VII – O lado obscuro da ARCO, manifesto de uma ex-consultora-artista que há algum tempo apertou o botão do foda-se

Tem muita coisa que está bem na frente dos nossos narizes, mas parece coberto por uma cortina de fumaça, que a gente mesmo coloca lá para deixar o mundo mais suportável. É tão inconsciente que até acreditamos nessa falta de realidade conveniente, mas às vezes chega algum tipo de experiência e em três segundos venta toda a fumaça para o lado, e nos pega tão de surpresa que não dá para fingir que não vimos. 

Explicar uma experiência é tarefa árdua, então vou contá-la e quem sabe assim transmito e entendo melhor algo que pode mudar minha direção. 

Tenho um amigo que diz que quando Deus quer castigar o homem, satisfaz seus desejos. Crenças à parte, há muito de verdade nessa filosofia. Nas duas últimas semanas, naveguei semi-anônima no que se poderia chamar o topo do “mundo das artes”. Entre artistas, curadores, galeristas e críticos, todos equilibrados em um único pequeno e alto pedestal. Juro que sem despeito, mas confesso que um pouco atônita, me perguntei, por que mesmo eu deveria querer me espremer aí em cima também? 

Sou ex-consultora de negócios e modéstia às favas, das boas. Portanto, fui adestrada a enxergar modelos e padrões, facilita a vida, nada e ninguém é tão original que não siga nenhuma tendência. 

Vamos começar pelos artistas? E não me poupo dessa crítica, porque posso fazer o mesmo. O padrão de relacionamento é próximo ao dos alpinistas sociais, funciona assim, primeiro você precisa de algo exótico na sua aparência, faz parte do seu marketing pessoal, até aí, é o mesmo conceito em negócios, só mudam as características. É importante que você seja visivelmente reconhecível. Mas isso não faz muita diferença na prática, porque o “outro artista” só vai te reconhecer se houver algum interesse nisso. Você pode ter o cabelo laranja e mancar de uma perna, mas só será visto se deixar evidente que pertence à corte. É uma coisa de alienígenas de filme americano, que tomam conta de corpos humanos e se reconhecem por uma frequência secreta emitida pela voz. Vai ficando mais chocante ainda quando você começa a prestar atenção no padrão das conversas, onde a graduação de interesse do seu interlocutor é proporcional ao número de sobrenomes que você cita, obviamente de maneira casual, assim quase que sem perceber. Oi, fulano querido, onde você está expondo? Ah, sério? Com o beltraninho sobrenome? Que legal, sabe que encontrei o Zé sobrenome na feira-super-importante? Pois é ele tinha me perguntado se não queria participar do evento-mega-importante, mas não sei, ando tão ocupada… Isso é fundamental, estamos sempre muito, mas muito ocupados! Não necessariamente você é tão amiga do Zé sobrenome ou foi oficialmente convidada para o evento-mega-importante, mas tudo bem, porque também quase ninguém vai correr o risco de checar a informação. E meias verdades, se tornam verdades absolutas. 

Depois da quinta vez que você escuta a idêntica estrutura de conversa, percebe-se que ninguém ali é tão idiota a ponto de não perceber que não é casual. É o jogo. Besta e precário, mas também não faz diferença, porque interessa aos jogadores. Claro que existe gente legal e bons artistas de verdade! Mas se quiserem subir no tal do pedestal, precisam jogar na mesma linha. Podemos descrever essa situação de maneira mais elegante e intelectual, as pessoas mascaram suas verdades da forma melhor possível, mas no fundo, estamos falando de política. No fundo estamos falando que você vale quem você conhece. 

E falando em quem você conhece, que tal os curadores e críticos? Nesse momento, gostaria sinceramente de ser capaz de descrever minha risada silenciosa e sarcástica do canto da boca. Os gatekeepers! Ninguém entra sem sua benção, os curandeiros da tribo. A aura de poder que gira em torno desses cidadãos é próxima a dos faraós. É uma coisa maluca, sou macaca velha e juro que fico nervosa quando estou no entorno dessas pessoas. Aquela sensação quase adolescente de, e agora, o que eu falo? Preciso falar alguma coisa inteligente rápido! São pessoas de carne e osso, é possível que nem sejam os responsáveis pela atribuição de tanto poder, algumas vezes seriam pessoas com quem adoraria manter uma amizade verdadeira, mas isso é praticamente impossível. Porque não há nada em sua volta que não seja em função de interesses, não há outro assunto que não seja arte, é uma completa obsessão. 

