119 – Baladeira que se preze…

Muito bem, disse que andava caseira, não que era caseira, certo? Porque baladeira que se preze cai na tentação na primeira oportunidade.

No mesmo sábado do granizo e da preguiça, fomos jantar com um casal de amigos brasileiros, o que em princípio seria um programinha light.  Jantar super gostoso, vinhosinho que adoro, bom papo, boa música e tal. Por volta da meia noite nos despedimos e seguimos em direção à casa.

No taxi, recados no celular de Luiz para passarmos na casa de outro casal de amigos que moram perto da gente. Por que não? Partimos nós para a segunda etapa da noite. Chegamos lá, onde nossos amigos brasileiros recebiam outros amigos portugueses e chilenos. Nesse momento, todo o vinho já tinha sido devidamente evaporado e uma garrafa de whisky, que iniciou a noite cheia, agonizava seus últimos goles. 

O papo foi empolgando, a música aumentando… e, aparentemente, um vizinho se irritando. Umas duas e meia da madrugada, bate na porta a polícia. Achei um certo exagero, realmente estávamos fazendo barulho, mas com certeza se alguém houvesse se manifestado ou pedido, baixaríamos o tom na mesma hora, foi distração mesmo. Enfim, os policiais foram educados e francamente, nem cheguei a ficar nervosa, quem gosta de uma boa farra e nunca vivenciou essa cena da polícia batendo na porta? Estou ficando experiente, ou em outras palavras, muito cara-de-pau.  

A cena não deixou de ser um pouco engraçada. Toca a campanhia, minha amiga “lararilarará” atende o interfone e ninguém responde. Ela vira para mim e diz algo como, é esse pessoal tocando embaixo para deixar propaganda no correio. E eu, mas às duas da manhã? Na dúvida, resolvi olhar pelo olho mágico na porta. Eram dois homens do tamanho de um armário, com uniforme preto de faixa amarela no peito: ops! Voltei para ela e disse baixo, é a polícia, abre que vou avisar o povo. Ela achou que eu estivesse brincando, mas mesmo assim tentou parecer o mais careta possível e foi abrir a porta. Enquanto ia avisar os meninos para eles já irem baixando o som, só escutava minha amiga falando para os guardas: adelante! Eles não queriam entrar, só pedir para baixar o som. De qualquer maneira, a festa acabou.  

Ou melhor, acabou essa etapa, pois como contei diversas vezes, a noite em Madri vai crescendo, uma coisa emenda na outra e quando nos damos conta estamos franzindo a testa com o sol batendo no rosto.  

Bom, não chegamos a tanto, mas também não nos demos por vencidos e partimos todos para o “El Junco”, como já de costume. Três da matina e fila na porta, amo essa cidade! Até que a fila andou rápido, demos sorte porque, alguns minutos depois, a fila se multiplicou atrás da gente. Estávamos em um grupo de umas nove pessoas. 

Nessa noite, comandavam a música, um DJ parecido com o Lobão na fase cabelo comprido e outro com a maior pinta de CDF. Ambos inspiradíssimos, me acabei de dançar. Estava sentindo falta da minha aeróbica semanal.

Por mim, acho que seria um dos dias que só sairia de lá varrida e com as luzes acesas, mas no domingão tínhamos uma feijoada na casa de uma amiga e aí a briga é feia. A feijoada ganhou é claro, e fomos embora por volta das quatro e meia. Até chegar em casa, tomar banho, encinerar a roupa fedida a cigarro e deitar, eram quase cinco e meia. Fiz as contas de quanto tempo me restava de sono e torci para não acordar de ressaca no dia seguinte, afinal de contas, uma feijuca animal me aguardava! Dormi bem.

120 – A feijuca

No domingo, acordamos bem cansados, mas felizmente sem um pingo de ressaca. Acho que era de tanto que queria comer feijoada. Também não exageramos muito na bebida, o cansaço era por termos dançado mesmo. Além do mais, havíamos jantado bem e tomado bastante água, isso ajuda e muito! 

Uma amiga nos chamou para almoçar na casa dela, seria sua primeira feijoada e ela estava meio tensa de errar a mão. Bobagem, acho que entre amigos, quando a comida não funciona a gente pede uma pizza, certo? Bom, mas confesso que, nesse caso, ficaria um pouco aguada, pois estava com um desejo de comer uma feijuca! 

Resumo da ópera, deu tudo certo. Além do feijão, rolou pão-de-queijo, carne seca desfiada, couve, laranja… enfim, completa! E claro, a caipirinha. Ainda bem que havia queimado muitas calorias na noite anterior, porque chutei o baldinho.  

