35 – Azofra a Santo Domingo de la Calzada, uma caminhada tranquila entre vinhedos e mudança de planos

 

Terça-feira, 13 de maio, acordei tranquila. Não era tão tarde assim, mas despertar-se por volta das 8:00hs em um hotel de charme é um total luxo durante o Caminho. Na verdade, ainda que estivesse bem, me sentia mais fazendo turismo que trilhando uma rota com determinado objetivo.

 

A mochila ainda me incomodava. Havia colocado parte de um compeed enorme destinado aos calcanhares para proteger os ombros, mas ao invés disso, me provocou uma assadura de igual tamanho. Não sei se foi algum tipo de reação alérgica, pois esse é um compeed de composição diferente dos demais que estou acostumada. Inclusive, me lembrava bastante quando machuquei os calcanhares nos Pirineus e foi utilizando o mesmo curativo. No dia anterior, havia me livrado dele e dormi com os ombros empapados de vaselina. Funcionou, de manhã estava bem melhor. Foi quando também resolvi examinar a mochila com mais cuidado e percebi que a regulagem não estava adequada. Estranhei porque só eu utilizava a tal mochila, mas me lembrei em seguida que havia emprestado a dita cuja e não conferi a regulagem na volta. Erro bobo, que me custou assaduras e desconforto nos primeiros dias. Mas tudo bem, foi corrigido e a partir disso, a mochila não me incomodou mais. Ela é pequena e não pesava mais do que 5 kg, excelente para o Caminho, não deve pesar mais de 10% do seu peso e faz toda a diferença do mundo para seus joelhos, costas e ombros.

 

Encontrei meu amigo para o café e partimos para nosso próximo destino, Santo Domingo de la Calzada. Cobrimos a distância de 15 km em mais ou menos umas três horas. A caminhada é razoavelmente fácil, mais uma vez nos livramos da chuva e andamos por entre os vinhedos de la Rioja.

 

 

Não pegamos tanto barro dessa vez. O único trecho que parecia realmente de lama, chegamos justo em tempo de um carro passar mudando a placa da sinalização para os peregrinos irem pela estrada de terra mais seca. Muita sorte, que nos acompanhou por todo Caminho. Meu amigo brincava dizendo que era coisa da sua falecida avó espanhola, e eu pensava, cada um com seu fantasma.

 

 

A temperatura para caminhar era boa, um pouco frio, creio que por volta dos 15 graus ou menos. Acontece que o corpo aquece rápido quando andamos e nosso ritmo era puxado. Mesmo que saísse com frio, menos de cinco minutos depois já estava suando. O engraçado é que a maioria dos europeus levava casacos, meu amigo e eu, os nórdicos, sempre estávamos de camiseta curta.

 

Pois mesmo dando tudo certo, continuava a me sentir incômoda. Fui um pouco mais calada nesse trecho, pensando que talvez fosse bom rever nosso planejamento. Teríamos em uns dois dias uma subida razoável, pela região de Rabanal e El Acebo. Meu amigo ganhou três bolhas, uma embaixo de cada unha do dedão do pé e outra pela lateral do calcanhar. Ainda que ele não desse um pio de reclamação e seguisse em passos rápidos sem demonstrar grande esforço, sabia que elas estavam lá e também sabia que ele não havia se preparado tanto fisicamente.

 

Honestamente, não tinha muita certeza do que estava errado, mas meu instinto dizia que por ali não era. E se tem uma coisa que aprendi a escutar e ler pelo Caminho, são os sinais. Não quero nem saber de onde eles aparecem, não vou entrar nessa discussão, mas se eles aparecem, eu sigo.

 

 

Mal entrava a tarde, avistamos Santo Domingo no horizonte. Havíamos abusado na hospedagem da noite anterior, mas tinha muita curiosidade em ficar no Parador, um antigo hospital de peregrinos que ouvi dizer ser mais antigo que o de Santiago. Deixei meu amigo à vontade para escolher onde dormir, mas ri como criança que faz arte dizendo que ia ficar no tal do Parador.

 

 

Entramos em uma cidade muito bonitinha e totalmente enfeitada. Descobrimos, logo depois, que chegamos por coincidência na semana de comemorações do Santo Domingo. Havia uma série de eventos planejados, isso incluía uma corrida de touros que francamente não fazia a menor questão em participar. Passamos ao lado do corredor cercado por tábuas, onde soltaríam os pobres animais poucas horas mais tarde. Ainda bem que chegamos cedo.

 

 

Enfim, mas o resto estava bastante animado, com bandas de música, show de fantoches e um palco improvisado para apresentações bem no centro da cidade.

 

 

No caminho checamos o preço de um hotel para o meu amigo, mas ele queria comparar com outras opções. Descobrimos que havia não apenas um, mas dois paradores. E que o segundo mais famoso deveria ter um preço mais razoável. Dito isso, ele me deixou em frente ao principal Parador e seguiu até o próximo. Combinamos de nos encontrar em uma hora.

 

Foi uma pena ele não ter ficado comigo até ouvir a tarifa, porque ao notar que eu era peregrina, a recepcionista me deu um excelente desconto e incluiu o café da manhã em minha diária. Isso reduziu o preço total em quase metade do cobrado aos clientes normais. Achei bacana eles oferecerem esse desconto aos peregrinos, principalmente porque o local nasceu com essa finalidade.

