Passos para mudar do exterior para o Brasil, textinho chato, porém informativo

Pelo título, se nota que essa é uma crônica burocrática. Foi escrita muito mais como registro e informação a quem esteja se planejando para trazer a mudança de volta para o Brasil. Assim que vou logo avisando, é um saco! Já mudei para Estados Unidos, Espanha e Inglaterra e, sem sombra de dúvidas, o lugar mais complicado para levar uma mudança é o Brasil!

O maior problema são os portos aqui, que estão colapsados e corrompidos. Tudo é feito para ser complicado.

Faço um pouco o papel de advogado do diabo, é verdade que há espertinhos tentando burlar a fiscalização e entrar com mercadoria importada. Por que? Porque há uma diferença na tributação. Você precisa provar que morou no exterior mais de um ano e teve renda suficiente para adquirir os bens a declarar que irá trazer para ser isento de impostos. Caso contrário, é considerado importação e o valor pago é muito, mas muito mais alto! Portanto, há casos, por exemplo, de gente que quer trazer containers de produtos para si mesmo ou para comercializar e contrata um “laranja” que esteja voltando para o país para colocar no nome na mudança. Isso acontece, mas francamente, duvido muito que seja a maioria, principalmente as pessoas comuns, como eu, que simplesmente querem trazer seus móveis e utensílios claramente usados. Ou seja, há uma pitada do justo pagando pelo pecador sim, mas também uma conveniência em se criar dificuldades para se vender facilidades.

Enfim, nós contratamos uma boa empresa de mudanças, porque às vezes o mais barato sai bem caro. Escolhi uma brasileira que faz mudanças internacionais, porque acredito que eles possam ter melhores contatos e, em teoria, conhecem bem o processo dentro dos portos.

O primeiro passo é eles fazerem uma vistoria na sua casa para avaliar o tamanho do container. Você paga por volume cúbico. Como já estou mais do que careca em fazer mudanças, já sei quanto tem minhas coisas em m3 e é mais fácil negociar. Até aí, normal.

As diferenças começam a seguir. Primeiro, você não pode ter estado no Brasil por mais de 45 dias no último ano. Caso contrário, paga imposto!

Outra coisa importante é que, antes de sair do país estrangeiro, você precisa de um “Atestado Consular” para provar que viveu mais de 12 meses naquele país. Ou seja, você precisa se informar e ir até um consulado brasileiro pedir esse documento. No meu caso, precisei levar extratos bancários, contra-cheques etc dos últimos 12 meses corridos. Não adianta ser um documento de quando você chegou e outro do final do período. É um calhamaço de papéis mesmo que você precisa demonstrar.

Muito bem, com isso, você pode despachar a mudança e viajar para o Brasil. Tem mais um monte de documentos a serem providenciados, mas já em solo brasileiro.

Quando você despacha sua mudança, não precisa ainda ter um endereço definido, apenas a cidade para onde vai se mudar. Entretanto, para sua mudança ser liberada no Brasil você precisa, necessariamente, comprovar um endereço no seu nome.

O tempo de transporte por barco atravessando o Atlântico, por exemplo, é uma média de 30 dias. Pode ser um pouco menos, pode ser um pouco mais, mas na média é um mês. No meu caso particular, minha mudança saiu de casa em Londres no dia 6 de novembro e chegou ao porto de Santos no dia 27 de novembro, ou seja, cerca de 20 dias. É mais ou menos esse tempo que você tem para providenciar toda a documentação necessária dentro do Brasil. De preferência, antes, justamente para evitar maiores atrasos.

Qual a documentação exigida para a liberação no Brasil? O que você deve entregar à companhia de mudança para que te represente?

