121 – Câmera lenta

Por que quando queremos que algo aconteça logo, parece que a vida fica em câmera lenta? Eu, que já sou a paciência em pessoa, nesses momentos fico uma pilha! Os dias não vão mal, pelo contrário, até bem animados, felizmente. Mas é que quando encuco com uma coisa, cassilda, fica martelando na cabeça até acontecer.

 

Está difícil dormir, porque passo toda noite pensando em trechos do Caminho. A paranóia está crescendo, porque agora também conheço pessoas! Será que voltei a ter amigos imaginários? O curioso é que as pessoas que encontro nos meus sonhos falam idiomas diferentes e outro dia aconteceu uma coisa incrível, quando me dei conta, o diálogo era em italiano! O interessante dessa história é que pouco depois de vir morar na Espanha, perdi totalmente o italiano que falava antes. Ainda entendo boa parte, mas na hora de responder ou formular uma frase, sai em espanhol. Estão guardados na mesma gaveta, sei lá. Pois então, depois de mais de quatro anos, de repente, as frases e expressões começaram a me voltar em sonhos, achei legal. Pelo menos, agora sei que o idioma continua lá guardado em algum lugar, e no momento que exercitar, ele volta.

 

Bom, essa é a loucura nova, porque tenho a antiga. Não consigo usar i-pods e afins, me dá nervoso no ouvido. Por outro lado, amo andar com músicas e sempre caminho ao som de alguma. Sim, ouço vozes na minha cabeça, mas pelo menos elas só cantam, ainda não me mandaram matar ninguém! E agora que ando às vezes com Luiz (calma, o de verdade, não imaginário), vou falando para ele quem está cantando no momento.

 

Nas últimas semanas consegui dar uma evoluída nos treinamentos e o condicionamento físico já não me preocupa mais. Os imprevistos não posso controlar, e é por isso que se chamam imprevistos, então relaxei. A perda do controle é também um exercício que preciso fazer.

 

Mas, enfim, tenho pensado muito nesse fenômeno que é a peregrinação nos últimos anos. Eu sei que não há nenhuma novidade na peregrinação, mas ninguém me tira da cabeça que atualmente vivemos um momento diferente. Há um movimento em massa nessa direção e por algo será. E como outra das minhas loucuras é a da teoria da conspiração, me empaquei a entender esse enigma. Digo entender, porque resolver nem me atrevo, pelo menos, não nesse momento.

 

Uma das primeiras grandes perguntas para uma bela teoria da conspiração é sempre: quem ganha o que com isso? E aí há um outro macete para os malucos de plantão, quando muitos ganham pode ser apenas oportunismo; quando um ou poucos ganham, há uma chance razoável da situação estar sendo manipulada.

 

Nesse caso, por exemplo, há um monte de pessoas e instituições que ganham, mas sempre me parece mais oportunismo que manipulação. Ou seja, não é o que gera, é o que aproveita a onda. E, veja bem, não necessariamente é algo ruim ou prejudicial. Não vejo mal em um pueblo sobreviver porque o Caminho de Santiago passa por ali, ou seja, se foram abertos restaurantes, mercados etc, foi para atender uma demanda existente. Portanto, não são conspiradores.

 

Mesmo a igreja católica, que costuma ser a conspiradora mor em muitas situações, nesse caso, também não vejo como a grande impulsionadora do novo movimento. Talvez seja a que mais se beneficie, até aí, nenhuma novidade e nada incoerente.

 

Falo do Caminho de Santiago por ser o que mais tenho informação, talvez seja o mais famoso também. Acontece que tem pipocado trilhas de peregrinação pelo mundo e a quantidade de peregrinos cresce exponencialmente. Por que?

 

As pessoas costumam gostar das respostas chavão, que o homem quer se aproximar da sua espiritualidade, ou da religião, deixar o materialismo de lado e blá blá blá. Ou quem sabe, virou moda, e um monte de ovelhinhas resolveu seguir a maré. Pode ser em parte, acho que sempre haverá um pouco de tudo. Mas tendo a discordar por um motivo muito simples, não me enquadro nesse perfil e tenho a convicção que sou peregrina. E aí, como é que fica?

 

Porque eu estive lá e mais de uma vez. A questão da espiritualidade é uma maneira mais fácil de explicar algo subjetivo, de concretizar, mas vai muito além disso. E a coisa de maria-vai-com-as-outras, leva a mal não, ninguém encara essa história só por curiosidade. Às vezes a gente não quer dizer o porquê, é difícil, mas cada um sabe o seu porquê.

