1 – De sete em sete anos

Há uma teoria que planteia que mudamos de fase de vida, aproximadamente, de sete em sete anos. Verdade ou lenda, tenho observado que esses ciclos coincidem com minhas grandes fases de mudança pessoal. Acho que nos primeiros ciclos de sete, somos muito jovens e olhamos ao redor na busca de modelos. Depois esse processo passa a ser mais consciente, pelo menos, foi para mim.

 

A primeira vez que dei conta que estava me reconstruindo a sério foi no meu quarto ciclo, por volta dos 28 anos. Nesse momento, era consultora de negócios de uma multinacional, formada em Administração de Empresas como primeira colocada e pós graduada em Administração Financeira. Do que podia reclamar? Bem casada, bem empregada, ganhando bem, morando bem… Então, o que faltava? Da onde vinha aquela angústia toda?

 

Sempre fui meio precoce, o que não conto como uma vantagem, simplesmente acho que a vida me levou a isso. Desejei minha independência com uma gana fora do comum e entendi os mecanismos de poder muito rápido. Portanto, não foi tão difícil como imaginava, ou melhor, não tão demorado, chegar onde queria profissionalmente.

 

O problema é que, ao chegar, olhei em volta e tive aquela sensação de, mas era aqui? Foi para isso que corri tanto? E agora?

 

Meu nível de realização era baixíssimo e desproporcional ao grau de agressividade com que buscava os objetivos. Sofria uma culpa enorme de me sentir tão miserável estando tão bem, em um país onde os miseráveis sorriam. Briguei um bom tempo com esse sentimento e neguei de diferentes formas minhas reais vocações.

 

Tive a sorte de possuir um amigo que me introduziu aos mitos, o que me ajudou a entender e a passar por todo esse processo. Ainda que naquela época, agisse de forma muito intuitiva. No primeiro momento da minha crise existencial ele percebeu e me disse que o ambiente em que estava não me proporcionava mais elementos para crescer. Levei quase dois anos para entender exatamente o que aquilo queria dizer. Não tinha nada a ver com cargos, salários, sequer com profissão. Eu queria ser uma pessoa melhor. O contexto em que estava não me proporcionava mais as ferramentas necessárias, não era o suficiente. Precisava aprender generosidade e fé, exercitar outras dimensões de pensamento, expandir minha consciência. Mal sabia o rolo em que estava me metendo.

 

Entretanto, sabia que não gostava do que via no espelho. Queria ser diferente e tinha a oportunidade de me refazer como quisesse ou pudesse, mas sob meus parâmetros, não mais com a negação ou confirmação dos modelos ao redor.

 

No dia em que abandonei tudo e me dispus a tocar o fundo do poço, me perguntei quem queria ser de verdade. Independente de dinheiro, segurança, esforço, tempo, qualquer coisa, o que eu morreria se não fizesse? Depois de me perguntar por quase dois anos, finalmente me perguntei sem máscaras e sem mais nada a perder. A resposta veio imediata, como uma revelação bíblica.

 

Eu era uma artista e fugi minha vida inteira dessa vocação. O perfil que acreditava que um artista precisava ter era incompatível com a vida que acreditava que queria levar. Acontece que, nesse momento, essa tal vida que achava que queria levar era uma pequena fração de tempo, um quase nada. Eu não fazia nenhuma diferença e por um instante acreditei que poderia fazer. Dei meu salto para o precipício escuro e acordei viva no dia seguinte, artista.

 

Conversar isso com Luiz foi uma das situações mais difíceis que passei. Ele se casou com uma tentativa de executiva segura e resolvida e eu havia decidido que não era mais essa pessoa. Tive muito medo que ele não me amasse mais e sabia que não tinha outra alternativa, não podia voltar atrás. Foi quando descobri que, com todas as dificuldades, o mais importante para ele é que eu fosse feliz.

 

Ao longo dos anos, fomos dando nosso jeito e nos adaptando aos nossos novos caminhos. Ele também foi mudando, em um processo menos radical e aparente que o meu, mas mudou muito. E foi mais fácil aceitar minha própria mudança quando senti que também era mais importante para mim que ele fosse feliz.

 

Pouco mais de sete anos se passaram e aqui me encontro novamente com as perguntas de polícia rodoviária fazendo blitz: Quem sou e para onde vou?

4 comentários em “1 – De sete em sete anos”

  1. nossa Bianca parece que estava lendo um texto sobre mim mesma..estou com 28 anos e passando por uma longa transformacao na minah vida, depois de 5 anso morando fora do Brasil estou largando tudo emprego, namorado, amigos…e indo passar um tempo no Brasil e com certeza quando voltar vou mudar de profissao!!

    Obrigada por me fazer ver que nao sou a unica!!

    Tatiane

  2. parabéns pela coragem. eu vivo numa caixa fazendo o que não gosto e infeliz e sem coragem de mudar.

  3. Oi, Anônimo! Dá uma olhadinha fora da caixa, às vezes a mudança dói menos do que você imagina. Felicidade dá trabalho, mas é tão bom… 🙂

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