XVII – A chegada em Santiago

Achei que estava andando devagar, mas não estava, a dor agora era só dor, estava torpe e anestesiada. Mas caminhava rápido, automática. Não tardou a ver a placa avisando sobre a chegada de Santiago. Dois peregrinos na frente, tirando fotos. Tirei uma para eles e pedi uma para mim. 

Um sol na cuca e um calor daqueles! 

Foi um choque chegar na cidade. Porque você não chega pela praça principal, onde há a enorme catedral. É uma entrada de cidade razoavelmente grande e com as pessoas arrumadas normalmente. Ou seja, a nossa roupa de peregrino, que a essa altura era perfeitamente normal, voltava a ser roupa de ET. Sim, os moradores deveriam estar acostumados a ver peregrinos, não é o ponto, simplesmente me senti deslocada. 

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Não havia mais a cortesia de cumprimentar as pessoas ao longo do caminho. Dizer buenos días para os outros não era mais natural, era falar com estranhos, inclusive era inconveniente. Quem é que sai numa cidade grande cumprimentando todo mundo? Só candidato político ou mendigo louco!  

Meu telefone começou a pipocar, mensagem de uma amiga que havia feito o caminho também, perguntando por onde estava. Luiz querendo falar. E eu querendo sumir. Desliguei o celular. 

Fiquei na dúvida por onde ir, outros peregrinos que vinham atrás também. Passou um homem, já sem a roupa tradicional, parecia que acabava de sair do banho, mas a gente se reconhecia. Pedimos informação. Ele respondeu solícito e simpático que era só seguir direto e seriam mais uns 3 km por dentro da cidade.  

Como assim 3 km? Não sabia se sorria e agradecia a útil e precisa informação ou se pulava no pescoço dele perguntando se ele estava de sacanagem. Mais três quilômetros me arrastando com esse calor. 

Segui, qual o jeito. Passei por uma avenida moderna, cheia de bares e restaurantes. Uma vontade de parar, sentar, tomar alguma coisa gelada e esperar pelos amigos. Mas ainda faltava tanto, se eu parasse ali, e dessa vez tinha certeza absoluta, não seria capaz de levantar. No fundo sabia que precisava terminar isso sozinha, era pessoal, assunto meu. 

Luiz me esperando ligar para contar, meus amigos curiosos esperando as motivadoras histórias do Caminho, todo mundo na maior torcida. E o que tinha para dizer? Da próxima vez, deveria fazer essa porcaria escondida, me salvava do vexame. 

Bom, mas se estava pensando na próxima vez, talvez não tivesse sido assim tão mal. Talvez estivesse só cansada, debilitada, com dor. A irritação iria melhorar, a poeira baixaria e poderia enxergar melhor depois. Mas que vontade que esse depois chegasse logo. 

Só havia um jeito do depois chegar e era andando. 

Lembrei que meus amigos do caminho poderiam estar tentando falar comigo e liguei o celular. Já havia chamada do amigo brasileiro, não me toquei que podia estar preocupando alguém. Falei que estava tudo bem, mas não tinha condição de parar e esperar. Os encontraria na catedral, ligaria de lá. Avisei que faltavam os tais 3 km e senti que ele teve a mesma vontade de me esganar, como havia sentido há alguns minutos atrás. Três quilômetros! Você tá brincando… 

Não estava, lembro deles metro a metro. 

Nas últimas, passei pelo centro e finalmente vi uma placa indicando a praça principal. Era uma rua um pouco apertada e você não vê a catedral chegando. Mas em alguns minutos ela simplesmente surge gigantesca do seu lado esquerdo, te dá a sensação que alguém colocou ela ali de repente. Era realmente impressionante! Você enxerga as torres em profundidades tão diferentes que chega a mudar a relação com a luz. 

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Chequei o relógio, por volta dàs 13:00 horas. Foi quando notei que não estava caminhando tão lenta como minha percepção. De qualquer forma, a missa havia acabado há poucos minutos. 

Na porta, encontrei o alemão ciclista, o de 70 anos, com cara de mais perdido que cego em tiroteio. Resmungava que a missa havia acabado, que não sabia onde carimbava a credencial nem onde buscar a Compostelana.  

Entrei na catedral completamente caótica. Um mar de gente, alguns peregrinos, outros tirando foto, turistas, uma babel. Sinceramente, parecia um mercado de peixe. Pensei, caramba, e a ateísta aqui sou eu, mas que falta de respeito. 

Andei através da igreja, zonza e mareada, até que finalmente achei a porta principal, de frente para praça. Ali reconheci vários rostos, muitos se cumprimentando. Encontrei uma amiga espanhola que também havia se perdido da sua companheira e a estava procurando.  

Não conseguia mais ficar de pé, fui para a escadaria da igreja sentar e ligar para os amigos. Vi um mendigo e pensei que era melhor sentar mais embaixo para não fazer concorrência. Bom, se havia conseguido pensar em uma piada, por pior que fosse, era uma boa notícia. 

Enviei um recado para a amiga que já havia feito o caminho e falei com Luiz ao telefone. Fazia uma força danada para ter uma voz mais animada, mas como era difícil falar. 

Os amigos estavam próximos, levaríam ainda alguns minutos. Estava um lixo, mas o calor me fez levantar e buscar um banco dentro da igreja. De qualquer forma, a zorra que estava lá dentro já devia ser menor. Estava emocionada, uma mistura muito grande de sentimentos. Era bom e ruim, alegre e triste. E uma estranha sensação de que estava incompleto.

Estava. Só entendi depois que, do mesmo jeito que o Caminho não começa no primeiro dia de caminhada, e sim quando você toma a decisão; também não termina porque você chegou à catedral, você volta aos poucos. Mas naquele momento, não sabia disso e fiquei muito confusa. 

Havia me preparado para não concentrar as expectativas no fim, e sim ao longo do trajeto. Mas não compreendi que o fim não havia chegado, pelo menos, não para mim. 

Meus amigos foram chegando um a um. Primeiro minha amiga, depois o alemão schleker, o brasileiro mais jovem e o outro brasileiro. Fiquei muito contente em vê-los e tive vontade de abraçá-los, afinal de contas, chegamos. 

Estávamos emocionados, cada um por seus motivos, e individualmente, precisávamos do nosso momento. Estava paralizada no banco da catedral, só conseguia ter vontade de chorar e ir para casa.  

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