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Archive for the ‘Desvios do Caminho’ Category

O Caminho de Santiago começa no momento exato em que você decide trilhá-lo. 

No meu caso, a idéia passou a rondar pela cabeça por volta de novembro de 2006. Muito remota e incoerente ao meu estilo de vida, mas persistente, que nem ferrinho de dentista, aquele barulhinho incômodo, que assusta mais do que dói. 

Meu instinto sabia que precisava passar por isso, era só uma questão de tempo. Mas a idéia foi amadurecendo devagar, como tinha que ser. E sempre que tentava deixar de lado, várias pessoas ou fatos relacionados ao tal caminho cruzavam à minha frente. 

Um dia, por volta de março de 2007, tomei a decisão, vou fazer e pronto! Marquei uma data, mais ou menos três meses depois. E a partir daí, considero que a história iniciou. Confesso que muito mais fisicamente, era a forma mais fácil e concreta que conseguia visualizar, foi a maneira que consegui começar. 

A consciência que algo maior poderia acontecer só veio quase na semana de embarcar para Pontferrada, cidade onde iniciei a trajetória. Mesmo assim, de forma meio confusa e embaçada, como uma simples possibilidade que queria e não queria ao mesmo tempo. O cálice que não queria beber e os fantasmas que não queria ressucitar. E ao mesmo tempo, como não mexer no que sabia que estava lá e que estava me esperando. 

Se o caminho esperava para ser trilhado, como é que eu não vou?  

Fui, tinha um encontro marcado. 

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… 2 + 7 = 9. Gosto desse número. Domingo… bom para viajar… marcado! 

Minha amiga chegou de manhã… com uma mochila enorme! Tentamos persuadí-la a diminuir um pouco. Chegou um momento em que achei que Luiz estava ficando até meio chato com a insistência de que ela mudasse ou esvaziasse sua mochila. Essas decisões são pessoais e cada um sabe, ou deveria saber, do que é capaz e o que quer. 

Melhor me concentrar no meu umbigo. Minha mochila pesava pouco menos de 5 quilos. Era uma boa cifra, apesar de preferir diminuí-la. É aconselhado não se levar mais de 10% do seu próprio peso e restringir-se ao essencial costuma ser uma tarefa mais árdua do que se imagina.  

Entretanto, abrir mão das coisas não foi difícil para mim, aprendi muito cedo a não levar mais carga do que necessito, nem nas costas nem na cabeça. Nesse ponto, vivo no limite do desapego e do egoísmo, pois se não levo nem para mim, muitas vezes também me recuso a levar o que é dos outros.  

Difícil mesmo foi levar alguma carga, justo eu que não carrego nem bolsa. Ainda que a ira, às vezes, me pese nos ombros. Recebi um lembrete de um amigo pouco antes de viajar, cuidado que a raiva pesa. Também sabia que precisaria me lembrar disso em algum momento. 

Enfim, ainda fizemos uma caminhada leve durante o dia e, às 22:10hs pegamos um trem na estação de Chamartín, em Madri, com destino a Ferrol. O trecho eleito, Pontferrada a Santiago de Compostela, é de aproximadamente 200 km, que faríamos a pé. 

Estávamos animadas e confiantes. Ela achando que tiraríamos tudo de letra, eu um pouco mais preocupada. Descobrimos alguns temas em comum que precisávamos pensar, o que me parecia um bom presságio. O vagão ia cheio de mochilas, descobriríamos mais tarde que a maioria saltaria em Sarria, outro destino para iniciar o caminho, são os últimos 100 Km, distância mínima para se conseguir a Compostelana. 

O que exatamente precisava pensar? Tinha algumas questões complicadas para decidir, maternidade, carreira, fé… Não foi por isso que quis fazer o caminho, mas sabia que seriam assuntos inevitáveis. Talvez até fosse por isso também, mas não era muito claro e não esperava nenhuma revelação extraordinária, e se esperava, me enganei direitinho.  

Desembarcamos em Pontferrada às 4:30 da matina, com uma hora de atraso. Pouco antes, conhecemos o primeiro veterano peregrino, espanhol. Em princípio, ele não me inspirava muita confiança, mas foi educado e nos deu algumas dicas sobre como cuidar dos pés. Contou a história de porque Triacastela tem esse nome, devido às suas três torres, apesar de ser uma igreja pequena. Disse também que deveríamos optar pelo caminho de Samos ao deixá-la. Ouvi e segui seus conselhos no futuro próximo.  

Foi a primeira viagem onde resolvi acreditar na experiência dos outros e me entregar sem resistência a ela. Se me diziam que a mochila tinha que ser pequena, que fosse. Se me diziam que o cajado era importante, arranjasse algum. Se me diziam para pôr vaselina nos pés, colocaria. E assim por diante. Hoje, depois de tudo passado, não me arrependi dessa decisão. Aprender com a experiência alheia é muito bom. 

Ficamos em um hotel próximo à estação de trem. Achei prudente, considerando a hora que chegaríamos na cidade. Teríamos a segunda-feira para conhecê-la e descansar. Na terça cedo, pé na estrada. 

Já na chegada ao hotel, decidi lavar a primeira leva de roupa. Você usa uma enquanto a outra seca e se era para entrar no jogo, que fosse de uma vez. Fomos dormir por volta das 5 da matina e às 12:00 estávamos acordadas. 

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Saímos para comer e conhecer a cidade. Pontferrada é conhecida por seu enorme castelo dos Templários. O nome se deve à uma ponte de ferro por onde atravessavam os peregrinos que descansariam em segurança nesse castelo. 

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É uma cidade que mistura o moderno e o antigo. Aliás, essa mistura está presente por todo o caminho, a coisa do urbano se alternando com o rural. Às vezes, passamos por trechos muito rurais, no meio das vacas, onde parece que o progresso nem triscou. Outras, margeamos uma longa estrada com altíssimos viadutos de concreto. Mas isso só veríamos depois. 

