102 – Os Imparáveis, agora uma comunidade

Faz já algum tempo, nem me lembro mais quanto, Luiz me chama de “Bianca, a Imparável”. Concordo que tenho uma certa energia meio exagerada, mas é até melhor que a gaste em atividades, caso contrário, saio pifando relógios, queimando lâmpadas, uma coisa meio poltergeist. É bizarro, o que posso fazer? Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim…

 

Mas o fato é que o apelido acabou pegando. Temos um casal de amigos que saímos sempre e também são muito animados, daí, passamos a ser o clã dos imparáveis. A coisa foi crescendo, amigos se agregando, e vamos combinar, ninguém para! Inclusive, exercemos uns nos outros um efeito catalizador de bobagens e tudo ganha uma dimensão despropositada e muito divertida.

 

Então tá, acontecia o seguinte, saíamos no fim de semana e chutávamos o pau da barraca. Na segunda-feira, começavam os e-mails de um sacaneando o outro. Pior, aos poucos a gente começava a lembrar das histórias e isso rendia trocentos e-mails. Imagina como o trabalho da galera estava produtivo, né?

 

Até que a outra chica imparável resolveu abrir uma comunidade no orkut só para a gente. Primeira providência para sexta-feira: uma festa para inaugurar a comunidade, claro! O marido dela ofereceu a casa e lá fomos nós!

 

Não sou dedo duro (que segundo as novas regras do português, não tem hífen) , então não vou contar o que aconteceu. Afinal de contas, temos um pacto de silêncio! Só vou contar que alguém resolveu me acompanhar no whisky… Não estou tirando onda, mas tenho uma resistência anormal à bebida, aviso e ninguém presta atenção! Não é que fique 100% sóbria, simplesmente é muito difícil me derrubar – além de beber litros de água em paralelo, não misturar, beber devagar, me alimentar, não dirigir etc. Resumindo: não tentem fazer em casa sem uma injeção de glicose muito próxima ou um marido deveras paciente! Adoro companhia, é agradabilíssima, mas não é seguro!

 

A questão é que até isso vira piada no dia seguinte. Na nossa comunidade, já há um tópico reservado para as desculpas de segunda-feira. O fato que alguém pagará um micão é garantido, nos resta saber quem será a bola da vez. E quem mesmo está preocupado?

 

Complicado foi acordar no sábado, porque tínhamos um almoço na casa de amigos não imparáveis, mas também muito legais. Felizmente, foi tudo light, bem tranquilo, porque estávamos o pó! Eles tem um casal de filhos adolescentes surpreendentemente agradáveis, daqueles raros que sentam à mesa, conversam com naturalidade, você entende o que eles falam. Impressionante, há esperança na humanidade!

 

Bom, à noite dei uma folguinha para o Luiz, a verdade é que também estava meio cansada. Depois, no domingo à tarde ele tinha que ir para o Cairo, a trabalho.

 

Em princípio, ficaria em casa mesmo. Acontece que no domingo à noite tinha show do amigo-músico-imparável, que a propósito, estava tomando suquinho de goiaba, ainda de ressaca da sexta! Acho meio chato sair sem Luiz, mas é mais chato ainda ficar em casa, não tenho paciência para televisão. Uma amiga ofereceu carona e lá fomos para o show, era cedo, começava às 20:00hs. Beleza, então vamos.

 

Tudo muito bom, tudo muito bem, encontrei alguns amigos dos imparáveis, outros rostos conhecidos, lá pela meia noite acabou. Legal, dentro do planejado.

 

E desde quando a gente consegue seguir alguma coisa planejada?

 

Bem no finalzinho, chega um conhecido que é músico e amigo de quem me dava carona. Ele tocava aquela noite em uma boite que é o seguinte, algum tempo atrás, os jogadores do Real Madrid começaram a frequentar. Diz a lenda que o Robinho organizava um pagode ou algo assim… o Casillas vivia lá depois dos jogos… essas coisas que devem ser verdade, mas não sei bem, porque nem pagodão nem jogador de futebol faz parte dos meus interesses. Entretanto, sim que faz parte do interesse de muitas meninas de vida não tão fácil. Imagina o quadro! Pois é, porém, aparentemente, os músicos eram realmente bons, inclusive chegaram a abrir o show do Seu Jorge, quando ele veio a Madri.

 

Minha carona disse que morria de curiosidade de escutá-los tocar e conhecer o tal lugar, mas podia me deixar antes em casa se me incomodasse. Fiquei naquele dilema do onde-é-que-estou-amarrando-minha-égua e não-tô-fazendo-nada-mesmo. Estávamos em três meninas, mais o músico que tocava lá e um mini amigo dele. A gente não pagaria nada para entrar. Outras pessoas conhecidas que estavam no primeiro bar também se animaram. Bom, se havia um dia seguro para ir, era aquele. Então vamos, se a barra pesar a gente vai embora.

 

Acho que a melhor descrição da noite é que foi uma experiência. No local havia gente normal também, alguns bem estranhos, nada demais, nada agressivo ou que nos ameaçasse. Mas também havia muitas meninas, digamos, trabalhando. Então, melhor não relaxar, ainda que nos divertíssemos. Umas mulatas estratosféricas, enormes e que sambavam para caramba! Confesso, era intimidador. Logo agora que estava começando a acreditar que sambava um pouquinho. E a propósito, mesmo não sendo uma fã de pagodes, reconheço que a banda era boa.

