72 – Fim de ano

Por que no fim do ano nos bate essa urgência de ver os amigos? Tudo bem que é um pretexto para vermos os que não tivemos a oportunidade de falar com tanta frequência, mas acontece a mesma coisa com os que encontramos toda semana.

 

Não sei o que ocorre, mas quando um ano se vai, bate essa vontade de nos despedir das pessoas. Talvez seja isso que dê um gosto de reencontro ao vê-las na semana seguinte, porque afinal de contas, será em um novo ano. De certa forma, acho que nos dá a ilusão de também sermos, ou podermos ser, novas pessoas.

 

Madri não foge a essa regra. Os restaurantes estão repletos, as dietas foram para o saco e a agenda das pessoas se tornou um quebra-cabeças complicado. O que acho disso? Adoro! Sou chegada a uma confusão.

 

A atrativa decoração de Natal e toda essa correria, me distraem do inverno que chegou devagar, mas chegou. A vontade de hibernar em casa e as alterações de humor pela mudança da luz já chegaram também. Preciso tomar cuidado para não ficar de pijamas o dia inteiro, principalmente agora que as aulas da faculdade acabaram. Ou seja, hora de vitamina C, gengibre e rua!

 

Nessa sexta-feira, foi o jantar de fim de ano com as meninas do curso de espanhol. Esse curso acabou há séculos, mas felizmente, conseguimos manter nossa amizade entre Brasil, França e Alemanha. E claro, também mantivemos nosso idioma próprio, que é algo entre o espanhol e o esperanto. Dessa vez, os maridos se juntaram a nós e fomos jantar no Nabuco, um ótimo restaurante italiano que fica na Calle Hortaleza. Ganhei esse jantar no meu aniversário, de modo que Luiz e eu fomos convidados.

 

Esse restaurante é muito perto do El Junco, ou seja, mesmo sem planejar uma noite tão longa, foi impossível não entrar ali pelo menos para um drink e uma dançadinha. Francamente, passar bem na frente da casa e não entrar seria até provocação. Enfim, Luiz comprimentou em português o simpático moçambicano da porta, que nos passou na frente da fila, afinal de contas, somos clientes habitués. Ainda conseguimos assistir ao finalzinho de um ótimo show de jazz, mas não ficamos até tarde, ou melhor, até de manhã. Ainda no El Junco, Luiz ligou para um casal de amigos brasileiros que costumava ir conosco lá, antes de retornar ao Brasil. E como sempre, só ele consegue conversar, porque não escuto nada pelo celular. De qualquer forma, é divertido, pois parece que eles estão mais próximos.

 

No sábado, nos escondemos do mundo. Descongelei o restinho de feijoada do aniversário do Luiz, devidamente devorada. Nesse tempinho, é tudo de bom! Só saímos para esquiar, em um horário razoavelmente improvável. Esquiamos mais ou menos de 23:00 à uma da matina. Para dizer a verdade, a pista não estava exatamente boa. A neve estava uma porcaria; estava lotado de gente, apesar do horário; um dos acessos ao topo da pista não estava funcionando; e uma mocinha responsável pela manutenção da pista tentou quebrar meu pé com uma pá de neve. Sobrevivi quase sã e quase salva, o que com um pouco de otimismo, considerei um bom sinal.

 

No domingo, outra festinha de fim de ano na casa de uma amiga. Por sorte, foi cedo e deu para conciliar com o concerto de cordas de um quarteto, onde toca outro amigo. O concerto foi em Cobeña, uma cidadezinha pequena há cerca de 15 km de Madri. O quarteto é formado por dois violinos, uma viola e um violoncelo. Nosso amigo é o da viola, que para quem não conhece, é um tipo de violino um pouco maior. Ainda bem, porque ele também é um pouco maior que as pessoas normais e acredito que um violino ficaria desproporcional na sua mão.

 

Talvez o fato de ter sido realizado em uma cidade pequena fez com que a função não fosse tratada com o devido respeito. Ninguém sabia exatamente quando aplaudir e o responsável pelo espaço insistia em falar ao telefone. Mas com um pouco de boa vontade e espírito natalino, até que às vezes ficava engraçado. O importante é que tocavam muito bem e foi uma maneira excelente de terminar o fim de semana.

 

Gosto de reparar, além da música, as expressões dos músicos. A menina do viloncelo, por exemplo, tocava com as mãos e as sobrancelhas. Algumas vezes, as expressões faciais dos músicos me lembram a dos surdos-mudos. De alguma forma estão pensando em uma língua diferente. Um dia queria muito entender essa língua. Quem sabe isso não se transforme em uma promessa de ano novo?

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