78 – Férias entre 2006 e 2007

Sair de férias é o tipo de coisa que até quando é ruim, é bom! E quando é bom, então… é correr para o abraço! Pois seguindo essa lógica, hoje posso abraçar o mundo, porque foi uma viagem e tanto.

 

Vamos começar pelo começo. O ano de 2006 foi difícil para mim, não posso dizer que foi um ano ruim, seria injusto, mas foi complicado. Muitos problemas de saúde na minha família e na do Luiz, um curso que será bom um dia, mas que me atravancou um bocado ao longo do ano, a ficha caindo que sou uma imigrante… e por aí vai. Não importa mais, sobrevi e muito bem, obrigada. Também é verdade que muita coisa boa aconteceu. Entretanto, o fato é que ao chegar em dezembro, mal podia aguentar para fugir do planeta.

 

E assim foi. Entre a última semana de dezembro e a primeira de janeiro, não quis saber do que ocorria no mundo. Ouvi de orelhada que executaram o Saddam, que uma bomba explodiu em Madri e algumas outras desgraças que, sem o menor pudor, fiz questão de ignorar. Não vi televisão. Ainda por cima, checar a internet do caminho era uma tarefa árdua, a Europa ainda é pouco evoluída nesse sentido. Como estava fugindo de qualquer tarefa, também mal chequei a internet. Para ser brutalmente sincera, não queria nem fazer as perguntas retóricas de “como vai, tudo bem?” porque as pessoas podiam levar a sério e responder. Egoísmo mesmo, ao cubo, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Juro que não sou assim normalmente, mas fui durante duas semanas inteirinhas. E como foi bom.

 

Saímos de carro, Luiz, eu e, claro, o Jack. Lógico que ele foi, imagina se deixaríamos nosso felino sozinho tanto tempo. Nosso gato internacional metido conheceu mais dois países e se comportou divinamente em toda a viagem.

 

Começamos por Andorra, um micro país entre as fronteiras de Espanha e França. Fica há cerca de seis horas de Madri e era nossa segunda vez por lá. Ali passamos o Natal só nós três. Foi bastante tranquilo e relaxante, estávamos precisando. Acho que foi a melhor forma de iniciar.

 

Como nada é perfeito, a neve não ajudou muito, ou melhor, a falta de neve não colaborou. Por outro lado, essas estações de esqui já não podem mais só contar com a natureza e fabricam sua própria neve artificial, quando a temperatura permite. Por isso, felizmente, pudemos esquiar, ainda que não fosse a melhor neve do mundo. É que, quando isso acontece, a neve fica um pouco dura e empedrada. Mas quer saber, foi o suficiente para a gente se divertir e uma boa desculpa para ficar nas jacuzzis e saunas do hotel até a pele enrugar.

 

As pistas de neve seguem uma graduação de acordo com sua dificuldade que é definida por cores. Há as pistas debutantes, que são onde você aprende a esquiar. Depois vem as verdes, as azuis, as vermelhas e as pretas, nessa ordem, sendo as pretas mais difíceis. Quer dizer, para mim, as pretas parecem absolutamente impossíveis! A minha maior ambição era terminar a viagem sendo capaz de descer uma azul.

 

Melhor explicando, descer, sou capaz de descer qualquer uma. A questão é ser com ou sem dignidade. Afinal de contas, descer de bunda ou rolando também é descer, certo? Pois queria descer uma azul com alguma dignidade.

 

Em Andorra, desci apenas as verdes. Além da neve não colaborar, só me sentia confortável em tentar uma azul se fosse com um instrutor. Isso faz toda a diferença, porque eles sabem alguns exercícios que te propiciam corrigir a postura, centro de gravidade, enfim, para mim é fundamental. Acontece que sei que Luiz não gosta de esquiar sozinho e tentei acompanhá-lo. De qualquer forma, com uma neve ruim, seria um desperdício pagar a um instrutor.

 

Depois de uma semana em Andorra, seguimos para uma pequena cidade francesa próxima a Bourdeaux, chamada Bourdeilles. Lá ficamos por dois dias, na casa de um casal de amigos holandeses. Bourdeilles é uma cidade medieval linda, tranquila e agradável. E como não poderia deixar de ser, também tem seu castelo. Aliás, coisa chata isso de viajar pela França, toda hora você esbarra em um castelo… ai, ai…

 

Enfim, foi bom para descansar um pouco dos esquis e me deixou com uma vontade enorme de ter uma casa pela região.  Sonhar não custa, quem sabe um dia.

