8 – A escultura vai andando, já o curso, se arrastando

Consegui trabalhar na escultura, que chamo assim por falta de um nome melhor, acho que é mais um objeto ou quase uma instalação, ainda não sei como definí-la. Mas aqui, se é tridimensional, eles chamam de escultura. Por mim, podem chamar de abacate, dá no mesmo.

 

O atelier de escultura da faculdade é bárbaro! Enorme! Você pode trabalhar com o que quiser: ferro, pedra, argila, resina etc. Tenho trabalhado na serralheria. Sou absolutamente fascinada pelas ferramentas, equipamentos e, principalmente, por todo aquele espaço.

 

Não há nenhum glamour, é muito diferente das exposições e vernissages, mas é onde a coisa acontece de verdade. Na prática, os locais de trabalho costumam ser empoeirados e, para um olho menos treinado, sujo mesmo. E eu, a neurótica obsessiva por limpeza, nem me importo. Fico quase que literalmente, como pinto no lixo.

 

Estive pensando, as ferramentas que gosto de usar quase sempre são de trabalho pesado e possuem algo de risco. Talvez seja a necessidade de controlar o destino, de ser capaz de mudar as direções, forjar o metal. Talvez seja uma maneira de aproximar o perigo. No início, sentia esse perigo naturalmente presente, agora preciso caminhar até ele e, assim, margear o limite.

 

Trabalho ultraconcentrada, não quero perder um dedo. E das pouquíssimas vezes em que me distraio, recebo um recado violento: presta atenção! É o momento em que não só busco a solidão, mas preciso dela.

 

Sei que saio do atelier vestida de peão de obra, músculos doloridos, desodorante vencido, com uma luva nojenta de suja e carregando uma mochila grande, eu que não carrego nem bolsa. Na boa, saio um trubufu! E mesmo assim, com vontade de sorrir à toa.

 

De lá, normalmente, me dirijo às aulas teóricas, vou me arrastando. Minha expressão muda muito claramente. O curso começou bem, ainda que tenha feito minha vida mais difícil. Mas agora está um saco, me faz perder muito tempo! Fora a tentativa de manipulação patética para que a gente faça arte política de qualquer jeito. Uma turma de vinte e sete alunos, em que assistem as aulas uma média de dez. Acho que isso quer dizer alguma coisa, por exemplo, que meus novos colegas não são de todo bobos.

 

Fazer o que, como diz o velho e gasto jargão, tudo na vida tem um preço. De uma forma ou de outra, há pouco tempo me dei conta que, mesmo de uma maneira torta, estou voltando à ativa. Acho que isso deve ser um bom sinal.

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