Não me estranha que nesse meio circule tanto álcool e drogas, em algum momento você precisa ser capaz de dizer o que pensa e de ser você mesmo. É muito abuso, inclusive sexual. O interessante, nesse caso, é que o alvo é masculino. Arrisco-me a dizer que é um dos motivos do pouco poder das mulheres no meio. É verdade que existe a questão machista, como em qualquer outra profissão, mas acredito que uma parte da restrição do acesso das mulheres nesse topo é o fato de não possuírem grandes atributos de atração sexual. Os homens interessam mais. As poucas mulheres que circulam costumam ser mulher-de-alguém. 

E, por favor, não sejamos simplistas, não estou alegando que os artistas e curadores importantes são gays e isso pouco importaria. Não estou falando de sexualidade, e sim de poder e perversão, dois fatores presentes e relevantes para entender o contexto.  

E onde a ARCO entra nisso? Veja bem, agora vou começar a parte dos galeristas e a ARCO é uma feira de galerias de todo o mundo, as principais. Trabalhei na montagem de duas galerias brasileiras, como pião de obra especializada mesmo, de maneira, que estava inofensiva. Por um lado foi complicado, pois é um trabalho muito pesado, por muitas horas, pagam pouco e você é mal tratada. Aquele pensamento feudal, onde se trata a mão de obra como seres inferiores e saco de pancadas. Mas não tenho esse tipo de frescura, trabalho é trabalho e pronto, sei bem quem sou, preferi aproveitar o outro lado, onde tive a oportunidade de ver de perto e entender como os galeristas se relacionam com as obras e os artistas, sem máscaras. Eu era inofensiva, ninguém se preocupou em disfarçar. E como diria Charlie Brown Jr no Papo Reto, é que eu me fortaleço na sua palha 

Acho muito estranho essa necessidade de se tratar as pessoas de maneira diferente, de acordo com sua posição. Não só por uma postura humanista, não sou tão boazinha nem ingênua, mas porque me parece neurótico, coisa de dupla personalidade, de gente que não sabe bem se quer ser boa ou má e sente um certo prazer em poder exercer sua perversão incólume. Enfim, o pessoal das duas galerias não era igual, o da primeira era um idiota, o da segunda não. E também não importa minha opinião pessoal a respeito, vou me abster de tratar o assunto emocionalmente e pensar de maneira fria, como um negócio.  

Como negócio, acho o modelo econômico preocupante e o modelo comercial antiquado. E vou explicar. 

Por ter participado da montagem, recebi o passe de entrada na feira antes dela ser aberta ao público em geral. Funciona assim, os dois primeiros dias só podem entrar basicamente galeristas, expositores e colecionadores. É comercial mesmo. Aliás, olha que coisa interessante, do artista é cobrado a todo momento uma postura cultural. Ele é quase execrado se parecer remotamente comercial. E no entanto, absolutamente tudo o que o cerca é comercial. Em uma exposição, por exemplo, todo mundo ganha alguma coisa. Do eletricista ao curador, de maneira geral, todos são pagos por um trabalho. O artista só é pago se vender, mesmo assim, a comissão é em média 50% para o galerista. E ele ainda precisa parecer que não está ligando para o dinheiro, que não é por isso que trabalha. Afinal, ele vive de vento e não precisa pagar contas, além de ser genial, criativo e gente boa, um barbie-artista. 

Mas voltando à maneira de se negociar, passeei pela feira com meus orelhões bem atentos aos diálogos. O modelo de vendas é mais antigo do que o de vendedor de enciclopédia. São produtos em uma prateleira, quer esse? Não? Então, tem esse outro aqui. Juro que escutei umas três vezes em galerias diferentes a frase, olha esse vai vender em 15 minutos… Fiquei realmente na dúvida se estavam vendendo obras de arte ou bananas. Sendo que ao vendedor de bananas, cabe a irreverência divertida.  

Um galerista é um negociador e um colecionador está ali para fazer negócio, ou seja, não esperava nenhuma relação lúdica, deve ser profissional e comercial mesmo. No entanto, já existe coisa muito mais avançada no mercado, francamente. Nenhuma empresa de ponta está para vender produtos, mas soluções. Há disponível uma série de metodologias e estratégias de vendas. Realizar uma venda sofisticada não se restringe a vestir um terno Armani. O outro lado, o colecionador, esse sabe muito bem o que está fazendo ali, não me estranha serem em boa parte do mercado financeiro. 

