Madri, 30 de dezembro de 2006 – Uma história que não saiu na imprensa

No dia 30 de dezembro de 2006, às 9:00 da manhã, a banda terrorista ETA explodiu um carro-bomba em um dos estacionamentos do terminal 4 de Barajas, aeroporto internacional de Madri. O atentado se produziu em pleno processo de paz, quando a banda terrorista havia declarado “alto fogo permanente”. Morreram dois equatorianos, Carlos Alonso Palate e Diego Armando Estacio. Segundo a imprensa, cerca de vinte e seis pessoas ficaram feridas levemente com a explosão.

 

Maiores detalhes sobre o atentado e o grupo terrorista, com meia dúzia de clics pela internet, qualquer um pode buscar. Portanto, vou me abster de posicionamentos políticos e simplesmente contar uma história que ouvi essa manhã.

 

Fui levar meu gato na veterinária, que normalmente é bem simpática, mas hoje nos atendeu com um rosto meio sério e abatido. Ao longo da consulta, foi desabafando o porquê. Ela estava no aeroporto, com seu carro estacionado, no momento e local em que a bomba explodiu.

 

Depois de dois anos morando no país, é a primeira vez que conheço alguém que estava diretamente envolvida, como vítima, em algum dos atentados terroristas do ETA.

 

É estranho, mas para a gente que vem do Brasil e vê tanta violência nas ruas, de uma maneira meio maluca, minimiza os danos causados pelo terror. Digo por mim, algumas vezes minha família e alguns amigos me perguntaram sobre como era a convivência com a possibilidade de um atentado. Francamente, me parecia uma pergunta absurda e exagerada. A probabilidade da violência me tocar aqui é muito menor que no Brasil e ainda por cima, os terroristas do ETA costumam avisar sobre as bombas, já que a estratégia é produzir danos econômicos e não pessoais. Não estou colocando essa situação de uma maneira simpatizante aos atentados, pelo contrário, porque com ou sem vítimas fatais, são hediondos e ponto final. Só estou dizendo que nunca me senti ameaçada até hoje. E pior, nunca havia entendido o quanto todo esse processo foi capaz de ferir uma nação e porque.

 

Ouvir a história, olho no olho, me emocionou. Vi uma realidade que não queria, mas que está aí.

 

Começando pelo começo, essa veterinária foi buscar um amigo no aeroporto e estava esperando no carro, lendo, com seu cachorrinho. O amigo chamou pelo celular, dizendo que estava com muitas malas e se ela poderia descer e ajudar. Por isso e só por isso, ela saiu do carro, mas deixou o cão, já que precisaria das mãos para ajudar com as malas. Deixou os vidros um pouco abertos para o cãozinho respirar e se foi pelo que seriam alguns minutos.

 

Literalmente, alguns minutos depois, quando voltou ao estacionamento, a entrada estava bloqueada pela polícia, que avisou haver um risco de bomba. Ela se assustou e disse que precisava buscar seu cão. Os policiais disseram que não havia jeito e que eles se afastassem e pegassem o ônibus para deixar o terminal.

 

Ela disse que sem o cão não abandonaria o terminal e foram os dois, ela e seu amigo, para uma cafeteria no local, esperar a história se resolver. O lugar estava cheio e nenhum dos dois acreditou que haveria mesmo uma bomba. Ligou para a clínica veterinária, para avisar do imprevisto e que poderia se atrasar.

 

Pois durante a ligação, com o celular conectado, a bomba explodiu. Os vidros todos se romperam e houve muita, mas muita gente machucada. Bem mais do que as 26 pessoas que a imprensa anunciou. Ela olhou para o elevador que eles haviam acabado de pegar e simplesmente não existia mais.

 

No meio da confusão, queria voltar para tentar localizar o cão, mas óbviamente, naquele momento quando poderiam haver várias vítimas humanas, ninguém dava muita atenção. As pessoas foram removidas para perto da pista, sob o risco de haver outra bomba e, de maneira meio desorganizada, levadas para outro terminal.

