68 – Somos o que decidimos ser

Então, tá. Acabou agosto e com ele a boa vida. Esse ano me despeço do verão meio nostálgica, como se o mês paralizado me protegesse do que está por vir. Não faço previsões pessimistas, mas sinto que por aí podem chegar mudanças importantes e mudança é sempre estressante, mesmo para quem não vive sem ela.

 

Engraçado isso, custei muito a entender que as mudanças também me assustavam. Não me lembro na vida quando tive uma rotina razoavelmente fixa e gosto de viver assim. Ou talvez não conheça outra maneira de ser. Mas ainda me bate uma certa ansiedade que custei a decifrar ser um pouco de medo. Para mim era muito duro admitir me acomodar em qualquer zona de conforto. A diferença é que há certos medos que te fazem não prosseguir, no meu caso, me fazem realizar mais depressa. Porque acho muito mais simples lidar com as consequências de algo concreto do que com os fantasmas do quase.

 

Na semana que vem, entraremos com o pedido de cidadania espanhola. Não sei realisticamente nossas chances de conseguí-la, o processo está cada vez mais fechado, mas me parece viável. Ao mesmo tempo, as coisas para a gente não chegam tão fáceis, me preocupa o que passaremos até essa situação se resolver.

 

Um papel deveria ser só um papel, mas na prática não é. É difícil saber que não tenho as mesmas oportunidades e talvez fosse uma lição que precisasse aprender. No Brasil, sempre tive a sorte dos caminhos abertos. Pode ser que tenha sido eu mesma quem os abriu, por acreditar que era justo. Aqui, tudo que vou fazer sei que começo em desvantagem. O problema não é a auto-estima, humildade nunca foi meu forte, mas o cansaço antecipado. Às vezes, me dá medo que algum dia não queira mais nem tentar. Gostaria de ser uma cigarra com menos consciência que o inverno chegará. Mas um dia ele chega e me cabe a responsabilidade de continuar cantando.

 

Decidi tentar engravidar. Eu disse a vida inteira que não, mas agora resolvi que sim. Foda-se! Outra vez, não sei as chances de conseguir e não me arrependo de haver esperado tanto, porque nunca esperei, simplesmente mudei de idéia. Nesse aspecto, acho a natureza incrivelmente burra ou serei eu terrivelmente lenta, porque não havia a menor possibilidade de pensar como hoje aos vinte e poucos anos.

 

De repente, me dei conta que nunca me encaixaria nos padrões de uma mãe considerada tradicional. Acontece que pela primeira vez isso não me parece um impedimento. Por que deveria sê-lo? Se todo mundo erra, por que não poderia errar nas minhas próprias bases?

 

Escutei a vida inteira que uma criança precisava de estabilidade, de rotina. Isso me soava muito razoável e verdadeiro. Em paralelo, inviabilizava qualquer possibilidade de termos uma criança conosco. Acontece que, por princípio, adoro questionar as verdades absolutas e buscar paralelos na vida. Finalmente, compreendi que quem precisa de toda essa estabilidade nem sempre são as crianças e sim seus pais, porque é muito mais fácil. E tem desculpa melhor do que deixar de fazer por amor?

 

Tenho um gato há nove anos. A sabedoria popular, ou falta dela, diz que gatos detestam mudanças, se apegam à casa e precisam de uma rotina. Sim, alguma rotina de segurança ele precisa, mas já mudamos com ele uma dezena de vezes e, se estamos bem, ele também. Ronronante e feliz.

 

E se eu já não puder mais? Paciência. Vou sofrer, chorar três dias, espero que pelo menos emagreça um pouco. Depois dou uma festa e busco outra coisa para pensar. Mas cada passo a seu tempo e ainda demoro muito em cada um desses. Minhas chances são remotas. Eu sei a cumbuca que estou metendo a mão e estou bastante realista. De qualquer maneira, me sinto aliviada por conseguir tentar, me deixou mais forte e tudo parece menos complicado. E se der certo?

 

Não há garantias na vida que sejamos felizes. O que é estabilidade? Qual é o limite de uma rotina? O que é uma relação de dependência? Chega um momento em que todos decidimos o que somos ou deixamos que alguém decida por nós. No final, somos sempre o resultado de uma decisão tomada. Prefiro tomar as minhas.

