Blue Eyed – O melhor documentário que já vi

Há cerca de uns 10 anos, morávamos ainda em São Paulo, vi um documentário que me pareceu, ao mesmo tempo, devastador e extraordinário. Devastador por tratar de um tema complicado, o racismo. Na verdade, por extensão, acaba tratando de diferenças, de preconceito de uma maneira geral, machismo, nazismo e outros “ismos”. E extraordinário, porque foi capaz de mudar minha percepção e atitude imediatamente.

 

Depois de tanto tempo, Luiz conseguiu o mesmo documentário através de um amigo. Ontem, o assisti mais uma vez e me chocou igualmente, ainda que soubesse o que seria dito. Agora, além de mais 10 anos de vivência, adicionei as lentes de imigrante, que mesmo não se chamando imigrantismo, traz também essa carga de preconceito e toda a maneira que a gente se comporta com ele. Não somos nada originais.

 

Difícil reproduzir seu conteúdo, reconheço minha incapacidade de passar os detalhes e me dá pena ver algo tão importante virar apenas um texto. Vou tentar, mas realmente recomendo quem possa buscar o documentário original e assistí-lo. No Brasil, sei que passou pela GNT, se chama Blue Eyed. No Youtube, se pode encontrar trechos e referências sobre a experiência de Jane Elliot.

 

Jane Elliot era professora da 3a. Série nos EUA quando Martin Luther King foi assassinado, ou seja, estamos falando de 1968. Muito bem, ela buscou uma maneira de explicar para as crianças brancas o que era racismo e chegou a conclusão que a melhor maneira seria que elas sentissem na pele a experiência. Desenvolveu um exercício que dividia a turma em “olhos azuis” e “olhos castanhos”. No primeiro dia, os “olhos azuis” eram melhores e tinham todo o tipo de benefícios; no dia seguinte se invertia. O resultado, melhor assistir.

É preciso muita coragem para expor as crianças a tamanha crueldade. Em um primeiro momento, imaginei se fosse uma mãe como reagiria. Ao mesmo tempo, pensei que era um exercício temporário e controlado, muito duro, mas algo a ser suportado por um único dia. Sorte a delas, porque as crianças negras suportariam (ou suportam) por anos. Há sensações que podemos ter alguma idéia, mas é impossível realmente entender até calçar seus sapatos.

 

Pois bem, imaginem essa experiência nos EUA dos anos 70, ainda por cima com crianças! A reação foi violenta. O louco e ao mesmo tempo previsível, é que a retaliação não era feita diretamente à Jane, e sim contra sua família. A propósito, ela é branca e de olhos azuis.

 

Ela não parou, felizmente, hoje realiza workshops com adultos e é quase engraçado como se comportam de maneira muito parecida às crianças. É impressionante como ela é capaz de arrasar com a auto estima de adultos barbados em alguns segundos. O assustador é que não é violenta, é uma senhora, simplesmente utiliza mensagens que soam bastante familiares, mas que provavelmente nunca paramos para pensar na avalanche de efeitos em outras pessoas.

 

Daí pensamos, mas eu não faço isso ou não penso assim. A questão é, ok, talvez não, mas o que fazemos a respeito? Um dos pontos que ela coloca é que basta a omissão dos bons para que o mal se perpetue. Uma verdade tremenda! Quantas pessoas que não se consideram preconceituosas sorriem diante a uma piada racista? Para não serem antipáticas? Quantas mulheres contam piadas de loira? Mesmo sabendo que no fundo estão se chamando de burras. Quantos absurdos a gente escuta e aceita com muito pouco ou nenhum questionamento, às vezes repete!

 

Olha que exemplo interessante, dessa vez em relação à imigração. Aqui, uma vez escutei que a reação espanhola aos imigrantes se devia ao fato de ser uma coisa nova, eles não estavam acostumados a conviver com gente de outra cor ou de outras culturas, e que esse processo de adaptação leva um tempo mesmo, é normal. Juro, a primeira vez que escutei isso achei muito razoável! Aceitei. Até que depois escutei mais meia dúzia repetir, e ouvi na televisão, e ouvi da boca de amigos brasileiros… Caraca! O mal já havia se propagado com uma rapidez impressionante, e o que é pior, através da boca de gente boa e que não era preconceituosa. Veja bem, o preconceito na Espanha contra os imigrantes não é ruim, é só porque não estamos acostumados! Ah, bom, então enquanto a gente se acostuma, eles que se mantenham em seu lugar. E assim, a gente se acostuma com eles, mas em outro lugar.

