Começando pelo começo: procurar casa para morar em Londres!

Quem mais resolve mudar de país na época das festas de fim de ano? Fala sério, como diriam meus conterrâneos cariocas: tá de sacanagem comigo, aê!

Comecei a escrever essa história no dia 28 de dezembro, sem casa para morar em 2013. As imobiliárias todas de férias e com viagem marcada para Londres no dia 2 de janeiro. Menos mal que teremos até o fim de janeiro para tirar os móveis e liberar o apartamento de Madri. Mas dia 1º de fevereiro, tudo isso precisa estar resolvido e a mudança dentro do novo apartamento britânico!

Quem mais resolve mudar de país na época das festas de fim de ano? Fala sério, como diriam meus conterrâneos cariocas: tá de sacanagem comigo, aê!

Comecei a escrever essa história no dia 28 de dezembro, sem casa para morar em 2013. As imobiliárias todas de férias e com viagem marcada para Londres no dia 2 de janeiro. Menos mal que teremos até o fim de janeiro para tirar os móveis e liberar o apartamento de Madri. Mas dia 1º de fevereiro, tudo isso precisa estar resolvido e a mudança dentro do novo apartamento britânico!

Tudo bem, porque os ingleses são super flexíveis, né?

É assim, na nossa vida a gente não pode respeitar os prazos normais que as atividades necessitam. É ao contrário, a gente tem um cronograma com datas limite e eu que me vire para fazer caber!

Então, enquanto isso, o que poderíamos fazer? Uma festa, lógico!

Sim, no meio desse caos e com a casa meio de cabeça para baixo, resolvi fazer um Réveillon-despedida. Não tem problema, os amigos são todos de casa e a gente se vira. É um ritual de passagem. São oito anos em Madri, é importante encerrar um ciclo. Além do mais, a festa de Ano Novo para mim é a melhor de todas! É fundamental iniciar uma etapa com energia renovada e, dessa vez especificamente, uma vida literalmente nova.

Mas sobre a festa, conto depois, era só para descrever o contexto.

Vamos a questões práticas, como procurar apartamento em Londres?

Fui para internet, achei vários websites. O meu favorito foi o http://www.zoopla.co.uk/to-rent/property/london/ . O que achei legal foi a possibilidade de eleger não só a região em geral, como especificar suas delimitações, através do “map view”. Há outros que também andei olhando http://www.primelocation.com/to-rent/property/london/  e http://www.rightmove.co.uk/property-to-rent/London.html .Uma vantagem de todos esses é o fato de haver fotos e detalhes dos imóveis.

Fiquei vesga de tanto apartamento que vi fotografia! Acho que posso passear por Londres agora e saberei descrever quase todas as plantas de apartamento de dois dormitórios pela cidade.

O preço é ultrajantemente caro! Quem pensa em morar pela cidade, pode ir se preparando! O custo de aluguel é o dobro que Madri, para um apartamento com a metade do tamanho.

Assim que Bianquinha mal chegou em um apartamento com área útil parecida ao que tinha no Brasil e lá vamos nós nos desfazer de um monte de coisas outra-vez-de-novo! Exercício de desapego, lembra? Exercita… exercita…

A última vez que fiz algo parecido tem uns 10 anos, quando fomos de São Paulo para Atlanta. Confesso que agora, aos 43 anos, está me custando um pouco mais abrir mão do conforto.

Mas voltando a parte prática, como fizemos para caçar uma casa?

Alugamos um apartamento mobiliado, um studio, por uma semana para chegar e nos localizar. Casa de amigos é sempre uma possibilidade, mas geralmente, em Londres o pessoal mora em locais pequenos e com pouca estrutura para receber (lembra que os preços são abusivos, né?). Depois, a gente estaria em uma rotina meio pauleira para achar um apartamento a jato e não estávamos com muito tempo para vida social, infelizmente.

Usei uma empresa chamada “shortlet” (aluguéis curtos, eles trocaram de website). Alugam pequenos apartamentos mobiliados pela cidade a um preço bastante acessível. Acho que compensa para quem vai de férias também e não quer gastar muito com hotel. Foram honestos e as fotos do apartamento correspondiam à realidade. Não é nada de luxo, até bastante simples, mas limpo e bem aquecido. Eles também oferecem serviço de “mini cab” ou “transfer”. É o seguinte, taxi em Londres, daqueles que saem nas fotos turísticas, grandes e tradicionais, é bastante caro. Mas existe essa opção de carros que parecem mais aos nossos taxis normais que fazem esse trabalho a um preço melhor, mas tem que reservar. Enfim, esse pessoal faz o pacote completo, se você quiser. Buscam e levam ao aeroporto e alugam os apartamentos.