Ainda em Pontferrada, fomos direto ao albergue providenciar a credencial de peregrina da amiga que me acompanhava e colocar o primeiro carimbo na minha credencial, feita em Madri mesmo.  

Essa credencial é o seguinte, é como se fosse um boletim de cartolina, parecido aos boletins de colégio, onde há vários espaços para carimbos. Ao longo do caminho, você vai carimbando para provar que passou por ali. No final, já em Santiago, você vai com essa credencial carimbada pedir sua Compostelana, que é um tipo de diploma onde consta seu nome e diz que você trilhou o caminho e blá blá blá. Entre nós, é uma bela jogada de marketing da Igreja Católica, mas deixarei meu veneno para ser destilado mais tarde. 

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De qualquer forma, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A instituição pode ser questionável, mas as pessoas e suas crenças devem ser respeitadas. Não se deve tirar o mérito dos peregrinos, e hoje sei na pele o que custa chegar lá. Conseguir os carimbos pelo caminho é motivador e muitas vezes divertido, funciona como pequenos prêmios de valor simbólico. É como se estivéssemos construindo nossa história. 

Tomamos a decisão de não dormir nos albergues, a não ser que fosse estritamente necessário. Levei um saco de dormir para esse caso que, felizmente, não aconteceu. 

Os albergues oferecem vantagens e desvantagens. A principal vantagem, apesar de saber que vai ter gente se remexendo, é o preço. Não digo todos, mas a grande maioria das pessoas que se hospeda ali é porque não pode pagar uma hospedagem privada todos os dias.  

Há uma outra grande vantagem sim, que é a convivência com as pessoas, principalmente para o europeu, que não está acostumado a ter gente em casa. É uma experiência muito diferente para eles, por exemplo, comprar e cozinhar uma refeição em grupo. Também há o aprendizado de dividir o espaço, de valorizar o conforto do seu dia-a-dia etc. 

Mas que ninguém se iluda acreditando que é um mar de rosas e que todo mundo respeita os companheiros ao redor. Imagine um monte de gente junta, de culturas, nacionalidades e hábitos diferentes, chegando depois de andar um mínimo de 20 km, cansados, suados, fedorentos, com chulé e geralmente com fome. Depois imagine que só alguns conseguirão tomar banho quente, em um banheiro unissex com pouca privacidade, e que haverá uma fila na cozinha para sua vez de cozinhar, obviamente depois de lavar sua roupa e estendê-la em uma corda comunitária. Que às 22:00hs, no máximo, alguém vai apagar a luz e fechar a porta. E às 5 da matina você não conseguirá mais dormir. Honestamente, dá para acreditar que só sairão amigos? 

Saem amigos sim, mas nem todos. E é bom se prevenir para isso também. Os seres humanos continuam humanos. 

Não quero parecer pessimista, até porque nem tudo é assim tão mal. O que se diz dos relacionamentos durante o caminho é verdade. Você conhece muita gente boa e as amizades florecem rápido. É que todos os seus dias são muito intensos e longos. As pessoas estão expostas e uniformizadas. Vestidos de peregrinos não há pobres nem ricos, bonitos nem feios, somos muito parecidos, fazemos as mesmas coisas, comemos as mesmas comidas, bebemos nas mesmas fontes. Há uma enorme afinidade e solidariedade entre as pessoas. E é sincera. 

Mas voltando a Pontferrada, decidi que caminharia de dia usando a mochila, assim iria me ambientando. A fantasia de peregrina não era uma opção, era a única roupa que tinha mesmo e a verdade é que já me sentia confortável com ela. 

Fomos caminhar nas margens do Rio, há uma trilha que desce pela lateral do castelo dos Templários. Passamos por uma pequena ponte, que imagino ser a tal que originou o nome da cidade. Os instintos ligados no volume máximo, ou o que acreditava ser. Queria viver a aventura na veia. 

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Quase me distraí, o bate papo e as mil fotografias me lembravam uma viagem turística. Em determinado momento, subimos por uma escada, em um trecho fechado, teoricamente proibido. Escutei uma cobra e a vi imediatamente se aninhar e se esconder pela escada, pensei, cobra criada. Melhor prestar mais atenção. 

Dalí resolvi ouvir o recado e voltamos pelo mesmo trajeto, onde quase pisei em um rato morto. Pulei de susto, mais do que com a cobra viva. Entendi que o jogo ia começar. Não era uma brincadeirinha de criança, não tiraríamos tudo de letra e que não contasse que nada de mal pudesse nos acontecer. 

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No fim da tarde, depois de comprar o café-da-manhã, resolvemos dar outra saidinha pela cidade afim de trazer o sono mais rápido.  

Na praça principal, conhecemos um grupo de brasileiras que estavam fazendo o caminho de ônibus. Era um tipo de excursão, eles paravam em algumas cidades, caminhavam um pouco e prosseguiam a viagem motorizados. Tem gente que se ofende com isso, não achei nada demais. Cada um faz seu caminho como pode ou quer. 

Eu queria andar. 

Jantamos no próprio hotel e dormimos cedo. Estava ansiosa, queria começar o mais rápido possível! 

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Levantamos às 7:00 horas, o que para mim é bem cedo. Não tinha tanto sono, a vontade de começar era maior. Levamos bem uma hora e meia para conseguir comer e sair. Muito por minha causa, descobri que demorava para burro até deixar os pés prontos. 

Praticamente, plastificava meu pé com compeed, um tipo de curativo mais sofisticado, específico para bolhas. Garanto que qualquer peregrino sabe bem do que estou falando. Além de melecar o pé de vaselina, para amenizar o atrito. O tempo todo meus pés foram a maior preocupação, pois os tenho demasiado sensíveis.  