– 1 cópia do passaporte (todas as páginas, incluindo folhas em branco)
– 2 cópias da carteira de identidade
– 2 cópias do CPF
– 2 cópias do cartão de embarque para o Brasil
– 2 cópias do email da compra da passagem aérea para o Brasil
– 1 cópia de comprovante de residência para onde irá a mudança no Brasil
* Exceto pelo comprovante de residência, todas as cópias acima devem ser autenticadas
> Formulários com modelos fornecidos pela companhia de mudança, todos precisam ser preenchidos digitados em computador e assinados com firma reconhecida em cartório:
– 3 originais de procuração para os despachantes da empresa contratada te representarem
– 1 procuração para agenciamento
– 1 declaração que não passou mais de 45 dias no Brasil nos últimos 12 meses
– 3 originais de declaração de bagagem
– 3 originais de declaração de residência no Brasil
– 3 originais da DSI, Declaração Simplificada de Importação (lista de bens em português, com a mesma quantidade de ítens relacionados no inventário de embalagem da mudança, com valores em dólares para cada ítem)
– 1 original da declaração de residência no exterior

Com toda essa documentação entregue, a partir da chegada do navio, seguem as etapas de liberação:

– Credenciamento: registro do nome no sistema da alfândega autorizando o dono dos bens a receber um processo de importação. Essa fase do processo leva em torno de 15 dias úteis para ser concluída.

– Liberação do conhecimento de embarque marítimo, Registro do conhecimento de embarque junto a Marinha Mercante e Pedido de isenção do Sunaman: tal solicitação leva em média 02 dias úteis para ser realizada e concluída.

– Registro da lista de bens – DSI no sistema da alfândega: tal procedimento leva 01 dia útil para ser concluído.

– Apresentação dos documentos a alfândega e análise documental: essa fase do processo leva em torno de 10 a 15 dias úteis para ser concluída.

– Agendamento e realização da vistoria física dos bens e vistoria do Ministério da Agricultura: esse procedimento leva em média 10 dias úteis para ser realizado.

– Conclusão do processo e emissão do documento de carregamento – CI: após conclusão da vistoria física se apurado que o declarado na documentação esta de acordo o próximo passo no processo é a conclusão e autorização de retirada dos bens da área portuária. Esse último passo leva em média 02 dias úteis para ser realizado.

A companhia de mudanças te avisa que os prazos acima mencionados são estimados, sujeitos a alterações sem prévio aviso da parte das autoridades responsáveis. Além disso esses procedimentos são os que seguem o padrão, porém os fiscais podem a qualquer momento alterar os mesmos e, consequentemente, teremos alteração nos prazos estimados informados.

Assim que, como se nota, chegar no porto é fácil, o que pode encrencar é a liberação da mudança. Se você fizer uma conta rápida, verá que, seguindo a ordem normal, após a chegada, leva-se mais cerca de 40 dias em todo o processo.

Nesse exato momento, dia 16 de dezembro, já entreguei toda a documentação exigida e nos encontramos no segundo passo do processo de liberação. Ou seja, a mudança já chegou, nosso cadastramento foi concluído e foi dada a entrada na liberação do conhecimento de embarque marítimo.

Enfim, é complexo, e como disse, fundamental fechar o contrato com uma empresa de boa reputação no mercado. Temos passado por todas essas etapas com um atendimento bacana, com alguém nos explicando e informando em que posição estamos. E ainda assim é difícil! Imagina com uma empresa ruim?

Minha recomendação é pesquisar bem, negociar tudo por escrito, pedir referências aos amigos e se armar de muita paciência!

A delícia de alugar apartamento no Brasil!

Ok, serei justa, não é um problema apenas brasileiro, alugar apartamento é um saco em qualquer lugar do mundo! É sempre mais caro do que você queria pagar, nem tudo é do jeito que você gostaria, enfim, não é de todo simples.

Entretanto, cada lugar tem suas peculiaridades e, vamos combinar, aqui há algumas que dá vontade de arrancar os cabelos do sovaco!

Ah, Bianca, fala sério, agora que você descobriu isso?

Sim, só agora! Porque em toda minha vida adulta no Brasil, nunca aluguei um imóvel por longo prazo. Ao sair da casa dos meus pais, quando vim morar sozinha em São Paulo, ou ficava em flats ou dividi apartamento com uma amiga (e o apartamento era dela). Casada com Luiz, sempre comprávamos os imóveis em que vivíamos. Assim que tinha uma idéia das complicações sobre aluguéis, mas só de orelhada, nunca vivi na pele.

O fato é que a gente precisava de um endereço em São Paulo para enviar a mudança, caso contrário, nada é liberado. Você até consegue que a mudança saia do país estrangeiro, mas para ser liberada pela Receita Federal, é obrigatório comprovar um endereço no país.

Ainda morando em Londres, saí pesquisando na internet como uma louca no Zap Imóveis. Fazia um filtro e selecionava os melhores para Luiz visitar. Afinal, ele se instalou aqui quase dois meses antes de mim.

