96 – 2009, sobrevivemos!

Nem sei por onde começar, as últimas duas semanas foram daquelas que parece haver passado todo um ano, o que não é de todo mentira.

 

No Natal, fizemos ceia em casa para alguns amigos, poucos. Foi bastante tranquilo e me senti muito bem. Não fiquei melancólica. Falei com minha família pelo MSN e, através da câmera, participei um pouco do jantar brasileiro do outro lado do oceano. Do lado de cá, as comidas deram certo, sinal que estava em equilíbrio. Quem me conhece sabe que quando não vou bem, salgo a comida e se estou dispersa, queimo. Até a casquinha de siri funcionou!

 

Muito curioso, o fato de ter vindo uma amiga que estudou comigo no primário, em Brasília! Ela mora em Turin e de vez em quando, passeia por essas bandas. Tantos anos depois, é bizarro e legal passarmos o Natal juntas em Madri. Voltas que o mundo dá.

 

Fizemos amigo ladrão, na minha opinião bem mais interessante que o chatérrimo amigo oculto. Comemos bem, brindamos com cava, tomamos um bom vinho e conversamos sem grandes compromissos. Na saída, precisei distribuir quentinhas, porque como exagerei só um pouquinho nas comidas, nem espaço na geladeira tinha mais! Ótimo, porque no dia seguinte, todos tínhamos alguma mordomia.

 

Dia 26, morgação total e última oportunidade de deixar as coisas em casa encaminhadas para a maratona que se aproximava.

 

Dia 27, chegaram dois casais de amigos hóspedes, não se conheciam, um casal chegou de Natal (a cidade) e só dormiria uma noite, o outro veio de São Paulo, para passar o Reveillon. Passamos a tarde toda tomando vinho e beliscando coisinhas até a hora do jantar, agendado no Trifón. Uma delícia como sempre!

 

Por volta de meia noite, nossos hóspedes estavam caindo pelas tabelas, muito razoável após uma viagem internacional e toda a programação em seguida. Os acomodamos em casa e partimos para a próxima etapa.

 

Claro, ainda tínhamos uma festa de aniversário para ir. Afinal de contas, somos sócios-fundadores do clã dos imparáveis! Temos uma reputação a zelar. Uma noite de sábado em Madri, dificilmente se encerra depois do jantar. O pessoal da festa ainda seguiu para uma boite no fim da madrugada, mas essa parte nós pulamos. Voltamos para casa por volta das 3 da matina.

 

Às 9:30h já estávamos de pé, um dos casais partiria para Marrocos, queria me despedir e Luiz os levou ao aeroporto. Mais tarde, seguimos com o outro casal para o Vale de los Caidos e Segóvia. Jantamos tarde, no El Barril.

 

Dia 29, passeio a pé pelo centro da cidade. Sempre digo que Madri deve ser conhecida caminhando. À noite, nos acabamos de comer no El Rincón de Jaén. Digo os restaurantes, porque estão entre nossos favoritos. Come-se divinamente, vinhos corretíssimos e atendimento gentil e profissional.

 

Acho que para conhecer qualquer lugar é fundamental experimentar sua gastronomia, é uma maneira literal de digerir parte da cultura. Acredito que seja na mesa um dos lugares que mais se aprenda sobre as pessoas. Foi nas tabernas e restaurantes madrileños onde mais aprendi sobre o melhor lado dos espanhóis, à sua maneira, são generosos, informais, gostam de gente e da sua proximidade. Tem defeitos também, o que os faz tão humanos quanto o restante do planeta, mas se existe um momento em que me sinta mais integrada nesse país, é na mesa.

 

Nos dias 30 e 31, tinha muito o que fazer em casa. Dispensei a rua e tratei de organizar a farra que se aproximava. Muita coisa havia adiantado, mas sempre há o que só se pode fazer no dia ou na véspera, para que esteja tudo fresco. Um rocambolíssimus enormous de carne recheado, antepasto de beringela assada, tender no mel, pernil no suco de limão, farofa com bacon, salada de batata com cream cheese, frutos secos, salpicão de frutos do mar e algumas outras coisas que devo estar esquecendo agora. Nossos amigos trouxeram mais, torta salgada, folhados deliciosos, arroz com lentilha, frios ibéricos, salgadinhos e por aí vai. Sem falar das sobremesas, tiramisú, pudim, chocolate, tortas, tudo de bom!