Bom, admito que me deu um pouco de medo no início, é que nos buscou um russo. Não sei nem explicar muito o porquê, mas tenho um medo que me pelo de máfia russa! Tento não ser preconceituosa pela origem, meu problema é que tenho muita dificuldade em entender os valores e comportamento do leste europeu em geral, por absoluta ignorância da minha parte. Não conheço os códigos.

Mas voltando ao meu medo sem sentido, nos buscou um russo, até relativamente simpático e nos levou para o imóvel alugado. Só que a entrada do edifício era em um tipo de beco meio escuro e esquisito. De dia, nem era tão ruim, quando você conhece, tudo bem, mas para a gente que estava acabando de chegar, sem saber direito sobre aquela zona e tarde da noite, foi um pouco assustador.

Ainda por cima, o que só entendi no dia seguinte, eles estavam reformando uma série de pequenos apartamentos nesse tal edifício. Assim que havia material de construção pelo caminho e dava uma impressão inicial ruim.

Felizmente, estava com o Luiz, porque se estivesse sozinha ia me borrar toda achando que estavam me vendendo como escrava branca! E o pior, por preço baixo, afinal já sou meio usadinha, né?

Mas isso foi fantasia da minha cabeça, nada de mau aconteceu e no final da semana até me sentia bastante segura. Russos alugavam os apartamentos e árabes faziam as obras, ou seja, desde que pagássemos direitinho nossa parte, o que fizemos logo ao chegar, nenhuma chance da gente ser assaltado no recinto!

Resumindo a ópera, os primeiros dias de busca de um apartamento definitivo foram bastante estressantes. Nem tanto pelo ato em si, mas pelo pouco tempo que tínhamos disponível. Basicamente, uma semana para resolver tudo.

Finalmente, encontramos um imóvel que nos interessou muito e fizemos nossa proposta. Levou alguns dias para sermos aprovados. Examinaram nosso crédito… se Luiz estava trabalhando mesmo onde disse que estava… confirmaram o salário citado… pediram referências de antigos proprietários de quem alugamos etc. Não pedem fiador, mas pedem entre 2 e 3 meses de fiança.

Uma coisa importante de saber é que, em Londres, é bastante normal darem o preço do aluguel por semana e não por mês. Há também um imposto anual que paga o inquilino (e não o proprietário), correspondente a mais ou menos 1/3 do valor de um aluguel mensal.

Assinamos o contrato em um sábado, pela hora do almoço. Sendo que no dia seguinte eu embarcaria para Madri de volta, afim de organizar a mudança. Ou seja, nos 45 minutos do segundo tempo! Mas o importante é que funcionou.

Os últimos dias, quando já tínhamos o apartamento definido e só aguardávamos a parte burocrática, ficamos hospedados na casa de um amigo do Luiz do tempo que eram adolescentes ainda (e isso faz tempo pacas!). Foi bom porque tinha mais jeito de casa, fiquei mais à vontade e pude cozinhar um pouco. A única coisa é que ele morava longe do centro, pelo que entendi, o que a grande maioria  do pessoal faz. Mas como já não estávamos mais na caça ao apartamento, não atrapalhou em nada, pelo contrário. Foi com ele que saímos a maior parte dos dias, para jantar, fazer compras ou ir ao Ikea (e sim, o Ikea de Londres também lota!). Ajudou bastante.

No sábado, logo após assinar o contrato de aluguel, na hora do almoço, fomos com esse amigo e mais duas amigas comemorar em um pub. Uma delas, nós conhecemos quando ela morou em Madri há alguns anos, a outra era amiga de amiga, só havíamos nos falado por internet e, por coincidência e porque o mundo é minúsculo, as duas se conheciam! Foi bem legal, estava mais relaxada por ter conseguido onde morar e deu para me distrair e me sentir chegando na cidade com algumas dicas importantes.

E, vamos combinar, chegar em outro país conhecendo alguém faz toda a diferença do mundo. E conhecendo gente boa, muito mais!

