91 – Um show muito engraçado

Tenho um gosto razoavelmente eclético para música. Talvez mais do que gosto pessoal, seria melhor definido como uma alta tolerância a diversos estilos musicais.

 

A diferença básica é a seguinte, é lógico que tenho minhas preferências e para elas sou bastante exigente. Aquelas canções que escuto tanto que o CD deve ficar mais fundo em alguns lugares, como se pudesse sugar seu conteúdo. Sou daquelas que prestam atenção nas letras, aumento o batimento cardíaco com uma boa percussão e me arrepio inteira com metais e violinos.

 

Entretanto, alguns estilos que não posso dizer que gosto, não me incomodam. Não compraria um CD, não escutaria de propósito, mas se está ali e posso me divertir com isso, eu tento. Já estou mais do que careca de ter passado pela fase de me preocupar com o que pensarão de mim se souberem que gosto disso ou daquilo. E é uma sensação libertadora.

 

Acho que é um pouco como ter conversas com amigos. Um papo sempre intelectual é tão chato quanto um sempre estúpido. Tem dias que quero ir fundo em algum tema. E outros, só quero morrer de rir.

 

Sair do meu país de origem, me deixou mais eclética ainda. Por um lado, dá vontade de conhecer outros estilos e embarcar em outras culturas através de sua música. E nos ritmos brasileiros, fiquei capaz de cantar empolgada coisas que nem sonharia antes, só para ficar mais perto da minha língua. Acabei descobrindo que era bom, e que fazia parte da minha essência, gostando ou não. Através da arte, aprendi a respeitar coisas que não gosto e isso me abriu portas, ampliou minha perspectiva.

 

Quando tem algum show de bandas brasileiras em Madri, independente do que toquem, tento ir. Quer dizer, quase tudo, nunca consegui tolerar música sertaneja por exemplo. Não por uma questão de qualidade musical, mas porque não tenho absolutamente nenhuma referência country, sou urbanérrima! Mesmo assim, talvez vá algum dia, não sei, mas não importa agora.

 

Pois é, daí veio o Falamansa para Madri, soube na semana passada. Um casal de amigos ia, já imaginava que a brasileirada estaria em peso, a gente sempre encontra as mesmas caras. Luiz ia viajar a trabalho, fiquei meio na dúvida, mas quer saber, também vou ficar em casa sem fazer nada? Então eu vou.

 

Vou ser sincera, não tenho absolutamente nada contra o Falamansa, acho até eles bonitinhos, entretanto,  apenas conhecia uma música. Pior, conhecia três músicas, mas achava que era uma só. Aquele frio na cidade, inverno total, e ainda por cima tinha que ir sozinha para um show. Vamos combinar, tinha tudo para ser um mico, né?

 

Acontece que estava de bom humor. Fez sol durante o dia.

 

Troquei novecentos e trinta e dois e-mails pela tarde toda com os amigos. Ninguém estava com a menor vontade de trabalhar, acho que foi o dia mais improdutivo nas empresas espanholas. Mas tudo bem, já comecei a me divertir aí e descobri que encontrar conhecidos é que não seria nenhum problema. Depois, o clã dos imparáveis estava quase completo e preciso me esforçar para não perder minha posição.

 

Eu, caxias para burro, acho melhor a gente chegar cedo para pegar um bom lugar! Putz, acho que fomos os terceiros a entrar, dava até pena da casa vazia. Na entrada, perguntaram se éramos clientes VIP, bom, VIP não somos, mas somos muito legais, ajuda?

 

Não sei o que deu na gente, mas estávamos todos atacados nesse dia, com as línguas mais do que ferinas. Daquele jeito que se você engole muita saliva, morre envenenado. Eu sei que vou para o inferno, mas agora estou tranquila que não estarei por lá sozinha! E verdade seja dita, o povo estava pedindo para ser sacaneado. Nós só atendemos.

 

Um rapazinho enrolado com a bandeira do Brasil, com uma peruca black power colorida, dançando freneticamente. Até aí, tudo bem, esse até parecia simpático, o garoto estava feliz, deixa ele.

 

De repente, a gente nota um brilho na sala. Um cidadão, que parecia espanhol, estava com uma camisa comprida de botão, cor de rosa, com listras bordadas… em paetê! É difícil descrever, mas garanto que nunca na minha vida vi nada tão cafona. Pior, estava com a namorada, ou seja, quem escolheu esse mimo foi ela, né?

 

Do nosso lado, um senhor careca, gordinho, com pinta de espanhol dono de taberna tradicional, acompanhado de uma jovem fogosa mulata, que dançava sozinha na sua frente. A gente esperando o momento de chamar a ambulância com oxigênio para o coroa.

 

E não é que começou a chegar gente? Animou. Tudo bem, a verdade é que a essa altura nem estava mais ligando, estava com meus companheiros de inferno e uma boa dose de whisky. Mas realmente a casa encheu.

 

Apareceu um DJ e começou com um repertório funkeiro que estávamos totalmente desatualizados. Em especial, uma musiquinha do sabonete que um pouquinho menos canalha, ficaria enrubrecida. Também é verdade que não conseguia entender metade da letra, o que nesse caso, foi uma benção!