Isso é uma coisa engraçada, o pé é o principal tema de conversação entre os peregrinos. O assunto sempre gira por aí, o que inclui demonstração de bolhas, curativos etc. Você vai perdendo completamente o pudor em relação a isso ao longo do trajeto.

No celular, em que só atendia ao Luiz, um recado bonitinho de uma amiga: que seja leve! Caramba, que responsabilidade, tem gente torcendo por mim. 

Mas voltando a caminhada, seguimos diretamente para o albergue, afinal de contas, o trajeto passava por ali e, lógico, não lembramos de perguntar no dia anterior para qual dos lados. 

Pouco antes de chegar ao albergue, bem no centro da cidade, resolvi começar a usar meu cajado improvisado. Era um desses sticks de trekking. Ele é flexível e tem um mecanismo que abre e fecha, muito simples. Pois simplesmente ele não queria abrir nem a pau! Não abria mesmo e chegou a me irritar. Resolvi atravesar a rua e pedir ajuda a um operário, certamente ele era mais forte que eu. E ele também não teve força para abrir, me emprestou duas chaves de boca para que eu mesma tentasse. Finalmente, consegui desenrroscar o raio do stick. Como é que aquilo podia estar tão apertado, se eu mesma apertei com minhas mãos e não tenho essa força? 

Prosseguimos em direção ao albergue. Passamos direto, claro, na direção errada. Quando começamos a ver aquelas setas amarelas ao contrário, o que seria o óbvio parecia só estranho. Contra vontade, porque detesto perguntar, pedi informação a um pedestre que nos indicou a direção correta.  

Voltamos boa parte do caminho, em direção ao centro da cidade, e adivinha onde é que a gente precisava entrar? Exatamente onde a porcaria do cajado engatou e atravessei a rua para pedir ajuda ao operário. Se estivéssemos prestando um mínimo de atenção, perceberíamos uma enorme seta amarela que indicava a direção correta, bem em cima da nossa cabeça! 

Será que era o caminho me avisando? Fui rindo sozinha, pronto, começou a esquisitice! 

Foi chato errar, mas no fundo, achei bom. Depois disso, podia ver setas amarelas e sinalização desde longe. Não é mal sinalizado, pelo contrário, mas era necessário estar atenta, mais do que justo. 

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Levamos quase uma hora para conseguir deixar a cidade, um trecho meio aborrecido, mas fazia parte. Depois melhorou, tinha mais cara de trilha e as cidades pela qual passávamos eram bem menores.  

Muitas hortas ao longo da estrada pequena e uma paisagem agradável. 

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Lanchamos em Cacabelos e descobrimos que levar alguma barra de cereal, tudo bem, mas levar sanduíche ou comida na mochila era bobagem, peso à toa. 

De Cacabelos à Villafranca é muito bonito, um pouco cansativo e com algumas subidas. Um aquecimento ao que nos aguardava no futuro.  

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Caminhamos nossos primeiros 24 km. Chegamos em Villafranca del Bierzo, a primeira parada. O fôlego ia muito bem obrigada, mas estava dolorida. Fazíamos mais ou menos 5 Km por hora. Meus pés, felizmente sem bolhas, retoquei a vaselina duas vezes durante o dia. Entretanto, os ossos dos pés doíam tanto que era como se alguém me enfiasse um ferro por dentro do pé e torcesse.

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A mochila fez um pouco de estrago. Pouco abaixo do ombro, tenho ossos altos e estava a um dedo de me esfolar o couro. Resolvi colocar um compeed preventivo ali também, no mesmo lugar onde a alça da mochila pegava. Em princípio, era um feito para os calcanhares, mas funcionou. Nas costas, na altura dos rins, tinha duas grandes marcas vermelhas, da mochila que foi batendo ao longo das horas, como um lutador que vai minando sua resistência com pequenos socos aparentemente inofensivos, com essa eu não contava. Foi melhor que imaginava, no dia seguinte, regulei a mochila e aprendi a não deixar que ela se movesse tanto. Ela não me incomodou mais. 

Escolhemos dormir em um Parador, muito bonito e nada barato. Achei que dalí por diante, dificilmente acharíamos algum bom lugar para ficar, melhor aproveitar o momento. Nem foi verdade, dormimos em bons lugares até o final, mas isso só pudemos descobrir a medida que chegávamos em cada parada. Então, vamos com um dia de cada vez, e naquele dia, decidimos que merecíamos uma banheira quente. 

Sinceramente, havia dado meu dia por terminado, me doía a alma e sabia que era só o começo. Minha amiga também estava muito dolorida e chegou a conclusão que precisava de medicamento, resolveu ir até a farmácia. Fiquei no quarto esperando, já pronta para pegar no sono. 

Pouco depois, chegou ela mais animada. Olha, o centro não é tão longe, não quer dar uma volta? Na verdade, não queria, mas puxa, também podia colaborar, né? Reuni minhas forças, calcei uma papete com meias, naquele estilo mendiga e fui andando com ela bem devagar. Parecíamos duas velhas!  

Mas quer saber de uma coisa, a medida que caminhava, mesmo devagar, ia melhorando e agradeci por ela ter incentivado nossa saída. Aproveitei e passei na farmácia, rotina diária, para repor os curativos. Sabe-se lá quando encontraría a próxima? Encontraria sempre, mas seguro morreu de velho. 

Sentamos na praça principal e ficamos fazendo hora com uma taça de vinho. O restaurante onde queríamos jantar, um antigo mosteiro, ainda estava fechado, só abria às 21:00 horas.  