 

Um detalhe, se resolver entrar nessa discussão, pode esperar o chavão clássico seguinte: se não está satisfeito aqui, por que não volta para seu país? Esse para mim é especialmente interessante, porque saiu da minha boca algumas vezes quando decidimos morar fora do Brasil. Caramba, como já mudei a maneira de pensar!

 

Vamos combinar uma coisa, uma imensa maioria de imigrantes hoje legais na Espanha já estavam no país antes, simplesmente eram ilegais. A falta de direitos os deixava invisíveis? O espanhol só percebeu que eles estavam aqui depois da legalização? Eles trocaram a cor da pele ou mudaram o sotaque depois? Ui, tem um negro do meu lado! Como ele é diferente, não tinha notado… Ah, vá a merda, né? Não parece um pouquinho conveniente? O argumento sobre o processo de adaptação é verdadeiro? Claro que sim, em parte. O problema é que existe uma série de aberrações e mentiras pregadas com partes de verdade. Isso acontece só na Espanha? Claro que não, é só outro exemplo. Acontece em qualquer país, no trabalho, na sua casa e na minha também.

 

Não estou segura se sei o que fazer, mas não fazer nada parece ser uma péssima opção. Um outro questionamento que a Jane lança é sobre um pastor luterano que, na época do nazismo alemão, diz algo como “primeiro eles vieram atrás dos judeus, não fiz nada, não era judeu. Depois vieram atrás dos homossexuais, não fiz nada, não era homossexual. Depois vieram atrás dos ciganos, não fiz nada, não era cigano. Um dia vieram atrás de mim e não havia ninguém para me ajudar”.

 

O poder está nas mãos de muito poucos e é bem provável que não seja nas suas. Portanto, melhor pensar duas vezes com quem se aliar e no custo de nunca ajudar. E muito cuidado, ajudar não é infantilizar, não é fazer caridade. As pessoas respondem de acordo como são tratadas.

 

Um pouco de esperança também, porque havia um detalhe no documentário que me pareceu uma luz no fim do tunel. Um dos participantes se sente impotente e em dúvida sobre a possibilidade de se mudar uma realidade injusta. Bom, naquele dia as pessoas mudaram suas percepções, eu mudei, Luiz mudou, portanto é possível.

 

E olha que interessante, acredito que isso fosse por volta de 1996, porque se falava na candidatura do Colin Powell. A Jane questiona se os EUA estavam preparados para eleger um presidente negro e uma vice-presidente mulher, e parecia impossível!

 

Pois é, parecia.

PS: Esse é um pequeno trecho do documentário, quem se interessar, sugiro assistir até o final. As outras partes também se encontram no Youtube.

6 comentários em “Blue Eyed – O melhor documentário que já vi”

  1. Bianca,

    Parabéns pelo blog e pelo excelente texto, muito pertinente. Pena que o vídeo não está mais disponível, mas vou procurar com calma.

    Abs.

  2. Olá, estou tentando achar este documentário, porém no You tube foi retirado. Você conhece alguém que teria este documentário legendado? Mas eu gostaria do documentário com as crianças, pois do Workshop com adultos consegui na internet. Obrigado!

  3. Oi, Aylton! Infelizmente, não conheço ninguém, mas acredito que você consiga localizar pesquisando pelo nome dela, Jane Elliot. Tenta também pelo nome “A Class Divided”, de Jane Elliot. Sorte!

  4. Esse documentário é sem dúvida alguma o melhor que já vi também, essa é uma grande lutadora(Jane), seria uma boa se todos acordassem para lutar pela causa, que como a Sra. Elliot disse “Passam anos, décadas e o preconceito continua o mesmo…” mesmo sendo velado .
    Parabéns, pela rica dissertação!

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