Até aí, menos mal, o que realmente me preocupou foi um insight sobre o modelo econômico. Percebi uma enorme semelhança com a bolha da Nasdaq, e para quem não é do ramo, vou tentar explicar de maneira básica e rápida. 

A Nasdaq é uma bolsa de valores para empresas de tecnologia. Vamos por partes, uma das funções de uma bolsa de valores é ser uma maneira de financiar empresas. Por exemplo, você tem uma empresa que precisa de mais dinheiro para ser investido, uma das opções é transformar parte dessa sua empresa em ações e vender essas ações no mercado. Ou seja, você ganha novos sócios que, se sua empresa lucrar, lucram contigo e se sua empresa quebrar, perdem dinheiro. É uma aposta no futuro, um investidor da bolsa faz apostas de onde seu dinheiro poderá render mais. 

Ainda que seja uma aposta, e portanto, nada é garantido, não há muitos bobos nessa função. Um clássico investidor de bolsa de valores irá analisar dados muito concretos, financeiros, comerciais, meio ambiente etc, e a partir daí, tomar uma decisão de em que cestas colocar seus ovos, às vezes, literalmente. Muito bem, com a Nasdaq aconteceu algo curioso, porque com o boom que houve em tecnologia, internet e tal, empresas muito novas e de gente muito jovem começaram a ser estimadas quase que por completo pelo seu potencial de crescimento, e muito pouco pelo que realmente faturavam. Ou seja, se pagava por um conceito e não por um valor real. Uma empresa valia o que se dizia que poderia valer. Como você mede algo subjetivo e razoavelmente desconhecido? 

Entre 1996 e 2000, pipocaram milionários donos de empresas ”.com”. Aquela historinha dos jovens empresários geniais, que andavam descalços nos seus escritórios e brincavam enquanto trabalhavam. Mentes criativas, brilhantes e inovadoras. A nova economia! Então tá, né? Sou muito cética para acreditar que ninguém notou que isso não podia dar certo, é claro que isso cresceu dessa maneira porque interessava a muita gente, e quem está na panela se protege.  

Até aí, alguém mais notou alguma semelhança ou sou só eu? 

Muito bem, entre 2000 e 2002 essa grande bolha estourou. Começou a se comprovar que aquele enorme potencial de crescimento não se concretizou. A teoria não funcionou na prática. O povo começou a vender suas ações e foi um quebra-quebra daqueles. 

Em maior ou menor grau, a história se repete e darei outro exemplo que aconteceu aqui no mercado espanhol, com selos. Aqui funcionava um tipo de bolsa filatélica, muito parecido ao mercado de ouro. Tentando simplificar uma explicação, é assim, do mesmo jeito que você pode investir em ações, você também pode investir em ouro, ou seja, você compra títulos que tem preços e ganhos em função da variação do preço do ouro. Acontece que o ouro existe de verdade, seus papéis estão respaldados por um metal guardado em um banco. Aqui fizeram o mesmo com selos, esses de carta. Os títulos eram respaldados em função da variação do preço dos selos. Outra vez, como conceito era perfeito e enquanto interessava, todo mundo fez de conta que selo valia muito. Até que alguém se perguntou, vem cá, mas esse papel está respaldado em… papel? 

Quebrou também. 

O que há em comum nesses dois exemplos? Entre outras coisas, ambos seguem um modelo consolidado e comprovado, entretanto sem respaldo concreto e com critérios subjetivos. Interessa quanto mais subjetivos forem esses critérios porque favorece à especulação. E o fato de seguirem um modelo conhecido traz credibilidade e discurso. É mais fácil vender uma enorme mentira, se estiver salpicada por pedacinhos de verdade. Você distrai o interlocutor quando ressalta as verdades. 

E finalmente, onde quero chegar. Também existe o mercado de artes, que conceitualmente funciona muito parecido ao mercado de ações. Temos as obras que, por falta de termo melhor, vou chamar de clássicas, comparáveis às blue chips. O tempo consolidou os critérios de análise do que se estabeleceu como verdadeiras obras de arte. Há um limite no que se pode especular, mas você praticamente nunca perderá com elas. 

Entretanto, fica especialmente curioso quando entramos na negociação das obras de arte contemporânea, onde não há distânciamento histórico e mais que um valor, vendemos um conceito e um nome. Arte é o que determinado grupo chama de arte, e é esse mesmo grupo quem lucra com sua consolidação. Vamos combinar, isso é tão diferente do que aconteceu com a Nasdaq? 

