86 – Frio, preguiça, árvores meio mortas, mas faz sol

Falta vontade para escrever. Acontecimentos picados, histórias que ainda vou juntando as pontas, algumas vou ruminando na cabeça até que faça algum sentido.

 

O outono tem um início lindo, talvez seja a época mais bonita, mas essa beleza dura pouco e logo as árvores ficam peladas, com pinta de meio mortas. O chão fica coberto por um tapete amarelo, que honestamente gosto, mas sei o trabalho que dá. Parece quando chega a neve e a gente acha tudo com cara de cartão postal, mas no dia-a-dia o lado prático nem sempre é tão agradável assim. Bom que Madri quase não neva.

 

É também a época que começo a me precaver contra a deprê de inverno. Esse ano decidi que não vou deixá-la me pegar, estou macaca velha e me esforço em antecipar minhas receitas caseiras. Mudar a alimentação, apimentar a comida, sair para caminhar com ânimo ou desânimo, esportes de inverno, ajuste de calefação.

 

A calefação é uma coisa interessante e contraditória. A medida que o tempo vai esfriando, as pessoas tendem a aumentar a temperatura dos aquecedores. Aprendi que devemos fazer exatamente o contrário. É importante acostumar o corpo às temperaturas mais baixas, e se a calefação está sempre a tope, cada vez que colocamos o nariz na rua é um choque térmico tremendo, e quando voltamos é um calor súbito que me deixa tonta, acho que baixa um pouco minha pressão, sei lá. Resultado, um monte de gente doente! Tenho conseguido driblar os vírus, o que é sinal de boa resistência.

 

Mas o pior é sempre a falta de luz. De um mês para o outro, perdemos pelo menos 4 horas de luz ao dia, e isso porque a Espanha é privilegiada. Fico melancólica e às vezes não sei se é a luz ou se sou eu.

 

Semana passada chegou a carta do meu visto de residência, para tirar as digitais. Abri o envelope toda feliz, afinal de contas, a tal carta costuma chegar entre fins de outubro, tiro as digitais por novembro e em dezembro meu documento está regularizado. Mas não foi assim dessa vez, está tudo atrasado e marcaram a bosta das digitais para março do ano que vem! Ou seja, um ano de espera! Ninguém merece! Isso quer dizer que não tenho como fugir da maldita carta de regresso, mas ainda bem que não a tirei antes ou não poderia ir regularmente ao Rio para o aniversário do meu pai.

 

É claro que fiquei aborrecida, essa coisa de documentação é o que mais me chateia em morar fora do Brasil. Inevitável não pensar no nosso pedido de cidadania que corre em paralelo. A gente precisa tentar, mas no fundo me bate aquela pontinha do será que valerá tanto trabalho e tanto tempo? Será que estou perdendo tempo? Tempo, tempo, tempo, de repente passei a me preocupar com ele, que cada dia se acelera.

 

Para completar, recessão européia e crise mundial. Tranquilizador.

 

Eu no chove não molha do engravido ou não engravido. Isso não depende só de mim, mas não consigo mais ter toda aquela certeza que tive um dia. Houve um momento esse ano que achei que podia tudo, tudo me parecia simples perto do que já havia vivido. Sentia que era capaz de tocar qualquer barco.

 

Em outubro levei uma rasteira, quando levantei, ao invés de querer celebrar as vitórias e a sorte que sempre temos para sair dos problemas, senti cansaço. Sou muito mais frágil do que queria ser. E o dia inteiro martela na minha cabeça a pergunta, tem certeza? Passei a vida ouvindo todos os motivos para um sim e insisti que não. Agora resolvo tentar e o mundo parece me avisar que é uma má idéia. Não é o melhor momento, eu sei, acontece que só tenho esse momento, se ainda tiver. O maldito e bendito tempo.

 

No meio de um mar de dúvidas, leio uma resposta da minha mãe a uma mensagem mais antiga dizendo que tudo passa. Eu sei, tudo vai passar, pode doer mais ou menos, mas passa. E quem cura também é o tempo.

 

Sinto falta de um emprego e é a primeira vez que sinto isso. Antes, a arte me preenchia, mas se tornou algo abstrato demais, um grito no vácuo. Escrever ainda me salva, mas é pouco. Talvez seja pela chegada da crise, que antagonicamente me anima, me lembro quando trabalhava oficialmente, era sempre nas crises que ganhava mais dinheiro e me alavancava.

 

Segunda-feira abriu um sol maravilhoso! Muita gente não percebeu porque chegou junto com um frio do cão, mas ele estava lá, radiante e me empurrou para rua. Engraçado, que a rua onde moro parecia mais larga, percebi logo que era o efeito das árvores sem folhas, por um lado é meio triste, mas por outro, você vê mais o céu, amplia seu horizonte.

 

Faxinei a casa, abri bem as cortinas, algumas que vivem fechadas. Sabe de uma coisa, falta uma árvore de Natal.

 

Saí para achar alguma árvore, mas não queria investir muito nisso, às vezes somos nós mesmos que bolamos alguma alternativa, fica mais divertido. Acabei encontrando uma pechincha por 7 euros! Uma pobre árvore raquítica que passava despercebida, mas só porque não estava bem montada. Pensei que se não desse jeito na dita cuja, podia aproveitar a armação e fazer outra. Sabe que deu jeito? Daí aproveitei e fui tirando da cartola luzes e outros detalhes, essa é a vantagem de ter atelier em casa. Pronto, me empolguei, ainda não está tudo pronto, mas acho que vai ficar legal.

 

E quer saber, por que não uma festa de Ano Novo?

