110 – Voltando

Estou de volta a Madri, naquele efeito surumbático de fim de férias. Fiquei devendo os relatos cariocas e paulistas, o que tentarei fazer agora.

 

Então vamos ao que o povo quer saber, e afinal, como foi a famosa festa de aniversário dos 70 anos do meu pai? Foi ótima! Começou tímida, porque sabe como é, todo mundo ia viajar, era no meio do carnaval… e claro que ninguém viajou, todo mundo topou aparecer e teve gente que até voltou antes para não perder o evento. Resumo da ópera, foram mais de sessenta pessoas, com direito a música ao vivo e tudo. Compramos uns acessórios e deixamos disponível para os convidados pegarem o que quisessem usar, máscaras, perucas, óculos, gravatas de papelão, colares de havaiana, chapéus com purpurina etc. Enchemos umas bolas, soltamos serpentina, enfim, ficou bem baile de carnaval.

 

Claro que foi no esquema matinê, porque às 22:00hs impreterivelmente, meu pai vai dormir e pronto, pode estar até o papa em casa! Portanto, começamos cedo, às 19:00hs o circo já estava armado. A verdade é que boa parte dos seus amigos preferem esse horário também e a festa era deles. Posso dizer que se não foi longa, foi intensa e divertida. A maioria das pessoas se foi por volta das 23:00hs e ficou apenas gente da família, porque pre-ci-sá-va-mos terminar o prosecco, o que dei minha generosa contribuição.

 

Valeu ter colocado uma certa pilha. Festas dão trabalho, mas trazem uma boa energia para a casa. Era minha intenção mais declarada na viagem e foi muito bem cumprida.

 

Engraçado porque não sou pessimista, mas fui preparada para encontrar um quadro bem pior e encontrei uma situação problemática sim, porque a vida não é simples, mas de maneira geral, sob controle. Portanto, tudo me pareceu fácil e relaxado. Sei que é diferente estar no dia a dia, e que simplesmente tangenciei a situação, mas nesse momento, é o que está ao meu alcance. Cada cabeça, sua sentença, se posso ajudar, bem, se não posso, também não tenho porque carregar culpas extras que não são minhas nem estão nas minhas mãos. Muito menos, procurar alguém que as carregue.

 

Quase todos os dias, caminhava de manhã mais cedo pela orla, molhando as canelas e com protetor 50. Fiquei com uma cor saudável, ainda que quase ninguém tenha percebido, mas eu notei. Durante o dia, ia me dividindo entre as atividades inventadas pela minha mãe para tirar meu pai de casa. Consegui encontrar alguns amigos, poucos, mas que estava com saudades, todos seguindo suas vidas e seus próprios caminhos. Fui ao Jardim Botânico, comi carne na Porcão, sushi com vista panorâmica, passei pelo Rio Sul, tudo que queria era o básico!

 

Preciso dizer que o carnaval no Rio está o máximo! Fiquei muito orgulhosa! Porque, honestamente, quando morava lá era uma merda, sério. Não tem maneira mais delicada para descrever, só havia o famoso desfile das escolas de samba, que era a única coisa que prestava, mas convenhamos, totalmente concentrado no sambódromo. Além disso, só havia os bailes de clubes divididos em duas categorias: para putas ou para travestis. Ok, havia um ou outro bloco mais tradicional que saía, mas a gente tinha até medo de dar o ar da graça. O carioca mesmo, desaparecia da cidade. De alguns anos para cá, o povo do Rio parece que acordou e voltou a valorizar o carnaval como nasceu. Literalmente, botaram os blocos na rua, e cada bairro se empenhou em caprichar. Resultado, um carnaval alegre, democrático e com os cariocas comparecendo em peso. Adorei!

