111 – Troca de Pele

Hoje é quarta-feira, dia 23 de maio. Nesse domingo, pela manhã, chega em Madri a amiga que fará o Caminho de Santiago junto comigo. Viajaremos de trem no domingo à noite e chegaremos em Pontferrada na madrugada de segunda. É o único hotel reservado, considerando que chegar quase às 4 da matina e procurar um lugar para ficar pode não ser uma boa idéia.

 

No dia 28, descansaremos e conheceremos a cidade. No dia seguinte, iniciamos a caminhada para valer. Serão 200 Km a pé até Santiago de Compostela, mas prefiro pensar na quilometragem de cada dia, assim só preciso andar 25.

 

A partir de Pontferrada, fiz um roteiro baseado em informações de amigos, guias e websites. Como não queremos, pelo menos a princípio, ficar nos tradicionais albergues, procurei as cidades com alguma estrutura de hoteizinhos ou pousadas. Os preços, inclusive, são muito razoáveis e um pouco de privacidade e conforto não é mal. Em teoria, não parece difícil, mas vamos ver na prática.

 

De qualquer forma, tento não ser tão rígida, o planejamento é bom para ir entrando no clima e se preparar para o percurso. Mas treino é treino e jogo é jogo. Então, melhor ter algumas cartas na manga e alternativas de acordo com o que formos passando pela estrada.

 

Devemos levar entre 8 e 10 dias para chegar a Santiago. Às vezes acho que prefiro mesmo fazer em 10 dias. Não sei se vale à pena apressar a chegada. Como já comentaram comigo e concordo, talvez seja melhor curtir bem o caminho.

 

Nossos maridos, que também são amigos, não quiseram caminhar. Correndo o risco de ser mal interpretada e sendo brutalmente sincera, achei melhor assim. Uma opção é exatamente o que a palavra significa, uma escolha, se for obrigatório não faz o menor sentido. Depois, acho que independente de ir sozinha ou acompanhada, o caminho é absolutamente individual. A companhia traz um pouco mais de segurança. Mas nesse momento, preciso da minha solidão e de algum silêncio. Sei que minha amiga respeitará essa condição e farei o possível para não atrapalhá-la também.

 

…tá bom, tá bom… vou levar o celular, afinal ninguém é de ferro! Não ficarei 10 dias sem falar com o Luiz, mas nem morta!

 

O marido da minha amiga deve nos encontrar no primeiro fim de semana, pelo meio da caminhada. Ele se ofereceu para, nessa parte do percurso, levar as mochilas ou quem sabe uma caroninha. No fundo, acho que ele imagina que a essa altura o que mais a gente desejará é um pouco de mordomia. Mas a verdade é que tenho praticamente certeza que não.

 

Engraçado, porque assim que soube que ele nos encontraria, lógico que me animei, será bom ver um rosto conhecido e para ela mais ainda. Automaticamente, quando olhei o roteiro pensei que talvez fosse melhor pular uma das cidades caminhando e ir direto a outra de carro, onde a estrutura de hotel é melhor, assim ele aproveitaria mais o fim de semana e nós ganharíamos um dia de caminhada. Pois me peguei absolutamente triste com essa idéia.  Afinal de contas, qual seria a graça? Não devo satisfações sobre o caminho a ninguém, só fiz a credencial peregrina por uma questão de segurança e porque gosto de um ritual. Então, por que me sabotaria e pularia uma parte? Na-na-ni-na-não, continuo achando que será ótimo encontrá-lo, quem sabe o descanso da mochila por um dia até tope, mas salvo alguma lesão física (isola!), da estrada ninguém me tira!

 

Já o Luiz, vai direto de carro para Santiago de Compostela, nos encontrar no fim do caminho. Eu mesma pedi. Não faço questão que ele esteja no trajeto, mas tenho o pressentimento que a presença dele será importante para mim no final. Se não der, paciência, outra vez, foi minha a escolha. Mas que ia gostar, bem que eu ia.

 

Nem tudo é tão sério e muitas vezes me divirto com as piadinhas que fazem comigo. Tem duas que cada vez que lembro fico rindo sozinha.

 

Uma delas foi um dia que estávamos com amigos em um bar e de lá, quando íamos para outro lugar, ficou aquela dúvida se a pé ou de taxi. E eu, por mim, vou andando! E o Luiz, agora tudo ela quer caminhar, e ele e uma amiga ficavam para mim: run Forest, run!

 

Outra, Luiz e amigos imaginando os outdoors que deveriam haver pela estrada do Caminho de Santiago. Propaganda de hotel com foto daquela banheira maravilhosa de hidromassagem e o texto: caminhe, mas fique no hotel “X”, 5 estrelas.

 

O mais hilário é como fico ridícula caminhando com o “modelito peregrina” pelas calçadas de Madri. Claro que preciso treinar vestida a caráter. Não tem nada demais, mas fica gozado quando fora do contexto. Quem é que sai para andar na rua com botas de trekking, um único “stick” de montanha, imitando um cajado, e mochila? Pior, para ter certeza de quantos quilos estou carregando, coloco na mochila uns pacotes de arroz e feijão. Ou seja, ainda por cima levo comida para passear!

 

E o bonezinho que comprei, com um tipo de saia atrás da nuca, para proteger melhor do sol? Até eu quando me olho no espelho tenho vontade de rir, imagina os outros? Esse, para ser franca, não tive coragem de sair na rua. Vai ficar para a estrada mesmo. Tudo bem que uso meus óculos escuros da invisibilidade, mas dignidade tem limite!

 

Fora que mulher é fogo! Minha amiga e eu conversando pelo skype sobre os preparativos… aquele assunto sério, elevado… de repente vira ela, e o melhor você não sabe, tenho uma amiga que fez o Caminho e perdeu 12 kgs! E eu, jura, beleza! A gente pode patentear a Dieta de Santiago, é só caminhar pelo menos 100 km, comendo mal e dormindo pouco… Chegamos a conclusão que na pior das hipóteses a gente ia emagrecer! Se não me encontrar nem me elevar enquanto ser humano, ao menos minha bunda ficará mais dura, pronto!

 

Enfim, um pouco de bom humor também ajuda! Alivía o nervoso que dá por se aproximar do início. Ai, que mêda!

 

Nessa última semana tivemos hóspedes. Fica corrido conciliar os treinos e principalmente a cabeça que vai longe, mas com boa vontade a gente dá um jeito. Talvez até tenha sido bom mudar em parte o tema da conversação.

 

Um dos programas que fiz com eles foi levá-los a um hamman, ou banho turco. É um excelente lugar para relaxar. Além das piscinas térmicas, a gente faz uma massagem no final. A massagem que escolhi foi esfoliante. Aproveitei e, quando cheguei em casa, fiz esfoliação no rosto também. De repente me vi pensando, que engraçado, hoje resolvi abandonar toda a pele morta. Até minha pele mudei.

 

Outra vez não sou a mesma, outra literal troca de pele, ainda que não tenha certeza do que isso signifique. Também não sei se estou no preparo físico ideal, mas é o melhor que já estive.

 

Vou, estou pronta.

 

Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself, I am large, I contain multitudes (Walt Whitman)

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