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Quando tentávamos tirar uma foto, daquelas que a gente mesmo tira com o braço esticado, uma voz em português se ofereceu para ajudar a fotografar. Era um brasileiro que fazia o caminho desde o início e se convidou a sentar conosco. Talvez no Brasil ficasse cismada, mas a verdade é que me pareceu completamente natural, como não? Era simpático, falante, uns cinquenta e poucos anos, advogado e com uma enorme barba grisalha. Sua figura realmente chamava atenção. Logo depois, chegou outro brasileiro, mais jovem, pareciam pai e filho, mas não eram. A história era curiosa, ambos eram advogados políticos, mas em lados opostos, haviam se conhecido naquele mesmo dia e resolveram dividir hospedagem. Os quartos duplos saem muito mais em conta. 

Dalí fomos jantar juntos, ainda sem saber como essa cena se repetiria ao longo da viagem. Foi divertido, demos boas gargalhadas. Um deles levava um celular espanhol, trocamos o número e ficamos de nos encontrar pelo caminho. Com sono, minha amiga e eu voltamos para o hotel, não mancava mais e estava otimista para o dia seguinte. 

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O plano inicial era ir de Villafranca del Bierzo até O Cebreiro, são cerca de 28 km. Entretanto, havia um pequeno detalhe, O Cebreiro se encontra há 1.300 metros de altitude e é conhecido como uma das subidas mais chatinhas do caminho. No dia anterior, chegamos meio mortas em Villafranca, com menos quilometragem e sem a subida. Achei prudente e sugeri que ficássemos por Vega de Valcarce, 19 Km de Villafranca e pouco antes da subida ao Cebreiro. 

Dessa maneira, não precisaríamos sair tão cedo, dava para tomar o café no hotel, às 8:00 horas e sair com calma. E assim foi. 

A caminhada foi mais fácil que a do dia anterior, me sentia bem e, apesar de ser apenas o segundo dia, começava a incorporar a rotina. Em alguns trechos do caminho, pensava quanta gente havia passado por ali e através da energia de quantas histórias estávamos nos embrenhando. Ficava emocionada, mas disfarçava. 

Aprendi a cumprimentar as pessoas pelo caminho. Todo mundo responde e ficava de farra com minha amiga, viu como somos populares? Todo mundo conhece a gente aqui!  

Entre os caminhantes, a gente fala um para o outro “buen camino”. E para os moradores dos pueblos, o mais normal é um “buenos días”. De maneira geral, vinha com um sorriso que me fazia sorrir também, ou era vice-versa, não sei.  

Mas eram os moradores mais antigos os que me emocionavam. A maneira com que sorriam ou desejavam um bom dia tinha um respeito especial. Não era um respeito submisso, mas o de alguém que te reconhece e te apoia. Faz você ter mais vontade de caminhar. Passei por situações complicadas, as quais vou relatar no devido tempo, mas posso garantir que se não todos, quase todos os meus “buenos días” saíram com um sorriso sincero de quem deseja que o outro tenha um dia bom. 

Aos poucos, minha roupa de mendiga-peregrina começava a ter funções de uniforme de super herói. Com ela eu tinha alguns poderes, me identificava e não precisava me apresentar, era como se fosse muito claro quem era e isso parecia estranhamente familiar. Era bom fazer parte de um grupo outra vez. Há quanto tempo preciso provar que sou eu mesma? Quantos recomeços? E de repente, no meio do nada, não precisava dizer minha nacionalidade, minha profissão nem meu sobrenome. Alguns dizem, se querem, mas que diferença faria? Pois nenhuma, papel não anda, na verdade pesa. Estava ali e pronto. 

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Com ou sem super poderes, precisava dormir em algum lugar. Encontramos uma casa rural que era uma gracinha. Tudo simples, muito limpo e bem cuidado por um jovem casal, donos do bar que ficava logo em frente. E o maior luxo, uma terraza do lado de trás, junto a um córrego charmosérrimo. 

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Mandei uma mensagem aos dois amigos brasileiros pelo celular, avisando onde paramos. Estávamos almoçando, justo no tal bar-restaurante em frente à casa rural e imaginei que eles fossem passar por ali para nos dar um oi, comer alguma coisa, e seguir o caminho com maior quilometragem. Eles decidiram parar também e pediram que reservássemos mais um quarto para eles, o que fiz logo em seguida. 

Ainda no restaurante, conhecemos uma senhora inglesa, que morava na França, de uns oitenta anos. Sozinha e, a propósito, almoçava com sua taça de vinho. Fiquei impressionada com seu pique. Aliás, isso é uma coisa muito interessante, a maioria das pessoas que encontrei pelo caminho era mais velha. Impressionante a resistência e determinação que tinham. 

Os amigos brasileiros chegaram. Com eles e a tal senhora, que também estava hospedada no mesmo lugar, fomos para a terraza tomar sol. Descemos ao córrego de água gelada, um dos amigos garantiu que seria um alívio aos pés doloridos. Se ele sabia o que dizia eu não sei, mas que funcionou, funcionou. 

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Aproveitamos para por as meias no sol para secar também. Ficava um pouco engraçado aquele varal comunitário com meias e cuecas (porque minhas calcinhas não ia colocar ali nem morta!), mas logo relaxei e curti muito a tarde. Em plena calmaria, não reparei que algumas nuvens se aglomeravam para a tempestade que me aguardava. 

Algumas garrafas de vinho foram tomadas, nas quais tive minha considerável participação. Achei que se até a senhora octagenária tomava seu vinhozinho, não seria assim tão má idéia. Entretanto, tenho meus limites e sabia que a caminhada do dia seguinte era pauleira. Comecei a me preocupar. Na hora que a água bateu no joelho, ou melhor, no tornozelo, parei, subi para tomar meu banho, fui até o centro comprar o café-da-manhã, passei na farmácia para repor o estoque de curativos e voltei para a terraza, afinal, havíamos combinado de jantar no albergue de brasileiros, onde nossos amigos passaram mais cedo, fizeram amizade e reservaram um feijãozinho. 