 

O casal que visitamos é muito especial, gente do bem, e tem uma filhinha temporão de nove anos que é uma fofa. Ela simplesmente ficou encantada com o Jack, mesmo ele não tendo lhe dado muita bola, afinal de contas, apesar de ser considerado da nossa família, ele ainda é um gato. A combinação felino-criança não costuma ser a mais indicada. Mas, na medida do possível, até que ele se comportou direitinho. Com o casal, nos comunicávamos em inglês, a filha só falava holandês e digamos que o meu holandês não é exatamente fluente, o que quer dizer que só sei dizer “bom dia”. Mas isso não foi problema, ela era bem inteligente e fomos dando nosso jeito.

 

De Bourdeilles, seguimos para Val d’Isere, no que deveria ser sete horas de viagem, mas graças ao trânsito horroroso, levou nove. O pobre do Jack chegou tortinho e nós exaustos!

 

Ficamos em um apart hotel, o único que conseguimos alugar com uma antecedência de uns dois meses. É que na Europa eles se planejam para tudo e quando você deixa para em cima da hora (sim, dois meses é considerado em cima da hora!) é muito difícil conseguir um bom local. Alugamos um flat simples, porque hotel não tinha mais, considerado de bom preço para a região e o principal, muito bem localizado.

 

Ao chegar no flat, confesso que minha impressão não foi das melhores. Acho que a pessoa que arrumou o lugar ou os últimos hóspedes tinham, digamos, um belo de um cecê francês e o quarto estava fedendo mesmo. Tinha três preocupações, a primeira era em relação à nossa estadia; a segunda é que chegaria um outro casal de amigos americanos para o mesmo apart e fiquei pensando que eles poderiam passar por esse problema; e a terceira é que existia a forte possibilidade de um casal de amigos brasileiros, fosse dormir conosco uma noite.

 

Enfim, Luiz e eu ficamos nos olhando com aquela cara de nádegas e ele achou que a gente podia solucionar comprando uns aromatizadores, paninhos de limpeza ou algo assim. Não tinha outro jeito, então respirei fundo, mas não tão fundo porque fedia, e fomos ao supermercado bem próximo. Compramos os tais aromatizadores etc, voltamos para o flat, abri bem as janelas para arejar e fomos arrumando o quarto da nossa maneira, tentando arranjar o máximo de espaço possível. Sabe de uma coisa, não ficou mal e conseguimos sair para jantar, relaxar um pouco e esperar nossos amigos. Sabíamos que ia começar a parte da farra na viagem.

 

Val d’Isere é simplesmente linda! Um cartão postal natalino. Tudo que queria, me mudar por alguns dias para uma cidade de contos de fadas. Ali parecia não haver problemas, as pessoas eram bonitas e com cara de bem sucedidas. Estávamos prontinhos e descansados para chutar o balde!

 

Foi a parte da viagem também que teríamos companhia. Um casal de amigos americanos veio diretamente de Atlanta nos encontrar por lá, fizemos as reservas do apart juntos. Eles são super animados e a diversão era garantida. Um outro casal de amigos brasileiros, que acabou de se mudar para Suíça, também prometeu nos encontrar para a noite de Reveillon. O único problema é que, claro, não estavam achando onde ficar. Gostamos muito deles e não queríamos perder a oportunidade de vê-los, daí oferecemos que eles dormissem conosco no flat, caso não encontrassem hotel para ficar.

 

Acontece que nós pensamos que o flat fosse maior e quando chegamos e vimos o tamanho e, ainda por cima, o tal do futum, imagina o drama. Felizmente, antes deles chegarem, o problema aromático já estava resolvido e tínhamos pensado em uma arrumação que eles caberiam. A verdade é que a boa vontade de todos os lados colaborou e coubemos sem maiores transtornos. Foi tão bom que eles não ficaram só uma noite, ficaram duas. E nós adoramos!

 

Mas vamos por partes. Chegaram os dois casais no dia 31 de dezembro. Os americanos pela hora do almoço, e os brasileiros no fim da tarde. Nossa reserva para festa de Ano Novo era a partir das 20:30 horas.

 

Nessa manhã, antes deles chegarem, foi nosso primeiro dia de esquis em Val d’Isere. Lá fui eu e minha vertigem subir uma montanha incomensurável com o Luiz no maior gás me dizendo que havia uma pista verde, a mais fácil, que vinha até embaixo. Pensei com meus botões, como em uma altura dessas pode haver uma pista verde até o chão? Mas me convenci que iria encarar os desafios e mesmo desconfiada, topei a parada.

 

Logo que saltei do bondinho e olhei a pista, só vi aquela ladeira abaixo super intimidatória. Não leve a mal, mas aquilo não é verde nem f…! Queria matar um e o único conhecido era o pobre do Luiz. Ficamos andando igual a barata tonta procurando alguma descida razoável e, quando havia desistido, muito frustrada, Luiz viu uma escada que levava a um nível mais abaixo, no que ele jurava que aí sim era a pista verde.