 

Natal é mais família. Se não tenho a minha oficial próxima, fico com a família dos amigos e tudo bem. A tecnologia está aí para isso, temos telefone, internet, webcam e o escambau! Está tudo bem.

 

Não quero lembrar de 2008 pelo que houve de triste, porque não foi só isso. Tem uma estratégia interessante, muito utilizada pela igreja católica, que é a de substituir símbolos. Eles sabiamente entendem que símbolos não morrem, se você tentar abafar, cria mártires ou reforça o mesmo pensamento, portanto, coloca-se outra coisa no lugar e pumba! Por exemplo, Jesus Cristo nunca nasceu em 25 de dezembro. A data foi escolhida para substituir o festival pagão, do solistício de inverno, que hoje ninguém mais lembra o que é, pois afinal de contas, 25 de dezembro virou Natal! Mas enfim, não venho agora discutir religião, simplesmente acho uma estratégia brilhante, então, por que não aproveitá-la?

 

O que tento fazer é não alimentar traumas. Se alguma coisa ruim aconteceu, na medida do possível, procuro substituir a experiência em um lugar ou situação parecidos, assim, minha última lembrança é boa, ou pelo menos melhor. A última lembrança é sempre mais forte. Isso às vezes implica em revisitar fantasmas, mas outras é mais fácil. Por exemplo, na terça-feira precisei ir ao Hospital San Camillo, onde descobrimos que meu pai teve o AVC e a coisa se complicou. Uma amiga, muito gripada, pediu ajuda para levá-la à emergência. Em um primeiro momento, admito que o impulso era dizer, mas não vou mesmo! Depois pensei, hã hã, melhor matar esse fantasma de uma vez. Entrar ali foi bem nauseante e nada agradável, mas fui e passou. Está resolvido, não preciso mais passar pela frente desse hospital e pensar que nunca mais entro ali, já entrei. De lá fomos jantar fora.

 

Parecido a isso, pensei no Reveillon, que para mim sempre foi sinônimo de festa, de renovação. Acho o melhor dia do ano! E não há um motivo razoável para que não continue sendo. Não tenho como apagar as coisas ruins que aconteceram e algumas me incomodarão por um tempo, paciência. Mas não acho justo fazer disso o símbolo de 2008. Reveillon é festa, então vamos a uma que se preze!

 

E é isso aí, em dezembro se abre nova temporada de hóspedes e de festas. Já era hora.

 

6 comentários em “86 – Frio, preguiça, árvores meio mortas, mas faz sol”

  1. É neguinha branca, eu concordo plenamente contigo,
    Temos que enfrentar nossos fantasmas pra que eles não nos assombrem…
    E já ta hora de você ir voltando ao seu posto de diretoria do clã dos imparáveis né? Sabe que o teu lugar ninguém tira rsrs até porque ele esta bem guardado!!!
    E vamos nós a festar no fim de ano, também é uma ótima data pra queimar as coisas ruins e fazer fogueira !!!! Eu particularmente faço todas as “mandingas” do final do ano , tenho que subir em algum degrauzinho e saltar o ano, comer lentilha , conseguir não engasgar com as 12 uvas , tomar cava com aliança dentro e tantas outras , falou eu to fazendo hahah portanto terei que subir num degrau da sua escada, já vou deixar logo reservado um deles pra mim ! Amanha emoções …

    Beijos de boa noite!

  2. Putz Bianca, tô meio assim também… acho que esse outono, que está mais parecendo inverno, já está me afetando, ando down pra caramba… fico pensando se morasse em Londres, acho que eu ia pirar!
    Mas é isso aí, vai aos poucos saindo da casca… a idéia da árvore de natal parece boba, mas é muito boa sim, os símbolos ajudam muito.
    Aliás, tá na hora de montar a minha.
    Beijao!

  3. Oi Bianca

    Estou me preparando psicológicamente para ir ao Mercadão, adoro ir lá, mas nesta época de natal o povo invade o centro atrás das incríveis promoções da rua 25 de março e também aproveitam para conhecer ou comprar no Mercadão.

    O Mercadão foi restaurado e agora também tem uns restaurantes bem legais, é gosto e o preço é razoável. Ficou interessante com os vitrais todos restaurados e mais organizado.

    Meu reveillon tem sido estes últimos anos meio deprê, com gente doente e com a falta de gente também. Este ano espero que a deprê tenha ido embora de uma vez por todas. Minha mãe irá para praia, meu irmão pro interior, e eu ainda não sei o que fazer.

    Espero que 2009 venha com boas notícias pra todos, e que o urubu comece a pousar em outros telhados.

    Beijos

    Marianne

  4. Oi, Didis! Tô sabendo que o lugar imparável está bem guardado, até porque nosso posto é vitalício, né não? Pode deixar que também reservo seu degrau 😀

    Besitos

  5. Oi, Alessandra!

    Já montou sua árvore? Te mandei um e-mail por esses dias te convidando, espero que você possa vir, aproveita para sair da casca!

    Besitos

  6. Oi, Marianne!

    Eu já amava o mercadão como era, deve estar ainda melhor. Mas o centro deve estar um inferno. Vi algumas fotos da 25 de março e aquele mar de gente! Aí também não dou conta!

    Lembramos de vocês esses dias, porque fomos atrás de fogos de artifício para soltar no Reveillon. Ontem compramos alguns desses brinquedinhos… heheheh…

    Quanto ao ano que vem, dizem que esse ano foi difícill porque era do rato. Ano que vem é do boi. Ou seja, na pior das hipóteses, sempre nos restará fazer um churrasco e aproveitar!

    Besitos

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