126 – Movimento, susto e expectativa

A semana começou agitada e prometia continuar assim. Até aí, normal. A temperatura aumentando, o sol saindo, dá mesmo mais vontade de aproveitar a vida.

 

Acho que pela terça ou quarta-feira, tive um pesadêlo com meu pai. Ele perdia a consciência, tentava segurá-lo mas não aguentava o peso. Não tenho vontade de contar exatamente como foi, mas como todo pesadêlo, a gente acorda mais assustada com a sensação do que com o fato em si. Fiquei pensando se deveria contar à minha mãe, mas cheguei a conclusão que isso só assustaria. A gente também sonha com o que tem medo e poderia não significar absolutamente nada. Passei o dia meio encucada em receber alguma notícia, mas como nada de mal chegou, relaxei. Só um sonho ruim.

 

Confesso que tive uma atitude infantil em não ligar nem procurar no dia seguinte. Acho que foi um pouco de negação, do tipo, notícia ruim chega logo, se não chegou nada, está tudo bem. O fuso horário também não tem colaborado muito e sempre falo menos com minha família nessa época. De maneira que falta de alguma notícia em um ou dois dias não chega a ser preocupante. Depois disso, mesmo que a gente não se encontre, deixamos recados por e-mail ou MSN.

 

Tudo bem, as trinta e duas coisas que tinha para fazer me tiraram isso da cabeça. Honestamente, não pensei mais a respeito.

 

Na quarta-feira, era aniversário de uma das Imparáveis no Kabocla. Passei primeiro em uma exposição, na galeria onde trabalha um amigo artista divertido. De lá, fui direto para o Kabocla, encontrar com os amigos e o Luiz que estava meio desanimado, mas acabou não resistindo e aparecendo por lá também. Como havia saído de casa cedo, não consegui fazer uma refeição light e não quis comer pela rua para estragar tudo. Luiz parou em uma lanchonete antes de me encontrar, porque  não tinha almoçado. Não quis acompanhar, muita tentação olhar um hamburguer e não dar uma mordidinha. Assim que cheguei no aniversário azul de fome! Um mau humor do cão! Na verdade, não é que fique de mau humor, fico só meio violenta. Tudo bem, resolvi jantar uma caipirinha sem açucar, me convencendo que era praticamente uma saladinha de frutas. Belisquei as comidinhas do aniversário, porque ninguém é de ferro, mas juro que me segurei bastante. O maior pecado foi comer um pedacinho de bolo, que estava divino, como já havia caminhado uns 7 ou 8 km naquele dia, então, tudo bem. Não saímos tão tarde assim, Luiz trabalhava cedo no dia seguinte.

 

Na quinta-feira, foi dia de coral. Estamos ensaiando para a apresentação do dia 28. Até que rendeu bastante, somos menos pessoas agora, mas prefiro um grupo menor comprometido do que um grupo grande de gente que fica entrando e saindo, faltando e tal. Por esses dias, notei que havia melhorado a voz, está mais firme e afinada, sinto que consegui algum progresso nos últimos dois meses, coisa que tinha a sensação de haver estacionado. Percebo isso em outras pessoas também, inclusive no Luiz. Enfim, muita água pela frente, mas é bom que seja água em movimento. Preciso retomar o projeto percussão.

 

Na sexta-feira era feriado, dia de San Isidro. Logo, a quinta se converteu em sexta e lá fomos nos para La Latina, o bairro mais castizo de Madri. Nem viemos em casa para não dar preguiça, seguimos direto depois do coral. La Latina é normalmente muito animado, mas nessas datas fica especial, os bares montam balcões virados para rua, há shows gratuitos, enfim, é uma comemoração callejera (de rua). Não ficamos até tão tarde, apesar de ser feriado, Luiz trabalharia de casa e o dia prometia não ser nada simples.

 

Na sexta-feira, o dia amanheceu bonito, mas o clima meio denso. Fiquei fazendo hora na cama, enquanto escutava Luiz descascar seus abacaxis cabeludos em uma conferência atrás da outra. Quando vi que aquilo poderia durar o dia todo, fui cuidar das minhas coisas e pensar na comida. Claro, porque comida de dieta, como já disse várias vezes, dá trabalho.

