92 – Escrivaninha à milanesa

Não sou uma pessoa sexista! Não sou mesmo. Mas reconheço que muitas vezes, ou por aprendizado, ou por DNA, ou pelo raio que o parta, homens e mulheres pensam diferente.

 

Realmente me intriga porque os homens sempre acham que tudo grande é melhor. E veja bem, estou me referindo a absolutamente tudo! A televisão maior, de preferência com um super mega controle-remoto para os 500 inúteis canais,  o micro-ondas maior, o carro maior… enfim, às vezes o maior pode ser substituído pelo mais caro. O importante é que seja mais.

 

Meu digníssimo marido não foge à regra masculina, o que muitas vezes (nem todas!) até me diverte. Como, por exemplo, a vez que comentei que precisava comprar uma frigideira e ele, sempre atento às minhas necessidades, me apareceu à noite todo orgulhoso com uma wok! Olhando aquela panela onde cabia comida para umas oito pessoas, fiquei imaginando como fritaria um ovo, motivo pelo qual, precisava de uma frigideira nova.

 

Mas também, não falei com todas as letras que era para fritar um ovo, caramba! E aí está o “x” da questão. Homens pensam no imediato e se orgulham de suas rápidas decisões, sem prestar atenção que a velocidade desse pensamento pode se dever ao fato de não parar para pensar dois segundos nas possíveis consequências.

 

E antes disso virar uma crônica feminista, longe da minha pretenção, porque no fundo acho o pensamento masculino divertido, vamos ao que interessa.

 

Luiz me liga empolgadíssimo porque havia visto no mercado uma lata de azeite de não sei quantos litros, de excelente qualidade, preço ótimo e que, ainda por cima, dava de brinde um recipiente ENORME de vidro para armazená-lo, com torneirinha e tudo. Primeira pergunta feminina: mas vou botar isso aonde? Faço compras semanais ou diárias porque as coisas não cabem mais na cozinha!

 

Lá vinha eu, a castradora! Só podia ser pessoal! Enfim, sem muita paciência nesse dia, encurtei a história e resolvi dizer, tá bom, que saber, ótima idéia, preciso muito dessa garrafa gigante de azeite.

 

Aparece ele todo feliz com uma garrafa realmente gigante. Próxima pergunta feminina inconveniente: mas cada vez que for cozinhar tenho que fazer um malabarismo com a panela embaixo dessa torneirinha? Putz grilo! Mas você é chata, hein? Que perseguição! Ele tinha a solução perfeita, encher o vidro antigo, bem menor, com o azeite do garrafão. Assim, só precisava repor de vez em quando, pronto!

 

Ah, tá! Se é você que vai fazer isso… perfeito! Acho que essa parte ele não ponderou, mas eu é que resolvi não me estressar. Quer saber, ele teve a idéia, se responsabilizasse por ela e todos seríamos felizes, certo?

 

Foi quando ele descobriu que para encher um vidro menor levava horas, precisando segurar o recipiente embaixo do garrafão. Deixei ele sofrer uns cinco minutos, sentado com cara de tédio na cozinha, garrafão na beira da pia e ele segurando um vidro menor. Acho que foi a primeira vez que ele ponderou que talvez não houvesse sido mesmo uma boa idéia.

 

Bom, sou meio canalha sim, mas não espírito de porco e a verdade é que fiquei com dó de deixá-lo ali e dei a idéia de fazer um tipo de mecanismo com algumas caixas sobre o banco, de onde se equilibrava a garrafinha a ser enchida. Era só ele não esquecer de verificar, de tempos em tempos, se já estava cheia.

 

Tudo muito bom, tudo muito bem, no dia seguinte lá fui eu arrumar um espaço em cima da escrivaninha de madeira da sala. Ficou apertado, mas admito que deu seu charme. Depois pensei, uma hora vai acabar e ele não vai ter saco de comprar outro garrafão. Tranquilo.