 

Infelizmente, preciso admitir que mais olhei que dancei. Porque qualquer garotinha de cinco anos sambava melhor do que eu! Todo mundo bombadíssimo, bronzeadíssimo e siliconadíssimo! Isso mexe com a auto estima da gente, sabe? Ainda assim, com toda essa pinta de gringa, passei pelos blocos ilesa com minha mãe, tia, prima, enfim, todo mundo estava lá para se divertir. E o nome dos blocos? Tem coisa mais irreverente no planeta? Bola Preta, Simpatia Quase Amor, Não Mexe que Fede, Peru Sadio, Largo do Machado Mas Não Largo do Meu Copo… uma criatividade sem limite!

 

Bom, uma hora o carnaval acabou e lá fui eu para São Paulo. Dessa vez, fiquei na casa da família paulista e, desde que saí do Brasil, foi a vez que consegui ficar mais dias em Sampa. Cheguei na quinta e fui embora no domingo, quatro dias e três noites, um verdadeiro record!

 

Cheguei na quinta, dia 26 de fevereiro, pela hora do almoço. Minha amiga foi me buscar no aeroporto e fomos direto para sua galeria, onde outra amiga inauguraria sua exposição no dia seguinte. Almocei com elas, enquanto maquinava meu plano malévolo de ir até minha cabeleireira favorita, que já não via há mais de cinco anos.

 

E assim fiz, fui sozinha para o Jardim Sul, que fica no fim do Morumbi e é um shopping de bairro. Dos dez anos que morei em São Paulo, a maior parte foi por ali e frequentava semanalmente a mesma cabeleireira. Era também onde fazia minhas compras de supermercado, de presentes, de roupas, ou seja, um local que fez parte da minha rotina. Foi muito estranho entrar ali anos depois e achar tudo diferente. E logo notar que não estava tão diferente assim, era eu quem olhava de outra maneira. O tamanho que a gente enxerga as coisas muda na nossa memória de acordo com as experiências que temos.

 

Deixei para filosofar em outro momento e fui direto para o salão, com aquela dúvida se a cabeleireira, que já era amiga, me reconheceria. Claro que ela reconheceu e parece bobagem, mas tive que esconder que cheguei a me emocionar um pouco. Porque não era só encontrar uma amiga de algum tempo, era repetir um ritual capaz de me lembrar como era o gosto de rotina. Não é uma queixa, só aproveitei o momento e me lembrei. Deixei em suas mãos decidir o corte e o tamanho e senti um prazer enorme em não ter que me preocupar com essa decisão em teoria simples, mas femininamente muito complexa. Ela me tirou dois palmos de cabelo, afinal de contas, eu já estava parecendo uma madalena não muito arrependida, e deu uma repicada que me deixou com a expressão mais leve. Estranhei o peso na cabeça por uns dois segundos e logo me convenci que devia ser isso o que estava mudando os números na balança, certamente, agora eu estaria mais magra! Pronto! Nos despedimos e sei que ela se emocionou um pouco também e escondeu, como eu.

 

Dei mais uma volta ligeira pelo shopping, me despedi com carinho do passado e voltei para a galeria. No caminho, fazia uma força enorme para me lembrar o nome das ruas, o tempo gasto para percorrê-las, as possibilidades de rotas. Tudo me parecia distante. Até que chegamos e fui tentar ser um pouco útil, ajudando na montagem da exposição da minha amiga.

 

À noite, jantar na casa da família paulista, como tantos outros que participamos. Mesa grande, sempre farta, conversa animada e, ao final, 53 garrafas de diferentes licores e digestivos, como se fosse possível prolongar o jantar por mais dias.

 

Na sexta, tentei almoçar no Tordesilhas, mas chegamos tarde. Tudo bem, o Mestiço estava aberto e também foi legal passar por lá e comer aquelas trouxinhas crocantes que esqueci o nome, o frango com gengibre e o sorvete de iogurt com calda também de gengibre. Uma sexta com gosto de domingo, no fim de tarde.