 

Chegou a tarde, toca o telefone, era meu irmão. Temos nos falado mais ultimamente, não estou mais aborrecida, nem tenho energia para isso. De qualquer maneira, nos falamos por internet, assim que de cara sabia que era problema. A frase começou com um não precisa se preocupar, o pai está bem, mas… O que na minha cabeça soa como, está vivo, mas deu merda! Presta atenção, aprende e decide!

 

Escutei. Na quinta-feira, de manhã cedo no Rio, meu pai desmaiou na frente da minha mãe. Por sorte, ele estava sentando no computador, o que fez com que o tombo não fosse tão drástico. Minha mãe tentou segurá-lo, mas ele é muito pesado, começou a gritar, veio meu primo que é bem grande e está passando uns dias por lá e na sequência meu irmão. O esforço era para ele não cair da cadeira, porque levantá-lo do chão é muito difícil. O desmaio foi breve, ele voltou a si sem dor e sem saber muito bem o que havia acontecido. Claro que minha mãe deve ter se assustado muito, porque até ele abrir os olhos, pensou o pior.

 

Bom, foram para seu cardiologista, que o atendeu de imediato, constatou uma arritmia cardíaca e o enviou ao hospital. Foi bem atendido e com bastante rapidez, fundamental nesses casos. Mas só foi possível um quarto no CTI para internação no fim da tarde, que seria madrugada aqui na Espanha. Acharam que iam me assustar em avisar naquele momento, o que entendo. Na sexta pela manhã, tarde daqui, fiquei sabendo de toda a história.

 

Meu irmão passava pelo telefone uma certa tranquilidade nervosa, se é que isso existe. Como algo que fosse sério, mas que estava sob controle. Liguei para minha mãe, que estava parecida, preocupada, mas segurando a onda. Acho que estava pensando que poderia ficar aborrecida com ela por ninguém ter me falado antes. Imagina se teria o direito de cobrar isso. Quando a gente está no olho do furacão, primeiro a gente tenta resolver, depois lembra do resto. Acho um absurdo esse pessoal que fica cobrando dos outros o que deveria ser feito, quem acha que faz melhor que tome a frente e faça, marketing não salva a vida de ninguém. Sei muito bem o que é estar em uma situação de emergência. Sim, prefiro saber e ajudar, mas acho que eles fizeram o melhor que estava ao alcance.

 

Impossível não lembrar da porcaria do sonho e não me sentir uma idiota por não ter querido ouvir. É difícil ter o dom maldito que pode me tranquilizar, mas também pode me tirar a esperança. Uma coisa de cada vez.

 

Falei com meu pai também e gostei do que ouvi. A situação não era fácil, mas ali ainda tem guerra. Perguntei para minha mãe se queria que fosse para o Brasil e ela me respondeu que no momento não via necessidade. Trocamos meia dúzia de brincadeiras por telefone, porque hospital com mau humor ninguém merece. Tentei entender então os próximos passos.

 

Ele faria no dia seguinte um exame para saber se havia algum coágulo no coração. Caso não houvesse, no mesmo procedimento, dão um tipo de super choque no coração para reverter a arritmia. Caso tenha algum coágulo, ele passa a fazer um tratamento, que é arriscado, um saco e blá, blá, blá… até poder dar esse choque. A questão é que isso não garante resolver o problema, é uma tentativa com boas chances de sucesso. Ou melhor dizendo com todas as letras, se não fizer e tiver outra arritmia pode ser fatal. Diante dos fatos, acho que a decisão, ainda que não agradável, era bastante simples: tem que fazer e pronto.

 

Desliguei o telefone e fiquei quieta, tentando absorver toda a história. É óbvio que a vontade é de entrar em um avião correndo, mas é preciso decidir isso com a cabeça mais fria. A gente também aprende que é prudente deixar seus recursos para quando haja uma necessidade real. Achar que só você resolve as coisas é muito prepotente.

 

Pensei que meus pais não estavam sozinhos. Meu pai estava sendo muito bem atendido, por médicos que confio. Minha mãe tem família e amigos próximos. Meu irmão parecia segurar a onda, às vezes as pessoas precisam ter a chance de mostrar sua maturidade. Então, naquele momento, nenhuma variável estava sob meu controle. O melhor que tinha a fazer era esperar o tal procedimento do dia seguinte e a partir daí decidir (e perguntar) se minha presença era necessária.

