado de tamanho e agora tinha o formato de coração. Muito poético, mas um pé-no-saco! 

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Enfim, Arzúa era mais simpática. Não tão antiga, nem tão nova, na verdade, não era muito diferente de Melide, mas tinha um astral melhor. Talvez porque a jornada se aproximasse do fim. Para muitos peregrinos, essa é a parada final, antes de Santiago, que fica há cerca de 40 Km. Nós dividiríamos a jornada em duas vezes, não havia motivo para pressa. 

Ficamos em uma pousada ótima, antiga, tradicional e muito limpa. Dessa vez, não haviam mais quartos duplos e cada uma ficou com sua própria suíte, um luxo! Perguntei se havia como lavar a roupa e me indicaram uma lavanderia próxima que lavava para o mesmo dia. Beleza! 

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Mandei um recado para os amigos brasileiros, avisei que paramos em Arzúa, onde estávamos hospedadas, quanto estávamos pagando e que havia lavanderia na cidade. Admito que avisar da lavanderia foi golpe baixo, sabia que seria tentador. Mas eles já haviam decidido que também dividiriam o trajeto em dois e não havia motivo para apressar tanto a chegada a Santiago. 

Sabe de uma coisa, acho que no fundo, ninguém queria chegar. Independente do que se passe, saber que estava acabando era difícil. 

O amigo brasileiro ligou de volta, dizendo que também ficariam e me pediu que reservasse quarto para eles dois. Que ótima notícia! Fui logo reservar porque, a medida que o dia vai passando, as pousadas vão lotando e só sobra roubada. 

O diálogo com o recepcionista foi algo bizarro, para quem não conhece a lógica ibérica, mas já sou treinada. Sabendo que não haviam quartos duplos, afinal de contas já não havia para eu e minha amiga, perguntei se haviam dois quartos para dois amigos que vinham pela estrada. Ele me respondeu o que já sabia, quarto duplo não tem. Amadores desistiriam aí, mas havia aprendido como era o esquema e perguntei, não há mais dois quartos de casal? Ele me respondeu que não. Insisti, e não há mais nenhum quarto? Ele disse, há mais um quarto. E como seria esse quarto? Para minha incredibilidade, ele respondeu, é um quarto triplo. 

Cassilda, se pergunto se há vaga para duas pessoas ele diz que não, porque o quarto era para três! 

Com toda a paciência do mundo, novamente pergunto, e quanto custa esse quarto para três pessoas? Ele, que finalmente parecia haver entendido o absurdo de nossa conversa, coçou a cabeça, me perguntou se eu tinha certeza que os dois viriam e eu disse que sim. Então, faço pelo mesmo preço que fiz cada quarto de casal para vocês.

Ou seja, acabaram melhores que nós, em um quarto duplo, pelo preço de um, e ainda por cima com uma cama extra.  

Mas também não achei ruim estar em um quarto individual. Tem uma hora que você quer se espalhar, ver televisão até a hora que quiser, tomar banho com a porta aberta, essas coisas. 

Fomos almoçar, no mesmo esquema de sempre, no restaurante da própria pousada. Aliás, a comida era surpreendentemente boa. Não que houvéssemos comido mal antes, mas há lugares que é melhor, e ali era um deles.

Assim que terminamos a refeição, chegaram os meninos. Subimos todos juntos e combinamos de nos encontrar por volta dàs 16:30, quando a lavanderia abrisse. Acho que eles ainda foram almoçar, mas eu fui dar uma morgada básica. Apaguei em uma siesta daquelas. Bom que estava no quarto sozinha, pois no mínimo dormi de boca aberta e babando! 

Acordei pontual com o despertador, não queria perder a lavanderia abrindo, vai que havia mais gente na fila. Precisava daquela roupa limpa e seca. Minha amiga também não vacilou e chegamos na lavanderia pouco antes dos amigos brasileiros. 

Dali, sentamos em um bar na praça, uma mesa ao ar livre, bem agradável. Os amigos brasileiros chegaram depois e, logo em seguida, vieram uma guatemalteca e uma americana. Ambas simpáticas, mas a guatemalteca perguntava muito. O que estávamos fazendo ali, quais eram nossos motivos, idades, profissões, onde morávamos etc. Que estranho, me senti meio invadida. Experimentei fazer o seguinte, tudo que ela me perguntava, retrucava, e você? Engraçado, notei que ela não gostava tanto assim de responder. Não demorou muito a parar de me perguntar as coisas. 