Só teve um pequeno problema, se a gente já estava com um pouco de sono quando chegou, imagina depois de uma super feijoada? Estava difícil conversar, na verdade, estava difícil até piscar sem ceder a tentação de ficar mais tempo com os olhos fechados.

Em casa, fiz uma coisa que é rara, dormi à tarde. Dormi nada, desmaiei! E como foi bom. 

121 – O casal baixaria

Minha relação de amor com o apartamento precisava ter algum defeito, não é mesmo? Pois descobrimos qual é, somos vizinhos de andar do “casal baixaria”. Aliás, diga-se de passagem, acho que todo edifício aqui tem um casal com esse perfil. No antigo apartamento também tinha, mas pelo menos não eram nossos vizinhos tão próximos e se acalmavam no inverno. Vai entender. 

Quando digo baixaria, não estou me referindo a barulho de sexo. Acho que isso seria divertido, quem sabe até estimulante, mas infelizmente é pancadaria mesmo. E, claro, baixaria que se preze, não começa antes das três da matina! 

Logo no segundo ou terceiro dia que mudamos, ouvimos algo que parecia com briga e choro de homem. Vá lá, podia ser uma coincidência, alguém chegou borracho (bêbado) ou algo assim. Entretanto, a coisa vem se repetindo. 

E o pior é que aparentemente eles gostam de público, porque sempre brigam com as janelas bem abertas, quando não gritando da varanda. Um barraco! E isso porque moramos em um bairro ótimo, para calar a boca dos preconceituosos que acreditam que essas coisas só acontecem nas camadas mais pobres e menos esclarecidas da população. 

É mais ou menos assim, daqui de casa a gente escuta os berros de “eres un cobarde”, “hijo puta” etc. E na janela do edifício em frente, vemos o reflexo de um jogando coisas no outro, uma beleza! Além de rolar uma bateção de porta que parece que eles saem e entram do apartamento algumas vezes. Realmente, não entendo. Aliás, não entendo nada. Julgar as pessoas é complicado, mas acredito que algumas situações deveriam ser de bom senso mundial. Por que continuam na mesma casa?   

Em doze anos de casada, nunca xinguei Luiz e nunca fui xingada. Não somos santos nem exemplos para ninguém, e é evidente que já tivemos nossa discussões, umas bobas e outras mais sérias, mas sempre com o limite do respeito. Posso em alguns momentos ter vontade de pular no seu pescoço, mas só de imaginar chamá-lo por um palavrão me dói a garganta. Vai muito além da minha natureza agressiva que venho domando ao longo dos anos.

Enfim, tinha a intenção de chamar esses vizinhos para a inauguração do apartamento. Felizmente, percebi antes que não são exatamente os amigos que queremos ter. Espero que se resolvam, ou que se separem, ou que, pelo menos tenham a dignidade de se matar em silêncio e deixar o resto do edifício dormir em paz. 

122 – Solidariedade no cardume

Sempre vou de metrô para a faculdade. Normalmente, os horários que ando são movimentados, mas não é hora do rush. Isso quer dizer que costumo ir confortavelmente, quase sempre sentada. 

Ontem, o curso acabou mais cedo e precisei tomar o metrô em uma das horas mais requisitadas. Para complicar, havia um tipo de greve em que o número de trens foram diminuídos. Ou seja, o metrô estava um inferno de cheio! Se soubesse, até teria tentado pegar um taxi, mas só descobri sobre a tal greve dentro da estação. 

Quando entrei no vagão, estava cheio, mas possível. Umas três estações depois foi se tornando mais e mais impraticável. Por sorte, estava encostada na parede do fundo do vagão, o que é menos sofrível. E, claro, como a lei de Murphy sempre funciona, justo nesse dia resolvi tomar uma linha diferente, ou seja, não sabia exatamente quantas paradas ficava da minha casa. Com o vagão cada vez mais cheio, não conseguia ler o nome das estações do lado de fora. 

Acho que o resto dá para imaginar, quando chegamos na parada que devia saltar, não percebi. Mas tive a impressão de ler nos lábios de alguém o nome Manuel Becerra, minha estação. Virei correndo para a moça do meu lado e perguntei se ela sabia onde estávamos, e lógico que era onde precisava descer. 

E aí? Como fazer? Tinha poucos segundos e nenhum espaço para passar. Não sabia se o pior era perder a parada ou andar mais tempo naquela claustrofobia e ainda ter que voltar outra vez naquele aperto. Foi quando fui salva pela solidariedade entre meus recentes amigos-sardinha. Também não sei se eles me ajudaram pela necessidade do espaço, mas acho que foi porque se colocaram em meu lugar. Foi um tal de “deixa ela passar”, “vai por ali”, “rápido”, “acho que não vai dar”… Até que vi uma brecha mínima de ar e mergulhei como um vocalista de banda punk mergulha no público. Chega senti a porta fechando arrastar no meu pé. Acho que saí do vagão como uma rolha de champanhe, meu corpo até fez o barulhinho da pressão “ploc”!  