 

Muito bom, minha cara, cruzar os braços e esperar!

 

Lembrei de algo quase engraçado, uma das coisas que queria exercitar nesse último Caminho, na verdade, na minha vida, era isso de perder o controle das variáveis sem surtar. E quando me perguntei se seria capaz, me surpreendi com a calma que pensei, estou preparada.

 

É verdade que tinha energia de um furacão acumulada e resolvi caçar o que fazer em casa, sem me afastar muito do telefone. Qualquer coisa que fizesse o tempo passar. O bom é que fiquei incrivelmente produtiva! Tem trocentas plantas nas varandas e ainda não havia feito a poda da primavera, toquei tamanho barata voa que encheu um saco de lixo negro que cabia uma pessoa dentro! Estamos falando de uns cento e poucos metros quadrados podados e faxinados! Fiquei produtiva pacas!

 

Cuidar de plantas era coisa da minha avó materna, habilidade que herdou meu pai. Só adulta vim descobrir que também era capaz. Considerando que minha primeira planta foi um cactus e morreu, evoluí um universo! De maneira que não havia melhor atividade para navegar entre meus fantasmas. O tempo passou e estava serena quando chegou a noite. Preocupada, mas bem.

 

Jantamos em casa. Abri um vinho. Não exagerei, tomei o suficiente para abrir a boca um pouco. Diazinho do cão! E eu que achava que só quem teria problemas para resolver fosse o Luiz! Problema de trabalho é um saco, mas problema de saúde é foda! Sorry!

 

Pelo sim, pelo não, fui monitorando preços de passagem pela internet. Sempre bom ter alternativas.

 

Sábado não acordei tarde, mas também não adiantava muito. Porque com 5 horas de diferença horária, só teria alguma informação útil bem depois.

 

Falei com minha mãe, que me confirmou que fariam o exame naquele dia e me explicou melhor o procedimento. A vantagem é que não precisa abrir, se faz pela boca e esôfago, chama transiofágico, ou algo assim. Meu pai estava tranquilo, ele não é de se impressionar com isso, só fica de saco cheio e querendo ir embora para casa. Acho que o que ele mais reclamava é que tinha que ficar de jejum!

 

Acontece que aí tinha um dado importante para mim. No meu pesadêlo, uma das coisas que me impressionava bastante é que meu pai aparecia com uma mancha na boca e entre o coração e o estômago. Em um primeiro momento, me parecia que esse podia ser um problema, mas quando fiquei sabendo que o procedimento passava por ali, de uma maneira meio torta, achei boa notícia. Porque podia não ser o problema e sim o procedimento! Eu sei, para uma pessoa normal isso não deve fazer muito sentido, mas para mim fez e fui invadida por um certo otimismo.

 

Encurtando a história, ele fez o tal exame e não havia coágulos. Essa era uma notícia excelente. Tomou o tal choque, mas em um primeiro momento, não estava claro se havia revertido a arritmia. Só à noite soubemos que sim. Tá pensando o que? Derrubar a fera dá trabalho. Ufa, leão do dia!

 

A gente passa a comemorar as vitórias, mas com cautela. Não é pessimismo, é estratégia, uma guerra se vence em várias batalhas. Comemore de menos, a moral baixa; comemore demais, suas defesas baixam. No sábado, eu comemorei.

 

A primeira previsão de saída era na segunda-feira, hoje. Achei meio precoce, opinião oposta a do meu pai. Mas hoje mesmo soubemos que deve demorar um pouco mais o que achei uma decisão acertada. Ele está adequando dosagem de uma medicação séria, pelo que entendi, anticoagulante, e ainda que se tenha revertido a arritmia, não se chegou a uma conclusão definitiva do que a causou. Considerando que da primeira vez que tomamos conhecimento, uma arritmia causou o AVC e da segunda vez foi todo esse rolo, não se pode brincar com essas coisas e ficar correndo o risco te ter outra.

 

A próxima previsão de deixar o hospital é pela quarta-feira. Nessas coisas não adianta ter pressa, tem que sair com segurança. Sigo na expectativa e no plantão telefônico internético. Rapadura é doce, mas não é mole não!

