123 – Confissão super secreta

Hoje, pela segunda vez esse mês e um ano após nossa chegada em Madri, tive vontade de dirigir, ou melhor, ter um carro. Merda, maldita hora que peguei aquele taxi e lembrei como era rápido e confortável… O canalha do motorista ainda pôs ar condicionado, só podia estrar me sacaneando! Ai, meu Deus, deixa eu ficar bem quietinha esperando a vontade passar!

Preciso me concentrar: garagem, estacionamentos impossíveis, mecânicos, postos de gasolina self service, fazer prova de direção outra vez, perder dinheiro na venda do carro, engarrafamentos, ver o mundo através de um para-brisas… Ufa! Passou!

124 – A melhor carne de Madri

Há cerca de uma semana, abriu em Madri um Baby Beef Rubaiyat, próximo ao estádio Santiago Bernabeu. Fomos conferir. Juro que não ganho um centavo em promoção, divulgo por pura felicidade em comer bem! Não é um restaurante baratinho, mas vale cada centavo! 

Havia me esquecido como éramos bem tratados nos restaurantes em São Paulo. De certa forma, fui me acostumando com o serviço europeu, que pode até surpreender e ser educado e amável, mas não tem comparação ao bom serviço brasileiro, principalmente em São Paulo. 

Pois tivemos o típico serviço brasileiro, simpático e atencioso, sem ser servil ou arrogante. Simplesmente perfeito! Tudo pensado nos mínimos detalhes, a decoração, as mesas, os talheres, a cozinha limpíssima. Pãozinho de queijo, lingüicinhas, batatinha souflê, tudo de bom. E o principal, uma carne fabulosa! Porque se tudo fosse correto, mas a carne não comparecesse à altura, já não compensaria. Mas compareceu. 

Tudo começa pela chegada, eles oferecem serviço de manobrista. Gente, manobrista em Madri é artigo de luxo! Ainda tivemos sorte, pois como o restaurante acaba de abrir, estão divulgando e oferecendo algumas cortesias. Por exemplo, ganhamos couvert, poção do melhor jamón, sobremesas e um copo para fazer caipirinhas. Adorei! 

Bom, pode ter parecido estranho eu falar do manobrista. Mas é que, por puro acaso, foi um fim de semana em que alugamos um carro. É que precisava comprar uma série de coisas para casa e ficava complicado trazer tudo de taxi. Quase todo o tempo foi Luiz quem dirigiu, o que me proporcionou uma mordomia que aproveitei bastante. Entretanto, logo na saída do restaurante, me deu uma vontade irresistível de dirigir. Caramba, sou um poço de contradições, todo esse tempo elogiando a delícia que foi abrir mão do carro e, de repente, não mais que de repente, essa vontade absurda. 

Havia quase um ano que não conduzia um automóvel e achei que fosse estranhar. Pois me foi assustadoramente natural e a facilidade com que achei o caminho de casa fez parecer que era algo que fazia todos os dias.  

Mas agora não quero pensar nisso, não importa. O que interessa é que, por algumas horas, jantei em São Paulo e voltei para casa no Brasil. E agora vou dormir feliz.

125 – O mural de fotos

Há bastante tempo, nem me lembro quando, mas ainda no Brasil, tínhamos um mural de fotos com amigos. Tentei ter fotos onde, pelo menos uma vez, todos os nossos amigos pudessem aparecer. Reuni também vários momentos especiais junto com Luiz, com nossas famílias e nossos gatos. 

Era divertido ver as pessoas chegando e se procurando no mural, e sempre se achavam. Na minha cabeça era uma forma de dizer que eram bem vindas, que faziam parte da nossa história. E funcionava para mim também, era um conforto lembrar que alguma coisa deveria ter feito certo para conhecer pessoas assim. Esse mural nos acompanhou pelo mundo e era de grande ajuda nos momentos de angústia, funcionou como um amuleto.  

Em Atlanta, onde fizemos muitos amigos, tiramos várias fotos com a intenção de completar o mural. Aqui em Madri, ocorreu o mesmo, outras fotos de mais amigos queridos, com lugar reservado na minha grande placa de cortiça. 

Entretanto, nenhuma foto foi adicionada. Sempre havia um motivo. Não havia baixado as fotos para o computador ainda, não tinha papel fotográfico, a impressora pifou… Até o dia em que não havia nenhuma desculpa e fui encarar meu painel que há algum tempo me incomodava e não entendia. Engraçado como, sem perceber,  fui mudando ele de lugar até ficar praticamente escondido em um corredor. 

Busquei explicações racionais. Devia ser porque havia amigos que se separaram, amigos que adoeceram, familiares que morreram, como era grande a minha cozinha, como estava magrinha, como gostava desse restaurante, dessa casa, dessa piscina e por aí vai. Mas a verdade mesmo é que meu mural de lembranças se transformou em um enorme mural de saudades. Demorava muito para que alguém se encontrasse nele, e quando se encontravam, também já não eram mais os mesmos, como não sou mais a mesma. 

Tive uma sensação quase indígena e primitiva, em que as fotos aprisionavam nossos espíritos e agora precisamos todos voar em outros patamares. Continuam queridos e continuam bem vindos, mas estavam fora de contexto. 

Pensei que esperto era meu gato, fotos e imagens de espelhos nada significam para ele porque não possuem cheiro.  

No meu ritual particular, desfiz o mural e guardei as fotos com o carinho do passado. Estamos agora todos livres para sermos o que quisermos. Talvez um dia construa um outro, com velhos e recentes amigos, mas com um significado diferente e fotos novas.

126 – E agora, José? José, para onde?

Querido Drummond que me ajude:

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Há 34 anos saí do Rio de Janeiro; há quase 20 saí de Brasília – com intervalos em Nova York; há cerca de 12 saí do Rio outra vez; há pouco mais de 2 saí de São Paulo; há pouco mais de 1 saí de Atlanta e, desde então, estou em Madri. Com 36 anos, no meu trigésimo primeiro endereço, até sabe-se lá quando.

Nesse caminho, conheci muita gente assim ou que até mudou mais. Não sei se foi coincidência ou uma maneira de me sentir mais normal. Talvez hoje seja normal, a tal da globalização está criando uma nova nacionalidade virtual de expatriados. Se é bom ou mau, como vou saber? Acho que um pouco dos dois, mas sei que não há volta. Não é que não haja volta para o país de origem, ou para qualquer outro, simplesmente não há volta para o que fui.

Portanto, o jeito é tentar levar com bom humor e viver nossas aventuras. Recorro a cara 11, aquela com que cheguei em Madri, a de faço-isso-todo-dia-sei-o-que-estou-fazendo-e-não-me-pergunte. Nesse caso, é a 11-b, quando no fundo não tenho a menor idéia para onde estou indo.  Que se há de fazer?

Vou eu novamente pensando nas músicas. Dessa vez, canto minha escolhida para São Paulo. Lá preferia na voz do Cazuza, mas agora quero mesmo é na do Lobão: Vida louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve… 

Sim, estou enrolando, até para uma especialista em mudanças, às vezes é muito difícil romper. Mas hoje preciso fechar esse ciclo porque essa fase acabou. Preciso começar outra. 

Aos que chegaram até aqui, muito obrigada pela companhia. Não vou parar de escrever, só vou recomeçar. Tenho meus motivos, mas essa é uma outra história…