Aterrizei meio desequilibrada e rindo comigo mesma. Nunca achei que fosse passar por isso novamente e ainda achar graça. Fiquei lembrando de Brasília, o único lugar onde usava transporte público com regularidade, porque afinal de contas, tinha menos de dezoito anos e não podia dirigir. 

A primeira vez que andei de ônibus sozinha tinha por volta dos treze anos, em Brasília. Lembro exatamente como foi assustador e libertador, ao mesmo tempo. Vivia enchendo o saco da minha mãe porque queria aprender a andar de ônibus, o que significava para mim ter a liberdade de me locomover na cidade, sem depender de ninguém. Um dia, ela simplesmente me deu dinheiro e disse: volta hoje de ônibus.  

Como assim? Volta hoje de ônibus? Mas em qual ônibus? Quanto custa o ônibus? Por onde entro no ônibus? Como aviso que quero saltar? Perguntas que hoje me soam absolutamente óbvias, mas que o fato de fazer pela primeira vez sozinha me deixou apavorada! Claro que minha mãe não tinha a menor idéia das respostas, afinal de contas, ela também não andava de ônibus, portanto ela fez a cara de que aquilo era óbvio e eu que me virasse. Até hoje não sei se ela queria que eu acertasse ou desistisse e ligasse para ela ir me buscar. Também não importa mais, quando saí, achei que ela queria que eu desistisse, quando chequei achei que ela queria que eu acertasse. 

Foi depois do curso de inglês, lembro perfeitamente de não prestar atenção em nada, só pensava, cassilda e como é que vou pegar o tal do ônibus? Para quem vou perguntar isso sem parecer uma jeca ou uma fresca? 

Para minha sorte, saí do curso conversando com uma amiga mais velha, que costumava vir andando comigo boa parte do caminho e depois pegava seu ônibus. Contei meio sem graça da minha missão do dia. E ela achando muito engraçado, mas no fundo solidária, porque também havia passado por isso, se propôs a ir comigo para eu ver que não era nada demais. Ufa! Pois ela me salvou a pele, nem a porta da entrada eu sabia qual era! 

Chegando em casa, minha mãe estava me esperando para eu contar o que tinha acontecido. Também fiz a mesma cara que ela fez antes, como se nem estivesse entendendo o que ela queria saber. Simplesmente, tinha pego o ônibus ora, que bobagem! No meu quarto sozinha, comemorei aquela grande vitória, havia dado o primeiro passo para minha independência, ou nisso acreditava naquele momento. 

Depois de alguns anos tomando o maldito “Grande Circular” lotado, mudei de idéia. Bom mesmo era andar de carro! Precisava fazer dezoito anos rápido! A piada dos alunos era que dentro do ônibus se contradizia a lei da física onde dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. A gente não precisava se segurar, porque não havia onde cair! Entrar e sair era sempre uma missão quase impossível, que a gente nem sabia como podia dar certo no final. Nós, meninas, desenvolvíamos a técnica do cotovelo, para nenhum engraçadinho vir se esfregando. É verdade que também havia uma certa solidariedade, sempre quem estava sentado se oferecia para levar os cadernos ou a mochila de quem estava em pé. De qualquer maneira, enchi o saco e jurei que quando começasse a dirigir nunca mais encararia essa situação. 

Hoje já não me parece tão ruim, provavelmente porque não preciso encarar o problema todos os dias. Quem sabe foi a experiência passada que me ajudou a saltar do vagão lotado com tamanha desenvoltura depois de adulta e acostumada a uma boa mordomia. 

Quer saber, que se dane a poesia social, amanhã vou de taxi!

123 – Confissão super secreta

Hoje, pela segunda vez esse mês e um ano após nossa chegada em Madri, tive vontade de dirigir, ou melhor, ter um carro. Merda, maldita hora que peguei aquele taxi e lembrei como era rápido e confortável… O canalha do motorista ainda pôs ar condicionado, só podia estrar me sacaneando! Ai, meu Deus, deixa eu ficar bem quietinha esperando a vontade passar!

Preciso me concentrar: garagem, estacionamentos impossíveis, mecânicos, postos de gasolina self service, fazer prova de direção outra vez, perder dinheiro na venda do carro, engarrafamentos, ver o mundo através de um para-brisas… Ufa! Passou!

124 – A melhor carne de Madri

Há cerca de uma semana, abriu em Madri um Baby Beef Rubaiyat, próximo ao estádio Santiago Bernabeu. Fomos conferir. Juro que não ganho um centavo em promoção, divulgo por pura felicidade em comer bem! Não é um restaurante baratinho, mas vale cada centavo! 

