93 – De um dia para o outro

A vida é assim, de um dia para o outro tudo pode ser diferente. Às vezes, dá um pouco de medo na hora de levantar e imaginar o que nos espera, mas acho bem pior não ter porque levantar.

 

Certezas absolutas trazem uma falsa segurança, é que a gente se esquece que elas seriam para o bem ou para o mal. Nem toda certeza é boa, a probabilidade deixa a porta entreaberta, uma esperança.

 

A frustração me deixa bastante aborrecida, acho que é assim com todo mundo, ou deveria ser, porque tem gente que chega a se acostumar a não conseguir as coisas. Não me acostumo, mas tenho tentado aprender a sofrer menos por isso. Algumas vezes, é como se uma nuvem de calmaria me baixasse no meio da tempestade e consigo pensar, tudo bem, já passei coisa pior, é só um momento. Faço um exercício de otimismo e os problemas voltam a ter o tamanho correto, eu sei que eles não sumirão sozinhos, mas é mais fácil tratá-los depois de dissecados. E ainda acredito no bem recompesado, só me esqueço um pouco disso quando estou com raiva. Uma hora a raiva passa e sempre descubro que a generosidade traz muito mais.

 

Esperamos que essas lições de vida apareçam de maneira grandiosa, mas na prática elas se mostram em situações simples e rotineiras, é só prestar atenção.

 

Enfim, recebi a notícia que a proprietária queria falar conosco quando tinha amigos em casa. Não vou negar, não foi agradável e lógico que me preocupou. Mudar de casa agora, em uma época do ano complicada, uma situação econômica pouco estável, com todos os nossos documentos atrelados a esse endereço. Putz! Com tantas mudanças nas costas, tenho uma lista automática do que é necessário fazer, que começa a pipocar na cabeça no mesmo instante.

 

Um dos amigos, tentando ajudar, começou a nos explicar legalmente nossos direitos a não deixar o apartamento e tal. No mesmo minuto, respondemos Luiz e eu que isso não ia acontecer, se ela quisesse o apartamento de volta, devolveríamos, no máximo, tentaríamos negociar uma maneira em que ninguém perdesse tanto. Luiz disse que não queria se aproveitar da infelicidade de ninguém, no que concordo plenamente, não precisamos disso. Honestamente, faço questão do que é meu, mas se não é, perco até o gosto. Resolvemos escutar a história primeiro, sem a intenção de buscar mais problemas do que os existentes.

 

Minha maior preocupação era em relação à documentação, em princípio parece que não, mas permanecer um tempo no mesmo endereço acaba se tornando fundamental. Quase tudo te chega por correio e com datas que você não pode perder. Estamos no meio do processo de cidadania, meu visto de residência ainda não está pronto, enfim, complicaria bastante nossa vida. Trocar o endereço é outra burocracia e, no meio do processo, pode atrasar tudo. Isso sem falar na questão psicológica de ter uma casa, uma identidade, mas não vou entrar nessa seara nesse momento. Portanto, mesmo parecendo coisas totalmente distintas, sempre caminham juntas na minha lógica.

 

Não adiantava dar muito mais voltas que essas, não sabíamos o tamanho da encrenca, nem ia demorar a descobrir. Então, o jeito era encarar. Só combinei com Luiz de, caso precisássemos sair mesmo, não fechar a data na hora, porque precisaria checar algumas possibilidades antes. Ainda assim, fiz meu dever de casa e comecei a checar imóveis pela internet.

 

Felizmente, o suspense não durou tanto, ela chegou e começamos a conversar. Uma história de dar calafrios, o que essa cidadã passou esses últimos meses não desejo para ninguém. O marido, que agora é o ex, aprontou o que se chamaria em castellano castizo de un putada, macho. Juro, fiquei realmente abalada e triste, porque ninguém merece. O que ele fez não vou entrar em detalhes, porque essa história não é minha, mas foi cachorrada e das grossas e a essa altura, já estava achando que deixar o apartamento era fichinha. Como é que a gente poderia ajudar?

 

Bom, descobrimos que na verdade ela nem queria que saíssemos do imóvel, seria mais interessante que alugasse algo menor e mais barato para ela e o filho e continuar a nos ter como inquilinos até que toda a situação se resolvesse. Assim terminamos a noite, não como oponentes, mas aliados.