Durante esse período em que saí e fui fazer minhas coisas, minha amiga e os dois amigos brasileiros continuaram bebendo. Os dois me pareciam bem, mas minha amiga já falava um pouco diferente.  

Na saída do hotel, em direção ao albergue onde fomos jantar, em determinado momento senti a cobrança dos dois amigos. Um me perguntou se ela estava bem, respondi que achava que sim e que ela que devia saber. O outro me perguntava se ela estava sob controle. Pensei, mas não disse: cassilda, você fica instigando, oferecendo bebida, cigarro e depois vem me perguntar se eu estou tomando conta? Pois não estou tomando conta de ninguém! 

Não está em mim tomar conta das pessoas. Todo mundo era maior e vacinado, ema ema ema… cada um com seu problema. Além do mais, possuía uma informação adicional, para ela era uma oportunidade de fazer algo por si mesma, e viria eu controlar? Eu, hein! 

É verdade que imaginei que essa história não passaria muito daí. No máximo ela acordaria com um pouco de ressaca no dia seguinte e, no próximo, seguraria melhor sua própria onda. Sei lá, vai ver ela precisava desabafar. Às vezes as pessoas precisam sair um pouco do controle. De mais a mais, pensei, tudo bem, o feijão resolverá isso.  

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Caminhamos em direção ao albergue de brasileiros, bem na entrada de Vega de Valcarce, para jantar. Não fazia muito tempo que estava fora de casa, mas uma saladinha e um arroz com feijão não era má idéia. 

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Infelizmente, o vinho continuava a ser oferta na casa. Ali já tinha puxado meu carro, dei dois ou três goles para fingir que acompanhava, mas eles continuaram bebendo. Fui sentindo um clima meio desagradável, não sabia muito bem porque, mas aprendi que só devo ficar onde me sinto bem.

A conversa alcoolizada com os alemães da mesa de trás me soava em tom de deboche, não pela intenção, mas pela completa falta de sintonia. Logo após o jantar, quando vi que a conversa ainda se esticaria, com mais fumaça de cigarro que me interessava, me bateu os cinco minutos e resolvi dar uma voltinha. Fui tirar algumas fotografias dos arredores. 

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Fiquei de voltar depois. Queria ficar um pouco sozinha. Liguei para o Luiz, estava preocupada. Reclamei um pouco da companhia. As pessoas me pareciam muito legais, mas simplesmente estava em outra onda. Não sou nenhuma santa, mas não fui ali para beber ou para farras, já tenho isso onde moro. Não dou conta de ter o mesmo ritmo se bebo.O dia seguinte seria o mais difícil em termos de caminhada, será que só eu achava isso? 

 

Acabei voltando ao local do jantar, afinal de contas, precisava pagar minha conta e encontrar minha companheira de quarto. Assim que cheguei no tal albergue, os rostos dos dois brasileiros eram aborrecidos, havia chegado mais um casal de italianos, amigos deles e minha amiga estava completamente lárari-larará.  

 

A confusão foi com a responsável pelo albergue que, aparentemente, havia tratado mal o casal de italianos que acabava de chegar. O amigo brasileiro acabou discutindo com ela e foi o maior barraco. Daí, a idéia era arranjar outro lugar para o casal de italianos ficar. 

 

Minha amiga amarrou num papo com a italiana e convenceu o casal a tentar achar um lugar também na casa rural que estávamos todos hospedados. Com a empolgação etílica, não deve ter lembrado que o quarto custava 40 euros e, para um casal que precisava ficar em albergue por falta de fundos, e que paga por noite entre 3 e 8 euros, talvez não fosse a melhor solução. Felizmente, o amigo brasileiro percebeu a situação e os convidou a pagar o quarto, aproveitando a desculpa de ter criado a confusão. Acho e espero que os italianos não tenham percebido o rolo que estava acontecendo. 

Resolvida essa etapa, estava crente que ia dormir, mas a idéia era ir para o bar, em frente ao hotel, para os italianos comerem alguma coisa e meus amigos darem conta de mais duas garrafas de vinho que haviam ganhado pela indicação dos novos hóspedes e pelo consumo diário. 

Minha amiga foi comprar mais cigarro com um dos amigos brasileiros. Fiquei com o outro brasileiro, que me parecia um tanto cansado também da situação, e o casal que era até simpático, mas fumava como uma chaminé. E eu pensando, que raios estou fazendo aqui? Ninguém merece! 

Sabe de uma coisa, queridos, meu cordial boa noite! Fui para o quarto dormir e pronto. 

Bom, pelo menos tentei. A cantoria alta no bar, não me deixava pegar no sono e a essa altura já estava com o saco arrastando e pensando que talvez fosse uma boa idéia sugerir delicadamente no dia seguinte que minha amiga se entrosasse com os brasileiros e me deixassem caminhar em paz. Definitivamente, naquele ritmo não queria continuar. 

Lá pelas tantas, minha companheira de quarto chegou, até silenciosa, e pensei, cassilda, até que enfim vou dormir um pouco! 

Não demorou muito tempo e ouvi o som que não queria acreditar. Acendi a luz para ver o que acontecia e o quadro que encontrei foi ela passando mal horrores. Comecei a chamá-la mas ela não falava absolutamente nada, não reagia, olhava para o vazio e ficava deitada vomitando deitada mesmo. 

Sim, já passei mal por causa de bebida, já fiquei bem ruim e também ajudei algumas ressacas alheias. Mas daquela maneira, nunca havia visto. Fiquei nervosa achando que poderia ser alguma reação alérgica ou sei lá o que. Sabia que ela tinha alguns problemas alérgicos e só torcia para que fosse apenas uma porranca. 

Sacodia, perguntava e ela não me respondia nada, só vomitava, babava e olhava para o nada. O que que eu faço? 

Desci correndo e bati no quarto dos meninos para saber o que eles haviam consumido. Ninguém me respondeu. Subi de novo e não sabia se ligava para o marido dela, se chamava uma ambulância…  mas vou chamar que ambulância? Estamos no meio do nada! 

