118 – Uma das melhores partes de envelhecer

Sexta-feira passada fui a um casamento, festa pequena e restrita aos amigos próximos. Eu adoro casamentos, seja de que maneira forem, porque as pessoas não são iguais, portanto é razoável que cada ritual siga o estilo dos seus. O que importa é que o momento exista e simbolize o início de um ciclo novo.

 

Pois esse foi um jantar para umas 30 pessoas mais ou menos, não contei, mas acho que é uma boa ordem de grandeza. Presentes alguns dos imparáveis que se conhecem há mais tempo, mas nesse dia, todos estávamos comportados. As meninas subiram, literalmente, no salto; e os meninos também deram sua caprichada.

 

Entraram os noivos, felizes e emocionados como deve ser, haviam casado oficialmente pela manhã. Na festa, um convidado se fez de padre e improvisou uma minúscula cerimônia bem humorada. Assim, poderíamos partir para a celebração.

 

Encerrado o jantar, o amigo músico ocupou seu posto e foi rapidamente acompanhado por três crianças e um adulto, onde honestamente, nos custava saber quem era mais criança. Uma coreografia frenética e divertida, onde os meninos pareciam se sentir dançarinos perfeitos em passos improváveis.

 

Levantamos também para engrossar a pista de dança. Foi quando notei que a mesa se enchia de garrafas… de água! Engraçado isso, porque somos um grupo que gostamos de sair e nos divertir, o que geralmente é regado a álcool. Nesse dia, com todo o tipo de bebida disponível, decidimos todos ao mesmo tempo que queríamos água! Parecia combinado e não foi, sintonia pura.

 

Depois de pouco tempo, fomos incentivados a cantar em coro com quem sabia. Aceitei sem a menor relutância. Passei distraída com as brincadeiras, até que em um único momento me veio a consciência que estava cantando, com um microfone e tudo, em plena festa de casamento! Eu?

 

Tudo bem, não era sozinha, não era em um estádio de futebol, e muito menos para estranhos, mesmo assim, posso assegurar que essa seria uma cena absolutamente impossível em um passado próximo.

 

O intrigante, pelo menos para mim, é que não corresponde ao fato de acreditar que canto melhor, ou de estar liberada pelo teor alcóolico, ou de considerar um desafio. Nada, era só divertido. Até brinquei com minha amiga, pronto, está provado que também pagamos mico sóbrias, né?

 

No caminho para casa, vim viajando na maionese sobre essa deliciosa sensação de liberdade, que não tem outra explicação que não seja o fato de estar envelhecendo. Digo no gerúndio, porque não me sinto velha, mas essa é sempre uma sensação relativa. Cada vez mais tenho menos medo de fazer o ridículo, porque descobrimos que nem é tão ridículo assim, e se for, é só uma fração dentro de uma perspectiva muito maior. E que passa.

 

Tenho mais vontade de dizer para as pessoas que gosto delas, que sinto saudades, de falar com estranhos e de contar minha vida.

 

Quando vejo hoje uma senhora idosa dançando e cantando sozinha como uma louca, não sou condescendente e não acho graça da mesma maneira que achei dos meninos enlouquecidos dançando. A loucura infantil é relevada pela falta de entendimento que é loucura, a madura é admirável porque é corajosa. Acho bonito a coragem de alguém que talvez já não tenha a mesma lucidez, mas que também talvez, não dê mais a mínima para isso.

 

Em síntese, tenho poucos medos imaginários, quase nada que chegue a paralizar. Em compensação, tenho a consciência que os medos que persistem são definitivos e, ainda que remediáveis, sem solução. Há dias que eles me assustam, mas hoje não.

6 comentários em “118 – Uma das melhores partes de envelhecer”

  1. Oi Bianca

    Eu já tô nesta fase da vida faz algum tempo, de não se importar com o que os outros vão pensar da minha roupa, do meu jeito de dançar, do meu corpo, etc…
    Ai que delícia!!!! ô fase boa!!!
    E pensar que passei um tempo da minha vida com essas preocupações.
    Eu tenho uma tia que numa festa de casamento estava vestida meio que em desacordo com a ocasião e ela me disse:
    – Sabe que depois que a gente envelhece a gente fica invisível, ninguém da a mínima para o que voce veste ou diz.
    E sabe que ela tem razão, meio que sem perceber a gente também vai isolando os velhinhos de várias maneiras.
    Outro dia num restaurante eu observei uma mesa grande com a familia quase completa e no canto estavam sentados as babás, as crianças e dois velhos, ai fiquei com uma dó.
    Ainda bem que a minha familia não tem esse tipo de atitude.

    Beijos

  2. Pois é neguinha eu sempre tive p a n i c o de pargar mico e de fazer farofa hahahahaha olha nós aqui pagando mico até “de cara” rsrs realmente isso é tudoooo de bom!!!!

    beijo

  3. De velho para velha (se você se considera “envelhecendo”, sou um dinossauro míope, de bengala), você pegou na essência da coisa: envelhecer é ligar o “foda-se” (perdão pelo termo, que você usou primeiro num post, mas é insubstituível). Me lembro de meu pai indo comprar pão na padaria ao lado de casa, vestindo pijamas, tênis e jaqueta. Eu ficava roxo de vergonha e ele nem aí. Só fui entender o conceito uns 20 anos depois, quando me pilhei boiando na piscina enquanto rolava um chatíssima festa de Natal. Resumindo: ser velho é uma merda, mas é bom (prafraseando o Tom), ou melhor, tem alguns (poucos) aspectos bons.
    Bjs

  4. Oi, Augusto! Não me considero velha, muito menos você um dinossauro… heheheh… mas sim que estamos envelhecendo e não achei ruim entender isso, é libertador. E pode falar à vontade, há coisas que não se pode descrever tão bem sem um palavrão! Besitos

  5. Oi, Didis! Companheira de micos e afins, ainda bem que você guarda meu lugar… heheheheh… Besitos

  6. Oi, Marianne!

    Pois é, acho que essa “invisibilidade” é ambígua, tem o lado triste e outro, como escrevi antes, libertador. Acho que em parte se deve ao respeito com que tratamos nossos idosos, mas também tem muito a ver com a maneira com que esse “idoso” se entende e se posiciona. Resumindo, como você mesma colocou, é uma questão de atitude.

    Sabe que melou a exposição em agosto? 😦

    Besitos

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