22 – Como ser um homem por algumas horas

Pela terceira vez consecutiva, Luiz viaja a trabalho durante um jogo do Brasil. Francamente, acho que os gringos estão marcando reuniões nesses horários só de sacanagem! Deve ser puro despeito!

 

Enfim, devo admitir que às 17:00 horas, durante a semana e fora do Brasil, ficou difícil para todo mundo assistir. Pois bem, resolvi ver Brasil e Gana de casa, sozinha. Imagine minha agonia ao descobrir que não passaria na TV aberta, única que temos. Ensaiei acompanhar pela internet, mas assim que Ronaldo fez o primeiro gol, me deu os 5 minutos e resolvi ir para o Bo Finn, mesmo sabendo que não haveria ninguém conhecido.

 

Na boa, por algumas horas dessa tarde experimentei ser um homem. Convenhamos, ir a um pub, sem companhia, simplesmente para assistir a uma partida de futebol! É o  mais masculino que já cheguei a fazer na vida! E sabe de uma coisa, não foi mal, me senti super poderosa por essa besteira. Bom, talvez não tenha sido tão masculino assim, porque tomei vinho branco. Mas considerando que nunca tomo cerveja e está um calor do cão, acho que não chega a diminuir o mérito. Poder ir para um balcão de bar, sem nenhum engraçadinho metido a machão conquistador enchendo meu saco, não tem preço!

 

Quando o jogo estava praticamente no final e eu vidrada na TV, de repente percebi uma mão acenando na minha frente. Era minha amiga francesa, que trabalha perto desse pub. Não combinei nada com ela, afinal, era um jogo do Brasil, mas ela sabia que normalmente vamos ali assistir às partidas, assim que resolveu dar uma passadinha para ver se me encontrava com Luiz. Olha que mundo pequeno! Outra vez, Madri, essa cidadezinha do interior…

 

Adorei. Não estava me importando em assistir a partida sozinha, mas é chato você ganhar e não ter ninguém ao lado para contar vantagem. Ops! Acho que fiquei muito tempo como um homem, já estou pensando parecido!

 

Bom, acontece que também era dia de França e Espanha e ela me chamou para ver o jogo com eles, os franceses. Topei e lá fui eu com um casal de franceses para outro pub. Estava um pouco desconfiada, não sei se no Brasil estaria muito segura indo torcer para o time adversário da casa e aqui não me parecia tão diferente. Os espanhóis estavam muito animados e crédulos de sua vitória. A princípio, os franceses queriam ver o jogo da rua, o que não me soava como uma boa idéia. É que montaram telões em duas praças conhecidas na cidade (Puerta del Sol e Colón) e esses locais estavam abarrotados de gente, obviamente, torcendo pela Espanha. No fim, decidimos ir a esse pub, que estava cheio de espanhóis e franceses, o que me pareceu bem razoável.

 

Foi engraçado, no início do jogo, fiquei dividida. Por um lado, havia me preparado para torcer pela Espanha, mas agora tinha os amigos franceses… cheguei a torcer para a bola! Depois resolvi torcer pela França mesmo. Por meus amigos, porque a torcida espanhola passaria a apoiar o Brasil e porque uma revanche não seria nada mal. Será que estava pensando novamente como um homem?

 

Assisti a uma partida animada, entre gritos de “allez le bleu” e “a por ellos”. É verdade que também rolava “hijo de puta, pam, pam, pam”. E para provar que futebol também pode ser cultura, descobri porque alguns jogadores cantam o hino francês e outros não. Nem todo francês gosta do hino, muitos o acham autoritário, pesado e simplesmente se negam a cantá-lo. Ou seja, La Marsellese não é uma unanimidade.

 

Ao final do jogo, para minha tranquilidade, não houve agressões ou hostilidades no bar. As pessoas estavam um pouco entristecidas, mas sem grandes feridas.

 

Caminhei de volta um pedaço com os amigos, depois peguei o metrô para casa sozinha. Não estava exatamente preocupada, mas atenta. Tem muito espanhol que acha que sou francesa, vai se entender o porquê, e não queria confusão. Minha linha passou por Colón, onde havia uma concentração de torcedores aborrecidos e o único ponto onde realmente me preocupei um pouco. Mas a coisa estava muito mais no desabafo que na intenção de violência. Melhor assim.

 

Cheguei em casa sã e salva. Liguei rapidinho para o Luiz ficar tranquilo e fui direto para o banho, até minha alma fedia a cigarro. Fiz minha escova e deitei na minha cama limpinha com meu felino gordo. Ser homem de vez em quando pode ser divertido, mas prefiro ser mulher.

Seja bem vindo a comentar! Sua resposta pode demorar um pouco a ser publicada.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s