Na falta de qualquer outra opção, pensei, ela não é louca, não deve ter consumido alguma coisa que não pudesse, isso só pode ser álcool. Consegui sabe-se lá como, colocá-la embaixo do chuveiro e, enquanto ela melhorava na água, cobri o vômito da cama como pude. 

Ela voltou para cama e deitou. Não me parecia nada bem, mas pelo menos estava reagindo. Entretanto, pouco depois voltou a passar mal. Meu medo é que, de acordo com a posição, ela sufocasse, isso é perigoso. 

Não aconteceu, mas passei o resto da noite com a luz acesa e tomando conta. Uma  mistura de preocupação, raiva, medo e uma vontade enorme de sair correndo. 

Logo que amanheceu, meu despertador tocou e ela se mexeu. Perguntei, melhorou? E finalmente ela me respondeu lúcida, melhorei. Bom, então preciso dormir um pouco, não preguei os olhos durante a noite, talvez seja melhor ir só até O Cebreiro e ficar por lá. Míseros 13 Km, mas era uma subida íngrime e não achava que poderia mais do que isso. 

De manhã, não sei como ela aguentou levantar e, sinceramente, estava muito aborrecida para perguntar. Estava numa mistura de preocupação por ela, pena dela levantar daquele jeito, mas ao mesmo tempo muito brava por ter me envolvido naquilo tudo. Tomei de cara uma aspirina e me arrumei o mais rápido que podia. No quarto não dava para continuar, não estava nada agradável. 

Como soldado que se prepara para a batalha, fiz o melhor curativo para os pés de toda a viagem. Coloquei um suporte no joelho mais fraco. Peguei os dois sticks de caminhada, ao invés do único que estava usando. Chovia razoavelmente e, para complicar um pouco, não havia levado capa de chuva. Tive uma idéia que foi providencial, havia levado um tipo de toalha, muito leve e de alta absorção (viva a tecnologia!), pois coloquei a tal toalha na frente do corpo, presa pelas alças da mochila. Essa, por sua vez, tinha uma capa própria que a cobria e protegia as roupas e minhas costas. Na cabeça o chapéu e no peito a concha de peregrino. Só faltou pintar a cara de vermelho. Nesse dia, estava para guerra. 

Antes de sair, quando fui lavar as mãos, reparei na embalagem do sabonete que dizia algo como: a natureza te protege. Essa frase me salvou ou, no mínimo, me divertiu em alguns momentos mais tarde. 

Fui entregar a chave ao casal dono da casa rural, antes de ir embora. Que vergonha. Não conseguia olhá-los nos olhos só de imaginar quando fossem limpar o quarto. Espero que não se lembrem do meu rosto. 

Encontrei os dois brasileiros e o casal de italianos tomando café, mas nem tinha vontade de cumprimentá-los, estava aborrecida com eles também. Mal humorada, precisava por a culpa em alguém e, em um julgamento precipitado, achei que eles poderiam ser uma má influência. 

Saímos as duas em direção à subida do Cebreiro, sem tocar no assunto daquela noite infernal.  

Lembrei do meu amigo que me disse que raiva pesa nos ombros e resolvi tentar deixar aquilo para trás. Era difícil, mas ia tentando lembrar de músicas ou me concentrar no caminho. 

Em uma parte íngrime da subida, me escapou pela boca: isso deve servir para alguma coisa! A legenda seria, caraca, que idéia de jirico! Ela riu, e notei que já não estávamos aborrecidas, outras prioridades nos preocupavam. 

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Muitos sentimentos contraditórios passaram pela minha cabeça nesse dia. Às vezes estava cansada e reclamando da dificuldade e, de repente, via uma paisagem tão interessante que simplesmente me esquecia do que estava pensando antes. 

Não tenho certeza absoluta, mas tenho quase certeza que foi nesse trecho que uma senhora cantou para a gente. Assim, do nada, a cumprimentamos e ela começou a dizer que o próximo pueblo já estava bem perto, como se quisesse nos consolar. E daí começou a cantar um refrãozinho afinado sobre a mãe dela. Que coisa bonita! 

Por outro lado, quanto mais subíamos, no meio de toda aquela chuva, a temperatura caía vertiginosamente. Chegou pelo menos a uns 5 graus, minhas mãos se queimaram de frio e a roupa molhada não ajudava em nada.

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Mas tudo bem, chegamos ao Cebreiro e fui logo procurar hospedagem. Não tinha, o lugar é pequeno e a cidade, em função de toda aquela chuva, já havia lotado. 

Estava no meio da rua, na chuva, sem ter onde ir, molhada, com frio, com fome, sem dormir durante à noite, sem poder desabafar com ninguém. Em outras palavras, fodida mesmo!  

Por duas vezes passei ao lado de um taxi e não foi fácil resistir a tentação de resolver aquela história de uma vez por todas. Quem iria saber? Que diferença faria? Por que não entrava na bosta daquele carro de uma vez? 

Porque não, eu saberia. E não ajudava em nada me sentir uma vítima. O que de fato poderíamos fazer? 

Entramos meio atordoadas em um restaurante para comer, tentar secar um pouco a roupa e pensar no que fazer. Liguei para o Luiz séria e pedi ajuda. Pedir ajuda me custa muito. Tinha vontade de desabafar, chorar, de contar a noite toda, mas não dava, precisava me concentrar no que era importante. Pedi para ele tentar reservar para a gente qualquer lugar em Alto do Poio, que ficava a mais ou menos 10 km dali. Era outra subida, mas fazer o que, era o lugar mais próximo com algum tipo de hospedagem. Meu medo era que, como eu, outras pessoas tivessem chegado ao Cebreiro e, na falta de hospedagem, tivessem seguido viagem mais cedo.  