Tinha um plano malévolo. Precisava fazer hora até a roupa ficar pronta e percebi que haviam alguns salões de beleza pela cidade. Que vontade de fazer uma escova! Primeiro me parecia fútil, mas depois pensei que era absurdo, pois se podia cuidar da minha roupa, por que não dos cabelos? A verdade é que secar minha juba sem secador era um inferno, ficava com as costas molhadas ou tinha que prender ainda úmido. Taí, vou achar um salão! 

Acontece que era segunda-feira, e os salões fechavam. Pergunta daqui, pergunta dalí, descobri uma senhora que tinha um salão em casa. Toquei no apartamento dela, assim meio desconfiada, havia outra senhora, muita feia, cortando o cabelo. O lugar era bem simples e fiquei pensando que talvez aquela não fosse uma boa idéia. Mas depois vi que era besteira da minha parte, o que poderia dar tão errado. Pois na minha vez ela foi simpática, lavou bem meu cabelo e me fez uma escova capaz de recuperar algo de auto estima. 

A roupa de peregrina me deixava muito masculina, uniformizada. Eu gosto de ser mulher e do meu cabelão. 

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Fui à lavanderia, roupa limpa e meias secas. Que alívio! Agora era tranquilo, mesmo que não conseguíssemos lavar mais roupa, só havia uma parada antes de Santiago. Não corria mais o risco de usar meias úmidas, o que significava, bolhas sob controle. 

Voltei à praça para encontrar os amigos que seguiam no bar. A mesa havia crescido e o papo corria animado, me receberam de farra com meu cabelo. Havia novos e velhos conhecidos, nesse dia, me sentia muito à vontade. Havia um grupo grande de brasileiros. Tiramos fotos, tiraram fotos da gente. Quer dizer, não sei se eram da gente ou do nosso amigo barbudo que chamava atenção, mas isso já havia virado até piada para nós. 

O brasileiro mais jovem me perguntou, se referindo ao mais velho, ele hoje está mais agitado, não? Será que é porque está chegando? Também havia notado. Na verdade, achava que todo mundo parecia mais empolgado. 

Fomos jantar, nós quatro e sem combinar absolutamente nada, acabamos todos os que estavam juntos na praça, no mesmo restaurante. Sentamos na mesma mesa da guatemalteca e a americana. Na mesa de trás, um grande grupo de brasileiros, bem mais jovens. Alías, não era comum ver tanta gente jovem. 

Durante o jantar, descobri porque a Guatemalteca perguntava tanto, sua amiga queria escrever um livro sobre o motivo das pessoas fazerem o Caminho. A idéia me pareceu estranha, muitos filtros e lentes que distorceriam a realidade. Na minha interpretação, seria tão emocionante quanto ler bula de remédio. Não porque não pudessem haver boas histórias, mas era difícil achar quem quisesse contar a sua. Melhor que escrevesse sobre a própria experiência, até porque, era uma mulher muito interessante. Era médica, trabalhava nos EUA para ganhar dinheiro, depois passava o resto de tempo trabalhando como voluntária em lugares como África e América do Sul. Enfim, não sei o que pensavam meus amigos, mas ninguém deu grandes informações, pelo menos, não que tenha presenciado. O curioso é que a americana, quem supostamente escreveria o tal livro, não perguntava. De qualquer forma, nem uma nem outra insistiu mais no assunto e foram companhias agradáveis. 

Para variar um pouco, começamos a cantar, era uma música do Gonzaguinha, aquela do viver e não ter a vergonha de ser feliz… A mesa de trás, todos brasileiros, engrossaram o coro e ficou bonito. 

Até que uma delas, não sei porque, levantou com uma bandeira brasileira, começou a sambar e a pedir que beijassem a tal bandeira. Achei aquilo um exagero. Detesto esses showzinhos de patriotismo festivo, que na prática é uma pura exibição de dotes pessoais ou uma autoafirmação chata. Achei ridículo. Troquei olhares cáusticos com meu amigo brasileiro, ele também se irritou.

Paciência, não era o fim do mundo. Como de costume, nos despedimos e avisamos que no dia seguinte sairíamos cedo. Ficamos de nos encontrar em Pedrouzo/Arca, onde reservaríamos um lugar para eles também. 

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