66 – A tosse do sapo

Tenho um tipo de tosse alérgica que me ataca de vez em quando. De um modo geral, surge por uma gripe, uma mudança de clima ou alguma alteração besta. Na verdade, é a minha resistência que cai e qualquer bobagem ataca minha garganta. De maneira que a gripe, ou o que seja, vai embora e o raio da tosse permanece. Por observação, notei que é sempre que estou nervosa, tensa, preocupada ou algo do gênero. Resumindo, no popular é quando tenho um sapo na garganta. Enquanto não engolir o sapo ou vomitar o dito cujo, a tosse não vai embora.

 

O curioso é que, mesmo sabendo disso, me esqueço com frequência. Talvez minha cabeça queira esquecer. Há algum tempo minha tosse começou, mas como também entrou outono, o clima mudou e tinha muita gente com dores de garganta, vírus, enfim, essas doenças modernas que sempre surgem nessa época, achei que deveria ser por isso. Não dei muita atenção.

 

Acontece que hoje me ocorreu que poderia ser a tosse do sapo. Daí, fazer o que? Mergulhar no pântano para caçar o bicho. Motivos de preocupação, tenho alguns, quem não tem? O fato é que evito alimentar os girinos e a maioria morre por inanição, mas às vezes passam alguns e viram sapos-boi.

 

Voltei o filme até lembrar quando comecei a tossir e foi por outubro. Acho que tinha a ver com meu documento de identidade que não ficava pronto nunca. Achava que não estava me afetando tanto, já tinha uma certa experiência nisso e tentei levar com naturalidade. Mas também voltei a andar com o documento americano na carteira, caso fosse parada pela polícia ou algum estabelecimento não aceitasse mais meu cartão de crédito. A identidade brasileira não vale muito aqui, mais pelo formato que pela procedência, e minha carteira espanhola vai caducada desde abril desse ano. Por mais que faça parte do procedimento legal, nem todo mundo sabe disso.

 

A proximidade com o aniversário agravou a situação. Nessa época tenho muita vontade de mudar, de realizar coisas. É como o fechamento do ano de uma empresa, você quer correr atrás dos resultados e acabar bem. De repente, me vi com 37 anos, que me soa como quase quarenta, e que podia dizer? Fiz pouco? Talvez sim, talvez não. Nem essa clareza tenho.

 

A festa ajudou, ter amigos me ajuda na certeza de fazer alguma coisa certa. Mas uma hora a festa acaba e fica a casa para arrumar.

 

Arrumar a casa me dava uma sensação de tranquilidade, de um certo controle. Mais do que isso, me fazia acreditar que também estava provendo o conforto para nossa família. Entretanto, acabo de descobrir que não é exatamente assim. Aparentemente, esse é um esforço inútil para manter uma ordem desnecessária de algo que não é meu. Talvez o caos seja mais confortável e, embora vá me custar um pouco, acho que também posso me adaptar a ele em casa.

 

Recebemos visitas no fim de semana e ajudou a aliviar o ambiente. Vieram a irmã do Luiz com uma amiga do trabalho e as duas são muito divertidas. Engraçado elas chegarem exatamente agora, pois pude ver meu passado e meu provável futuro que nunca foi. Como estou diferente de mim. Sinceramente, não tenho a menor idéia se isso é bom ou mau e talvez não compense avaliar por aí. Não é a primeira vez que me deparo com caminhos que não segui. Sei que minha vida é outra e que preciso fazer alguma coisa com ela. Mas o que?

 

Preparei as peças para a próxima exposição coletiva na faculdade, que acontecerá em dezembro. Gostei das obras e tive meus cinco minutos pessoais. Mas assim como na exposição de setembro, está me custando disfrutar, me sinto um peixe fora d’água. Por que posso navegar em tantas águas diferentes, entender tanta gente diferente e, mesmo assim, sempre ter essa sensação de não caber em canto nenhum? Não é uma reclamação nem um lamento, simplesmente não consigo entender.

 

Nossas hóspedes foram embora e não tive nenhuma vontade de arrumar a casa. Luiz começou a arrumar as coisas e eu nem entendi, talvez tenha sido para me agradar, mas não tive vontade de entrar muito no assunto.

 

No mesmo dia, soube que meu pai vai operar no Rio de Janeiro, no início de dezembro. Está com a carótida entupida. De certa maneira, já estávamos esperando e não parece ser uma cirurgia complicada, mas sempre preocupa um pouco, principalmente por estar longe. Ele parece tranquilo, o que é boa notícia. De toda maneira, é o segundo sinal violento que recebe para se cuidar. E preciso me acostumar com o fato de que isso não é minha responsabilidade, muito menos minha culpa.

 

Pela primeira vez na vida, tomei um remédio para dormir. A irmã do Luiz me garantiu que era natural e não viciava, é melanina. De qualquer forma, só peguei duas pastilhas, ainda tenho muito medo disso. Sempre preferi meu sono de merda do que medicação para dormir. Ontem não resisti à tentação e tomei o tal comprimido. Fui deitar pensando absurdos como por exemplo, se a melanina ajuda a dormir, será que as pessoas negras dormem melhor? Será que durmo mal porque sou branquela? Antes de evoluir muito esse par de bobagens, ao som da televisão e da rotineira briga dos vizinhos, dormi.

 

Acordei bem, descansada. Pouco depois, Luiz me avisou por telefone que a carta da imigração havia chegado no nosso antigo endereço. É a carta que faltava para atualizar meu visto de residência em Madri. Pus uma roupa correndo e fui lá buscar. Há poucos metros do edifício,  sem querer comecei a me preparar para o caso de não ser a carta correta, de ser outro de tantos enganos entre esses sete meses que vou conferir o correio no endereço anterior. Não era um engano, era a carta mesmo com a aprovação do meu visto para mais dois anos, dos quais um já quase passou. Bom, não é o passo final, com essa carta preciso ir na próxima segunda-feira tirar minhas impressões digitais, levar foto etc, e daí leva mais um tempinho para eles imprimirem a carteira. Mas essa parte costuma ser mais rápida e não há mais nada a ser aprovado.

 

Voltei para casa naquela alegria misturada com não-sei-o-que. Vinha comemorando e ao mesmo tempo pensando que se precisasse ir ao Brasil às pressas por causa do meu pai, seria complicado. Lembrei que já passei por isso antes e, no fim, deu tudo certo. Então, por que não tentar ser um pouco otimista? Vamos por partes.

 

No apartamento, sentei com mais calma para ler e organizar a papelada que tenho que levar na segunda. Quanto mais lia, mais tossia. E foi aí que lembrei da bosta do sapo! Tinha um sapo-boi e uma família de girinos engasgados na garganta. Como não estava com a menor vontade de engolí-los, resolvi vomitá-los um a um no teclado e queimar os que sobraram com um bom café pelando. Quem sabe assim a tosse acabe.

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