Às vezes a gente fica assim, egoísta e competitiva. Quando vemos que muita gente começa a passar antes, pensamos que pode ser concorrência para um bom lugar onde dormir. É feio, mas é o instinto de sobrevivência que fala mais alto, sinto muito, farinha pouca, meu pirão primeiro. 

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Depois de almoçar, fui a uma das lojas do pueblo, onde comprei um agasalho seco e uma capa de chuva vermelha enorme que, ao cobrir a mochila, me deixava parecida a uma mistura de chapeuzinho vermelho, corcunda de notre dame e um cruz credo. 

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Ainda na loja, vi um dos amigos brasileiros conversando com minha amiga, acho que estavam almoçando por ali, mas a essa altura, tinha pressa. No caminho, fui pensando, por que fiquei com raiva deles? Eles não me fizeram nada de mal. Ninguém obrigou ninguém a beber nem a fazer nada. Pelo contrário, em nenhum momento passaram o limite do respeito. Cada um estava na sua própria onda, e a verdade é que eram divertidos. Na próxima parada, revejo minha postura em relação a isso. Que diferença iria fazer, a noite já havia passado e estávamos todos sãos.  

A subida ao Alto do Poio me pareceu ainda mais dura. Luiz havia conseguido reservar um quarto na única pousada do lugar e nos dirigimos para lá como quem busca um oásis. 

Não gostei do cheiro já na porta e o dono, um espanhol dos mais grosseiros, me recebeu com aquela cara de como assim? Mas a reserva era para amanhã… Respirei fundo e disse, não, foi para hoje. E afinal, há um quarto? Ele respondeu que sim e fiquei me perguntando por que diabos então estávamos naquela discussão absurda. 

Pedi para ver o quarto e ele me disse que não ficava mostrando quarto para ninguém, só mostrava a quem fosse ficar. Respondi no mesmo tom que só ficaria depois de ver o quarto. Nesse momento, já desconfiava que não ficaria ali. Chamei minha amiga que não estava ouvindo a conversa e perguntei, você está atenta ao que está acontecendo? É melhor você participar dessa conversa porque não sei se vou ficar aqui, você consegue continuar? 

Subimos para ver o tal quarto onde descobrimos que o banheiro era compartilhado, informação diferente da que ele havia me dado antes de subir. Respondi indiferente que não ficaria e pouco me importou o que ele pudesse dizer depois. Descemos ao bar, que também era dele, e resolvi tomar um café, uma água e retocar os curativos para seguir viagem. Difícil explicar, mas ele não me atingia, tanto que continuamos alguns minutos por ali, como se ele não existisse. Incrivelmente, ele se sensibilizou e tentou ser mais educado, se ofereceu para tentar reservar outro lugar, já me adiantando que não encontraria nada. Respondi educadamente, mas firme, que não precisava. Eu não precisava. 

Saí e fui ligar para o Luiz, não tive uma chance de falar com ele sozinha durante o dia todo e estava praticamente explodindo. Contei a ele o que aconteceu à noite e a via sacra que estávamos passando. Ele me perguntou se queria que fosse me buscar. Como assim me buscar? Do que você está falando? Eu não fiz nada errado, estou preparada e pronta para seguir viagem. Tinha vontade de chorar, de xingar, mas nem passava pela minha cabeça desistir ali. 

De longe, avistei os amigos brasileiros chegando, o casal de italianos também já estava no mesmo bar, que ficava no andar de baixo da tal hospedagem. Minha raiva boba havia passado e achei bom encontrá-los. Foi confortante ver rostos conhecidos. Ao mesmo tempo, me perguntava se eles também não teriam se aborrecido com minha pouca atenção ao longo do dia. Quando não gosto de alguma coisa fica escrito na minha cara, não é possível que eles não tivessem notado. Dificilmente não me ouviram bater na porta de madrugada, quando queria saber o que haviam consumido e decidir o que fazer, claro que escutaram. Podiam não saber o que queria, mas escutaram, e também não tocaram no assunto no dia seguinte. Nem eu. Talvez, como entendi depois, isso não fizesse mais nenhuma diferença. 

Voltei ao bar com aquela cara de bunda e pedi um café. Avistei a placa em direção à Triacastela, o próximo destino com hospedagem, mais 14 km.  

O que aconteceu foi que, ao me sentir no fundo do poço, pensei, pior não vou ficar. Havia passado do limite. Minhas coisas estão secas na mochila, meus pés estão bem, estou com saúde e não tenho mais frio. E sabe de uma coisa, se tiver que dormir na rua, que se dane, também tenho um saco de dormir. A natureza não ia me proteger? Pois farei minha parte, mas só farei o que realmente precisar. Incrivelmente, me acalmei e fui invadida por uma onda de otimismo. 

Nossos amigos também tinham por destino Triacastela e perguntei se poderíamos acompanhá-los. Nos receberam de bom grado e me trataram com generosidade maior do que a minha pela manhã. 

Ainda ouvimos meia dúzia de pérolas desaforadas que o dono da hospedagem distribuía aos úmidos recém chegados. Como, por exemplo, dizer a uma senhora com idade para ser minha mãe que jogaria sua bicicleta no lixo se ela perguntasse mais uma vez onde deveria guardá-la. A propósito, o preço que deu ao quarto já era o dobro do que havia me dado. E a historinha da “reserva, mas que reserva? “ foi repetida pelo menos umas três vezes! 

Ainda no mesmo bar, os brasileiros contaram que, ao sair de Vega de Valcarce, chovia de cair o céu. Passaram por um morador, que cuidava de sua horta, com um guarda-chuvas, como se nada estivesse acontecendo. O cumprimentaram com um buenos días, no que ele respondeu com simplicidade e bom humor: poco úmedo. Putz! Caindo o mundo e ele responde tranquilamente que estava um pouco úmido. Isso se tornou outra piada do caminho e as situações mais difíceis eram descritas como “poco úmedo”. 

