34 – Puente de La Reina, Estella, Logroño, Nájera, Azofra… ufa!

Segunda-feira, 12 de maio, acordamos cedo. Com a mochila já organizada, às 7:45 hs, nos encontramos para o café da manhã. Esse se tornou mais ou menos nosso horário padrão da viagem.

 

De Puente de La Reina, seguimos a pé até Estella. Não é um trecho exatamente difícil, boa parte é plana e as inclinações não são radicais. Honestamente, às vezes é até um pouco monótono. Mas bem antes de começar a me entediar, uma quantidade enorme de barro grudento outra vez nos lembrou que o Caminho não é para turistas. Ainda que eu xingasse de vez em quando, hoje me lembro com carinho dessa etapa e a verdade é que no fundo me diverti um bocado com aquele lamaçal.

 

 

Passamos por pueblos bonitinhos, mas não havia muita estrutura para paradas. Após caminhar pouco mais de 22 km, chegamos com botas enlameadas em Estella. Duas pessoas haviam me falado mal da cidade, opinião da qual não compartilhei. Achei a cidade simpática.

 

 

 

Entretanto, não tínhamos muito tempo para gastar ali. Pretendíamos ir de taxi até Nájera. Isso foi antes de descobrir que a distância de carro era praticamente o dobro da percorrida a pé, o que deixaria o preço do taxi entre 80 e 100 euros. O engraçado é que quem decidiu que o preço era muito alto foi o próprio taxista que nos indicava a rodoviária logo em frente. Realmente, era caro e concordamos em buscar outra alternativa.

 

Descobrimos que havia um ônibus até Logroño saindo em mais ou menos uma hora e meia. De lá, poderíamos tomar outro ônibus até Nájera. O preço era bastante razoável, o que nos animou. Parecia até melhor, pois teríamos um tempinho para conhecer a cidade.

 

Fomos para praça principal, onde me plantei em um bar e, com a falta de pudor dos veteranos, me apoderei de uma segunda cadeira para os pés. Fiquei tomando um vinhozinho geladinho, enquanto ligava para Luiz e meu amigo passeava um pouco pelo centro. Quando me encontrou, ficou rindo da minha falta de cerimônia e tirou uma foto.

 

 

Muito bem, finalmente pegamos o ônibus, que levou pouco menos de duas horas para chegar a Logroño. Aproveitamos o caminho para descançar as pernas, mas não quis tirar os sapatos em respeito aos outros passageiros. Já não devia estar muito cheirosa depois da caminhada.

 

Ao chegar a Logroño, outra vez pretendíamos pegar um taxi. Mas justo ao saltar, descobrimos que o outro ônibus para Nájera saíria em dois minutos. Corremos meio mancantes, porque a musculatura havia esfriado, e conseguimos embarcar no tal ônibus com ele quase saindo da estação.

 

Baratíssimo também e ficamos nos vangloriando da nossa barganha do dia!

 

Exaustos, chegamos a Nájera à tardinha, quase início de noite. E eu, babaca, esqueci de uma das principais lições da viagem: quem chega tarde na cidade, tem grandes chances de não encontrar lugar para dormir. Claro, não deu outra! Rodamos entre hotéis e hostáis e nada. Encontramos um único quarto que teríamos que dividir e ainda por cima, compartilhar o banheiro com outros hóspedes. E nem era tão barato assim!

 

Tentando um pouco de boa vontade, subi para ver o quarto, que não era mau dadas as circunstâncias. Acontece, que àquela altura, o banheiro já estava cheio de roupa lavada das outras pessoas e até tomar um banho seria complicado. Aí também já era demais!

 

Agradeci muito ao dono do hostal, mas perguntei se não haveria nenhuma outra possibilidade na cidade. Ele nos indicou um outro hotel, que talvez fosse possível, por ser mais caro. Não falei, mas pensei, é esse mesmo que eu quero!

 

Resumo da ópera, o tal do hotel caro estava completo, não tinha mais nadinha! Nem para dividir! Aproveitando a cara de desespero e o aroma de quem já havia se esforçado o suficiente ao longo do dia, insisti se ela não poderia ajudar a encontrar algum lugar.

 

A recepcionista nos falou de um hotel de charme, que ficava na próxima cidade, Azofra, a uns 6 ou 7 km dali. E o principal, não nos tirava da rota. Nos ajudou a conseguir o telefone de lá, para  não perdermos a viagem. Telefonamos e reservamos dois quartos. A 120 euros a diária por cabeça, não havia problema de lotação. Isso para o Caminho é um preço exorbitante, mas honestamente, a essa altura e desesperada por um banho, eu nem queria saber.

 

Nos olhamos, na dúvida se íamos caminhando ou não, o que não foi um enorme dilema. Por aquele dia bastava. Fomos atrás de um taxi, coisa que não existia no único ponto do centro da cidade. Nesses casos, dou uma dica, é comum eles colarem cartões com telefone no próprio ponto, o que felizmente havia. Liguei para uns dois números até que alguém me atendeu e disse que passaría para nos pegar em dez minutos. Combinei o preço, bem razoável, não foi explorador.

 

Em seguida, chega um rapazinho com piercings em todos os lugares visíveis, com sua namorada, igualmente furada, com penteado e maquiagem de egípicia, no banco do carona. Aparentemente, os dez minutos que me pediu foi para buscar a namorada para passear com ele em Azofra. Detalhe, o carro era um jaguar, informação que obviamente não reparei, mas meu amigo sim. Um super carro decorado com adesivos cafonérrimos. Enfim, a cena era totalmente surrealista e entramos no taxi gótico, que devia ser do pai dele, com aquela cara de meio desconfiados.

 

Queimei minha língua mais uma vez, o rapaz era educadíssimo, dirigia direitinho e nos levou sem o menor problema. Cobrou o combinado e sorriu de orelha a orelha com uma gorjeta de um euro arredondado. Saltou do taxi e foi nos ajudar com as mochilas, gentileza que não é de todo comum.

 

O hotel era realmente muito charmoso. Na minha opinião, valeu totalmente a pena. Só senti não estar com Luiz porque havia um toque romântico, isso só me deixou com uma tremenda dor de cotovelo. Talvez também pelo cansaço, foi a primeira vez que me deu vontade de voltar para casa.

 

Passeamos pela cidade, o que deve ter levado uns oito minutos, no máximo. Não tinha nada e resolvemos comer no hotel mesmo. Comida boa e vinho melhor ainda! Estávamos em plena Rioja, como não aproveitar?

 

O fato de ir para Azofra, nos adiantou pouco mais de uma hora de caminhada no dia seguinte. Resolvemos acordar mais tarde e tomar o café da manhã com  calma. Para mim, todo sono a mais é bem vindo e adorei a suposta folguinha da próxima etapa.

 

Em seguida, subi para o quarto e tentei me lembrar de um dia gigantesco. Era difícil pensar quantos quilômetros e cidades havíamos percorrido, com todos os meios de locomoção possíveis. Aquela manhã parecia estar distante e eu me sentia outra pessoa, fora do corpo.

 

Durante o Caminho, às vezes vínhamos conversando, outras prestando atenção onde pisar. No ônibus, boa parte do tempo vim viajando na maionese, pensando na vida e nas decisões que sempre precisamos tomar. Tudo me parecia diferente das outras vezes. O que mesmo estaria diferente, eu ou o Caminho?

 

A pergunta foi perdendo a importância à medida que o sono foi batendo com vontade. O dia seguinte seria mais fácil, 15 km, moleza.

 

 

 

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