33 – Pamplona a Puente de La Reina, o início do nosso Caminho

Chegamos em Pamplona de trem, dia 10 de maio, um sábado à tardinha, por volta de umas 18:00 horas. Como anoitece tarde nessa época, ainda tivemos umas quatro horas de luz para conhecer o centro da cidade, tempo mais que suficiente. Inicialmente, passaríamos o dia seguinte por lá mesmo, mas a verdade é que antes do jantar já comecei a ficar entediada e afim de por o pé na estrada de uma vez.

 

 

Meu amigo compartilhava dessa opinião e resolvemos adiantar os planos. No domingo, logo cedo, tomamos rumo a Puente de la Reina, 23.5 Km de caminhada. Foi a primeira prova de como responderíamos à distância.

 

Fomos bem, fizemos em um bom ritmo, andamos em velocidade muito parecida, coisa que não é tão comum no Caminho. É normal você se encontrar e desencontrar ao longo do trajeto. Mas nós fizemos sempre juntos.

 

O que a gente pegou de barro no caminho não é brincadeira! É aquele solo argiloso que gruda nos sapatos e parece que você está caminhando com um tijolo nos pés. Em determinado momento, tentamos amenizar cortando caminho por uma via paralela que subia. Bom, claro que tudo que sobe, desce. Tivemos que despencar logo adiante em um barranco de cerca de um metro e meio escorregadio. Daqueles que você olha para baixo e diz, eu é que não vou! Ao mesmo tempo, qual a outra opção? Não tem, ou desce ou desce. Descemos e nem foi tão mal como parecia.

 

 

O mais importante é que cheguei sem bolhas, sujeira faz parte.

 

Isso me fez recuperar a confiança. A dor que senti nos Pirineus, quando me saltou o couro dos calcanhares, ainda estava presente na memória e me ameaçava um pouco. Fiquei duplamente cautelosa e valeu à pena. Alguma dor muscular a gente sempre tem, mas desde que não te inviabilize continuar é considerada irrelevante. Meus pés ainda chegavam muito doloridos, passei por isso todos os dias, mas era uma dor razoável e ganhei tolerância à ela.

 

A mochila me incomodou um pouco, parecia mais pesada dessa vez, ainda que não estivesse. No princípio, achei que havia perdido um pouco a manha, só no terceiro dia percebi que ela estava era mal regulada. Erro primário de uma macaca velha. Esqueci que havia emprestado a mochila e que, certamente, a pessoa que usou mudou a regulagem. Parti do princípio que estava tudo certo e não verifiquei com a atenção necessária. Tudo bem, foi incômodo, mas não chegou a ser grave. Meus ombros ficaram um pouco assados, mas cheguei a conclusão que foi devido a um compeed diferente. O mesmo que usei nos calcanhares nos Pirineus. Isso me deu quase a certeza de haver descoberto o que me esfolou no passado, mas essa já era outra história.

 

Meu amigo parecia animado, me confessou que não teve tempo de treinar e que precisava aprender durante o caminho mesmo. Tudo bem, ele tinha boa resistência e predisposição a caminhadas. Eu também não havia treinado o suficiente, mas contava com a experiência de outras vezes.

 

Em Puente de La Reina, ficamos no hotel Jakue, que também possui uma parte dedicada a um albergue. Achei interessante eles darem as duas opções a preços correspondentes. A única coisa que me pareceu esquisita foi o fato do albergue ser no subsolo, dá uma impressão de dividirem em castas diferentes e me senti um pouco estranha ao subir para o quarto do hotel. Parecia que meus companheiros de viagem foram para o porão do navio, mas enfim, ao mesmo tempo, foi muito bom chegar em um quarto quentinho, espaçoso, e um banheiro limpo.

 

Logo na recepção, eu malandra, experiente, entendida no assunto, perguntei logo se eles tinham máquina de lavar e secar. No que a recepcionista me disse que sim e me informou que as máquinas estavam no andar de baixo. Dito isso, fiquei tranquila com o horário e combinei de lavar a roupa com meu amigo mais tarde.

