5 – Começando pelo começo

Quando vemos o resultado de alguma coisa, sempre dá essa impressão que foi fácil chegar ali. Cada dia que passa, chego a conclusão que quanto mais fácil e natural pareça qualquer coisa, é porque mais trabalho deu! 

Realizar uma exposição é assim também. Nos bastidores o negócio pega fogo, além de ser um trabalho operário pesado. E, de repente, a gente inaugura. Todo mundo com cara de aristocrata inteligente, perfumado, um certo glamour. São situações muito diferentes e contrastantes, mas são partes da mesma coisa. 

Portanto, para contar essa última exposição, vou começar do real começo, desde quando recebi o convite, até o dia seguinte à inauguração. Porque depois disso, inicia outro processo mais diferente ainda. 

Muito bem, tenho um amigo artista brasileiro que conheci logo que cheguei em Madri, ele já vivia aqui há cerca de um ano. Foi o primeiro artista que conheci na cidade e ele também naquele momento não conhecia tantos, talvez por isso, acabamos por nos tornar amigos. Respeito muito seu trabalho e sua postura. Sempre que possível, cada um à sua maneira, tentamos dar uma força para que o outro tenha oportunidades, porque a vida funciona assim. Hoje, ele está muito bem posicionado e com contatos importantes, e merece, porque trabalhou duro para isso. 

Continuando, todo ano há uma feira chamada ARCO, que é o principal evento de arte contemporânea na Espanha. São galerias de todo mundo que se reunem em um grande pavilhão de exposições. A cada ano, um país é o convidado especial e agora em 2008, o Brasil é esse convidado. A feira acaba mobilizando muita gente para a cidade, e fevereiro ferve em atividades culturais, dentro e fora da ARCO.   

Pois então, fora da ARCO, mas nesse mesmo período e aproveitando a onda, há um espaço cultural que optou por fazer uma exposição com artistas brasileiros. Um espaço novo, mas muito bacana e que vem alcançando respeito rapidamente. Esse meu amigo artista foi convidado a fazer a curadoria dessa exposição, e acabou me chamando para ajudá-lo nessa função. Para ele seria muito trabalho em uma época corrida e lhe caía bem uma mãozinha, por outro lado, acho que ele queria também me dar uma força. Para mim, curadoria é algo que não me interessa, gosto mesmo é de expor obra, mas achei que não custava ajudá-lo e ao mesmo tempo, era realmente uma super oportunidade de divulgar meu nome e fazer contatos bastante interessantes nessa área. Assim que mais ou menos por setembro do ano passado, topei montar com ele a tal da exposição.  

Não vou contar a história desde setembro, porque nem tem tanta coisa para contar. Como sempre, acabou ficando tudo para última hora. A única coisa que tínhamos definido desde o início era a linha de condução dos trabalhos e os artistas que convidaríamos. Buscamos trabalhos que tratassem da relação com o espaço e o tempo. Ao longo da seleção desses trabalhos e artistas, acabou se fortalecendo a questão do espaço. 

Tudo muito bom, tudo muito bem, virou 2008 e nossos prazos foram se apertando. Começamos a ver como os trabalhos chegaríam para exposição, já que todos viriam do Brasil. Também existia a possibilidade de alguns artistas comparecerem ao evento. Isso não seria exatamente um problema se houvesse algum orçamento disponível, mas a verdade é que absolutamente todo mundo trabalhou literalmente por amor à arte. 

Alguns artistas tinham a possibilidade de conseguir patrocínio, e isso também gerou um esquema deles trazerem alguns trabalhos junto com eles. Não era uma má solução, entretanto, significava que as obras chegaríam justo em tempo de serem expostas. 

Dois ou três artistas optaram por enviar as obras pelo correio mesmo. O primeiro deles enviou uma série de placas para uma intervenção urbana. A entrega atrasou um pouquinho, mas como veio com antecedência, não era preocupante. Acontece que ele enviou 12 placas, a aduana espanhola abriu para fiscalizar e pelo visto gostou muito do que encontrou, pois se apoderou (maneira elegante de dizer roubou) de duas delas. Chegaram na minha casa apenas 10 placas. Então tá, né? Pelo menos, não comprometia tanto o resultado, com as dez a gente conseguia executar o trabalho.  

Só que ele também enviaria um vídeo, que acabou esquecendo de colocar no pacote. E esse sim, já estávamos meio justos de tempo. Em princípio, também não era um problema sério, ele enviou logo na sequência, por correspondência expressa. Deveria chegar em um prazo de dois dias. Levou quase duas semanas, porque o tal do vídeo foi parar até no Japão, literalmente! A montagem começou na segunda-feira, o vídeo chegou na sexta-feira anterior.  