 

Pois por uma questão de lógica, resolvi abordar o tema por um outro prisma, o qual conheço bem. Se sou peregrina e tenho meus motivos, efetivamente, esses motivos são legítimos para uma peregrinação. Não tenho a pretenção que sejam os únicos, mas é um começo.

 

Na minha experiência pessoal, só consegui encontrar um sentimento em comum em praticamente todos os peregrinos, a busca.

 

A busca é o eterno dilema humano, quem somos, para onde vamos e por que? Às vezes, por falta de uma resposta melhor, ou da total impossibilidade de uma resposta, essa questão é resolvida através da fé. No meu caso, ateísta de carteirinha, não é exatamente assim, mas respeito a fé das pessoas. Quando elas dizem que rezam por mim, ou preferem acreditar que no fundo eu acredito, eu é que não sei disso… acho engraçado, fazer o que? É bonitinho, bem intencionado, então deixo para lá. Não é fácil para todo mundo entender que há outras possibilidades de pensamento e não está em mim mudar ninguém.

 

Mas voltando, talvez por isso exista essa confusão conceitual da peregrinação se embolar com a religião ou espiritualidade. Mas meu ponto aqui é que acredito que o enfoque é outro. A minha questão é, por que as pessoas resolveram que essa busca deveria ser feita caminhando? Aos preciosistas, ok, também pode ser de bicicleta ou a cavalo, dane-se, o princípio é muito parecido. Estamos falando da mesma coisa em perspectiva.

 

Por que, de uma hora para outra, tanta gente ao mesmo tempo resolveu que suas inquietações, que suas buscas são melhor resolvidas caminhando? Cá entre nós, é verdade. É bem melhor caminhando, mas como todo mundo teve essa idéia de repente? Instinto? Voltar ao básico, ao essencial, aos seus próprios sentidos.

 

É muito esquisito, mas começo a reconhecer peregrinos, como se fosse uma raça visualmente perceptível. Afinidade da experiência compartilhada. Eu não sei porque, nesse momento só me intriga, mas não é o mais importante.

 

O que importa é que estou voltando. Outro ponto em comum, todo peregrino volta quando pode. Se não pode voltar ao mesmo caminho, adapta o caminho à própria vida. No final, dá no mesmo.

 

 

4 comentários em “121 – Câmera lenta”

  1. Pois é peregrina, ja esta chegando a sua hora novamente, agora ja esta passando bem rapidinho!!
    Estarei como sempre torcendo por sua caminhada e esperando ansiosa pelos textos !
    Vi outro dia de navegaçao pela net que existem varias trilhas no Brasil também, voce ja deu uma olhada????

    beijoss

  2. Oi Bi,

    concordo com você que a peregrianação tomou nos últimos anos dimensões que antes não tinha. Concordo também que a maior motivação para a peregrinação é a busca. Mas a busca também está na meditação através do Yoga, na adoção dos conceitos da Ayurveda, na filosofia budista, no esoterismo. E essas também ganharam em dimensão nos últimos anos.
    A impresão que tenho é que a sociedade está se transformando em uma velocidade tão grande que o indivíduo não está conseguindo acompanhar. É como se houvesse uma certa “identidade comum” que de certa forma não combina mais com a nossa realidade e as pessoas estão em busca da nova identidade.
    Sendo bem pouco original, a matéria tomou um lugar de destaque na nossa vida e o lado pessoal ou espiritual perdeu importância, mas o indivíduo sente falta desse lado e o está buscando.
    Nossa viajei geral… É que na verdade eu também adoro uma teoria da conspiração.

    Beijos.

  3. Oi Bianca

    Tantas perguntas e respostas em cada um.
    O lado espiritual é o que não me faria fazer este percurso, apesar de ser cristã.
    Tenho é curiosidade de conhecer o local e as pessoas que passam por lá.
    Acho que esta busca que voce se fere só poderia ter respostas na fé , o que não é o seu caso.

    Beijos

    Marianne

  4. Oi, Marianne! Bom, não sei que busca é essa que me fere e que teria resposta na fé, mas tudo bem 😛 As respostas que busquei, encontrei satisfatoriamente, e não teve nada a ver com fé. Na verdade, disse exatamente o contrário, acho que essa tal “busca” muitas vezes se mistura ou se confunde com religiosidade/espiritualidade, mas não necessariamente tem a ver com isso. E sem querer você tocou em outro ponto que tentei colocar, tem um monte de gente com curiosidade, mas que continua curiosa e não vai. Só a curiosidade não te move até lá, vai mais além disso, é esse “além disso” que tenho pensado a respeito. Besitos

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