O plano A era conseguir o apartamento e encomendar os eletrodomésticos. De maneira que, quando chegássemos de vez com os gatos, nem iríamos para flat, já poderíamos ir direto para nosso novo endereço. Veja bem, para quem não prestou atenção, vou repetir, Luiz veio quase dois meses antes de mim! Tempo suficiente para encontrar um apartamento e comprar o básico, certo?

Errado!

Encontrar o apartamento, ele encontrou. Até iniciou o processo de assinar o contrato (sim, porque é todo um processo, né?), mas resolver que é bom… Começou a lista de mil documentos necessários, sendo um deles uma original ou cópia autenticada da nossa Certidão de Casamento e minha identidade e CPF. Luiz tentava argumentar, mas veja bem, minha esposa não tem contra-cheque, o responsável pelo pagamento do aluguel sou eu, por que não vale uma cópia simples dos documentos dela?

Porque o “jurídico” disse que não! Ah, bom, se o jurídico diz que não, porque não…

Lá vou eu enviar as coisas pelo correio, correspondência especial carésima que sempre demora anos para ser entregue do mesmo jeito pelos correios brasileiros. Para complicar, em época de eleição, quando os correios estavam comprometidos, legal e ilegalmente, em enviar propagandas políticas. Claro que cheguei ao Brasil antes da correspondência, como era de se imaginar.

Mas não era a única pendência, porque além do calhamaço de documentos para entregar, ainda havia aquela figurinha especial e tipicamente brasileira: o fiador!

Ah, mas não tem fiador em outros lugares do mundo? Não! Geralmente, tem uma fiança, que é um valor antecipado que você paga e o proprietário te reembolsa no final do aluguel.

Luiz tentou pagar um ano antecipado, para evitar o maldito fiador. O proprietário até aceitou, mas o jurídico… sabe como é… não podia ser feito porque blá, blá, blá… algo como o proprietário não poderia tirar o locador antes de um ano (lógico, por isso o aluguel era de um ano, certo? E mesmo que fizéssemos algo que justificasse uma saída, se ele entrasse na justiça, o que ele conseguiria mais rápido do que esse prazo?).

Muito bem, felizmente, Luiz conseguiu que a empresa onde trabalha fosse fiadora. Olha que maravilha? Qualquer proprietário deveria babar com uma empresa grande sendo fiadora, certo? Pois bem, aceitar, aceitaram, mas precisava assinatura do presidente da empresa, dois diretores e do departamento jurídico! Tudo isso, obviamente, reconhecido em cartório!

Novamente, Luiz argumentava inutilmente, caríssimos, essas pessoas assinam contratos de “trocentos dinheiros” todos os dias e ninguém pede firma reconhecida! Que vocês façam questão da minha, tudo bem… mas o jurídico disse que precisava…

E nisso, sem me liberarem a chave para visitar o apartamento! Porque eu nasci ontem, né? Lógico que estavam forçando uma barra para fechar tudo antes, porque vai que eu não gosto e desfaço o negócio!

Quando finalmente tinham tudo certo, marcaram as assinaturas finais do Luiz e do proprietário. Eu não pude ir, porque também estava acabando o prazo para entregar os documentos para a mudança e, como já estava tudo certo, fui ao cartório reconhecer e autenticar uma verdadeira bíblia de papéis! Claro, todos onde já constava nosso novo endereço!

Fiquei de pegar as chaves no fim da tarde para conhecer o tal do apartamento, depois deles fecharem tudo oficialmente.

A parte que eu não sabia, porque Luiz teve a sabedoria de não me contar, é que ao chegar para assinar o contrato final, recebeu da corretora uma notícia, assim displicentemente: há um detalhe, havia um erro em uma das páginas, algo pequeno entre a imobiliária e o proprietário que não muda nada no contrato, então, nós tiramos essa página e tem que substituir por essa aqui… ou seja, precisa nessa página pegar outra vez as suas assinaturas e dos fiadores…

Hein?

