7 – Uma escultura do meu tamanho

Estou trabalhando em uma escultura do meu tamanho. Tem a minha altura, nos seus quatro eixos verticais, e o meu comprimento de braços abertos nos nove eixos horizontais. Os eixos horizontais são posicionados também em alturas do meu corpo. O material é aço e utilizo encaixes, ao invés de soldas, para que seja de simples locomoção.

 

O que deve ser evidente para todo mundo, só percebi hoje. Estou usando meu trabalho para me reconstruir. Mais uma vez.

 

Acho que entendo melhor o Caetano quando diz, como é bom saber tocar um instrumento. Não toco instrumentos, mas opero bem com ferramentas pesadas. Ainda não entendi o porquê, mas sei que há algo por aí.

 

Como as outras pessoas, também sempre fui incentivada à atividade intelectual e me custou muito entender e aceitar que ela me é absolutamente insuficiente. Incompleta. Preciso do labor físico, das origens, do essencial. É a única forma em que posso dar vazão a toda essa energia.

 

Quando era pequena, e até minha fase adulta, destruía relógios. Não fazia por querer, eles simplesmente não me suportavam. Os ponteiros se soltavam, o vidro rachava, a bateria acabava, a correia rompia…  fiz coleção de relógios quebrados. Cheguei a achar que tinha algum problema. Talvez realmente tivesse, difícil dizer. Mas quando não consegui mais explicações racionais, tentei improvisar alternativas. Por exemplo, mudei o relógio de braço e passei a usá-lo mais frouxo. Melhorou muito. Outra opção, foi usá-lo como colar, isso funcionou. Pois me ocorreu que poderia ser um tipo de energia canalizada, sei lá, que precisava controlar melhor.

 

Casar diminuiu meu número de relógios destruídos. Mas o impressionante é que, coincidência ou não, quando estou envolvida em um trabalho artístico, principalmente na parte de execução física, meus relógios duram mais.

 

Outra coisa interessante, um pouco difícil de contar, desde pequena também enjôo muito. Minhas respostas à ansiedade, nervosismo ou qualquer outra coisa que não queira fazer, se reflete no estômago. Passei quase trinta anos da minha vida vomitando. Quando criança, não me lembro quantas vezes fui levada à farmácia para tomar injeção de plasil. Fui a vários médicos e não havia nenhuma explicação. Com o tempo, fui controlando melhor. Sempre acontecia pelas manhãs. Dormia muito mal, acordava sonolenta, dava uma vomitadinha, escovava os dentes, me arrumava e saía para estudar e, quando adulta, trabalhar. Simples assim. Fazia parte da minha rotina e, depois de um tempo, achei que era normal, me acostumei. Não tinha nada a ver com bulimia, enjoava em jejum e nunca tive problemas alimentares. No resto do dia, não tinha outras reações anormais e era saudável.

 

Desde o dia em que me aceitei artista, eu nunca mais enjoei à toa pelas manhãs. Nunca mais, nem um dia. Como posso explicar? É óbvio e incrível ao mesmo tempo.

 

Hoje me dei conta de tudo isso e não tive peito de ir trabalhar na escultura. Precisava digerir esse pensamento um pouco melhor. Amanhã vou ao atelier encarar meus demônios. Vamos ver no que vai dar.

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