75 – Aprender a paciência

A vida de um expatriado tem um sério problema, ainda não inventaram o aparelho teletransportador do Star Trek. Por mais que as distâncias pareçam cada vez mais curtas, tem momentos que a coisa complica e dá uma vontade absurda de ser onipresente. A santa internet e o bendito telefone ajudam muito. Mas tem uma hora que o que você gostaria mesmo é da presença física.

 

Uns três dias após a cirurgia, meu pai foi liberado para ir para casa, o que nos foi de grande alívio. Infelizmente, sentiu alguns efeitos colaterais neurológicos e precisou voltar ao hospital por medidas de precaução. Claro que assustou todo mundo. É uma das horas que o teletransportador faz falta.

 

Tenho aprendido a ser mais otimista e confiar nas informações que as pessoas me passam, até porque a outra alternativa é enlouquecer. Procuro seguir a relativa rotina planejada, mas é óbvio que normalzinha não dá para ficar. É muito estranho de uma hora para outra se sentir prestando atenção a tudo, como se qualquer coisa pudesse ser um sinal. O que você sonha, o tom de voz que te contaram algum procedimento, o que seus instintos te dizem… Fazer o que? Se é o que você tem?

 

Enfim, meu pai voltou ao hospital e iniciou uma série de exames para descobrir o que tinha acontecido. Repetindo como um papagaio o que meu irmão me disse, em princípio está tudo bem, foi um rompimento de uma pequena ramificação que eles teriam utilizado como fonte secundária de fluxo sangüíneo, ou algo parecido. Mas que na verdade, a coronária principal, a que foi operada, está em perfeitas condições. Eles alargaram a outra coronária e, segundo o médico, a probabilidade de acontecer essa ausência de coordenação dos membros direitos, o que aconteceu com meu pai, é menor do que em uma pessoa normal.

 

Estaria mentindo se dissesse que entendi perfeitamente essa explicação, mas todas essas palavras juntas até que fazem algum sentido. Uma coisa importante eu aprendi, quando te dão alguma explicação, qualquer uma, isso é bom. O ruim é quando está naquela fase do estamos-averiguando-o-que-poderia-ser. Porque isso normalmente quer dizer que eles não tem a menor idéia do que se trata!

 

Acredito que ele fique internado mais alguns dias e, mesmo não apresentando mais nenhum problema, acho importante que ele só saia quando tiver certeza que está tudo bem. Por um lado, me dá um pouco de pena, porque sei que ficar em um hospital é um saco. Por outro, talvez funcione como um aviso, não sei. Pode parecer um pouco cruel o que vou dizer, mas acho que o enfarte salvou a vida do meu pai. Não foi o suficiente e ele precisou de outro aviso. Talvez esse tempo forçado ajude a clarear as idéias.

 

De qualquer forma, é difícil para mim. Sempre fui a acompanhante de hospital oficial da família. Tenho meus truques, entro em qualquer UTI na hora que quiser, consigo a paciência que nunca possuo normalmente e posso me tornar um leão-de-chácara com enfermeiras irresponsáveis ou visitas inconvenientes. Agora mesmo, isso não me adianta em nada. Só posso telefonar, perguntar e buscar informações para ler a respeito. Absolutamente inútil! E o rojão fica com minha mãe e meu irmão. Há o resto da família e os amigos, aos quais sou grata, mas fico com essa sensação, até um pouco pretenciosa, de que não é a mesma coisa.

 

Por que não vou ao Brasil? Complicado. E também pode ser que em dois ou três dias, tudo isso esteja resolvido. Assim espero e é o que aparenta ser. Quer saber, um pouco de otimismo também não é mau.

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