36 – Montanha-russa

Quando era criança, um dos meus brinquedos favoritos era a montanha-russa. Acho que havia algo do proibido, de ter idade para entrar em uma. Mas era principalmente pelo gosto da sensação da queda e do contraste entre a calma normal e a adrenalina logo em seguida. Essa coisa de ir de zero a duzentos em alguns segundos.

 

Com o tempo, fui perdendo um pouco essa vontade, até me parecer sem graça. E não é que não seja mais possível me impressionar com as quedas ou curvas, que se tornaram bem mais radicais, mas simplesmente é uma sensação que não me faz mais falta. Foi parecido ao kart, antes de poder dirigir, era algo que me empolgava bastante. Logo após ter minha carteira de motorista, me parecia bobo pilotar um carrinho tão pequeno e desconfortável. Sei que é outro conceito e outras emoções, mas era assim que percebia.

 

Há umas poucas semanas atrás, fomos a um parque onde as principais atrações são montanhas-russas e não tive vontade de entrar em nenhuma. Aquilo ficou martelando na minha cabeça depois, por que tamanho desinteresse em algo que já gostei tanto? A gente precisa ter cuidado com o que pergunta, porque as respostas chegam e a minha chegou. Acho que não sinto mais falta porque muitas vezes minha vida se transforma em uma.

 

O feriado foi gostoso e coroado por uma ida ao “hamman”, banho turco. Passei uma quarta-feira de princesa com amigas, alternando entre piscinas de temperaturas diferentes, sauna e massagem para relaxar. Perfeito! Só não percebi que não era um dia de calma, e sim de calmaria.

 

No dia seguinte, acordei tranquila e resolvi fazer um bobó de camarão para o Luiz, prometido desde minha ida ao Brasil. Chamei alguns amigos para jantar conosco, algo informal, é que há comidas que são feitas para se saborear com mais gente. Separei os ingredientes e fui checar minhas mensagens na internet.

 

Comecei a ler uma mensagem da minha mãe, havia uns dois dias que a gente não se encontrava virtualmente, o fuso agora está um pouco complicado. Ela começou a me contar da sua saúde, que estava com uma tosse que não passava, que ia no médico… e no meio da mensagem começou a me contar que meu avô cortou os fios do pescoço, por onde faz a diálise. Tomou as rédias por sua conta e tentou resolver esse assunto de uma vez por todas. Quando minha tia tomou conhecimento, foi o corre-corre que se pode imaginar para salvar a vida dele. Naquele momento, tudo estava sob controle e ele estava bem, em casa novamente.

 

Li a mensagem e fiquei paralizada alguns minutos na frente da tela. Não conseguia falar nada, ligar para ninguém, nem chorar. Há coisas que a gente não tem palavras para descrever. Minha reação inicial foi um pouco patética, acho que por negação, não sei. Resolvi ler as outras mensagens, como se nada tivesse acontecido, precisava ter alguma coisa na minha cabeça que não fosse a frase: meu avô tentou se matar.

 

Não consegui ligar para o Luiz e contar, até agora é difícil para eu escrever, mas não posso apagar esse capítulo porque ele aconteceu. Era cedo ainda para ligar para o Brasil e fui para cozinha decidir se faria ou não o bobó. Naquele momento, ligar para as pessoas e explicar porque estaria cancelando o jantar era mais difícil que me concentrar nele. Resolvi adiar a decisão e comecei a preparar os ingredientes. Descascar a mandioca devagar, cortar em cubos pequenos os tomates, a cebola e os pimentões coloridos, amassar o alho e lembrar de não colocar quase sal. O sal era muito importante porque salgo a comida quando não estou bem. A atividade rotineira e a vontade de acertar foi clareando um pouco as idéias e me acalmando de uma forma meio absurda. A verdade é que era bom ter alguma coisa que pudesse controlar e fazer direito.

 

A hora passou e liguei para o Brasil, primeiro para o Rio, falei com meus pais por MSN e minha mãe por telefone. Em seguida, liguei para minha tia em BH, que é quem está com meu avô. Não sabia se isso era melhor ou pior, mas era a única coisa que conseguia fazer para tentar ajudar. Conversei com ela e entendi melhor os detalhes. Falei um pouco também com meu avô, nos segundos que ele tem paciência para telefone. Aparentemente, a situação estava sob controle, apesar de todos ainda estarem bastante abalados. Meu avô não sabe direito o que passou, não tem muita certeza do que foi verdade e do que foi sonho. Ele está lúcido, mas não em cem por cento do tempo. Ele sabe o que faz, mas não mede muito as consequências e a memória se confunde. O que talvez seja bom.

 

Voltei para cozinha me convencendo que não tinha nada mais a fazer. Só podia fazer um bobó. E fiz. Não salguei, ficou um pouco ácido, mas isso eu sabia como corrigir. Acho que o mais importante na cozinha não é acertar, mas saber corrigir. A única coisa que me restava para salvar naquele momento era um jantar.

 

O caos cooperou comigo, Luiz e nossos convidados chegaram praticamente na mesma hora. De maneira que não precisei me esforçar muito para fazer a cara de que estava tudo sob controle porque a conversa foi fluindo naturalmente. Em alguns momentos eu me lembrava, mas com um pouco de vinho aqui, um bate papo ali, fui sinceramente conseguindo me distrair. Apesar de me impressionar com essa capacidade de sentir coisas tão contraditórias ao mesmo tempo.

 

Exagerei no vinho. Sabia que não me desceria da mesma maneira, mas não me importou. Estava de saco cheio de tanto controle, que se fudesse o controle, o que queria mesmo era chutar o balde! Por isso, quando nossos amigos disseram que dali sairiam para dançar, falei com Luiz em particular que precisava ir junto. Contei para ele, discretamente, o que aconteceu e acho que ele percebeu que estava a um triz de explodir, ou implodir. Ele não podia ir também, era o único que precisava acordar cedo no dia seguinte, mas acredito que sabia que estava entre amigos e que quando entro nesse loop, preciso de ar.

 

E assim foi. Saí com eles e ainda bebi um pouco mais. Por contraditório que pareça, me diverti. Entrei num tipo de universo paralelo feliz e me acabei de rir e de dançar a noite toda. Na volta para casa, minha amiga voltou comigo e, às gargalhadas, não conseguíamos entender porque a fechadura estava viva e não aceitava a chave de nenhuma maneira! Da calmaria à tempestade, da depressão à euforia, em algumas horas, lá ia eu na porcaria da montanha-russa outra vez.

 

Quando deitei, minha cabeça girava horrores e na garganta a frase ainda estava entalada. Nem todas as gargalhadas do mundo tiraram ela do lugar. Aquele dia ainda existia e não havia confrontado a realidade como deveria. Meu avô quis se matar. Olhei para o lado e Luiz já estava dormindo, não tive coragem de acordá-lo, pelo menos, não de propósito. Desci e fui conversar com minha amiga. Pela primeira vez, consegui contar sem me controlar e chorei até ficar exausta. Finalmente, podia dormir.

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