119 – Falta pouco

Falta muito pouco para a próxima caminhada, o que me deixa monotemática. É difícil não pensar ou não falar nisso, invade a minha vida e é bom. Continuo saindo e fazendo as coisas normalmente, mas sempre bate um pouco de ansiedade. Por mim, já estava lá.

 

Paciência, precisamos esperar quase três semanas. Sairemos de Madri em direção a León em 25 de abril. Ali só dormiremos e pegaremos outro trem para Sarria, de onde iniciaremos a caminhada até Santiago. Serão mais ou menos seis dias de andanças para cobrir os últimos 100 km. Chegando em Santiago, vamos decidir se seguimos a pé para Finisterre, vai depender do estado físico e da sinalização. É que encontro informações descasadas desse trecho, entre Santiago e Finisterre, então melhor perguntar por lá mesmo. Aparentemente, mudou bastante nos últimos anos.

 

As passagens de trem de ida estão compradas e as posadas reservadas. Tem um lado legal que é o de chegar e descobrir onde dormir, mas a verdade é que já conheço esse trecho de cor e salteado, então porque não escolher o que sei que é melhor? Depois, da última vez que estive por aquelas bandas, havia uma invasão de alemães e estava bem difícil encontrar um bom local para ficar, porque afinal de contas, alemão reserva tudo com dois anos e meio de antecedência, acho que eles programam até as idas ao banheiro!

 

Tenho um certo carinho pelos lugares que me hospedei e até de retornar nas posadas estou gostando. O planejamento perdeu o objetivo de controle e passou a ser simplesmente uma comodidade e um jeito de revisitar momentos. De qualquer maneira, sei que cada vez é diferente, por mais que se reconheça os rostos locais, as comidas, o cavalo que parece um cachorro, a velhinha arqueada, as vacas que vão perdendo os chifres, as ovelhas e seus pastores, os cães de trabalho, as conchas de diversas texturas, o barro, os horreos, os sotaques, a garoa… Algumas noites sonho com partes do Caminho e quando ando pelas ruas vejo os vários sinais.

 

Fisicamente, não estou no melhor momento do mundo, até porque a primavera acaba de entrar. Mas tenho condições e esse trecho não é complicado, há seus desafios, mas muito razoável e também dividi as paradas de maneira que não ficasse tão puxado. Agora, se a gente resolver esticar a pé para Finisterre, devem ser uns três dias mais difíceis, isso é que não consigo confirmar, porque tenho informações de quilometragens diferentes. Também não tem problema, porque como já seria na segunda semana, na primeira a gente ganha condicionamento.

 

Minhas botas estão macias e dei mais uma mão de cera impermeabilizante. Comprei camisetas novas e outra calça, as minhas antigas estavam fatais. Acho que nunca tive roupa com tanta tecnologia na vida! As camisas tem fio do caramba a quatro, antimofo, proteção solar, sem odores… só faltam cozinhar e fazer cafuné. Deve ser um pouco de mentira, né? Mas enfim, até que são bonitinhas, secam bem rápido e são levíssimas, o que importa. Já comecei a testá-las e adotei o visual peregrino para todos os lugares que vou, ainda bem que dessa vez estou com menos pinta de mendiga. Agora só pareço uma maluca andando assim na cidade, porque claro que também estou treinando com a mochila. Ainda não tive coragem de sair com o bonezinho de caçar borboletas, porque também não faz tanta diferença no treino. Pior o Luiz, que sai de bermudas com aquelas botas de trekking! Fica parecendo um tirolês bem passado, mas a gente precisa apoiar, sabe como é, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza… A verdade é que quando treinamos juntos somos uma dupla meio bizarra, acho que as pessoas em volta ficam com um pouco de medo. Tudo bem, no Caminho estaremos mais do que normais.

 

Mudei um pouco a dieta, mais carboidrato e fibras. Cortei o whisky e a cachaça, porque demoram mais a sair do corpo e tiram energia, o vinho pode. Tenho três semanas para corrigir a postura das costas, vou tentar fazer mais alongamentos. Os joelhos, acho que consegui acertar, mas sempre preciso prestar atenção neles. Cuidado absoluto aos pés, daqui até a data da viagem, nada de saltos altos.

 

E vou nessa que ainda preciso fazer os 10 km de hoje.

 

6 comentários em “119 – Falta pouco”

  1. Oi mulher!
    Eu também não fiz caminho o trecho a Finesterre, mas tenho uma amiga que fez. O que ela me disse é que os albergues estão mais distanciados, então tem que fazer 30 Km de média, seriam mais ou menos 30, 33 por dia. Mas como você disse depois dos primeiros dias, o corpo acostuma!
    Beijos e uma linda caminhada!

  2. Oi, Patrícia! Pois é, em alguns lugares encontro essa distância, de em média 30 km. É meio puxado, mas é viável, principalmente na segunda semana. A questão é que procuro não ficar em albergues e não sei se encontro hospedagem nas cidades. A única que vi anunciar um hotel foi em Negreira, logo na primeira parada, mas depois fica meio no ar se tem outros no Caminho ou só albergue. E obrigada! Besitos

  3. Bate um papo com o Renato, ele foi ate’ Finisterre.
    Vou acompanhando os seus preparativos! Minha ida vai demorar um pouco, mas eu vou!
    Besitos!

  4. Não sei de onde você tirou essa idéia que alemão planeja tudo com antecedência… hahaha
    Muito legal que você e o Luiz vão fazer o caminho de novo. Fiquei morrendo de inveja (pra variar).

    Um beijo enorme e boa sorte,
    Claudia

  5. Oi, Claudia! heheheh… pois é, que injustiça, né? O pior é que imaginei você lendo essa parte quando escrevi! Na boa, a gente não tinha a menor chance com os alemães! Não adiantava sair mais cedo, eles já tinham reservado tudo! O chato é que a interação era muito difícil, pois praticamente nenhum falava inglês ou qualquer outro idioma além do alemão. E como eram muitos, era bem razoável que acabassem interagindo somente entre eles. No máximo, a gente se cumprimentava. Mas tudo bem. Quando for sua hora de fazer, você vai, até à Índia você sobreviveu! Besitos

  6. Oi, Selma! Vou perguntar ao Renato. Mas depende muito da época que ele fez. Por exemplo, li um relato de 94, que o Caminho nem era sinalizado nesse trecho, tinha que ir de bússula. Já sei que isso mudou. O outro detalhe é que evito ao máximo ficar em albergues, sou pere-fresca! Imagina, depois de 30 km, encarar um banho frio e dividir o quarto com chulés e roncos desconhecidos… afê! Em algum momento da minha vida, devo ter achado isso divertido… heheheh… mas hoje não. Besitos

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