 

Até que o refil acabou e, claro, pedi a ele, amor, precisa encher o vidro de azeite outra vez. Digamos que ele não me abriu um largo sorrido diante da tarefa, mas não reclamou. Descobriu que no novo local, ainda era mais fácil de encher o refil, pois apoiava a garrafinha na própria escrivaninha, com o garrafão um pouco mais acima. Outra vez, só precisava verificar quando estivesse cheia. Tarefa essa que ameaçou querer me passar e tirei o corpo fora mais do que depressa. Claro que se lembrasse avisaria, também não preciso ficar de pirraça, mas sou super distraída e essa função não era minha. Não conte comigo para lembrar de nada!

 

Homens e mulheres, pensando diferente ou não, acho que é fácil imaginar daqui para frente o que aconteceu. Claro que ele esqueceu de fechar a maldita torneirinha e vazou azeite por uma noite inteira sobre a escrivaninha e o chão.

 

Ele acorda bem mais cedo que eu e, no dia seguinte, despertei com uma frase mais ou menos assim: &*$% que #$%iu! Acordei assustada e perguntei do quarto o que tinha sido. E ele: foi a $%%##$%%%#^& desse azeite que vazou a noite toda!

 

Por quase três segundos vivi o dilema de descer para ajudar, mas a verdade é que ainda enxergava embaçado e suponho que meu humor não ajudaria muito. Daí, fiz o que qualquer mulher racional faria, fechei os olhos bem forte e pensei que se ignorasse o problema com toda minha energia, quem sabe desapareceria? O esforço foi tanto que o pior é que dormi de verdade e só ouvi alguma coisa como, quando chegar do trabalho pode deixar que limpo melhor.

 

O fato de continuar dormindo foi uma sábia decisão. Pois quando levantei da cama estava de bom humor e um pouco curiosa para ver o estado de calamidade pública que a sala deveria se encontrar. Foi bem melhor do que imaginava, pois pelo menos o chão estava seco.

 

Pensei com meus botões, cassilda a lei de Murphy funciona mesmo, não é que esqueci de comprar papel toalha para cozinha? Será que o Luiz achou os panos descartáveis embaixo da pia? Essa dúvida foi satisfeita alguns segundos depois, quando vi no lixo um monte de papel higiênico! Papel higiênico? Claro, lógica masculina, para limpar a cagada, seja ela qual for: papel higiênico! Nem quis saber quantos rolos ele gastou, mas acho que deve ter sido suficiente para embrulhar uma múmia! O importante é que o chão estava razoavelmente limpo, o que não é tarefa simples quando se trata de azeite.

 

Por outro lado, a escrivaninha… tinha poças de azeite. Felizmente, ele lembrou de tirar as gavetas onde guardo roupa de cama. Sim, guardo roupa de cama na escrivaninha por absoluta falta de espaço, mas essa é outra história. Enfim, essa parte da roupa estava milagrosamente limpa. Entretanto, esqueceu duas gavetas menores onde guardo toalhas de mesa, guardanapos de tecido e panos de prato. Essa outra parte precisou ser toda lavada… três vezes! As brancas em água sanitária.

 

O móvel não ficou feio, pelo contrário, dizem que é bom de vez em quando passar um pouco de óleo para hidratar a madeira. É verdade que não precisava ser azeite de oliva extra virgem e a madeira deve estar hidratada para os próximos cinco séculos! Tudo bem, o problema mesmo é que a gente passa por ela e dá a maior fome. Felizmente, ali não bate sol, caso contrário, estou segura que fritaria como uma croqueta.

 

Já com a casa limpa, chega o Luiz com a cara de criança que fez arte, bonzinho mesmo. De certa forma, deve ter ficado mais aliviado porque quebrei o galho e limpei a casa durante o dia. Talvez estivesse mais aliviado ainda porque estava de bom humor.

 

A propósito, o azeite é realmente muito bom, tanto para cozinhar quanto para lustrar os móveis.

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