26 – 22 de abril, e que?

No tempo que fui a escola, e acredito que ainda seja assim, estudava-se que o Brasil havia sido descoberto em 22 de abril de 1500. Cresci com essa idéia plantada na minha cabeça, como outras tantas, sem parar para pensar no que realmente significava.

 

Sempre me surpreende que só burra velha me caiam fichas tão evidentes, mas fazer o que? Resta o consolo de que pelo menos ainda tenho tempo de protestar com a ferramenta que disponho.

 

Vamos começar pelo começo, ontem fui ao lançamento de um livro da Sabrina Morais, O Direito Humano Fundamental ao Desenvolvimento Social. Ela fez uma apresentação breve da sua tese, que gerou o livro. Ainda não o li, coisa que devo fazer no futuro, pois a conversa rápida com ela depois no coquetel me fez pensar que era um estudo bem mais aprofundado do que ouvi na apresentação. Normal, o tempo é sempre um limitador de conhecimento.

 

Antes de falar sobre o livro, houve duas apresentações. A primeira, sobre um vídeo independente gravado em 2000, mostrando um pouco dos bastidores do que aconteceu na cidade de Porto Seguro, enquanto era preparada a famosa festa dos 500 anos do descobrimento do Brasil. A outra apresentação era sobre folclore.

 

A apresentação sobre folclore, me gerou um problema. Conheço a pessoa que expôs e infelizmente consegui discordar de absolutamente tudo, da forma ao conteúdo. Minha língua não cabe muito dentro da boca e fiquei com vontade de discutir no final, civilizadamente é óbvio. Achei melhor deixar para outro momento, até porque não era o assunto principal do evento. Depois, estava com o Luiz, que é bem mais radical nas discussões do que eu, melhor não por lenha na fogueira.

 

Mas vamos ao que interessa, o vídeo foi gravado por uma amiga, a mesma que fez a apresentação, mostrando o outro lado da festa dos 500 anos. O lado dos excluídos, dos que não foram convidados e do que não se mostrou na TV.

 

Pela primeira vez, percebi que o Brasil é o único país que comemora a sua própria invasão! Sim, porque no dia 22 de abril de 1500, o Brasil foi invadido por portugueses, tão simples quanto isso. Não vou entrar na discussão babaca de dívidas históricas, isso é passado, mas daí a comemorar? O nosso herói é um invasor? E pior, como assim descobrimento, não havia nada antes? Os índios eram o que? Parte da paisagem? Árvores? As línguas faladas eram grunidos? O conhecimento das ervas eram acaso?

 

Aceitar que o Brasil foi descoberto é um desrespeito com a nossa origem. A imagem folclórica do indiozinho sorridente com um penacho na cabeça e uma flechinha na mão é ofensiva, é fantasia de carnaval. Quantos índios na sua vida você viu sorrindo?

 

Tenho uma bisavó índia que nunca conheci. Não sei o que levo dela, meus hábitos e minha aparência é branca européia. E também não tenho porque negar esse lado, eu gosto da mistura. Mas sei que minha primeira peça de arte é uma escultura em argila de uma índia grávida, altiva e brava. Não sei porque a fiz, mas talvez em alguma parte do meu sangue haja a memória genética, aquela que nem sabemos. Espero que sim, pode ser meu lado mais forte.

 

Por isso, hoje estou brava, pelos meus ancestrais invadidos, pelos negros levados à força escravizados e pelos brancos que deixaram seu próprio país por falta de opção. É essa minha origem, foi desse barro que saí, independente da onde esteja e de que cara tenha.

 

Queria um dia ter muita vontade de voltar ao Brasil e que não fosse pela saudade, mas porque representasse a melhor escolha. E que não fosse por ser mais desenvolvido do que outros países, mas tanto quanto.

 

Não quero ser mais associada à uma mulata pelada nem a um jogador de futebol equilibrando uma bola no nariz como uma foca. As brasileiras são trabalhadoras, os jogadores são atletas, os índios são guerreiros, nossa raça é a mistura. Respeito pelo meu país.