 

Na sequência, o vernissage, que na minha opinião foi um sucesso, com reportagem na TV para o Saia Justa e tudo. Alguns amigos meus apareceram também e foi legal começar a matar a saudade. Contatos no meio artístico, é gostoso circular à vontade. E para completar, acho que vai rolar uma exposição minha nessa mesma galeria, em agosto. Não está 100% fechada, mas estou bastante empolgada. Na mesma hora, a cabeça volta a funcionar, fico estimulada.

 

De lá, ainda saímos para comer alguma coisa, porque quase tudo em São Paulo é celebrado em volta de uma mesa, o que para mim, está longe de ser um sacrifício.

 

Então, como não poderia deixar de ser, no sábado, almoço em um italiano delicioso e ao ar livre. Na volta, fiquei no caminho para visitar um amigo que acaba de ser pai. Por isso, não poderia comparecer à noite ao próximo encontro.

 

Sábado à noite foi o encontro da famosa Diretoria. Em algum lugar do blog já contei a história desses amigos. Marcamos no Devassa, um bar no estilo carioca. Chegamos cedo e dividimos uma mesa muito comprida, a qual tentava trocar de lugar de vez em quando para conversar com todo mundo. Outra vez, parecia que foi ontem e tenho a impressão que sempre será assim, ou gosto de acreditar nisso.

 

Meu amigo-afilhado reclamando que fica enciumado quando vê as fotos de Madri e a gente se divertindo, porque parece cada vez mais difícil voltarmos. Acho bonitinho e carinhoso, mas entendo que o significado vai muito além e me bate forte. Não sei onde vamos morar nos próximos anos, mas sei que é impossível voltar.

 

Fiz propaganda do meu aniversário. Em novembro farei 40 anos e, no que depender de mim, um festão de arromba! Está longe, mas para quem está em outro país, é necessário se programar. Eles disseram que tentarão vir e estou me preparando para montar um acampamento em casa.

 

Tive a sensação que a noite passou em cinco minutos e não consegui conversar o suficiente com todo mundo. Fiquei um pouco nostálgica, mas feliz.

 

No dia seguinte, hora de voltar novamente para o Rio. A amiga da casa onde estava hospedada me levou ao aeroporto, onde encontrei mais duas amigas que foram se despedir. De maneira que tive companhia até quase a hora de embarcar.

 

No Rio, meu irmão me buscou no Santos Dumont. Fazia um calor insano! Aliás, já em São Paulo fazia um calor do cão! Quando a gente sai do estacionamento do aeroporto, dá de cara com um carro aberto, um som alto ligado, e cinco amigos dançando na rua empolgadíssimos, como se estivessem na melhor discoteca do mundo. Será que isso acontece em outros lugares? Sinto falta desse estar de bem com a vida porque sim.

 

No restinho de tempo que tive no Rio, fiquei  mais com a família mesmo. Ainda tentei encontrar meus sogros uma segunda vez, mas não foi possível.

 

A despedida dos restaurantes foi no Shirley, com meus pais. Há muito tempo não voltava lá. Quando morei no Rio, era um local disputadíssimo, onde havia sempre uma enorme fila na porta. Apesar desse nome suspeito, é muito tradicional e familiar. Alguns anos depois, decaiu bastante, o que me dava pena. Agora, como tive a impressão de ser uma atitude geral na cidade, voltou a se revigorar e estava ótimo! O curioso é que nunca havia percebido o quão espanhol ele é! Sei lá, no Brasil as coisas são tão misturadas que a gente não percebe esses detalhes e de repente, me saltou aos olhos, é um restaurante de ambiente espanholíssimo, como de qualquer esquina madrileña. Verdade que o cardápio foi adaptado ao paladar nacional, o que muito me agrada. Comi o famoso camarão ao Shirley, empanado com catupiry, acompanhado de um arroz à valenciana molhadinho, no ponto carioca. Se você faz qualquer coisa al dente no Rio, o povo acha meio cru!