Aliás, esse negócio de amigo de amigo está até divertido. O bom é que já temos alguns amigos que gostamos morando na cidade, mas além desses, houve algumas pessoas que, ao descobrir que nos mudávamos, perguntavam se queriam que apresentasse alguém que eles conheciam e também morava por aquelas bandas. Lógico que eu disse que sim para todo mundo e saí me apresentando virtualmente para metade de Londres! Bom, tudo bem, estou exagerando um pouco, mas não muito…

Resultado, comecei a fazer um monte de amigos e, de momento, achando o pessoal bem bacana. Vamos ver quando conseguiremos nos conhecer pessoalmente. Também estou doida para encontrar os que já conhecemos. Enfim, louca para fazer uma festinha de inauguração!

Infelizmente, acho que precisarei me policiar um pouco e não chutar o pau da barraca. Londres parece bem mais rígida e tranquila que Madri. As pessoas não estão acostumadas a ruído e horários tardios. No meu contrato de aluguel, por exemplo, proíbe cantar e tocar instrumentos musicais em casa, é mole? Bom, vamos pouco a pouco, também não quero chegar e arrumar logo confusão.

Hoje é domingo, 13 de janeiro e acabei de desembarcar em Madri. De volta à terrinha para organizar a mudança. O plano A é sair no dia 21, de mala e cuia. Depende um pouco de conseguir as autorizações para a mudança e não sei como é esse esquema pelas terras britânicas, aqui é relativamente fácil, desde que você não more bem no centro da cidade.

Vim sozinha, Luiz vai trabalhar nos EUA essa semana e vem para Espanha no sábado, para me ajudar com a saída dos móveis de casa.

Realmente, torço para que nosso cronograma dê certo, porque é bem ajustado. Mas pelo menos, por enquanto, conseguimos cumprir os prazos.

Um casal de amigos me buscou no aeroporto. Ainda bem, porque, além de já não ter mais carro, cheguei meio destemperada. Nem a chave de casa conseguia encontrar! Duvidei de que botão de elevador deveria tocar. Estou meio lá e meio cá. Com vontade de chegar na minha casa que não é mais minha, de ir para a outra casa que ainda não é minha e sabendo que minha mesmo não é nenhuma das duas. Ou talvez, só esteja com sono.

Não reclamo, tenho muita sorte, recebo ajuda sempre que preciso e por isso agradeço. Só estou um pouco cansada mesmo e meio dividida. Agora a ficha está realmente caindo que vou, minha vida vai mudar, meu endereço, minha língua e meus caminhos.

O jogo já começou e só quero chegar ao fim da próxima partida com fôlego, inteira e maior. Apenas peço saúde para todos nós. O resto, a gente vai planejando ou improvisando o melhor possível.

De caracol a camaleão

Há alguns anos atrás, escrevi uma crônica sobre como me sentia em ser uma “cidadã do mundo”. Basicamente, o que antes soava como internacional e cosmopolita, naquele momento me fazia questionar sobre minha identidade. Achava que um cidadão do mundo era um cidadão de canto nenhum.

 

Muita água rolou nesse período, era o primeiro de oito anos que vivi em Madri, e nem era minha primeira grande mudança. Sigo tendo meus problemas e questionamentos, mas sei muito bem quem sou. E mesmo que mude, o que é bastante provável, já não dói.

 

Tenho, literalmente, uma nacionalidade a mais, sou brasileira e espanhola. Falo, melhor ou pior, cinco idiomas. Caminho para meu endereço número 37, entre cinco países e oito cidades. Dou as estatísticas apenas como referência e para manter a memória registrada, porque já começa a me falhar.

 

Há anos meu país é minha casa, meu lar é minha cama, meus amigos são minha família, minha família de sangue é meu porto seguro e Luiz é meu norte (às vezes sul, leste, oeste…).

 

Descobri que não basta carregar a casa nas costas, o que sigo fazendo, mas a gente também precisa se adaptar à paisagem. Na verdade, precisar, não precisa, mas torna a experiência mais intensa e enriquecedora.

 

Pratico o desapego regularmente, por necessidade ou por disciplina, ou talvez porque seja minha natureza. Nunca passei grandes privações e nem sempre por mérito meu, tenho sorte, mas também nunca sofri muito tempo pelo que não podia ter. Minha linha de decisão é bastante primária e simples: quero ou não quero, posso ou não posso. O resto é circunstancial.

 

Não defendo que essa seja a melhor ou mais certa maneira de ser, há infinitas! Mas para quem pensa em optar por uma vida nômade, é melhor saber onde está se metendo, porque nem tudo são flores e aventuras. Ser razoavelmente livre dá o maior trabalho!

 

Em janeiro de 2013, desembarcaremos em Londres, nossa próxima estação. Como de costume, só temos data de chegada.

 

E quem quiser compartilhar essa próxima viagem, que seja bem vindo!