15 comentários em “126 – Movimento, susto e expectativa”

  1. Nem sei o que escrever, mas queria te deixar nem que fosse: li tua história e saiba que daqui das Canárias mandei um montão de enrgia positiva pro teu pai, e muita paz de espírito prá ti, porque é duro estar longe nestas horas!
    Beijos

  2. Obrigada, Patrícia! Toda energia positiva é bem vinda e te desejo tudo de bom também. É duro mesmo, mas as coisas estão evoluindo bem, acho que até o fim da semana estaremos todos mais tranquilos. Vamos aguardar. Besitos

  3. Oi Bianca

    Espero que seu pai se saia bem dessa maratona de hospital e tratamentos que as vezes custam a terminar.
    Eu achei até interessante voce ter dado importancia para o seu sonho ou mesmo depois fazer a ligação com o que de fato aconteceu. Achei que este tipo “coisa” só quem tem Fé dá importância pra esses sinais.
    Fiquem com Deus.

    Beijos

    Marianne

  4. Oi, Marianne!
    Estou sem muito saco para uma discussão filosófica nesse momento. Boa fé para você!
    Obrigada, Besitos

  5. Oi, Vanessa e Didis! Valeu pela torcida. Hoje meu humor não está dos melhores, mas vai melhorar.
    Besitos

  6. Oi Bianca sinto muito o do seu pai, nao se preocupe voce tem uma dom pra bem o pra mal, sempre nos avisam Bianca, o bom è nunca nos pegam de surpresa, o ruim è que quando recebemos o aviso 100% das vezes ele è certo nao subestime.
    Eu nao sei o nome nem a idade de seu pai dados fundamentais para que eu possa ver sua situaçao.
    Mas desde Galicia te mando muitaforça e muita luz que vc vai precisar .
    Um beijo tudo de bom.

  7. Oi, Selma! Pois é, ontem uma amiga veio aqui em casa e me trouxe uma caixa de donuts, pode? Um caí em tentação, o resto congelei rapidinho. Foi ótimo, mas para ser sincera, depois até me pesou um pouco. Enfim, viva o milagroso chocolate! Besitos

  8. Oi, Antonia! Obrigada. Meu pai se chama Robson e tem 70 anos, é um homem de aparência bem forte (e barrigudo também). Ontem consegui vê-lo e conversar pela webcam, já contarei. Tudo de bom para você aí pela Galícia, cada vez mais gosto dessa região. Besitos

  9. Oi, Dani! Obrigada. Tinha uma amiga aqui em casa (essa dos donuts) quando você ligou, já nos falaremos. Besitos

  10. Oi Bianca,estava na internet procurando o nome do exame, quando li a sua historia. Meu pai foi internado depois de uma visita domiciliar pelo seu plano de saude, pois tem diabete e estava altissima. Isso ocorreu na quarta-feira de tardinha, quando foi domingo o medico que estava cuidando dele teve folga e ai apareceu uma medica que ao esculta-lo achou que ele estava fazendo uma arritimia. Pediu um eletro e realmemte foi constatado e ai me vi na mesma situação que voce. De repente meu pai que estava no quarto foi para o CTI e ai a medica falou que ele vai passar por tudo que teu pai passou. Meu pai se chama Newton e tem 83 anos e tambem é muito forte. Fiquei feliz por tudo ter corrido bem e espero que meu pai tambem tenha a mesma sorte que o teu. É duro, passar por tudo isso e ainda mais longe. Beijos e obrigada por me animar.

  11. Oi, Teresa! Pois pode se animar. O caminho nunca é fácil, mas enquanto a gente pode tratar tem que acreditar mesmo. Às vezes a gente dá uma balançada, é normal, mas é importante tentar manter a moral alta que ajuda muito. Se você seguir com a leitura, verá que meu pai já está em casa, de marcapasso implantado. E isso porque teve outros problemas que não tinham nada a ver com o coração, que felizmente espero que seu pai não terá. Passei quase um mês no Brasil por conta disso, mas também já voltei para casa, o que indica que a situação melhorou bastante. Tranquilidade e sorte para vocês! Besitos

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