 

Claro que as vidas humanas tem prioridade, ninguém discute isso, nem ela. Mas quem tem animal sabe como a gente se apega aos nossos bichos e ela ainda por cima, como veterinária, não podia deixar de imaginar que o seu cão a essa altura poderia estar agonizando e precisando de atendimento. Era o cúmulo da impotência.

 

Finalmente, conseguiu a atenção de um policial que se sensibilizou com a história e lhe disse que voltasse ao terminal 4, mesmo rompendo as barreiras de segurança e de lá ligasse para ele, que ele tentaria interceder.

 

Ela e o amigo voltaram a pé ao terminal 4, e podem acreditar que a distância é enorme, se escondendo e passando pelas cordas de segurança, até que conseguiram chegar ao estacionamento.

 

A essa altura, os bombeiros finalmente haviam entrado no local, onde havia uma quantidade de fumaça e pó impressionantes. Muitos carros ainda se incendiavam, por causa da gasolina. Havia passado cerca de nove horas, e cada vez mais a possibilidade de encontrar seu animal vivo era menor.

 

Ela falou com os bombeiros, contou a história e se prontificou a assinar qualquer termo de responsabilidade para deixarem ela entrar no local e tentar localizar seu cão. Eles não permitiram, até porque seria impossível entrar no local sem máscaras. Mas se sensibilizaram com ela e entraram para tentar localizar seu carro.

 

Voltaram dizendo que a probabilidade do cachorro estar vivo era muito remota. O carro que estaria estacionado ao lado do dela, caiu cinco andares. O dela permanecia no local por sorte, pois estava estacionado ao lado de uma pilastra, onde o chão é mais firme. Além do mais, o fato dela ter deixado os vidros um pouco abertos, fez com que a pressão interna no veículo não fosse tanta e assim os vidros não explodiram.

 

Ela disse que queria o cão de todo jeito. Sua preocupação maior é que ele estivesse morrendo e, mesmo que isso fosse inevitável, não queria abandoná-lo.

 

Os bombeiros resolveram tentar pela segunda vez e não é que apareceram no meio da fumaça com um cãozinho? Vieram beijando o pobre, que vinha no colo sujo e tremendo, mas conseguiu reunir forças para pular no colo da dona. Finalmente, uma história feliz, no que se pode chamar de feliz toda essa situação.

 

Entretanto, é preciso dizer que os noticiários insistiam em publicar que o aviso sobre a bomba foi dado muito em cima da hora, o que não é verdade. Foram dados três avisos, sendo o primeiro, antes das oito da manhã. Ou seja, havia tempo mais que suficiente para evacuar o local, se as autoridades competentes tivessem levado o aviso a sério.

 

Entendo um lado da imprensa que é o de não minimizar o ato terrorista, mas é importante lembrar que duas pessoas morreram e, depois de ouvir o relato da veterinária, pode acreditar que só não morreu mais gente por pura sorte. Ela mesma não foi evacuada do seu carro, só saiu porque seu amigo ligou pedindo ajuda para as malas. Além do número de feridos ser completamente irreal. Quantas outras histórias parecidas não houveram naquele dia?

 

Sinto muito pelas famílias dos dois equatorianos que morreram. Sinto muito pelas pessoas feridas e traumatizadas com o ato hediondo. Mas hoje vou ficar com a história do cãozinho que ganhou da bomba e da sua dona corajosa que, mesmo correndo riscos, em nenhum momento desistiu dele. Hoje vou ficar com os bombeiros que nasceram com a vocação de serem homens bons. Também vou ficar com as coincidências que fizeram as malas serem muitas, os vidros estarem abertos, o carro estar perto de um pilar e sobretudo vou ficar com a determinação pela vida. Preciso acreditar que às vezes, mesmo que seja só às vezes, em meio a tanta barbaridade, o mundo ainda insista em manter um mínimo de justiça.

 

¡Basta Ya!

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