 

Três mocinhas se empolgaram, salto agulha, mini-vestidos de oncinha e aquela coreografia para lá de suspeita. Tudo bem, pode dizer que é despeito, talvez se fosse homem, me empolgasse, mas não sou e como já disse, estávamos todos atacados nesse dia. Portanto, como se houvesse uma parede de chumbo entre nós, ficávamos na cara dura imitando a coreografia de um jeito, digamos, bem menos sexy.

 

Nossa atenção foi desviada para um rapazinho, justo na nossa frente, que começou a se exibir para duas meninas. Tentava dançar de um jeito que nós imaginamos que ele pensava estar provocativo, porque dava aquela arrebitadinha no bumbum para rebolar. Com toda aquela ginga, beleza e graça de um gringo. Pensei em avisá-lo que o único lugar em que ele faria sucesso com aquela dancinha seria na cadeia.

 

Entrou uma banda para abrir o show. Nós nos esforçamos para dar uma força para a galera, é sempre difícil começar. Mas, sério, houve um momento que quase sentimos saudades do DJ pornográfico.

 

Até que, finalmente, entrou o Falamansa, e para quem pensa que vou meter o pau no show, se engana, foi bom. Alto astral, tocam direitinho. Se estivesse com Luiz, me divertiria mais, porque forró e xote é bom de dançar em par. Mas não tinha do que reclamar.

 

As pérolas da noite não terminaram por aí. Por mais que nosso senso crítico estivesse bastante apurado, na prática estávamos na maior boa onda e talvez por isso, ninguém se importou em se aborrecer conosco. É muito provável que também estivessem rindo da nossa cara, o que, juro, também não me importava.

 

Uma menina começou a invadir nosso espaço vital, filmando o show. Quando estava praticamente entre uma amiga e eu, comecei de farra dizendo que ia entrar na frente do vídeo, ou algo do gênero. Assim como deveríamos estar invisíveis, quem sabe também estivéssemos inaudíveis! Claro que ela escutou e era brasileira, mas sorriu e respondeu que aí é que ficaria mais engraçado! Pronto! Já achei ela simpática, só não estava vendo para onde ia, no final, até ajudei a filmar.

 

É que espanhol é um saco com esse negócio de espaço, ficam sempre colados em você igual a passarinho. Chato pacas! Brasileiro quando faz isso é porque não percebeu.

 

Bom, uma hora o show acabou e quase fomos atropeladas por um mocinho que rolou escada abaixo, como um dublê, nem sei como ele conseguiu não se machucar. Levantou, sem graça, bem rápido, talvez na esperança de ninguém ter visto. E minha amiga que se livrou do atropelamento por centésimos de segundo, dizendo: boliche, boliche! Coitado!

 

Na saída, uma cidadã sentada no chão, una borrachera de dar gosto! Sério, acho que nunca vi uma mulher tão bêbada, deprimente! Fez xixi nas calças e tudo. O namorado em desespero tentando tirar ela dali. E eu passando rapidinho com medo que ela me vomitasse, credo!

 

Saio do local e escuto uma voz ao vento: co-xi-nha…. co-xi-nha… co-xi-nha… Como assim? Será uma ilusão auditiva? Coxinha? Na madrugada madrileña? Como é que iria resistir?

 

Sim, era uma coxinha feita por nem-tenho-idéia-quem, sabe-se lá a procedência dos ingredientes, comprada no meio da rua. E eu, a fresca com TOC, não pensei duas vezes! Me atraquei com o salgadinho frio, enquanto aquele namorado desesperado tentava, sem sucesso, empurrar a mocinha da incontinência urinária em um taxi.

 

Nisso, passa outro taxi ao lado e não quis correr o risco de me acotovelar em busca de condução para casa. Despedi rápido dos amigos e mergulhei no carro, com a coxinha e tudo! Entrei mastigando e pedindo desculpas ao taxista, mas é que estava morta de fome! Ele, bastante educado, nem sabe que se livrou da bêbada mijada.

 

Cheguei em casa, o telefone tocou logo em seguida, minha amiga checando se cheguei bem. Sim, sã, salva e feliz.

 

A coxinha não me fez nenhum mal e, no dia seguinte, também descobri que por pouco havia me livrado de passar em meio a um protesto violento no centro da cidade, coisa rara de acontecer, mas aconteceu.

 

É que estava naqueles dias em que você é imune ao mal, quando nada de ruim pode te passar, e essa crença é o melhor amuleto que alguém pode carregar. Tem dias que carrego.

 

…êê pra surdo ouvir, pra cego ver que esse xote faz milagre acontecer…

 

3 comentários em “91 – Um show muito engraçado”

  1. Hahahaah amiga, estou rolando aqui de tanto rir lembrando da nossa noite rsrs
    Realmente foi OOOTIIIIIIIMOOOOOOOOOOOO, pérolas, modelitos, coxinha, mocinha borracha perdida rsrrs e nós animadérrimos até com o conjunto da abertura, até com DJ do sabonete rsrs.
    E isso porque era uma QUARTA FEIRA !!!! Que por pouco nao vira SEXTA !!!

    Beijoss

  2. Oi Bianca,

    Estou um tempo sem ler seu blog, mas agora vai tudo duma vez, sabe quando a gente tampa o nariz e toma tudo duma vez, hahahaha.
    Pois bem, fui no show da Madonna e foi ótimo, eu nunca vi tanto gay na minha vida, acho que só na parada gay. Foi ilário, as bibas são super legais e sabiam todas as músicas novas.
    Mas o show foi 10 fiquei morta de cansada mas valeu.
    Beijos

    Marianne

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