 

Um dos amigos disse que não andava muito bem e trouxe sua sopinha em um tupperware. Confesso que lhe dei uma recomendação irresponsável, deixa isso para lá, se a comida não te fizer bem para o corpo, te fará para a alma e você ficará muito mais feliz! Não sei como ele passou no dia seguinte, mas a sopa ficou intocada na nossa geladeira.

 

Recebi as pessoas portando asas de anjo, para deixar claro que estávamos em outra dimensão. Pelas minhas contas, éramos pouco mais que quarenta pessoas e todos trouxeram bebidas. Isso quer dizer que tínhamos um arsenal suficiente para abrir um bar! Adicione a essa equação o fato de sermos muito amigos, estarmos à vontade, após a grande maioria passar um anozinho dos infernos e ser noite de Ano Novo. Bombástico, né? Após uma semana, ainda seguimos tentando nos lembrar de acontecimentos inexplicáveis durante a festa!

 

O fato é que estávamos em uma boa onda total! A noite de reveillon, para mim, é a mais importante do ano, a única que tenho fé. É uma noite de esperança mundial e de alguma maneira, essa energia deve circular pela terra. Os problemas não são resolvidos em um passe de mágica, Gaza está aí para nos lembrar, mas é um momento em que acredito no fundo do coração que eles podem ser resolvidos. E essa crença me deixa poderosa e feliz. Não sou porta voz das outras pessoas, mas tinha essa sensação que era geral, todos conhecíamos os problemas alheios e não me lembro de tocar ou ouvir esses assuntos, porque nesse momento não importava mais, estávamos imunes, protegidos.

 

Na verdade, é possível que tenhamos acreditado que essa proteção era também sonora, porque tenho quase certeza que fizemos o edifício tremer! Veja bem, a possibilidade da polícia estar ocupada era bem grande, então, quem é que ia se preocupar com o ruído de uma festa particular? Contamos com isso e botamos para quebrar! Tínhamos música ao vivo! Dois músicos que sabiam o que estavam fazendo, ou quase, nas cordas, e um monte de curiosos na percussão com instrumentos diversos.

 

Pois me acabei de tocar o tamtam! Nunca toquei tão bem na vida, ou nisso acreditei naquela noite. Realmente espero que ninguém tenha gravado, assim poderei manter minhas ilusões. A verdade é que na manhã seguinte, havia esfolado a pele do meu dedo indicador direito, o que dá alguma indicação da suavidade com que estava batucando. Não era a única alucinada, pois o cajón do meu amigo também se partiu. Ou seja, se nessa intensidade estávamos tocando, imagina como esse som se propagava pela vizinhança. O problema é que as pessoas tiram fotos, assim não podemos negar coisas que nos parecem absurdas. Por exemplo, havia algumas onde apareciam Luiz e eu tocando… violão! Desconfio, porque certeza ninguém tem, que ocupávamos o cargo a cada vez que eles levantavam para beber alguma coisa. Outra vez, realmente espero que ninguém tenha gravado!

 

A essa altura, minhas asas já tinham circulado e estavam em minha amiga imparável, que por algum motivo, não conseguia abrir os olhos de jeito nenhum! Mas o sorriso seguia, assim como seguiu em todos.

 

Meia noite, estávamos no terraço, taças de cava na mão, 12 uvas na outra, e fogos de artifício estourados pelo Luiz. Entre gente querida, pensamento dividido aqui, no Rio e em tantos lugares por onde passamos, recebemos 2009. E já nem achava 2008 tão ruim, não me cabia mais rancor nem tristeza, seria até injusto.

 

A festa seguiu madrugada afora e pelas 6:00hs da manhã, comecei a assar o pão caseiro divino, que uma das convidadas trouxe. Foi servido com café, frios e manteiga Aviação. Ninguém deu muita bola para os frios, todo mundo matando a saudade de casa com pão quentinho e manteiga derretendo.

 

Pelas 7:30, de vassoura em punhos, pedi arrego! Jack, que ficou preso no quarto tranquilo, estava miando, doido para sair. Era dia claro, o que indica que passava das 8:00hs, quando fomos dormir.

 

Quando levantei, pelas 14:00hs, me dei conta que não tinha só metido o pé na jaca, como pisado fundo até o joelho! É verdade que estava cansada, acho que não parei muito por toda a festa e não desci do salto. Mas não me lembro em nenhum momento de ser um fardo, pelo contrário, era divertido voar de lá para cá, com minhas asas de anjo ou de abelha ocupada, como gosto de estar. Devo ter pago meia dúzia de micos, espero que sim, e não importa porque estava entre amigos. O whisky não me subiu à cabeça, parou no coração, e não tinha um pingo de ressaca.