Deixa eu explicar para quem estava distraído, a mesma imobiliária que pentelhou nos mínimos detalhes para fechar o negócio, pegou um contrato assinado, tirou uma das folhas, rasgou e substituiu por outra! Isso legalmente significa que todo o contrato foi invalidado! Para voltar a valer alguma coisa, Luiz precisava, novamente, das assinaturas do presidente, dois diretores e convencer o departamento jurídico de validar aquela porcaria outra vez! Qual era a probabilidade de estarem todas essas pessoas juntas no escritório no mesmo dia? Fora que são todos pouco ocupados, né? Não tem mais nada para fazer… todo mundo estava disponível para resolver nosso problema, certo?

Não vi a cena, mas posso imaginá-la, porque Luiz rodou a baiana como a muito tempo não faz! Vocês estão loucos? Como é que vocês fazem uma coisa dessas sem me avisar nada? Se precisasse fazer uma correção, principalmente algo entre vocês, bastava um adendo! Esse contrato agora vale papel de limpar a bunda! Não vale nada! Agora preciso voltar a conseguir assinatura de todas essas pessoas! Quanto tempo vocês acham que o presidente da empresa tem para um problema pessoal meu? E vocês tem sorte que não é minha mulher que está aqui (que bonitinho, meu marido! Que orgulho!), porque se vocês acham que estou bravo, vocês não viram nada! Vou tentar, mas não garanto e se não conseguir, o negócio está desfeito e foda-se!

Levantou e foi embora com o pessoal da sala de olhos arregalados e sem saber onde enfiar a cara! Na verdade, ele foi bem razoável, porque acho que eu teria ameaçado processá-los por falsificação de documento e exigido que reembolsassem todos os gastos que tivemos até aquele momento em cartórios! E não teria fechado negócio!

Portanto, melhor que tenha sido ele a resolver, porque a verdade é que deu uma sorte incrível! Sua assistente é super eficiente e conseguiu todas as assinaturas enquanto ele participava de uma reunião. Pequeno detalhe, isso tudo com os responsáveis da imobiliária ligando para se desculpar pelo ocorrido e ele dizendo para pararem de atrapalhá-lo porque ele estava ocupado!

Bom, saindo dessa reunião, voltou à imobiliária, com todos ainda lá, com aquela cara de nádegas! Fecharam o negócio naquele clima delicioso e as chaves foram liberadas.

Só à noite, depois de tudo resolvido, ele me contou o ocorrido! Ignorance is bliss! Por um lado, fiquei chateada de não estar nessa briga com ele, por outro, acho que foi melhor assim. E acho que ele estava certíssimo em botar para quebrar! Tudo tem limite!

Daí fui conhecer o apartamento. E entendi porque a corretora forçou a barra para eu não vê-lo antes. Estava absolutamente imundo! O lugar para o fogão é pequeno, o espaço para geladeira era inadequado, dos três quartos, em dois havia móveis fixos que não podiam ser movidos. Sinceramente, minha primeira impressão foi bem ruim. Eu teria feito algumas exigências para alugá-lo, agora era tarde, paciência! Es lo que hay!

Para amenizar minha insatisfação, Luiz contratou uma equipe de limpeza que indicaram a ele. Sério, só uma pessoa não daria conta! Foi uma boa decisão, após a equipe limpar o apartamento, minha impressão foi bem melhor. Também é verdade, que estava me esforçando para ter um pouco de boa vontade. Não tinha jeito, precisava achar uma maneira de fazer nossas coisas funcionarem ali.

E com um pouco de tempo, quebra a cabeça daqui, quebra dali… achei uma arrumação bem razoável. O zelador indicou um marceneiro meio “faz-tudo”, que contratamos para tirar algumas coisas, de maneira que pudessem ser recolocadas no futuro, quando deixarmos o imóvel. Também não podemos fazer grandes investimentos, é uma moradia provisória.

Agora que mudamos, mesmo ainda sem os móveis, cada vez gosto mais do lugar. A gente vai arrumando, limpando, mudando os cheiros, melhorando a energia e, quando percebe, tem cara de casa. A rua é muito agradável, tem tudo perto, restaurantes, mercados, padaria, shopping etc.

Passado o perrengue, acho que vou gostar daqui.

O 40º endereço!

Meu número de mudanças atingiu sua plena maturidade! Caríssimos, quem diria, estamos no número quarenta!

Chegamos em São Paulo e fomos para o Aparthotel que Luiz já estava hospedado há quase dois meses, o The Capital, no Itaim. Na verdade, achei muito bom, para o que se propunha. Organizado, bom atendimento, bem localizado, enfim, foi bastante conveniente ter um lugar como base inicial.