Exagerando um pouco, mas não muito, se determinado artista disser que uma xícara é uma obra de arte, um curador respeitado respaldar, e um galerista importante disser que ela vale cem mil euros, ela valerá. Mas me pergunto se em determinado momento, da mesma maneira que alguém perguntou se selo não era papel, será que ninguém vai perguntar se uma xícara não é só uma xícara? Até quando a merda do artista* será reconhecida como obra de arte? (*merde d’artist, Piero Manzoni) 

Como artista, posso afirmar que uma xícara pode ser uma obra de arte sim, até sua bosta pode ser. E há obras conceituais importantíssimas e necessárias. Mas lembro que quando a bolha da Nasdaq estourou, também rodaram boas idéias. Não é a arte contemporânea que estou atacando, simplesmente acho que esse modelo de comercializá-lo tende historicamente ao fracasso.

Muito bem, até esse momento, estou me baseando em teorias mercadológicas, a partir daqui, me dou a liberdade em passar para a teoria da conspiração e viajar na maionese.

Em que momento essa bolha estouraria? A pergunta-chave para toda teoria da conspiração é: quem ganha com isso?

Bom, quem poderia lucrar com a mudança desse sistema seriam os artistas de fora da panela e os colecionadores. Os artistas são sempre uns duros, não ameaçam ninguém e os que estão fora da panela tem pouca voz ativa e são desunidos. Sobram os colecionadores.

Quem são os grandes colecionadores hoje? Não tenho informação de todo o mundo, mas posso dizer que no Brasil, por exemplo, bancos e banqueiros tem ampliado razoavelmente sua participação nesse mercado. Mas pergunta se estão comprando alguma coisa muito estapafúrdia ou conceitual? E se eles resolverem perguntar se uma xícara não é só uma xícara?

Se o mesmo bolo for dividido em menos partes, individualmente, as partes não ficariam mais caras?

4 comentários em “VII – O lado obscuro da ARCO, manifesto de uma ex-consultora-artista que há algum tempo apertou o botão do foda-se”

  1. alo bianca!

    sou a amiga lusa da lu…
    adorei o teu post!

    estou de volta para a lusitaniedades e uma das primeiras situações que tive que enfrentar foi algo parecido… minha cara metade é artista e um dos circulos onde a gente se move, de vez em quando é cheio de artista… no inicio sentia um deasconforto incrivel c eles: para começar eram super excentricos – ate ai tudo ok – , depois so falavam d coisas mega, super, hiper fashion/importante/artistica de uma forma demasiado afectada… e depois parecia que estav num circo: cada palhaço desempenhava o seu papel…
    e entao… sou uma moça “simprizinha” e no inicio todo este teatro, pseudo artristico intelectual me intimidava…todo mundo parecia super importante…
    passam os meses e vou descobrindo que sao todos uns pés rapados (ou quase todos) com sede de protagonismo…

    enfim so p comentar o teu post, que adorei e vou esfregá pro meu novio, quando a coisa esquentar..hehheheh

    beijos!

  2. Oi Bianca, faz tempo que nao sento em frente a essa tela para fazer leitura, é todo um prazer ler seu blog.

    Nao tivemos tempo de conversar sobre suas impressoes sobre a Feira do Arco e estava curiosa.

    Muito interessante o que você escreve a respeito, indo da arte ao mundo das superficialidades. As várias reflexoes que o texto aponta seria um bom tema para uma tese…. 10

    Adorei a citaçao do Charlei Brown Jr…rsss

    Beijos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. Oi, Rita!

    Às vezes fico com medo de parecer generalizar, o que seria um erro fatal. Tem muita gente boa também que conheço e convivo, mas vejo esse lado descambando e um modelo econômico insano.

    O problema é que muitas vezes quem percebe isso também tende a voltar a um pensamento mais tradicional, o que para mim é um erro pior ainda. E quem tem poder, incorpora tudo ao mesmo sistema. Os artistas, como sempre, encurralados buscando alguma brecha, ou aceitando o jogo, nem todos são tão ingênuos.

    Quem sabe o mundo virtual não seja um dos caminhos? Pelo menos tem funcionado bem com a democratização da informação. Mas essa é uma conversa loooonnnga… para ter tomando um vinhozinho 😉

    Besitos

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