 

Lá fomos nós. Não falei que ia encarar os desafios nos esquis? Pois então pronto, decidi que desceria aquela bosta daquela pista. Muito bem, descer, desci. Mas aviso que o &*$#%@* que demarcou aquela pista como verde deve até ter mãe, mas com certeza está na zona, aquela bandida!

 

Luiz com toda a paciência do mundo e eu uma verdadeira megera! Não, porque para descer aquela pista eu precisava de muita raiva. Assim, qualquer engraçadinho que pensasse em fazer alguma piadinha, teria medo quando olhasse para minha cara!

 

Não caí, nem sei como, mas apesar das joelheiras que uso, ferrei meu joelho esquerdo. Em pelo menos dois momentos travei de uma forma que a vontade era de parar e chorar. Na última travada, pensei seriamente em sentar no chão, desistir e me arrastar até a base da ladeira, onde havia um bar. Estava exausta e as pernas doíam para burro. Foi quando me deu raiva e é por isso que digo que só com raiva podia descer aquela merda. Luiz, coitado, tentava me animar, mas a essa altura não queria escutar ninguém. Passaram por mim três esquiadores em fila, fazendo uma diagonal que acreditei possível. Resolvi tentar, pensei que se caísse, foda-se, rolava até embaixo, mas não ia sentar de propósito.

 

E assim foi, consegui chegar na base da pista, onde havia um bar e um bondinho para descer o restante. Cheguei puta, torta, cansada e dolorida, mas cheguei. Estava disposta a descansar um pouco e continuar a descer com o Luiz. Mas ele achava melhor que eu descesse pelo bondinho, já que a pista não parecia nada verde e também estava difícil para ele, que esquia bem melhor que eu. Resolvi ter um mínimo de maturidade e achei que não valia à pena ferrar mais meu joelho logo no primeiro dia na cidade. Aceitei descer no bondinho de onde vi Luiz deslizar sério o resto da pista e agradeci não estar nela. Ainda não.

 

Lá embaixo, fomos até a pista de debutantes, para eu reaprender a esquiar. A situação foi tão drástica que simplesmente esqueci os conceitos mais básicos e regredi. Achava que precisava de um instrutor, mas resolvi esperar que os nossos amigos chegassem e fizessem companhia ao Luiz esquiando.

 

Os amigos americanos chegaram pela hora do almoço e nossa bagunça iniciou. No quarto deles, percebi rapidamente que não havia nenhum problema aromático, o que me tranquilizou. De cara, abrimos uma Veuve Clicquot e iniciamos os trabalhos. Os amigos brasileiros chegaram no fim da tarde, quase na hora de se arrumar para a festa. Ambos tiveram problemas na estrada, havia uma parte bloqueada e tiveram que fazer um enorme retorno. Chegaram cansados, mas animados.

 

A festa foi o máximo! Reservamos uma mesa no restaurante do hotel Blizzard, um dos melhores da região. Difícil descrever porque estava tudo perfeito nos mínimos detalhes. A decoração linda, tudo branco e dourado, a louça elegante, a música adequada e a comida simplesmente divina. Um verdadeiro banquete regado a champagne na temperatura perfeita.

 

Houve um momento em que me emocionei discretamente. É que estar em um lugar tão mágico, com Luiz e nossos amigos tão queridos, me provocou um ataque súbito de humildade e pensei que não merecia tanto. Mas era um dia de festa, o melhor do ano e não cabiam lágrimas. Não sei se merecia ou não, mas estava lá. Queria que outras pessoas também estivessem, minha família, outros amigos. Queria que todo mundo tivesse pelo menos um dia assim. Merecendo ou não, estava muito feliz.

 

Após o jantar, a pista de dança foi aberta e a música era ótima. Dançamos até! A meia-noite, rompemos saltando com o pé direito e brindando. Como é bom dividir esses momentos e que bom não estarmos sozinhos.

 

Logo em seguida, nós as meninas fomos tomar um ar fresco do lado de fora. Seguramente a temperatura era negativa, mas depois de dançar e com tanto champagne na cuca, estávamos mortas de calor e sem casacos. Recebemos o melhor presente da noite, começou finalmente a nevar,  exatamente no momento em que saímos.

 

Os maridos se juntaram a nós e foi quando veio a brilhante idéia de pular as sete ondas. Sou a cética ateísta, mas filha de Iemanjá, e não posso de jeito nenhum deixar de pular as sete ondas! Fizemos sete montinhos de neve, afinal de contas também é água, e um a um pulamos para garantir a proteção de Janaína por 2007.

 

Se o ano depender de como o iniciamos, esse tem tudo para ser fantástico! Claro que haverão problemas, faz parte da vida, mas é muito bom começar com uma dose de otimismo. Não é o máximo ter um dia em que a gente acredite que tudo pode dar certo? Muito amor, amigos, fartura, felicidade e fantasia. E que assim seja.

 

Saúde!

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