Entretanto, éramos um casal, dois gatos e malas para uma mudança! Não tinha maneira de não ficarmos apertados. Por sorte, havia uma pequena varanda que virou depósito de malas. Outro porém é que não havia fogão, nem um pequenininho de duas bocas, ou seja, todas as refeições precisavam ser na rua.

Enquanto isso, ainda estávamos tentando alugar um apartamento, de preferência, próximo ao trabalho do Luiz. Afinal, o trânsito em Sampa não pode ser ignorado. Eu trabalho de casa mesmo, então, para mim tanto faz. Mas a saga do apartamento conto em outra crônica. Basta dizer que a coisa se enrolou bem mais do que havíamos previsto. E quando se resolveu, não havia condição de mudar. Porque estava imundo, não havia luz, nem gás, nem eletrodomésticos… enfim, era uma casa muito engraçada, não tinha móveis, não tinha nada…

Daí, o plano A era buscar o máximo de estrutura possível, até que os móveis chegassem e só mudar com a casa organizada e pronta. Os eletrodomésticos precisavam ser todos comprados, porque primeiro, os apartamentos que moramos no exterior incluiam essa parte. Sorte nossa, porque a voltagem também seria diferente e se houvéssemos comprado tudo lá, teríamos que deixar para trás.

Pois é, mas na semana que os eletrodomésticos foram instalados, outra novela que contarei em breve, descobrimos que nossa mudança, que acabara de chegar ao porto de Santos, ainda levaria cerca de um mês para ser liberada. Como vem por aí Natal e Ano Novo, dificilmente vão adiantar esses prazos. Ou seja, a idéia de mudar com tudo resolvido, na minha cabeça havia ido para o saco!

Quer saber de uma coisa, Luiz, vamos mudar na marra? A casa está limpa, temos o principal que é a cozinha montada, certo? Com mais uma TV, que também precisávamos comprar e um colchão para dormir, eu sou feliz! No que dependia dele, me respondeu que já moramos com menos… Então vamos nessa! Assim que houve uma mínima condição do apartamento alugado ser habitado, resolvemos encarar nosso acampamento urbano!

Mudamos oficialmente no sábado, 6 de dezembro de 2014.

Ao longo da semana anterior, fui trazendo roupas, malas, enfim, tudo que podia ser adiantado. No sábado, quando Luiz tinha mais tempo, acordamos cedo e trouxemos o que faltava. Pedi emprestado para um amigo um colchão para ver TV, assim não precisávamos comprar nada que não fôssemos usar depois. Ele não só levou na nossa porta, como ainda nos presenteou com champagne e duas taças para tomá-la! Assim que começávamos muito bem!

Com tudo organizado, fomos buscar os gatos. Claro que foi outro parto colocá-los nas caixas de transporte. Wolverine até que não deu tanto trabalho, mas para variar, Phoenix conseguiu escapar e se meteu embaixo da cama. Luiz teve que literalmente desmontar o quarto e colocar a cama em pé na parede para caçarmos a pobre da gata! Mas tudo bem, uma vez dentro da caixinha, ela relaxa e não dá nenhum trabalho. Além do mais, dessa vez a distância a ser percorrida era bem menor que um oceano! Chegaram desconfiados e estressados, como de costume, mas estão levando cada vez menos tempo a se habituarem a novos espaços. Gatos de ciganos, né? Não tem jeito, precisam se acostumar! E já começaram a curtir a varanda que fiz questão por causa deles.

Gatos casa nova

Fazer as primeiras compras de supermercado, antes mesmo da gente mudar, teve um gostinho especial. Sei que parece bobagem e talvez seja mesmo, mas eu adoro aproveitar esses pequenos detalhes da vida cotidiana. Uma geladeira para guardar as compras, um fogão para cozinhar, uma máquina para lavar a roupa… luxos que nem sempre tenho.