 

Não deu dois minutos que entrei no quarto, olhei na janela e havia começado a chover. Escapamos por muito pouco.

 

O que a recepcionista se esqueceu de dizer é que o andar de baixo era o albergue e que as máquinas eram compartilhadas por todos, claro. Foi bem mais tarde que descobri que havia um nível inferior de hospedagem e que, apesar de haver umas quatro máquinas de lavar, só havia uma de secar, com uma fila já estabelecida.

 

Enfim, meu amigo e eu dividimos uma das máquinas de lavar e me atrapalhei toda para acertar seu funcionamento. Não era de todo óbvio, tinha um manual ali por cima, que certamente não tive saco de ler. Bom, depois de fazer a máquina finalmente funcionar, decidimos sair para jantar e conhecer a cidadezinha. Segundo um aviso na parede, levaria meia hora e um euro para lavar e mais meia e outro euro para centrifugar. Beleza, coloquei dois euros no equipamento e em uma hora nós voltávamos.

 

Achei a cidade muito bonitinha e a ponte que origina o seu nome é realmente um charme. Meu amigo ainda se divertia com o visual peregrino e o fato de andar na rua com papete e meia, aquele estilo mendigo.

 

 

Não havia grandes confraternizações, talvez fosse muito no início do caminho. Tentei não fazer comparações com as outras viagens, mas às vezes era inevitável. Além do mais, o tempo não ajudava. Também não encontramos nenhum lugar para comer que parecesse melhor do que nosso hotel.

 

Quando nos demos conta da hora, faltava muito pouco para a máquina de lavar acabar. Lembrei que no albergue as pessoas não costumam ter muita paciência com uma roupa parada dentro da máquina, e se déssemos mole, já chegaríamos com tudo do lado de fora, sabe-se lá onde. Disparamos em direção ao hotel, que não era tão pertinho assim e que a musculatura fria não ajudava tanto.

 

Nossas roupas estavam direitinho dentro da máquina, paguei com minha língua, ninguém mexeu. Por outro lado, só tinha lavado, centrifugar que é bom, nada! Só depois descobrimos que não era automático, tinha que esperar terminar a lavagem, e daí colocar outra moeda e programar tudo outra vez para centrifugar. Não tivemos paciência e achamos melhor levar as roupas pingando para cima e secar no quarto. Ou seja, teria sido bem mais fácil e seguro já ter lavado tudo à mão, na hora em que chegamos.

 

Paciência, dividimos algumas dicas de como secar a roupa mais rápido. Entre torcer dentro de uma toalha, estender em cabides e ajudar com o secador de cabelos, nesse caso disponível. O importante é que, mesmo sendo um pouco tarde, funcionou.

 

Descemos para jantar famintos e exaustos, estava escurecendo. Comida simples, mas boa. Meu amigo é diabético e dizia que o vinho era muito útil para controlar o açucar. Então, apenas por razões medicinais e porque sou uma pessoa muito solidária, o vinho passou a fazer parte da nossa rotina.

 

Cada um subiu para seu quarto e demos nosso dia por terminado. Tentei ligar para o Brasil, porque era dia das mães, mas não consegui completar a ligação interurbana. Pedi ao Luiz para ligar no meu lugar.

 

Não demorei a pegar no sono, tomei a melatonina por via das dúvidas e acredito que o vinho tenha ajudado. O dia seguinte prometia ser longo e precisava recuperar energias.

 

 

 

3 comentários em “33 – Pamplona a Puente de La Reina, o início do nosso Caminho”

  1. Oi!

    Pois, tudo na santa paz de Santiago. Também de são compeed e santa vaselina 🙂

    Difícil é fazer caber tudo que tenho que fazer até a próxima viagem ao Brasil, ufa!

    Besitos

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