51 – Novelas mexicanas podem ter final feliz

Na segunda-feira, precisei acordar cedo.  Estava cansada do fim de semana e com um pouco de má vontade que nem sei se também era medo. Tinha uma missão importante: começar a montar minha primeira exposição coletiva em Madri.

 

Toda dificuldade que tivemos no início e o fato dela ter sido adiada por pouco mais de dois meses, me provocou o efeito “São Tomé”, a ponto de não ter nem vontade de convidar ninguém, pela dúvida se realmente ela aconteceria e se eu estaria nela.

 

Há cerca de um ano e meio não montava uma exposição. Participei de umas duas, nas quais enviei trabalho, mas era aquela coisa de não deixar o currículo em branco. Nenhuma que sentisse que era para valer. Meu website virou um cartão de visitas estático que mal tinha voltade de manter. Esse mês, nem sei da onde veio ou se veio de um lugar só, mas minha energia ficou diferente e minha atitude mudou. Trabalhei mais que em um ano. Na verdade, não é que tenha trabalhado mais, mas finalmente comecei a executar os trabalhos. Sabe a história que de boas intenções o inferno está cheio? Pois consegui sair da intenção.

 

É que às vezes tenho essa sensação de precisar me preparar, acumular determinadas experiências e depois sair para ação. É um pouco como o pulo do gato, que precisa recuar e calcular seu salto para chegar mais alto. Gosto dessa metáfora, que não é minha. Nesse caso, demorou mais do que gostaria. Ainda não sei se foi pouco ou muito, mas foi o tempo que precisei.

 

Anos de vida executiva me adestraram na capacidade de ter mais de uma vida e era saudável separá-las: não confundir o pessoal com o profissional. Agora preciso lidar com a questão de não ter mais essa possibilidade, minha vida é uma só, na melhor das hipóteses, com ramos diversos. Nesse sentido, respeitar meu próprio tempo tem sido um exercício de diciplina, paciência e auto-conhecimento de limites.

 

Mas ainda na manhã de segunda, o que precisava mesmo era enfrentar meus demônios. A descrença, o descaso e a falta de fé. No caminho, já meio atrasada por me enrolar com detalhes bobos em casa, me dei ao luxo de pegar um taxi e fui pensando que talvez tudo isso não passasse do medo de (me) expor novamente. Resolvi mudar minha atitude defensiva e me abrir. Muito concentrada, confiei no meu trabalho e, consequentemente, realizei um ato de fé. Nesse momento, já não ligava mais se seria um evento importante, simplesmente era importante para mim.

 

Não cheguei atrasada, talvez o trânsito também tenha colaborado, às vezes o caos tem boa vontade com quem também tem com ele. Trabalho, tive muito, mas nada que me incomodasse. Na verdade, quanto mais trabalhava, mas me animava. Não tinha idéia de quanto esse ambiente me fazia falta. Não sei quem serei, mas ao longo do dia, fui lembrando quem sou. No fim da tarde, tive meus cinco minutos. As pessoas me pareceram mais interessantes e o mundo me pareceu possível. Foi um momento de solidão e fiquei emocionada sozinha, mas não me senti solitária. Não chorei, ou pelo menos, acho que ninguém viu.

 

Na terça-feira, os últimos retoques de iluminação e disposição das peças. Participei com mais sete artistas, todas mulheres. Sinceramente, gostei do trabalho delas também. Respeitei e me senti respeitada. De uma maneira geral, melhorou muito meu conceito sobre a turma, os professores e o curso.

 

Na quarta-feira, dia 27 de setembro, o vernissage. O horário foi um pouco ingrato, às 13:00hs, nunca vi inauguração de dia, mas nem isso achei ruim. A frequência foi boa e teve até coquetel oferecido pela própria faculdade. Gostei.

 

Os primeiros dez minutos para mim são sempre uma agonia completa. A exposição pode ser na portaria do edifício que fico nervosa do mesmo jeito! Depois fui relaxando e quando acabou estava novamente feliz. Havia concretizado mais um ritual de passagem e no final tive um pouco de vontade de chorar. Não era de tristeza.

 

Chamei alguns amigos para almoçar em casa. Três artistas, sendo duas que também participaram da exposição, e mais outro amigo. Queria comemorar e compartilhar a alegria com quem também a sentia ou entenderia. Foi divertido, mas voltar à noite para aula, depois de uns vinhozinhos na cabeça, foi muita vontade!

 

Cheguei em casa pouco antes do Luiz retornar de Paris. Estava feliz, mas tão cansada que era difícil sorrir. Parecia atropelada por um trator.

 

Hoje é quinta, e a vida já voltou ao normal. Ainda que quando me olhe no espelho, venha a sensação que meu jeito de olhar mudou. Talvez, tenha mudado.

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