Falando em luxos, após 11 anos, tenho uma diarista! Confesso que fiquei até nervosa quando tomei essa decisão. É estranho ter outra pessoa arrumando minha casa novamente, mesmo que seja só uma vez por semana. Escutei mil comentários preconceituosos sobre “esse tipo de gente”, ou “essa mão-de-obra”, coisa que me irritou um pouco e ainda me choca ouvir. E vindo de pessoas legais, que eu gosto e acho que nem percebem que estão falando sobre outro ser humano. Enfim, acho que faz parte das ambiguidades que ainda terei que conviver. Mas não preciso ser assim. E, a propósito, adorei a diarista! Uma baiana trabalhadora e muito simpática, como todas as que conheci ao longo da vida.

Aliás, tenho dado bastante sorte com os serviços que tenho precisado contratar (isola!). Certamente, busco indicações entre os amigos, porque são a melhor fonte de referência. Mas suspeito que a maneira de tratar as pessoas, com o justo pagamento, gentileza e o respeito merecido, também pode ter ajudado.

E agora é esperar a mudança ser liberada, o que dá um pouco de ansiedade, mas tudo bem, um passo de cada vez e já demos muitos bastante importantes. Às vezes, tenho a sensação de estar aqui há mais tempo, por tanta coisa que já aconteceu.

O que importa é que temos um teto e, é lógico, estou doida para dar uma festa daquelas! Inaugurar a casa com vontade, chutar o balde, encher a sala de amigos e boas energias! Chega logo, 2015, estamos prontinhos para te receber!

A tal da firma reconhecida

A cada país que cheguei para morar, uma das primeiras preocupações foi ter algum documento de identidade com foto. Pode ser até seu passaporte, ainda que ninguém queira ficar andando para cima e para baixo com o passaporte no bolso.

Para você demonstrar que você é você, basta como mostrar seu documento, o interlocutor simplesmente o checa e verifica se é você mesmo na foto. Se é algo que precisa ser assinado formalmente, ele pede para que você assine na frente dele e compara as duas assinaturas. Ou seja, isso é literalmente um reconhecimento de firma! Pronto!

Pois é, caríssimos, brasileiros são diferentes! Para que você seja você, assim de verdade, não basta que um ser humano, razoavelmente inteligente e que saiba ler, reconheça você e a assinatura na sua identidade, há a necessidade de um desconhecido de um cartório fazer isso oficialmente com um carimbo! E, como não, tudo isso é cobrado, né?

Sério, no dia seguinte em que cheguei, logo pela manhã, a primeira coisa que precisei fazer foi abrir uma firma! Porque nada, mas absolutamente nada, vale se a sua firma não for reconhecida em cartório!

De quebra, também vem as malfadadas cópias autenticadas! Porque não basta ser igual e levar o original para o outro comprovar que é o mesmo documento, precisa de um maldito selinho dizendo que o igual é igual.

Agora, imagina você chegando a um país e tendo que legalizar todos seus documentos para liberar a mudança da alfândega, alugar apartamento, renovar carteira de motorista… Ninguém merece! Acho que as pessoas do cartório já começavam a achar que eu era despachante! Aliás, outra profissão tipicamente brasileira.

Estava vendo a hora que, ao reconhecer minha firma, o cidadão ainda iria escrever algumas linhas a meu respeito. Algo assim como um testemunho: sim, reconheço a firma da Bianca, aliás, reconheço ela também, está sempre por aqui… Acho que não precisavam nem mais procurar minha ficha, já deixavam separadinha ali do lado!

Enfim, parte dos perrengues da readaptação! Dou fé!

Mil e uma sensações marcadas pela ambiguidade

Não é muito simples descrever o turbilhão de emoções que foi aterrissar no Brasil. Hoje faz um mês que cheguei a São Paulo e ainda me sinto confusa. Quase tudo é ambíguo, uma relação eterna de amor e ódio, felizmente mantida em banho maria, graças a serenidade que a experiência traz. Nem seria necessário dizer, porque é óbvio, mas como registro do fato: meu olhar mudou muito. Talvez não caiba mais em mim, porque parece que não sou mais a mesma.

Faz tanto tempo e foi ontem, sou a mesma só que não, estou desconfortavelmente à vontade. Sou brasileira, mas sou gringa, meu sotaque é esquisito. Adoro, mas me dá uma raiva!

Digo e repito que não consigo falar que “voltei” ao Brasil, é mais como “vim” para o Brasil. Poderia ser outro país e não acredito que seja definitivo. Nunca sabemos por quanto tempo ficaremos em canto nenhum, mas não acredito que minha velhice será aqui. E com os caminhos políticos que vem se delineando, essa hipótese é cada vez mais improvável.

