71 – Um mico muito legal

Não me considero uma pessoa tímida. Também não sou das mais extrovertidas, até pareço mais séria do sou de verdade, mas tímida mesmo, acho que não. Entretanto, nesse sentido, tenho um ponto fraco indisfarçável, é só ligar uma câmera de vídeo na minha frente e me transformo em uma caipira. Pode ser até vídeo de casamento que simplesmente me paraliza.

 

Pois muito bem, estava eu tranquila checando meus e-mails e me chama pelo MSN uma amiga brasileira que vive aqui em Madri. Começou me contando que foi convidada a participar de um programa culinário que vai ao ar em cadeia nacional da televisão espanhola. A equipe vai na casa de estrangeiros que vivem em Madri e eles fazem pratos típicos de seu país. Puxa! Achei o máximo! Falei, que legal, quer dicas para cozinhar? Ela me respondeu, mas não sei cozinhar, achei que era sua cara e queria te indicar.

 

Como? Eu? Euzinha? Nunca! Jamais! Mas de jeito nenhum! E comecei a suar e a corar só de imaginar a possibilidade! Escuta, podemos fazer assim, te ensino como fazer e você faz. E ela disse que não tinha chance e começou a me convencer. Coloquei um milhão de barreiras que ela foi derrubando uma a uma. No fundo, tinha vontade de fazer, mas me dava uma vergonha danada!

 

Acontece que tenho por princípio não perder oportunidades. A verdade é que era algo legal, em um programa de qualidade e fazendo uma coisa que adoro, cozinhar. Mas realmente, além de me pegar desprevenida, estava com a casa cheia de visitas e seria impossível fazer qualquer coisa por aqueles dias. Então fiz o seguinte, deixei o destino decidir, disse para ela que naquela semana não tinha jeito, só poderia se fosse na segunda quinzena de novembro. Claro que disse isso por duas razões, uma que ganharia tempo, a outra porque jurava que não iriam topar. E, nesse caso, não seria eu quem estaria desistindo e, portanto, não estaria perdendo nenhuma oportunidade, certo?

 

Óbvio que eles toparam e a responsável pelo programa me ligou, aliás, muito simpática. Putz-caraca-que-vergonha! Mas não tinha como dizer não. Aceitei.

 

Várias vezes ensaiei escrever sobre o assunto, mas estava tão nervosa que não saía nada. Sei que é uma tremenda bobagem, não é nada demais, mas desde quando os medos são racionais? Achei que a melhor estratégia era não falar no tema e fazer de conta que não ia acontecer.  Aquela coisa de “se eu fingir que o problema não existe, será que ele desaparece”?Até que a responsável pelo programa me ligou nessa segunda-feira, marcando a gravação para hoje, quinta-feira.

 

Falando em estratégia, sou uma pessoa de estratégias, ou seja, tenho uma grande habilidade na preparação. Pura necessidade. Preciso dessa habilidade, porque se depender do improviso, estou ferrada! Bom, daí me preparei o melhor possível no dia anterior. Comprei todos os ingredientes, deixei tudo organizado, limpei a casa e a cozinha. Até aí, tudo bem. Quando comecei a pensar no que ia dizer para a câmera, pronto, iniciou meu calvário. Fui dormir, pensando nos nomes dos ingredientes em espanhol. Só preguei os olhos graças à bendita melatonina.

 

Às onze da manhã, a equipe da TV chegou em casa. Fui logo colocando minha dificuldade, que era basicamente… tudo! Morro de vergonha das câmeras, nunca cozinho com ninguém perto, muito menos explicando o que estou fazendo e, ainda por cima, tendo que falar em espanhol. Meu castellano já não é perfeito e o normal é, quando ficamos nervosos, voltar ao nosso idioma nativo. Resumindo: que-raios-tô-fazendo-aqui-socorro!

 

Para minha sorte, o pessoal era do bem, tinham muita paciência. O programa que eles fazem não é com artistas ou chefs profissionais, é com gente comum, cozinhando em casa. Ou seja, eles estão acostumados a lidar com o nervoso e a inexperiência. Pelo menos, isso me disseram e me foi conveniente acreditar.

 

Achei que quando começasse a gravar, aos poucos meu nervoso fosse diminuindo e tudo fluisse mais naturalmente. Para ser sincera, não relaxei, fiquei tensa até o final. Mas, ao mesmo tempo, consegui me divertir, porque afinal de contas era muito engraçado. É verdade que me enrolei algumas vezes, mas eles me disseram que estava bom. Sei lá, acho que é porque na edição eles cortam muita coisa.

 

Enfim, paguei uma família inteirinha de micos e só houve um momento que realmente curti, foi quando o cheiro da moqueca de camarão começou a invadir a casa e a deixar todo mundo com fome. Pensei, tudo bem, com as câmeras I suck, mas aqui o jogo é meu. Foi o que recuperou minha dignidade.

 

Mal a gravação terminou e devoramos a moqueca. Até o prato de apresentação, montado para a filmagem, foi devidamente aproveitado na refeição. Imagina se a gente ia deixar camarão de enfeite! Aí sim, relaxei. Conversamos, brincamos, bebemos caipirinha e foi muito divertido. Não sei se manteremos contato, acho difícil, mas bem que gostaria.

 

Quando eles foram embora estava ao mesmo tempo exausta e eufórica, doida para contar a alguém! O celular do Luiz não atendia de jeito nenhum. Liguei para minha amiga, a que me indicou para o programa, e fofoquei com ela, morrendo de rir, ainda um pouco nervosa e falando compulsivamente. Aos poucos, a adrenalina foi baixando e fui me sentindo cansadíssima.

 

Mais tarde, Luiz chegou de Milão. Havíamos combinado de jantar fora e não entendi quando ele me perguntou meio irônico se não queria passear com ele no aeroporto. Mas como assim? Ele tinha acabado de chegar de lá! Muito bem, ele foi ao aeroporto de carro, porque não iria ficar tanto tempo fora e, dessa maneira, facilitava sua vida em não precisar pegar dois taxis. Na volta, claro que ele esqueceu e pegou um taxi para casa. Só na frente do edifício, quando pegou a chave para abrir a porta, e junto veio a chave do carro, é que ele se lembrou. Lá fomos nós para o aeroporto e ainda por cima de metrô, porque não havia uma porcaria de um taxi na rua. Olha, confesso que já esqueci mala em aeroporto, mas um carro?

 

Na volta para casa, merecíamos um bom jantar. Resolvemos arriscar o Rubayatt. Digo arriscar pois nessa época do ano, entre quinta e domingo, os restaurantes estão super hiper repletos. Conseguimos literalmente uma última mesa. Como sempre, carne excelente e atendimento no altíssimo padrão paulista.

 

E assim, com chave de ouro, fechamos a noite de um longo dia.

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