31 – O pântano e afins

Uma semana depois de chegar do Brasil, estava com a casa pronta para receber as próximas hóspedes: uma amiga da nossa faixa etária, sua filha e sobrinha, ambas com 14 anos. Para algumas pessoas, a idéia de receber adolescentes assusta. Para mim, parecia divertido.

 

Minha única preocupação era saber escolher os programas adequados, pois não tenho filhos nem amigos com filhos dessa idade aqui. As meninas ganharam a viagem como presente de 15 anos e queria que elas tivessem uma experiência legal para lembrarem no futuro.

 

Nosso apartamento comporta bem dois hóspedes. Três, era a primeira vez que testaríamos. Perguntei antes para nossa amiga se uma delas se importaria em dormir no sofá e ela disse que não. Portanto, resolvi levar uma cama de hóspedes para a sala e acomodar as duas meninas ali: uma na cama e outra no sofá. E no quarto, ficou outra cama de solteiro e espaço para as malas. Dessa forma, achei que elas ficariam mais à vontade para ter o “quarto da bagunça”.

 

O quarto da bagunça é um fato normal quando você recebe. A não ser que você tenha um vasto armário com lugar para todas as roupas da mala, coisa que não existe aqui, não há muito como organizar. Como seus hóspedes podem fazer? A mala fica no chão e bagunça um pouco mesmo, não tem jeito. Eu aprendi a apertar o botão “F” e Luiz desenvolveu um tipo de visão periférica, onde ele só olha da metade do quarto para cima. Funciona!

 

Muito bem, dessa vez, elas apelidaram o quarto da bagunça de “pântano”. Quando alguém entrava era um tal de “vai se perder no pântano”, “cuidado com o pântano”…

 

Resolvido o quesito acomodação, fomos aos passeios. No primeiro dia, caminhei com elas pelo centro histórico, já tenho essa rota de cabeça. Fomos à Plaza de España, Opera, Palácio Real, Calle Mayor, Plaza Mayor, Calle Cava Baja, almoçamos na Plaza Paja, voltamos para Puerta del Sol, subimos a Calle Preciados até a Plaza Callao. Tivemos que parar na Plaza Callao para irmos na Varig, pois com essa confusão que houve, elas precisavam confirmar como voltariam ao Brasil. No fim, deu tudo certo.

 

Minha amiga me contou que as meninas haviam gostado de comer no Planet Hollywood, em Paris. Na verdade, não sabíamos se elas haviam gostado mais do lugar ou do garçon bonitinho. De qualquer jeito, o mais parecido a isso que temos aqui é o Hard Rock Café. Então, jantamos ali e aproveitamos para mostrar a Plaza Colón. Voltamos caminhando para casa, subindo toda a Calle Goya.

 

No dia seguinte, fizemos o passeio no teleférico, que possibilita uma boa visão da cidade. Vai de Pintor Rosales até Casa de Campo. De lá, caminhamos até o Templo de Debod, um presente do governo egípicio à Espanha. Tomamos o metrô e fomos ao Estádio do Santiago Bernabeu. É que as meninas queriam respirar o mesmo ar que o Bekham respirou, andar onde ele andou… essas coisas. Vamos combinar que elas tem bom gosto, né? Há um tour nesse estádio, onde a gente tem uma visão panorâmica do campo, conhece a tribuna de honra, o vestiário, tira foto no banco de reservas e zona técnica, passa pela sala de troféus e termina na loja do Realmadrid. Mas acho que a melhor parte foi tirar foto com o ascensorista bonitinho. Se não foi a melhor, foi a mais engraçada.

 

No mesmo dia e já meio cansadas, fomos ao museu Reina Sofia e fiz com elas o trajeto rápido. Na saída, voltamos de metrô pela estação Atocha, onde tem uma floresta tropical artificial.

 

Na noite de sexta-feira, agora junto com Luiz, fomos para a Calle Huertas, com as meninas disfarçadas de adultas. É que ali há diversos lugares para dançar, acontece que o limite de idade é acima de 18 anos. Mas arrumadas, de salto alto e misturadas conosco, elas entraram sem grandes problemas. De lá, ainda passamos na Bodeguita del Medio, mas já estava meio vazio. Agosto é um mês meio paradão.