Mas por enquanto, aqui é e será minha casa, então, como faço em todos os lugares que moramos, vamos buscar o que há de melhor, certo?

Por mais que essa seja minha mentalidade e atitude, aqui sendo como qualquer outro país, no fundo, sei que não é exatamente assim. Porque há muita coisa nova, mas também há muito do que entendo, a começar pelo idioma em que fui alfabetizada. E, como nem fui eu quem disse, “a língua é minha pátria”.

Assim, sigo com a tal ambiguidade que cito desde o início do texto. Tudo, de repente, ficou claro e confuso, como se todas as portas se abrissem em pares! E a todo momento preciso eleger por qual delas entrar. Qual chapéu coloco? O de brasileira ou de estrangeira?

Não acredito que seja uma coisa ruim, se pudesse escolher, realmente preferia ter hoje essa visão global de cidadã do mundo com crachá! Só digo que é mais trabalhoso, pelo menos nesse início.

Não suporto admitir, mas tenho também presente uma sensação que odeio: o medo. Do dia para noite, minha vida se encheu de medo de um monte de coisas!

Um par de dias depois que chegamos, foi meu aniversário. Fiz questão de sair para comemorar. Sabe aqueles dias que você necessita chutar o pau da barraca? Pois é, estava nesses dias! Tomei todas e mais algumas, francamente, nem me importei, estava entre amigos. Aproveitei tudo de direito, mas sabia que quando chegasse em casa, teria um encontro marcado.

Lá estavam meus demônios, me esperando um por um para serem colocados para fora. Uma crise de ansiedade das boas! Difícil me deparar com tantos medos, mas definitivamente, precisava chamá-los por seus nomes e confrontá-los. Não estão resolvidos, talvez precise de ajuda, o tempo dirá. Mas já conheço seus rostos e estou trabalhando nisso.

A segunda comemoração do aniversário foi na semana seguinte, dessa vez, no Rio de Janeiro e em família. Na verdade, foi mais um pretexto porque queria dar uma festa. Foi bem mais tranquila, porque eu também estava mais tranquila, não por isso menos animada. Forcei um pouco a barra para ir ao Rio, com muitas coisas ainda por resolver em São Paulo, mas achei importante. Um dos pontos principais da minha “volta” ao país foi exatamente a família, então vale o esforço. E, na verdade, foi uma celebração ótima! De uma hora para outra, a casa dos meus pais voltou a ser frequentada por crianças e por gerações mais novas. Acho legal, traz nova energia! E acho que eu estava precisando desse ritual de passagem.

Voltei a dirigir! No último mês, posso assegurar que dirigi mais que nos últimos 11 anos! O lado positivo, foi sentir que ainda dirijo bem, modéstia às favas! Não sofri. Às vezes, até me surpreendo com a naturalidade que encorporei novamente o volante aos meus braços. O lado ruim, é um carro blindado, foi uma das minhas condições para viver aqui. Meu horizonte voltou a ser retangular, não me animo a caminhar pelas ruas.

Fomos a novos restaurantes e temos tentado, na medida do possível, rever alguns que costumávamos frequentar. Comer em São Paulo é uma delícia! Segue estando entre as melhores cidades do mundo nesse sentido. E comer bem é sempre algo que me faz sentir em casa.

Tenho revisto lugares e ruas, navegam em paralelo a fragmentos de memórias diversas, boas, difíceis, engraçadas… estou em constante viagem pelo tempo, tenho uma história aqui. E, o mais confortante de tudo é me ver no olhar dos meus amigos, diferente, mas enquanto me reconheçam, ainda tenho um norte de quem fui e que, pelo menos em parte, ainda sou.

Londres – Paris – São Paulo

A saída de Londres foi conturbada. Acordamos às 3 da matina, com os gatos desconfiadíssimos! Colocá-los dentro das bolsas de transporte foi um parto de mamute, com direito a Phoenix se enfiar pela chaminé tentando fugir!

Luiz conseguiu agarrar sua perna e puxava para baixo. Enfiei minha mão, por dentro do buraco da chaminé para bloquear a passagem e empurrava desde cima. Com um certo custo, conseguimos arrancar a gata lá de dentro, cheia de cinzas e assustada, coitada! E nós meio arranhados, mas menos mal. Imagina se essa gata sobe? A viagem tinha ido para o saco! Paciência, nessas horas encorporo o espírito “I’m a woman in a mission” e não paro para pensar nem para reclamar, é do jeito que dá e pronto!

