41 – A última semana no Rio

Mal aportamos no Rio e voltamos à intensa programação para dar tempo de fazer tudo. Deixamos o carro emprestado com meus pais, que acabaram nos dando uma carona até o Espelunca Chic.

 

De lá, começamos a ligar para as pessoas e ver quem podia aparecer pelo local. Enquanto tomávamos umas duas caipirinhas cada um, o povo foi chegando. Foram meu irmão, uma amiga que morou em Madri, um amigo que morou em Dublin e outro que conheci no Caminho de Santiago. Com a empolgação e a felicidade de estar com eles em um boteco carioca, resolvi completar o quadro e também tomar uma cachacinha, no que fui acompanhada. Uma se transformou em algumas e alguém tem alguma dúvida que chutei o balde? Tudo bem que não fui a única, mas meti o pé na jaca! Costumava fazer isso com um pouco mais de elegância e é raro que passe dos limites, mas acho que não sou mais a mesma e fiquei larari larará.

 

Saímos do boteco pagando o maior mico, um dos amigos levou um tombo, enfim o maior vexame que na verdade achei muito engraçado e não me arrependi nem um pouco. Felizmente, o que dirigiu o carro era também o sóbrio. Nós não dirigimos mais quando bebemos, mas no Brasil ainda é algo comum. Muito bem, deixamos esse amigo do tombo em casa, e ainda acordamos sua esposa. Depois fomos deixados na casa dos meus sogros. Eu tentei ser silenciosa, mas acho difícil que tenhamos conseguido. A essa altura, só posso esperar que meus sogros tenham um sono profundo!

 

Para completar o micão, ainda acordei com uma ressaca daquelas e completamente enjoada! Mas não queria perder a pose e fingi, o melhor possível, que estava apenas sem fome. Meus sogros não devem ter acreditado, até porque eu estava verde, mas também foram educados em fingir que sim.

 

Muito bem, também não podia ficar na cama o dia todo, precisava dar entrada na minha carteira de motorista internacional às 14:00hs, de maneira que às 12:00hs levantei de qualquer jeito.

 

Nisso liga minha amiga que mora em Madri e está passando um tempo no Rio, havíamos combinado de almoçar, coisa que a essa altura etílica, tinha me esquecido. Putz! Mas não tenho condição de comer nada! Preciso ir ao Detran, quer ir também? Podemos comer depois. Veja bem, quando alguém topou ir passear no Detran conosco, me senti prestigiada, vamos combinar que é uma prova de amizade.

 

O caminho todo ela foi conversando com o Luiz, porque eu ainda era uma mulher das cavernas. Mas aos poucos fui melhorando e lá pelas quatro da tarde, conseguimos parar em um local para comer.

 

Fomos a Santa Teresa, havia muitos anos que não ia lá e é um lugar que gosto muito. Comemos muito bem no bar do Arnaldo, onde não queria nada além de uma coca-cola.

 

De certa forma, a chutada de balde não foi de todo má, porque o dia praticamente todo em jejum e o pouco interesse por qualquer bebida alcoólica depois disso, me ajudou a voltar ao peso que saí de Madri. Além do que, havia me divertido pra burro!

 

Muito bem, do bar do Arnaldo, nossa amiga sugeriu um passeio pelo Parque das Ruínas. Engraçado isso, a gente precisa mudar da cidade para descobrí-la. O lugar é super agradável e tem um café que oferece um cappuccino ótimo e uma vista divina. Vale totalmente a visita.

 

Fizemos também uma visita aos meus pais, mas não demoramos tanto. A essa altura era Luiz quem estava exausto. Voltamos para a casa dos pais dele e nesse dia, acho que o único da semana, não marcamos nada e dormimos cedo.

 

Na quarta-feira, acordei com a corda toda novamente. Luiz e eu nos dividimos, ele foi com seus pais para um exame médico e eu fui almoçar com minha mãe, era o dia oficial do seu aniversário. Meu pai acorda e almoça muito cedo, não dou conta de comer às 11:30hs, de maneira que chamei minha mãe para almoçar comigo no D’amici, um dos meus restaurantes favoritos no Rio. Voltamos para casa e dei uma adiantada na decoração para a festa do seu aniversário, que aconteceria na sexta-feira. Em seguida, chegou minha tia querida de Belo Horizonte e ficamos por ali até à tardinha.

 

Voltei para a casa dos meus sogros, tínhamos jantar com amigos no Zozô, um restaurante relativamente novo, aos pés do morro da Urca. Outra vez encontrei nosso amigo do Caminho de Santiago, um casal  que conheci através dele e uma amiga do meu antigo colégio com seu marido. Restaurante ótimo, papo melhor ainda.

 

De lá voltamos a pé, meus sogros moram na Urca mesmo. A distância é mínima e o costume de caminhar nos fez acreditar que era normal. Nada aconteceu na prática, mas um carro estranho nos assustou um pouco antes de chegarmos em casa.

  

O Rio nos lembra o tempo inteiro que podemos aproveitar, mas não devemos nos distrair. É literalmente o purgatório da beleza e do caos. Não é o céu nem é o inferno, é tudo junto, ao mesmo tempo. Para mim, não seria impossível, mas seria muito difícil conviver com tamanha ambiguidade novamente. Me alegra a capacidade que as pessoas tem de sobreviver e estar acima de tudo isso, mas me entristece o quanto todo esse absurdo se tornou normal, uma completa falta de indignação com o impensável. Não há mais mocinhos e bandidos, há uma estrutura matricial de poderes paralelos, sem nenhum fio condutor. Honestamente, às vezes acho que o Rio é um milagre de convivência,  eventualmente o caos se organiza sozinho.