 

Luiz alugou um carro para o fim de semana e, no sábado, fomos ao shopping Xanadú. Não fomos fazer compras, é que lá há uma pista artificial de neve para esquiar e até que quebra bem o galho. É no mínimo curioso esquiar a 2 graus negativos, quando lá fora está quase 40 positivos! As meninas e nossa amiga esquiaram bem logo de cara, levaram jeito para a coisa. É verdade que houve alguns tombos curiosos, mas vou poupá-las desses detalhes.

 

No fim da tarde de sábado, a discoteca Kapital faz uma sessão para maiores de 14 anos e levamos as meninas. Claro que já estavam mortas, por conta da tarde de esqui, mas a curiosidade foi maior. Por volta das 21:30 elas nos ligaram para buscá-las. Voltaram morrendo de rir dos cortes de cabelo e da coreografia, digamos exótica, que os meninos faziam. Nesse dia, elas se viraram e jantaram em casa mesmo e nós e nossa amiga fomos jantar fora com uma outra amiga de Madri. Fomos ao El Barril, na minha opinião, um dos melhores restaurantes de frutos do mar daqui, só que o paladar e o preço é voltado para o público bem mais adulto. O que quer dizer que acabo de me chamar de velha.

 

No domingo, fomos a Segóvia, conhecer o aqueduto romano e almoçamos por lá. Na volta, paramos no Valle de Los Caídos. Mas, aparentemente, o grande programa do dia foi depois, quando encerramos a tarde no parque da Warner. E eu que nem sabia que tinha parque da Warner aqui!

 

Na segunda-feira, foi mais tranquilo. Na verdade, boa parte das atrações da cidade estavam fechadas, assim que foi um dia mais para descansar e fazer as últimas compras. Aliás, se pode imaginar que três mulheres juntas acompanhadas de uma quarta, independente da idade, possuem uma certa facilidade para se empolgar nas compras, que incluíram duas malas extras para levar as coisas.

 

E agora vou dedurar, também levaram um monte de comidinhas espanholas! Não sou a única gulosa com uma família de esganados! Adorei saber que tem mais gente no planeta que viaja e leva comida! E o pior é que dá vontade de levar mesmo, pena que vou perder a festa da volta.

 

Em casa, à noite, Luiz chegou com a novidade: um carro. Agora temos carro em Madri, essa história vou contar depois. Daí fomos estreiar o tal carro novo na maior gaiatice, com direito a foto e tudo. Jantamos no Tony Roma’s, uma cadeia americana com jeitão country e famosa pelas ribs. Não é exatamente meu estilo, mas para variar um pouco e fazer algo diferente, valeu. De lá, rodamos de carro até a Plaza de Castilla e voltamos para casa.

 

No dia seguinte, as malas já amanheceram prontas e fomos cedo para o aeroporto. Talvez até tenhamos ido cedo demais, mas é que essa época muita gente viaja, dá overbook com frequência e, ainda por cima, os bilhetes haviam sido reemitidos para outra companhia. Na dúvida, achei melhor não arriscar e as pobres tomaram um chá de aeroporto. A viagem será longa, mas espero que tenha valido a pena.

 

Quando cheguei em casa, Jack desceu a escada histérico miando. Acho que me viu saindo com elas e todas aquelas malas e pensou que eu ia viajar outra vez. Depois de uma sessão de macaquices, ou melhor, gatices, sossegou e relaxou.

 

Fui conferir como estava o pântano e agora não passava de uma floresta desmatada. A casa ficou meio vazia, mas é sempre assim quando as visitas vão embora. Sobro eu e Jack. Dessa vez, até que não foi tão mal, porque Luiz não precisou viajar e à noite já estávamos na nossa rotina. Um vinhozinho, um jamón, um queijinho, Jack se esparramando no chão… também não dá para reclamar da vida, né?

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