 

4 comentários em “26 – 22 de abril, e que?”

  1. Oi Bi,

    não sei se é fácil para pessoas que sempre moraram no Brasil ter essa mesma capacidade de olhar as coisas através de uma outra perspectiva. Acho bom a mudança de ângulo de visão que o morar fora do Brasil nos proporciona.

    Questionamentos proporcionam crescimento e crescimento é sempre interessante.

    Beijos.

  2. Oi, Claudia,

    Talvez. Acho que morar fora certamente me deu outro ângulo, um dos motivos pelo qual escrevo. Mas me nego a acreditar que outras pessoas não possam ter a mesma capacidade de análise, sempre tendo morado no mesmo país. O vídeo, por exemplo, foi feito por uma brasileira, professora de história para seus alunos da rede pública, antes dela morar fora. E pelo que entendi, acredito que o livro, escrito por outra brasileira, advogada, também começou como tese no Brasil. Tudo bem que ainda são esforços pontuados, mas pelo menos existe.

    O que concordo com você é que, morando fora, o questionamento não é uma opção, é uma rotina, não há como fugir dele. Principalmente os questionamentos relacionados a identidade e cultura. Não tenho dúvida que vejo coisas agora que nunca parei para pensar antes. E isso te faz analisar e crescer na marra.

    Mas me pergunto se os brasileiros, mesmo fora de uma camada privilegiada, também não são forçados a um questionamento diário de algo como: por que minha vida é assim? Um dia, quando a auto-estima não esteja tão baixa, a educação esteja um pouquinho melhor e a religião não mascare a realidade, coisas que facilitam o controle, pode ser que percebam que não precisa ser assim.

    Nesse caso específico, os jornais que acompanho, já não vi grandes comemorações ou citações sobre o “descobrimento” esse ano. Não sei se ocorreram na prática, porque não estou presente. Acho que o próximo passo seria questioná-lo nas escolas. Quem sabe?

    Besitos

  3. Oi Bianca
    Sou uma mistura de raças, portugueses, italiana, inglesa e uma pitada de indio por parte de uma avó. De toda essa mistureba adoro mesmo são as comidas, o jeito de falar, a cor do cabelo, do indio mesmo a fibra.
    Não acho que a imagem do indiozinho bonzinho seja de todo mal, meus filhos aprendem de forma diferente da nossa como foi esse primeiro encontro com outra cultura, essa lembrança que voce tem, de como foi na sua época, mudou muito, os livros não são mais o mesmo, a gente até comemora dia do negro, coisa que na nossa época não tinha. E acho certo e merecedor, até mesmo sobre o nosso descobrimento os filmes e livros também mostram o outro lado, o lado dos indios.
    Não se preocupem as coisas nas escolas mudaram sim, e eu acredito que pra melhor, pelo menos nesse aspecto.
    Beijos

  4. Já se vão mais de 20 anos que estudei sobre o tal descobrimento do Brasil. Lembro que já na época me questionava sobre essa palavra “descobrimento” porque antes dela eu aprendi outra mais fácil “índio” (na hora de escrever a vogal “i”) e sempre me perguntava: se os índios já habitavam o Brasil, como ele poderia ter sido descoberto? E não, eu não era uma criança prodígio…eu simplesmente pensava isso sem mais. Espero sinceramente que os livros tenham mudado mesmo e que as crianças já possam conhecer a realidade, que os portugueses e demais europeus invadiram, colonizaram, exploraram, massacraram e tudo mais o nosso “barro original indígena”. Outra coisa que eu acho que já não ensinam mais é OSPB, né? Já está mais do que na hora das crianças terem uma visão mais verdadera sobre a História do Brasil, quem sabe isso pode mudar alguma coisa no futuro. Comparável com a colonização europeia é a norte americana atual, mas isso já é outro assunto.

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