Fomos com tempo para o aeroporto, até porque precisávamos despachar tudo e passar pelos controles com dois felinos. Foi melhor do que imaginávamos, eles tem uma salinha separada para tirar os gatos da bolsa e passar tudo pelo raio-X. Ok, primeira parte superada!

Nós tínhamos que fazer uma conexão em Paris. A Air France era a única companhia aérea que aceitava nossos gatos viajarem dentro da cabine conosco. Sempre tem aquela preocupação que o vôo não atrase e que a gente consiga pegar o seguinte. E claro que tivemos que passar por outro controle antes de embarcar, dessa vez, sem salinha. Quer saber, Luiz, passamos pelo raio-X com os gatos dentro da bolsa mesmo! Vale como uma radiografia!

Foi meio corrido, chegamos no avião seguinte com meio palmo de língua para fora, mas chegamos!

Daí para frente, foi mais tranquilo. Uma vez no avião para o Brasil, sabia que a gente ia chegar e os gatos poderiam até reclamar um pouco, mas daríamos nosso jeito. Cobrimos as bolsas de transporte, no escuro eles se sentem mais protegidos, e fomos com eles no nosso colo. Se comportaram muito bem! Só quando pousamos, Wolverine não aguentou mais e fez xixi na bolsa mesmo, que felizmente estava protegida com material absorvente. Ele não devia estar tão confortável, mas ninguém notou e já estávamos no final.

Fomos esperar as malas, torcendo para chegar tudo logo, afinal estávamos mortinhos e os gatos deviam estar famintos, com sede etc.

Muito bem, havíamos feito toda a documentação necessária para os felinos entrarem no Brasil sem problemas, mas seguro morreu de velho. Do Brasil para Atlanta, nós fomos declarar os gatos e ninguém deu a menor bola. De Atlanta para Madri, entrei com a bolsa no ombro olhando para o horizonte e ninguém me perguntou nada. Quer saber? Vou me fazer de morta e não vou declarar coisa nenhuma, se alguém me perguntar, mostramos os documentos.

Luiz, todo caxias e acostumado a viver no exterior, me dizia, mas a gente tem que passar em “mercadorias a declarar”! Se a gente não fizer isso, pode dar problema porque mentimos! Olho para ele com aquela cara de Garfield: se alguém reclamar, estou trazendo gatos, não mercadorias! Não vou declarar e pronto! Fui na frente empurrando um carrinho com duas malas e a bolsa do gato no ombro; ele atrás de mim, igualzinho. Na hora de passar no portão, com a postura de não tenho nada a esconder, olho bem no rosto do responsável, afinal, enquanto ele me olha nos olhos, não olha para minha bolsa, certo? Ele segue fazendo sinal para que eu siga. E Luiz atrás no meu vácuo!

Sim, estávamos totalmente legalizados, mas já imaginou se a gente entra no lugar de mercadorias a declarar e o povo inventa de revistar mala, o caramba… e os gatos ali com fome e sede! Fora que não iam encontrar nada de irregular e era capaz de começarem a buscar pelo em ovo!

Enfim, saímos rapidinho, nenhum problema! Eu me sentindo vitoriosa, te falei que ninguém ia perguntar nada! Sem dizer que foi um alívio pisar em terra firme, com tudo certo, os gatos e as malas!

Estava exausta! Mas tentando me animar, manter o bom humor e ver o lado positivo de chegar ao Brasil. Estava difícil, no colo gatos assustados, e do meu lado, Luiz emburrado, com uma inflamação super forte na garganta, precisando ir para um hospital! Sério assim de cara?

Chegamos no flat e toca a tentar acomodar malas, a gente, os gatos… enquanto Luiz pega um taxi e vai buscar o atendimento de emergência mais próximo. Não demorou tanto, voltou medicado. Gatos acomodados, malas desfeitas e empurradas para a varanda. Despenquei na cama como um tronco de árvore e acho que devo ter acordado na manhã seguinte na mesma posição!

Estou aqui! Cheguei! Preciso fazer com que isso dê certo, porque precisa dar.