Havia me esquecido como éramos bem tratados nos restaurantes em São Paulo. De certa forma, fui me acostumando com o serviço europeu, que pode até surpreender e ser educado e amável, mas não tem comparação ao bom serviço brasileiro, principalmente em São Paulo. 

Pois tivemos o típico serviço brasileiro, simpático e atencioso, sem ser servil ou arrogante. Simplesmente perfeito! Tudo pensado nos mínimos detalhes, a decoração, as mesas, os talheres, a cozinha limpíssima. Pãozinho de queijo, lingüicinhas, batatinha souflê, tudo de bom. E o principal, uma carne fabulosa! Porque se tudo fosse correto, mas a carne não comparecesse à altura, já não compensaria. Mas compareceu. 

Tudo começa pela chegada, eles oferecem serviço de manobrista. Gente, manobrista em Madri é artigo de luxo! Ainda tivemos sorte, pois como o restaurante acaba de abrir, estão divulgando e oferecendo algumas cortesias. Por exemplo, ganhamos couvert, poção do melhor jamón, sobremesas e um copo para fazer caipirinhas. Adorei! 

Bom, pode ter parecido estranho eu falar do manobrista. Mas é que, por puro acaso, foi um fim de semana em que alugamos um carro. É que precisava comprar uma série de coisas para casa e ficava complicado trazer tudo de taxi. Quase todo o tempo foi Luiz quem dirigiu, o que me proporcionou uma mordomia que aproveitei bastante. Entretanto, logo na saída do restaurante, me deu uma vontade irresistível de dirigir. Caramba, sou um poço de contradições, todo esse tempo elogiando a delícia que foi abrir mão do carro e, de repente, não mais que de repente, essa vontade absurda. 

Havia quase um ano que não conduzia um automóvel e achei que fosse estranhar. Pois me foi assustadoramente natural e a facilidade com que achei o caminho de casa fez parecer que era algo que fazia todos os dias.  

Mas agora não quero pensar nisso, não importa. O que interessa é que, por algumas horas, jantei em São Paulo e voltei para casa no Brasil. E agora vou dormir feliz.

125 – O mural de fotos

Há bastante tempo, nem me lembro quando, mas ainda no Brasil, tínhamos um mural de fotos com amigos. Tentei ter fotos onde, pelo menos uma vez, todos os nossos amigos pudessem aparecer. Reuni também vários momentos especiais junto com Luiz, com nossas famílias e nossos gatos. 

Era divertido ver as pessoas chegando e se procurando no mural, e sempre se achavam. Na minha cabeça era uma forma de dizer que eram bem vindas, que faziam parte da nossa história. E funcionava para mim também, era um conforto lembrar que alguma coisa deveria ter feito certo para conhecer pessoas assim. Esse mural nos acompanhou pelo mundo e era de grande ajuda nos momentos de angústia, funcionou como um amuleto.  

Em Atlanta, onde fizemos muitos amigos, tiramos várias fotos com a intenção de completar o mural. Aqui em Madri, ocorreu o mesmo, outras fotos de mais amigos queridos, com lugar reservado na minha grande placa de cortiça. 

Entretanto, nenhuma foto foi adicionada. Sempre havia um motivo. Não havia baixado as fotos para o computador ainda, não tinha papel fotográfico, a impressora pifou… Até o dia em que não havia nenhuma desculpa e fui encarar meu painel que há algum tempo me incomodava e não entendia. Engraçado como, sem perceber,  fui mudando ele de lugar até ficar praticamente escondido em um corredor. 

Busquei explicações racionais. Devia ser porque havia amigos que se separaram, amigos que adoeceram, familiares que morreram, como era grande a minha cozinha, como estava magrinha, como gostava desse restaurante, dessa casa, dessa piscina e por aí vai. Mas a verdade mesmo é que meu mural de lembranças se transformou em um enorme mural de saudades. Demorava muito para que alguém se encontrasse nele, e quando se encontravam, também já não eram mais os mesmos, como não sou mais a mesma. 

Tive uma sensação quase indígena e primitiva, em que as fotos aprisionavam nossos espíritos e agora precisamos todos voar em outros patamares. Continuam queridos e continuam bem vindos, mas estavam fora de contexto. 

Pensei que esperto era meu gato, fotos e imagens de espelhos nada significam para ele porque não possuem cheiro.  

No meu ritual particular, desfiz o mural e guardei as fotos com o carinho do passado. Estamos agora todos livres para sermos o que quisermos. Talvez um dia construa um outro, com velhos e recentes amigos, mas com um significado diferente e fotos novas.