Uma das fotos enviadas, que levaría dois ou três dias para chegar, também levou quase duas semanas. Chegou um pouco antes do vídeo. 

A gente a essa altura nem imaginava que eram problemas pequenos, perto do que nos aguardava. 

Uma amiga que escrevería um texto sobre a exposição e nos apoiaría em textos individuais por artista, caiu no fim de semana anterior e fraturou a rótula. Precisou ser internada e operada, e obviamente, não teve a menor condição de pensar nos tais textos.  

O computador do meu amigo artista curador pifou e ele não conseguia checar e-mails. Parece bobagem, mas considerando que basicamente todos os contatos que fazíamos com os artistas eram por internet, imagina o rolo! Depois de alguns dias ele conseguiu um emprestado ou algo assim. 

É pouco? Então, vamos complicar mais um pouquinho. Um dos artistas traría o trabalho dele e de mais outros três, ou seja, ele traría um terço da exposição. Dois dias antes de embarcar para Madri ele teve um surto fortíssimo, precisou ser internado e medicado. Além da preocupação com ele, que já foi o maior susto, como é que a gente faría com os trabalhos? 

Um minutinho, só uma pequena pausa para meditação: puta que paril! Cacete! Que merda a gente faz agora? Pooooorrraaa! Pronto, respirar fundo, passou.  

Felizmente, a sorte alternava de lado, e se por várias vezes nos colocou em uma situação difícil, por outra também colaborava. Um dos trabalhos foi enviado por correio para vir com outro artista, eles trabalham juntos muitas vezes, e dessa vez chegou no prazo certinho para embarcar com o outro para Madri. Dois artistas moravam na mesma cidade desse artista que surtou e foram na casa dele procurar os trabalhos que faltavam. O pequeno detalhe é que eles não se conhecíam pessoalmente ainda, e a mãe do artista teve a maior boa vontade de, no meio do seu sofrimento, deixar os dois literalmente revirarem o quarto do cidadão para tentar encontrar as obras.  

Foi quase tudo encontrado, exceto um CD, que me foi enviado em partes por e-mail. Santa internet! Claro que eu não tinha a menor idéia de como fazer que ele virasse um CD inteiro depois, mas Luiz me quebrou esse galho tecnológico. 

Os dois artistas que encontraram as obras, vieram para Madrid, cada um com uma parte dos trabalhos. Chegaram nas vésperas da inauguração. 

Mas lembra que um trabalho foi por correio para outro artista, né? Pois esse artista fez uma escala em Portugal, e quando chegou em Madri, a bagagem não veio! Ficou de ser entregue no dia seguinte, em seu hotel. Só que a gente também não sabia de nada disso, o que sabíamos era que o artista não desembarcou. Chegamos a pensar que ele havia ficado preso na imigração. Deixamos mensagens com nossos telefones, e esperamos ele aparecer. O dia seguinte era o dia da montagem e só descobrimos que o trabalho e ele haviam chegado, já dentro do espaço, conversando com o pessoal da galeria para iniciarmos a montagem. Parecia até coisa de filme, a gente com aquela cara de paisagem e o último trabalho chegando quase junto conosco. 

Falando em filme, ficou um detalhe para trás, voltamos um pouco a fita, quando entrei para trabalhar nessa exposição, era só como curadora e não como artista. Vou ser sincera, acho ser curadora um saco! Acontece que acredito que a gente tenha que aproveitar as oportunidades como elas chegam, porque é muito raro alguém fazer só o que gosta, o pacote vem com tudo junto. Muitas vezes me perguntei que raio estava fazendo nessa confusão? Eu nem quero ser curadora! Fiquei dividida me perguntando por que não era eu quem estava expondo? O que faltava fazer? Quando chegaria minha vez?  

Até que chegou um dia que percebi que estava com um pouco de má vontade com algo que era realmente uma oportunidade. Um amigo me chamou para isso, poderia ter chamado qualquer outra pessoa, mas me deu um voto de confiança por algum motivo. Pensei também no outro lado da história, eu poderia sim ser um daqueles artistas e, nesse caso, gostaria de que quem tratasse meu trabalho o fizesse com respeito. E essa empatia foi o que me moveu. Não sou altruísta, me esforcei porque quero crescer, mas se nesse processo puder trazer comigo ou pelo menos alavancar gente que merece, por que não? Se aceitei esse negócio, é para fazer direito. E fiz o melhor que pude. 