 

Levou alguns dias para por a casa em ordem, também aproveitei para fazer o mesmo com as idéias. Foi tudo lavado, roupas de cama, chão, forro do sofá. Agora começo a fazer limpeza de papéis e coisas que não usamos. Sempre gosto de começar o ano zerada, mas esse ano foi um pouco diferente.

 

O começo de um ano é também a quebra de um ciclo, onde costumo ter essa sensação de recomeçar, de deixar para trás o que passou. Dessa vez, não tenho vontade deixar mais nada para trás, porque já ficou, já passou e o que levo é a experiência, que ninguém nos toma. São só figuras de linguagem, maneiras diferentes de dizer ou ver a mesma abstração, porém traz uma nova atitude. E talvez, seja esse meu recomeço.

 

Hoje, posso falar sobre quarenta pessoas, todas diferentes, e que não consigo imaginar a mesma festa sem a contribuição de cada uma, individualmente. Temos outros amigos, com e sem problemas pelo mundo, mas tenho a confiança que encontrarão os melhores caminhos. Luiz, Jack e eu, seguimos juntos e com saúde. Nossas famílias estão envelhecendo, é parte da vida e ainda há muita energia para tocar o barco, eu sei que vai chegar o dia em que não haverá, mas não será hoje. Chegou 2009 e sobrevivemos, fomos capazes de sorrir e comemorar, algo de certo fizemos.

 

10 comentários em “96 – 2009, sobrevivemos!”

  1. Vi as fotos do festerê lá no orkut! Foi de arromba mesmo! Começaram com os quatro pés direitos! Rs!
    Besitos, e Feliz 2009 novamente!

  2. heheheh… foi mesmo, Selma! Com tudo de direito e mais um pouco!

    Estou na maior expectativa das notícias aí por essas bandas! Imagino vocês! 😀

    Besitos

  3. Aeeeeeeeeee chica, vim correndo pra cá!

    Foi tudo de otimo , a preparaçao, o evento, o pós evento rsrsrs as lembranças , as fotos e as NAO GRAVAÇOES rsrsrs.

    Que venha um 2009 cheio de alegrias pra nós!

    Espero estar melhor amanha para o “recolhe dos ossos” hahah.

    Beijosss

  4. Bem bom ano novo voces ja tiveram, espero que ele continue assim, mas eu como boa bruxa tenho muito bons augurios para esse ano , quer dizer me da boa espiña, começou com neve neva hoje nesses meus montes galegos, faz frio e vou fazer polenta com molho de carne e queijo parmesao, frio frio menos tres graus.
    Seu relato Bianca muito muito divertido, seguramente esse ano vais conseguir todos seus objetivos. Um beijo a vos e felicidades.

  5. Que não gravaçoes??? As gravações estão por vir…

    Bi, como já disse antes.. foi tudo perfeito!!

    Obrigada!!

    E mais uma vez, Feliz 2009 !!!

  6. Oi, Anônimo!
    Tem gravações? Afê… E eu tão feliz achando que tinha tocado bem… hahahahahah..
    Não sei quem é, mas de nada 😀 Feliz 2009 para você também!
    Besitos

  7. Oi, Antonia! Quer dizer que você também é bruxa? Bem vinda ao clube! Agora, polenta com molho de carne e parmesão foi até maldade! 🙂 Feliz 2009 para todos nós! Estou te devendo uma receita, não esqueci, estou com pouco tempo para sentar e postar. Já percebi que você também gosta de cozinhar, ou pelo menos me passou essa impressão, qualquer hora trocamos figurinhas. Besitos

  8. Sim, nós sobrevivemos!!

    E nada melhor que olhar para 2008 como algo do passado.

    E contrariando ao que muitos acreditam, vamos sobreviver (e, preferencialmente, viver) por muito tempo ainda.

    Beijões e um excelente 2009 para a gente, independente do que vier.

  9. Oi Bianca

    Meu ano novo foi com a familia do Claudio numa chácara, muito legal. Minha mãe foi para Ilha Bela com minha irmã.
    Viajei depois e só hoje (dia 20) estou voltando para “pegar no batente”. Assim estou começando a lêr suas crônicas nesse momento.

    Beijos

    Marianne

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