60 – Operação compras

Acho muito engraçado quando encontro amigos que acreditam que morar na Europa é super chic. Juro que ainda tem gente que me imagina vestindo longos casacos de pele, em um carro conversível, cheia de mordomias e tomando vinho todos os dias. Bom, tirando a parte do vinho, que aqui é mais barato que coca-cola, o resto é fantasia, fica entre a piada e a caricatura.

 

Passar férias na Europa é chic, e mesmo assim na primavera. Morar aqui é outra história! Não reclamo, é mais justo e me divirto para burro, mas está longe de ser uma vida de glamour e de facilidades.

 

Meu apartamento inteiro cabe dentro da minha antiga sala no Brasil. E o pior é que já nem reclamo mais, porque quando digo que acho pequeno as pessoas me olham com cara de incompreensão. Fica uma coisa pernóstica e me sinto arrogante. Por outro lado, após acomodar tudo, ou quase tudo, em ínfimos armários, posso afirmar que minha habilidade na resolução de quebra-cabeças aumentou sensivelmente.

 

Na cozinha, por exemplo, não existe esse conceito de dispensa. Nos armários, mal cabem os acessórios culinários, imagina guardar comida. Improvisei um carrinho de rodinhas, com três gavetinhas, onde guardo as compras. Adicionado ao que cabe na geladeira, é tudo que podemos ter de estoque.

 

Portanto, me acostumei a fazer compras pequenas, quando não diárias, e para isso aquele carrinho de compras de velhinha funciona muito bem. Acontece que de tempos em tempos, preciso dar uma renovada em coisas mais pesadas, como produtos de limpeza, caixas de leite longa vida etc. Nesse dia, montamos uma verdadeira “operação compras”.

 

Na verdade, há duas opções, uma é mandar entregar em casa, o que já fiz diversas vezes. Entretanto, você precisa ficar esperando sem uma hora específica para a entrega. Nem sempre tenho essa disponibilidade. Agora, com o Luiz de carro, acabo abusando um pouco e pedindo ajuda.

 

Começa que para ele ajudar precisa ser no sábado, dia mundial das compras! Um inferno! Já no estacionamento a gente se estapeia por uma vaga. Daí enfrentamos um congestionamento de carrinhos de compras e de pessoas-rolha que não querem comprar porcaria nenhuma, mas estão ali com o único propósito de te encher o saco. Faço o possível para me desligar e me transporto para meu mundo feliz, apesar da cara de desespero do Luiz.

 

Muito bem, uma hora a gente termina e o próximo passo é atravessar todo estacionamento para pegar o único elevador minúsculo. Colocamos as compras no porta-malas, o mais rápido possível, pois já há outro desesperado pela vaga e uma fila de gente buzinando atrás dele.

 

Esqueci de contar, porque para mim isso é óbvio, mas não temos garagem no edifício. Alugamos uma que fica há uns três quarteirões da nossa casa. Aqui isso é muito perto. E claro que também nunca tem vaga na frente do prédio. Portanto, Luiz para em lugar proibido e, outra vez, tiramos as compras correndo de dentro do carro.

 

Enquanto ele vai estacionar, três quarteirões mais longe, vou eu me enrolando com porta, sacola, chave e o caramba. Às vezes, Luiz consegue me ajudar a por as compras no elevador, mas normalmente, utilizo a técnica “polva” que desenvolvi nas terras madrileñas. É simples, consiste em segurar a porta com a perna esquerda, prender a bolsa com o pescoço e com movimento ágil empurrar várias sacolas ao mesmo tempo para dentro do elevador.

 

Bom, vamos complicar mais um pouquinho? Não preciso dizer que o elevador é ridiculamente pequeno, né? Mas até aí, tudo bem, porque ainda temos o luxo de possuir elevador, coisa que não é garantida. Acontece que o prédio é antigo e foi renovado, ou seja, o original não tinha elevador. Aproveitaram uma área de circulação de ar e instalaram o dito cujo onde foi possível. Ocorre que os únicos lugares viáveis para se sair do elevador eram entre dois andares. Isso quer dizer que você sempre tem que subir ou descer um lance de escada, equivalente a meio andar. No nosso caso, como é a cobertura, sempre temos que subir.

 

Agora imagine depois de toda essa ginástica, saio eu troncha do elevador, exerço a técnica “polva” para tirar as compras de dentro dele e olho para essa última escadaria. O que mais posso pensar? Desculpe o francês, mas a única coisa que vem à minha cabeça é puta-que-pariu-três-vezes!

 

Abro a porta suada e cheia de cuidados porque o Jack vem me receber com gracinhas felinas e querendo sair. Nesse caso a “polva” evolui porque preciso da perna esquerda para segurar o Jack e da bunda para segurar a porta. Com muito cuidado para a porcaria da porta não bater porque ela tranca por fora. É mais ou menos o tempo do Luiz chegar, depois de estacionar o carro.

 

¡Joder! Alguém ainda acha isso chic?

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