 

Não sairemos agora do apartamento e de comum acordo. Quanto tempo mais? Sei lá, jacaré é tudo igual… Digo e repito que certa estava minha avó, nasci nua, estou vestida, já vou no lucro.

 

Quando ela se foi, senti o alívio em continuar aqui, mas era impossível ficar feliz. Fiquei pensando como as pessoas podem surpreender tanto. Não era um casal que acabou de se conhecer, estavam juntos por onze anos e com um filho. Entendo uma relação terminar, a mágoa, a raiva, entendo um monte de coisas, mas não posso aceitar a crueldade, muito menos a premeditada, porque isso é de gente covarde.

 

Sem combinar, Luiz e eu pensávamos o mesmo em cômodos distintos. Conseguia me imaginar com muita raiva, com ódio mesmo, talvez fazendo coisas hoje impensáveis em um momento passional, mas não me via nem perto de canalhice ou covardia parecidas. Arrisco a por minha mão no fogo e também duvido que Luiz fosse capaz de algo assim. Como algumas pessoas enlouquecem dessa maneira?

 

Resolvi fazer um bom jantar, tomar um vinho. O leão do dia havia sido resolvido. Não posso dizer que gostei da chacoalhada, mas é importante de vez em quando prestarmos atenção em o que somos, o que temos e a diferença entre as duas coisas.

 

Acordei sem grandes pressas, meu gato pedindo carinho e Luiz telefonando quase simultaneamente, eles combinam. Não deu quinze minutos e o telefone tocou outra vez, achei que era Luiz, que esquecia de falar alguma coisa. Atendi em português, com aquela voz de preguiça.

 

Do outro lado, uma voz espanhola, era da comisaria de policia, sobre o nosso processo de cidadania. Dei um pulo e me transformei em concentração absoluta. Só esperava receber alguma notícia pelo meio do ano que vem e não havia chegado nenhuma correspondência. Ele me pergunta quando posso fazer a entrevista e eu, por mim, amanhã. Então, amanhã às 12:00hs.

 

Estou em cólicas, uma mistura de preocupação e euforia. O caminho ainda é longo e sei que precisarei de mais paciência, mas a possibilidade de dar um novo passo é estimulante. Em menos de 24 horas, uma reviravolta completa, só pra me dizer, acorda, Dona Chica, você ainda tem tempo, em breve talvez possa sair da areia movediça.

 

7 comentários em “93 – De um dia para o outro”

  1. Oi Bi!!

    Que notícia maravilhosa essa de que vocês vão ficar na casa. Uma mudança a menos é sempre uma coisa a boa, não é mesmo? Afinal, mudança é um saco. 🙂

    E realmente, a vida pode mudar de um dia para o outro radicalmente. Interessante você dizer isso, justamente hoje, porque ontem eu pensei o dia inteiro em escrever um comentário que ia um pouco nesta direção. Não exatamente assim, mas por aí… Talvez escreva ele hoje, ou amanhã, ou sei lá… mas é fato que as coisas andaram mudando na minha cabeça de maneira bem “radical” em poucos dias.

    Engraçado também que a gente meio que “se leu” simultaneamente, né? Li você agora há pouco, antes do almoço, e agora vim te deixar um recadinho… quando vejo que você deixou dois para mim no meu blog. hehehehehe
    Transmimento de pensação total.

    Beijos gigantes com saudades.

    P.S.: E muita, muita sorte amanhã. “Ojalá” dê tudo super certo na “comisaria”. Kisses

  2. Fiquei rindo sozinha quando vi seu comentário, a primeira coisa que pensei, caramba, acabei de vir de lá, será que ela já leu? Haja transmimento de pensação! 😀

    Bueno, espero suas notícias para saber o que passa nessa cachola. Na minha não é muito difícil, minha vida é um blog aberto… hahahahaha…

    Ai, que frio na barriga!

    Besitos

  3. Pode ser, Didis, não reclamo, mesmo assim, ainda estou bem quietinha esperando ele passar, por si acaso…

    Mas que melhorou… melhorou e muito!

    Besitos

  4. 🙂 🙂 🙂
    Sem palavras… O universo sempre conspira a favor, mesmo quando a gente não entende que raios de língua ele está falando!
    Bs!

  5. Bom, ainda não teve final, mas na medida do possível, posso dizer que foi feliz. E definitivamente, foi uma surpresa boa.

    Besitos

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