90 – Idiomas coloridos

Queria saber ler música.

 

Quando era era criança, não sei, talvez com uns seis anos, bem pirralha, comecei a aprender piano. Por alguma bobagem infantil qualquer, não quis mais ir às aulas. Não é que não quisesse aprender piano, impliquei com o lugar ou com a professora e, com essa idade, não tive exatamente uma grande maturidade para lidar com o tema.

 

De qualquer maneira, a melhor lembrança que tenho dessa época era a de começar a aprender a ler música. Para facilitar e tornar o aprendizado mais interessante, as notas tinham cores e as partituras viravam linhas coloridas com claves desenhadas. Eu me lembro da sensação de olhar para o papel e ver a música.

 

Eu perdi essa habilidade, não sei mais, não lembro. Modéstia à parte, sinto que tenho um bom ouvido, porém bem pouco educado.

 

Muitos anos depois, vi um maestro reger uma orquestra de jazz em Praga, e estava muito próxima a ele. A partitura tinha cara de uma equação matemática gigantesca, me parecia uma língua impossível e indecifrável. Ao mesmo tempo, ver a concentração dele acompanhando cada nota e definindo quem entrava e quando, não deixava a menor sombra de dúvida que ele sabia perfeitamente o que estava fazendo. Vou ser sincera, morri de inveja! Passei o tempo todo atenta ao papel, aos seus gestos e as respostas sonoras. Em alguns momentos, quase sentia como seria a sensação de entender, por puro instinto, mas a verdade é que era um idioma tão claro para mim quanto o tcheco.

 

Na aula passada do coral, a professora nos levou uma música com a partitura. Muito simples, uma musiquinha de Natal. No primeiro momento, não me preocupei por não saber ler as notas, não era tão importante, ela simplesmente nos levou para dar uma idéia do que era. Mesmo assim, prestei atenção porque acho interessante.

 

Pois enquanto rolava a explicação, não é que bati o olho na frase que canto e vi! Uau! Parecia aqueles jogos de ilusão de ótica, que no primeiro momento é uma imagem confusa, você fica olhando e de repente a imagem salta para você. Foi assim, de repente a música saltou, e lembrei da sensação de vê-la.

 

É muito parecido quando você começa a aprender um idioma novo. Quanto mais você sabe, mais percebe suas limitações e seu sotaque, mas as primeiras palavras são sempre as melhores, porque são a chave para abrir uma porta. Eu me lembro quando comecei a aprender inglês, e como acreditava que com três ou quatro frases eu realmente falava alguma coisa. Era quase nada, mas o suficiente para achar que podia me comunicar, e por acreditar, falava.

 

Hoje, bem ou mal, falo outros idiomas, ainda tenho bastante curiosidade e a sensação de que não é o suficiente. Vira e mexe, me bate essa ambição de saber também línguas mais coloridas, pelo outro lado da cabeça, com imagens, sons, cheiros e sabores. E sempre me empolgo com isso!

 

2 comentários em “90 – Idiomas coloridos”

  1. Haha. Linda.
    Você é curiosa, inteligente, dedicada e bem humorada. Características que eu considero indispensáveis pra muitas coisa, principalmente pra aprenderMais que tudo o bom humor, porque se a gente nâo rir das melecas que faz enquanto aprende fica tudo muito sério….

    Acho que qualquer coisa que você queira fazer e/ou aprender vai fazer bem.

    É uma delícia mesmo aprender, né? Eu volto das minhas aulas de dança cheia de energia, revigorada….aprender rejuvenesce e mantem o cérebro ativo e feliz….

    Super fofo o jeito que você escreveu sobre as partituras, rs…
    Beijoca.

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