Quer saber, fiquei feliz em sair dalí, mesmo que estivesse un poco úmeda . Saímos em seis pessoas, em direção à Triacastela. Segui a viagem como nova, as pernas andavam sozinhas. Parecia um robozinho motorizado com os dois sticks, a gente anda engraçado com eles, mas ganha muita velocidade e distribui melhor o peso.  

Estranho, desenvolvi um jeito de pensar que fazia ter a sensação que os pés levitavam. Era só na minha cabeça, é óbvio, mas funcionava. Com o tempo, aprendi a fazer isso também com a mochila. 

Paramos umas duas vezes para descansar. Na primeira, liguei para o Luiz afim de tranquilizá-lo. Queria que ele soubesse que ia ficar tudo bem e que não estava sozinha. Acho que não consegui ser assim tão convincente, mas era o máximo que podia fazer naquele momento. O amigo brasileiro achava que não deveria ter ligado para ele antes, pois quem está fora imagina o quadro ainda pior e fica preocupado. Concordava com ele, entretanto, com quem mais poderia desabafar naquele momento? Era com Luiz que contava. Depois até me arrependi em preocupá-lo, por isso liguei de volta. Enfim, era tarde e o que estava feito já estava. 

Foi a primeira vez que percebi que meu agasalho tinha uma enorme seta amarela, como as que sinalizam todo caminho, e eu parecia um sinal de trânsito. A minha amiga também tinha uma igual, de outra cor. A verdade é que entrei na loja morta de frio e pedi qualquer coisa quente que coubesse em mim, o vendedor me mostrou aquela, coube, aquela foi. 

Nisso, passa uma manada de vacas! Bem do nosso lado. Fui eu e o amigo brasileiro tentar tirar fotos entre elas. Não estava muito à vontade, elas são chifrudas e minha cara na fotografia está mais desconfiada que outra coisa. Não sabia se olhava para câmera ou se tomava conta das vacas.  

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Essa cena foi se repetindo ao longo do caminho, em outros dias também. Há momentos em que precisamos encostar no canto da trilha para as vacas passarem. Eu não gostava muito dessa história e acho que era a que mais se escondia. No final, estava um pouco mais confiante, não vou dizer que eram minhas melhores amigas, mas a proximidade delas não me assustava mais. Brincava que até Santiago sairia abraçada com uma. 

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Muito legal é o trabalho dos cachorros, verdadeiros profissionais, que ajudam aos pastores a colocar ordem na casa. São eles que acompanham pela lateral do rebanho, sem deixar que as vacas saiam da fila e se percam. E uma história hilária, uma vez, estávamos andando em grupo, próximo a um desses rebanhos, onde havia um cão pastor. Estava ao lado de um dos amigos e fui desviar de uma poça ou algo assim. O movimento do meu corpo foi como se fosse sair da fila. Dei de cara com o cachorro, que latiu bravo para mim, me enquadrando direitinho e me fazendo voltar! Gente ou vaca, pode ir para fila! E eu fui, vou discutir com o chefe? Eu, hein! 

Devido a essa frequência, digamos bovina, parte do nosso trajeto passou a ser conhecido como “circuito lama ou bosta”, onde as opções que haviam são essas mesmo. Você escolhia, piso na lama ou piso na bosta? Às vezes, não havia escolha e outras era uma única massa orgânica marrom escuro esverdeado. 

E quando era na subida? Naquele esquema que você quer respirar fundo para ganhar fôlego e entra aquele cheiro de merda pelas suas narinas? 

Diante dessa situação, me lembrei da historinha do passarinho na bosta. É assim, um passarinho estava com frio e começou a piar reclamando para uma vaca. Ela ficou com pena, foi lá e cagou na cabeça do passarinho. Ele se assustou, mas percebeu que no meio daquela bosta até que estava quentinho e cômodo. Então, começou a piar outra vez, agora de felicidade. Passou um lobo que o escutou, o tirou da merda e o comeu. Moral da história: nem sempre quem te põe na merda é seu inimigo, nem sempre quem te tira da merda é seu amigo, e finalmente, quem está na merda não pia! 

Ia caminhando e rindo sozinha. O versinho imaginário marcava meu ritmo, quem-tá-na-mer-da-não-pi-a. 

Estava bem fisicamente, só diminuí o ritmo um momento para acompanhar o último caminhante que estava um pouco machucado, mas melhorou logo em seguida. 

Umas nove e meia da noite, entramos por Triacastela! Quase 40 Km depois, caraca, conseguimos! 

Ficamos em um hostal simples, limpo, com banheiro privativo e atendimento educado. A sensação era de estar em um hotel 5 estrelas! O casal de italianos ficou logo do lado, em um albergue que tinha o luxo de possuir máquina de lavar e de secar. 

Sorte a deles, porque a nossa roupa, lavada tão tarde, obviamente não secou. Mas vamos por partes. 

Tivemos que correr para pegar algum restaurante aberto e jantar. O estômago colava nas costas. Bom, correr é maneira de dizer, andávamos como uns zumbis de filme de terror. Aquela coisa mancante que parece que vai cair um pedaço. 

Muito engraçado isso. É impressionante a capacidade do corpo em se recuperar durante a noite de sono. Quando a gente chega na cidade e põe as papetes, parece que não vamos conseguir caminhar direito por uma semana. Mas no dia seguinte, assim que a musculatura esquenta, lá estamos nós, a pleno vapor. 

O jantar foi ótimo! Animada, acompanhei no vinho, sem exageros, sem culpa e sem cobranças. 

Sei que aquela noite tive o sono dos justos. Dormi pesado, não tinha mais raiva de ninguém, nem de mim. Tem coisa mais importante na vida para a gente pensar. 

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