No dia em que tomei essa decisão, meu amigo artista e curador me perguntou, você não quer expor aquela sua peça negra aqui? Foi uma peça que apresentei na exposição de dezembro e ele gostou muito. O problema é que a essa altura eu já estava como curadora e ficava meio esquisito você ser curadora e expor ao mesmo tempo, fica parecendo que você escolheu seu próprio trabalho. Putz! Que dilema, perguntar a um artista se ele quer expor em um espaço legal é perguntar se macaco quer banana! Claro que eu quero! Simplesmente, nunca o colocaria na saia justa de me oferecer, mas ele me chamando é outra história. Bom, ficamos nesse põe-não-põe até os momentos finais. Assim, para dar bastante suspense, já que a gente quase não tinha pepino para resolver. 

E acabei expondo sim uma obra. Existe o mundo ideal e o possível. Outra vez, havia uma possibilidade e precisava tomar uma decisão, se foi a mais correta, o tempo dirá, mas é melhor assumir nossos próprios riscos que deixar passar uma oportunidade. Se é para me ferrar, que seja com o pé inteirinho na jaca! E vai que dá certo… 

Dentro desse clima de total relaxamento, iniciamos a montagem. 

Na segunda-feira, o espaço tinha uma jam session agendada para à noite, de maneira que podíamos adiantar algumas coisas, mas não dava para montar a parte de dentro da galeria. Tudo bem, deixamos todas as obras, discutimos melhor onde ficaria quem e fomos fazer a intervenção na rua. Um dos trabalhos, o das placas que foram roubadas, era feito na rua. Estávamos em quatro pessoas e a verdade é que foi bem divertido. Chegamos a precisar nos esconder da polícia umas duas vezes, mas gostei da confusão. 

A montagem dentro da galeria começou na terça-feira, véspera da abertura. Estávamos em cinco pessoas, o que em princípio acreditamos que facilitaria o trabalho. Acontece que só três montavam, eu incluída, e dois atrapalhavam.

Não era a intenção, mas quando você está correndo contra o tempo, pregando coisas na parede, tirando medidas etc, se alguém fica no seu ouvido falando e querendo atenção, por melhor que seja a conversa, atrapalha. Eu fico azuretada!  Não conseguimos terminar tudo na terça, como já imaginava, e o final da montagem ficou para o próprio dia da exposição. Sou caxias para burro! Não gosto desse negócio de improvisar, mas não tinha muito jeito. Uma das pessoas, que já não estava ajudando na montagem antes, resolveu ter um surto de ansiedade e a gerar tempestades em copos d’água. Deve ser porque a gente tinha pouco problema para resolver, né? Felizmente, no resto da tarde ficamos só os que estavam trabalhando. 

Bom, eu não podia me dar ao luxo de ter chiliques ou crises de carência, tinha muita coisa para fazer. Mas fiquei chateada porque apesar de todos os abacaxis, honestamente estava no maior bom astral e boa vontade. A parte que mais gosto é justamente desse processo de preparação da exposição, eu curto a montagem. E de repente, por besteiras perdi muito do gosto pela coisa. Paciência. 

O casal responsável pelo espaço não chegava! Por sorte, ficamos com a chave e fomos adiantando tudo o que era possível. Mas é que para completar a saga dos acontecimentos, a mãe do rapaz operou naquele dia de emergência e no caminho para a galeria, ainda bateram no carro deles. Cassilda, estávamos realmente cagados de arara! 

Saí do espaço depois das 19:00 e a inauguração era às 20:00hs. Fui voando em casa para, pelo menos, tomar um banho e voltar com a cara melhorzinha. Eu me atrasei um pouco e quando cheguei, alguns amigos já estavam lá. Aliás, foi a hora que respirei fundo e me senti querida, acolhida. Meus amigos estavam lá. 

E finalmente, como foi a inauguração? Na minha leitura, um sucesso! Foi bastante gente e algumas figuras importantes. E o principal, na minha opinião, está uma exposição forte e coerente. Os artistas são bons, os trabalhos são consistentes e ficou bem montada. Sei que já repercutiu no Brasil e isso também é um bom sinal. 

Problemas sempre existem, o importante é resolvê-los. Administramos a crise e não enlouquecemos no processo. Sobraram alguns arranhões, mas espero que sejam superficiais, pelo menos, são para mim. Se tudo na vida tem um preço, talvez estivéssemos pagando o nosso, agora quem sabe cheguem os resultados.  

Tudo bem quando acaba bem.  

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