 

 

Não foi um problema. Em seguida, quando nos encontramos para almoçar, descobri que meu amigo se instalou no seguinte Parador e que também era excelente. Comemos mais do que bem e bem mais do que precisávamos. Ocorre que nosso caminho também não deixou de ser etílico e gastronômico. Claro que bateu uma lombeira daquelas e cada um foi para seu canto dar uma morgada. Ficamos de nos ver mais tarde, para o jantar.

 

Essa era uma das coisas que achava legal do meu amigo, era independente. Fazíamos o Caminho juntos, mas cada um tinha interesses específicos. Então, nossas refeições eram sempre juntas, mas o resto do dia, cada qual escolhia como utilizar. Caso nossos planos coincidissem, ótimo, caso contrário, um ia dormir, o outro ia passear e assim nos organizávamos. Quinze dias seguidos de convivência intensa podem aprofundar uma amizade ou destruí-la de vez. Pelo menos da minha parte, posso afirmar que sua companhia não me pesou em absoluto.

 

Nesse dia, descansei um pouco depois da comilança, mas não sou de dormir à tarde. Fui passear pela cidade. Aproveitei para descobrir como chegar a León, nossa próxima parada. Não caminharíamos, a opção era pegar um ônibus até Burgos e um trem até León, onde queria dormir, tinha muita curiosidade em conhecer a cidade. O plano A, era partir de León a Astorga de trem, e a partir daí, caminhar três dias até Ponferrada. Era o tal trecho onde havia uma subida que me preocupava um pouco. Além do mais, logo após Ponferrada, pegaríamos outro trem e picaríamos o trajeto outra vez. Isso não estava me agradando em nada.

 

Sería feriado na quinta-feira e havia a possibilidade do Luiz vir nos encontrar e caminhar uns dois dias conosco. Isso também pesava nos planos porque precisava de um trecho razoavelmente acessível em carro ou trem. Acontece que cada vez menos parecia que Luiz conseguiría se desvinciliar do trabalho e resolvi tirar essa variável da equação, coisa que ele já me havia pedido.

 

 

Chuviscava em Santo Domingo e fui caminhar com a capa de chuva do corcunda de Notre Dame. A rua não estava muito cheia, era hora da siesta e ainda por cima chovendo. Passei por uma calçada interessante, com árvores entrelaçadas. Fui procurando gente com cara de peregrino na rua, até que vi outro encapotado de papete vindo em minha direção, com o olhar parecido ao meu. Sorri e cumprimentei, no que ele correspondeu e perguntou o óbvio, peregrina?

 

 

Conversamos rapidamente, era outro veterano, mas que fazia o Caminho completo. Trocamos meia dúzia de amenidades, descobri que ele também havia dormido em Azofra, no albergue, aparentemente Nájera lotou cedo. Para mim e para ele, o Caminho parecia mais cheio que o habitual e lotado de alemães. Nos despedimos sabendo que já não nos encontraríamos, ele seguiría a pé e eu pipocaria até León.

 

De qualquer maneira, a conversa foi providencial, era o que faltava para a decisão de mudar o roteiro de uma vez. Troquei uma idéia com Luiz pelo celular e disse que conversaría com meu amigo para mudarmos os planos. Achei que deveríamos fazer os 100 km finais, desde Sarria, direto caminhando até Santiago. Era o correto para pedir a Compostelana, importante para meu amigo, e mesmo que eu repetisse alguns trechos, nunca é a mesma coisa. Preferia repetí-los e entrar no clima do Caminho, do que continuar na nossa programação quase turística.

 

Logo depois, quando encontrei meu amigo, percebi que ele estava exatamente com a mesma sensação e não demorou três segundos para aceitar a mudança de planos. Ainda teríamos uns dois dias de pipoca para acertar o novo roteiro, era um pouco quebra-cabeças de onde parar e dormir, mas mesmo assim, caminharíamos bem mais do que o planejamento inicial (140 Km) e nos acertaríamos depois de Sarria. Foi uma boa decisão, me senti mais leve, o que me levou a crer que era o caminho correto. O fato dele pensar da mesma forma, só reforçou esse sentimento.

 

Dormi bem, sem grandes preocupações com curativos. Não caminharíamos no dia seguinte e aproveitaría para descansar os músculos. Sabia que em León havia um albergue grande e comecei a ter vontade de fazer minha Credencial Peregrina. Essa Credencial é como um passaporte, que você vai carimbando nas cidades por onde passa e dorme. No final, ela é apresentada para provar que você caminhou, pelo menos, os últimos 100 km a pé ou os últimos 200 km de bicicleta ou a cavalo.

 

Da primeira vez que fiz o Caminho, levei uma credencial desde Madri. Na segunda e na terceira, achei que não era necessário. Meu amigo levou a sua, queria fazer tudo que tinha direito. Até aquele momento, não havia me importado tanto, mas ali foi me dando vontade. Tudo bem, em León decidiría isso, uma coisa de cada vez. 

 

2 comentários em “35 – Azofra a Santo Domingo de la Calzada, uma caminhada tranquila entre vinhedos e mudança de planos”

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