 

E apesar dos pesares e das balas perdidas, sim, continua lindo!

 

Na quinta-feira, o dia ficou para a família do Luiz, até resolvemos algumas pendências e visitei meus pais, mas reservamos o fim de tarde e o jantar para eles. Em princípio, ia tudo bem e me sentia alegre com a conversa que rolava divertida. No fim do jantar, por sorte meus sogros precisaram voltar mais cedo, porque sem mais nem menos começou uma discussão bizarra com meu cunhado. Uma série de cobranças malucas tiradas da manga e uma violência reprimida de quem não tem a menor idéia do que acontece ao redor do umbigo. Faz muito tempo que não me envolvo em uma situação tão desagradável e insana. Uma pena porque adoro minha cunhada e sou louca pelo meu sobrinho, na verdade gostava do meu cunhado também, mas já não tenho mais paciência para tanta agressividade.

 

Voltamos para casa chateados, mas ao mesmo tempo sem querer estragar os momentos legais por uma única situação estranha. Ainda me impressiona como a raiva e a crueldade são tão fortes, que se não tomarmos cuidado, destroem uma felicidade que é maior e tão acima disso.

 

Já estava de pijamas quando ligou meu irmão. Nos chamava para sair. Na noite anterior tivemos uma discussão boba, um mal entendido. Havia me chateado um pouco, mas perto do que havia visto na noite seguinte, me pareceu ínfimo. Tive vontade de encontrá-lo e agradeci por dentro de ter o irmão e a família que tenho. Dormi bem e aliviada.

 

Na sexta-feira, acordei animadíssima! Era o dia da festa de aniversário da minha mãe. Almoçamos com meus sogros, que gosto muito e também são minha família, depois Luiz ficou com eles e eu segui para a casa dos meus pais, para ajudar com os preparativos da festa.

 

Pois foi um festão daqueles, com direito a DJ e tudo! Acho que foram umas 60 pessoas, das quais quatro casais de amigos nossos. E mesmo os amigos dos meus pais, costumam frequentar a casa deles há muitos anos, de maneira que me sinto bastante à vontade. Além dos primos que compareceram e é sempre bom encontrá-los. Enfim, dancei, conversei, me acabei!

 

No sábado, meu irmão nos buscou com a namorada para almoçar na casa dos meus pais. É que meus sogros não ligam muito para comer e meus pais são uns gulosos, ou seja, as refeições acabavam sendo mais para o lado da minha família. De lá, seguimos para um pub, fomos encontrar com alguns amigos cariocas que ainda não havíamos achado tempo para visitar. Não ficamos até muito tarde, nossa partida estava próxima e precisávamos organizar as malas.

 

Domingo, acordei meio borocochô. Queria voltar para casa, mas toda partida é difícil. Tomei café conversando com minha sogra e olhando para uma vista estonteante. Todo o tempo que passamos no Rio, passei de frente para o mar, com o cheirinho da maresia entrando pelas narinas.

 

Conseguimos fazer um último almoço familiar, dessa vez incluindo minha mãe, minha tia, meu irmão e meus sogros. E por volta das 16:00hs, meu irmão e minha mãe nos levaram ao aeroporto.

 

Deixar o Rio foi complicado e também me emocionou. Essa cidade maluca, tão diferente do que quero e do que sou, ainda pulsa nas veias. Odeio e amo esse caos. E também ali quis deixar mais uma vida.

 

Há alguns anos, depois de muito criticar, resolvi entender o movimento social que é o funk. E gostei. Resume com uma poesia feia e bonita a realidade do Rio, ou melhor, as realidades do Rio. Tem o bem e o mal, e todas as matizes que existem entre eles. Gostando ou não, elas também existem em mim, porque eu sou brasileira e carioca, ou talvez apenas porque sou humana.

 

… é som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado!

 

 

6 comentários em “41 – A última semana no Rio”

  1. Que delicia ter vc e suas cronicas de volta!!!
    Bem-vinda!!

    “Toda vez que eu volto
    to partindo , e no sentido exato é
    por saudade!!!”

    Mas voltar pra casa também é muito bom né?
    As minhas voltas do Brasil tem sido mais leves , sinto , agora, que aqui é a minha casa. Ja veremos como será esse ano!!!

  2. Pois é Didis, para mim é sempre uma incógnita e cada vez é diferente. Dessa, como você mesma colocou, foi mais leve. Parece que a distância foi menor, não me senti indo ou voltando para outro país. Besitos

  3. Oi Bianca
    Se existe algo de bom em morar longe de familia é a de que esses “paus” que acontecem as vezes voce nem fica sabendo.
    E cunhado se fosse bom não começava com CU.
    Beijos

  4. … heheheh… pois é Marianne, acontece que é via de mão dupla, todo mundo que tem um cunhado também é cunhado de alguém. Será que eu sou uma CUnhada? hahahah… bom, também não tenho problemas com minhas cunhadas.

    Besitos

  5. eu nunca fui ao D’amici, mas já ouvi falar muito dele. A minha irmã namorou o filho do dono que provavelmente você já viu algumas vezes por lá. Hê mundo pequeno…

    Beijos

  6. Oi, Claudia! Não conheço os donos do D’Amici, nunca reparei. Minha atenção acaba totalmente voltada para o tal do ravioli de pato com molho de queijo… ai, ai, ai…

    Besitos

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