 

Na terça-feira, dia 3 de março, fiz minha única mala, apesar de poder levar três. Detesto carregar coisas! Me despedi do meu pai e do meu irmão em casa e minha mãe foi comigo de taxi para o aeroporto. Assim ficávamos mais algumas horinhas juntas.

 

Dessa vez não fui embora triste. Felizmente, foi bem diferente que em outubro e serviu para tirar o trauma. Alguns momentos difíceis ainda me voltam à memória, parece que o corpo te lembra, mas posso dizer que está superado. Vamos resolvendo cada leão a sua vez.

 

Voltei por Londres, em um vôo bastante confortável, mas longuíssimo. Na ida fui muito bem acompanhada pelo BB King que cantou horas seguidas no meu ouvido. Tinha a esperança que acontecesse o mesmo na volta, mas já não aconteceu. Tudo bem.

 

Não tive problemas com imigração, nem teria porque, mas essas coisas nunca se sabe. Precisei mostrar minha carta de autorização de regresso quando saí da Espanha e, acredite se quiser, no check in da British antes de embarcar no Brasil. Mas na entrada mesmo em Madri, o agente foi bem rápido, nem olhou para a tal carta e foi quase simpático. Acho que depende do dia ou da cara da gente, sei lá!

 

Minha única mala também passou sem problemas, e com ela mais um carregamento de linguicinhas sem tremas e defumadas, divinas.

 

No saguão, Luiz me esperava ainda de terno e trabalhando pelo telefone, mas deu um jeito de ir me buscar. Já era noite de quarta-feira quando consegui entrar em casa e dar um agarrão no meu gato.

 

E assim, estou de volta à não exatamente rotina madrileña. A cabeça, meio lá, meio cá, mas acho que é normal. Daqui a pouco engreno a marcha outra vez!

 

10 comentários em “110 – Voltando”

  1. Adorei tua crônica, e já me deu gostinho de Brasil, embarco no dia 26 de março!!! E realmente as coisas depois de um tempo parecem ter outra perspectiva e até outro tamanho!
    Beijos e seja bem-vinda

  2. Oi chica, que bom voltar e ter todas essas coisas boas nos esperando né? Eu amooo voltar aos lugares por onde vivi , me dá uma nostalgia boa, rever os lugares , as pessoas que ainda estao por ai , suas reaçoes , as emoçoes que sempre vem a tona e a gente tenta disfarçar…. E a volta é sempre cheia de saudades, mas vai passando, a vida vai entrando nos eixos e ai ela encontra o seu cantinho dentro da gente pra ficar ali até a outra volta!

    beijoss

  3. Oi Bianca,
    Foi muito bom reencontrá-la depois de muuuuito tempo, vc está lindona!!!
    Essa nostalgia é normal, vai passar!!!
    Em breve nos veremos novamente, né!?? rsrs
    Bjos

  4. Oi, Didis! Sei lá, para mim é como se fossem vidas diferentes, tenho sempre uma sensação de deslocamento, me sinto um pouco como em um filme. Besitos

  5. Oi, Marianne! Se demoro muito a escrever, perco a vontade! É bom assim, logo que acontece! O Luiz, seu cunhado, apareceu por aqui também, lá na página principal. Besitos

  6. Oi, Selma!

    Pois é, cada vez que vou ao Brasil é uma sensação diferente, tanto na ida, quanto na volta. Dessa, me pareceu que morar em SP novamente era viável, ainda que não tenhamos nenhum plano a respeito. É que por melhor que seja minha vida aqui, é complicado ficar correndo em círculos atrás do próprio rabo, e em 3 noite que durmo em Sampa, tenho, por exemplo, a possibilidade de fazer uma individual. Mas tudo bem, já estou engrenando na vida madrileña outra vez, acho que é o efeito fim de férias.

    Imagino quando vocês forem passear no Brasil agora com Beatriz! Será uma paparicação só naquelas bochechas! 😛

    Besitos

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