 

8 comentários em “68 – Somos o que decidimos ser”

  1. Bianca, minha querida, muito querida e estimada amiga!!!

    Somos TOTALMENTE produto de nossas decisões e pensamentos, do que decidimos ser. Tens completa razão.

    Acho que nem preciso dizer o quanto fico feliz com esse manifesto público, não é? Afinal, quando falamos o que queremos e o que estamos fazendo em voz alta, parece que a realidade finalmente sai do plano “sonhos” para se tornar mais verdadeira.

    Estou contigo, você sabe, para o que vier… mas algo me diz que por aí realmente virá aquela menina linda que só poderia vir de um casal como você e o Luiz.

    E os padrões que estão por aí existem, especialmente, para serem questionados, estudados, assumidos ou modificados. Você já deve ter ouvido falar da Família Schurmann, verdade? Catarinenses como eu… tem uma história simplesmente incrível. E quer exemplo melhor de uma família que foi criada fora dos padrões, viajando o tempo todo? Tive o prazer de entrevistar a Heloísa Schurmann uma vez e realmente a história dessa mulher e mãe é incrível. Recomendo que você busque info, se não conheces muito a história deles.

    E aventureiros somos todos nós, não é mesmo? Que nos lançamos ao imprevisto apesar do medo – que sempre existe. Somos humanos. Ainda bem!

    Que maravilha! Fiquei muito feliz, realmente. E dentro de um tempo vamos celebrar a boa nova…

    Beijossssssssssss imensos e mais felizes

  2. 🙂 chica linda!

    A vida tem seu rumo , e logo logo saberemos qual será o seu!
    Tentar sempre vale a pena!
    beijos

  3. Oi Bianca
    Finalmente!!!!
    Eu achava um puta disperdício de pai e mãe voces ainda não serem!!!!!!
    Eu sempre achei isso e nunca entendi bem as sua razões mas respeitava e respeito. Espere sem muita ansiedade que ele vem. A ansiedade atrapalha um pouco.
    Vou dar um palpite, não contem nada pra ninguém quando voce engravidar, espere os 3 primeiros meses, depois ai sim, voce espalha a boa noticia.
    Diz minha sogra e minha avó que não dá sorte! Vai saber se tem algum fundo científico nisso, mas na verdade eu sempre fiz e custava um pouco pro Claudio que é do seu signo segurar a surpresa, mas como boa virginiana consegui na boa.
    Fiquem com Deus.
    Beijos

  4. Bianca,que noticia boa essa,menina!!!!!!
    Fiquei muito feliz,com a sua decisão.Um filho sempre será bem vindo.A sua hora chegou,…é agora.
    Beijos pra vc e Luiz.

  5. Oi Bianca ,
    entendo muito suas colocaçoes, mas acho q às vezes criamos situaçoes mto maiores nas nossas cabeças do que na realidade deveríamos.
    Essa coisa de situaçao ideal para fazer as coisas é mto relativo e isso incluo ter filhos. Acho q toda criança precisa sim da estabilidade emocional dos pais e principalmente de amor.
    As mudanças como vc disse sao dificeis, mas todos nós nos adaptamos, inclusive eles, os filhos, os gatos e etc… e ao final sao muito boas. Fico pensando qdo coisa bacana aconteceu nas nossas vidas desde q saímos para nossa aventura inicial em Budapest… Se ficasse pensando nas dificuldades de lingua, colégio da Débora etc, nao tinhamos nos movido do bairro de Laranjeiras. No inicio todos penamos, mas principalmente ela. Hj se vc perguntar o q ela acha de tudo, seguramente vai te dizer q valeu cada dia!
    Olha, filho da trabalho quando pequeno e muitas vezes enche o saco qdo adolescente, mas por outro lado te traz tantas coisas boas q acabam compensando tudo.
    Concordo com quem disse que era um desperdício vcs ainda nao serem pais. :-)))
    Desejo muita sorte para vcs e se precisar de ajuda de uma amiga um tanto destreinada com os niños, pode me chamar…
    Adorei! Adorei!
    Beijos
    Tereza

  6. Querida
    Fiquei procurando isso depois do nosso encontro de Lulus de ontem. E se ontem ja tive um ataque hj fiquei muito mais emocionada!!!

    Adoro voces dois.

    To torcendo pácas.

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