 

Melhor que nos intervalos, quando tocava funk carioca, um monte de músicas que não conhecia. Minhas amigas e eu nos acabamos de rir das letras, o que era aquilo? Puxa, não me considero uma pessoa puritana, mas fico com vergonha de repetir os refrões. É um tal de rala isso aqui, esfrega aquilo ali, pega não sei onde, que raio de letra é essa? Não levanto bandeiras contra o funk, até vejo um movimento social bastante interessante, é que às vezes me passa a sensação que se perdeu a mão. Mas enfim, essa é outra discussão.

 

De repente, se formou um trenzinho que foi crescendo e se transformando em uma roda de esquisitos. À medida que crescia, minhas amigas e eu íamos nos afastantando na mesma proporção, quando a água bateu no joelho, voamos as três para o fundo do local, quase em uma coreografia combinada. Já protegidas, buscamos a mini pessoa que nos acompanhava e descobrimos que ele havia sido tragado pela roda esquisita. Não que parecesse muito insatisfeito. Viramos para o lado e havia um telão gigantesco com umas imagens mais eróticas do que me deixariam tranquila. Olhamos uma para outra, ok, vamos brincar de outra coisa, né? E tratamos de puxar nosso carro!

 

Vim brincando com minhas amigas que ninguém falou comigo, não me propuseram nada indecoroso, não me ofereceram nem cafézinho! Isso abala o ego feminino, devo estar velha! Brincadeiras à parte, na prática, nada de mau nos aconteceu porque nem demos abertura para isso. Não vou negar que foi uma noite divertida. Mas havia uma sensação intrigante e incômoda que depois fiquei pensando.

 

Ainda que em nenhum momento tenha visto alguma cena explícita ou tido nenhum contato alheio ao nosso grupo, podia notar um ar pesado no ambiente. Não pelo risco, que não havia, mas as pessoas me pareciam em uma busca frenética e cega. Uma necessidade de prazer por alívio, nada muito pensado. Com o samba, esse clima se dispersava um pouco, a batida é mais alegre. No funk, a batida é de sexo, puro e duro, não falo das letras, é que soa como um mantra hipnótico. Não julgo, é uma opção e totalmente contemporânea, mas não é a minha opção e ali só vi solidão.

 

Cheguei em casa e foi bom saber que tinha uma, foi bom pensar que amo alguém e agarrei meu gato. Mas me senti solitária. Estranho, porque isso não é normal, a solidão raramente me incomoda, é que naquela noite me contagiou.

 

Depois passou. Tenho mais o que fazer, os dias seguem e sou parte dos imparáveis.

 

8 comentários em “102 – Os Imparáveis, agora uma comunidade”

  1. Hahahaah chicaaaaaaaaaaaaaa, OOOOOOOTEMOOOOOOOOOO rsrs estava esperando este tópico com os 2 assuntoss hahaha

    Agora só falta o nosso ABADÁ!!! 😛

    Beijoooooooooo

  2. Didis, é impressionante como você é rápida em ler! 😀 Pois é, vamos ver um abadá, se não der para dia 07, de repente para o carnaval. Não estarei, mas quero o Abadá siiiiiiiiim!

    Besitos

  3. Oi Bianca

    Dá pra anexar a foto do tal “mini” amigo, hahahahaha
    Tô curiosa, mini por que? Ou o que era mini? hahahaha
    Eu ODEIO funk só fala de mulher vagabunda.

    Beijos

    Marianne

  4. Oi, Marianne!

    heheheheh… você tá empolgada! É que o menino era muito baixinho, acho que nenhuma de nós tem menos de 1,70 e o mocinho batia pelo nosso ombro! Ficava engraçado. O resto, como é que vou saber? Eu hein, credo creuza! 🙂

    Recebi o convite da minha amiga que fará exposição na galeria da Anna, vou tentar me agendar para aparecer por lá.

    Besitos

  5. hahahahaha… Dani, nunca pensei que o mini pessoa fosse fazer tanto sucesso! Agora a entidade tem direito a participar da comuna dos imparáveis! Pode?
    Besitos

  6. Oieeeeee!!

    Puxa, que pena que não estou mais em Madrid… assim não posso entrar na comunidade dos Imparáveis. Snif, snif…

    Sobre o clima pesado e tudo o mais… você descobriu algo que acontece sempre, todas as noites, todos os dias: a busca das pessoas por um pouco de afeto, de atenção, de contato físico, de sexo, de carinho, enfim. Nós vivemos na era da solidão. Tem pessoas que lidam melhor com ela, mas a maioria não.

    Todas as noites em que eu sai com os Imparáveis ou com outras pessoas, sabia que ao nosso redor o que acontecia era isso. Mas estávamos tão “na nossa”, tão olhando para dentro do nosso grupinho, que estávamos literalmente alheios ao restante. Aos demais. E por isso não rolou esse sentimento que tivestes nesta noite específica. Talvez realmente as pessoas fossem mais explícitas neste dia do pagode, mas não importa se em um baile de máscaras, em uma rave, uma danceteria ou em um bar com música ao vivo… sempre haverá muita gente ao redor necessitada de algo que lhes faça esquecer o sozinha que elas estão.

    Mas nem te grila muito não… as coisas são como são. E o ótimo é que você agradeceu e ficou feliz de ter o que tens. Isso é o que importa. Porque poucas pessoas se dão conta de todas as coisas boas que elas conquistaram e do que acontece de legal com elas.

    Beijões

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