XVI – O último dia de caminhada

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Saímos cedo, às 7:40, o taxi nos deixou exatamente onde deixamos a rota, nem mais nem menos. Gostaríamos de chegar a Santiago até meio dia, quando diariamente é realizada a missa do peregrino. Mas em média caminhávamos 5 Km por hora, sem contar as paradas, precisávamos percorrer cerca de 20 km, com a subida razoável do Monte do Gozo. Portanto, dificilmente chegaríamos antes de uma da tarde. 

Consegui ganhar mais velocidade, a bolha estava melhor, ou eu havia aprendido a tolerar. Ainda assim doía, mas era o último dia, então não havia muito o que preservar, era a hora de dar o que tivesse de pés. 

O brasileiro mais velho, como de costume, acelerou na frente. Eu em segundo, puxando o máximo, porque sabia que a qualquer momento, poderia perder ritmo. Minha amiga e o outro brasileiro vinham logo atrás, dividindo um ipod. E muitos outros peregrinos pelo caminho. É o dia que você mais vê gente andando, ainda que em média, a velocidade de todos pareça menor. Pode ser uma forma inconsciente de retardar a chegada. 

Cassilda, lá vem a bolha me infernizando, ignorei e andei ainda mais rápido tentando me concentrar em qualquer outra coisa. De repente escuto atrás de mim o amigo brasileiro, um paulista cantando Farofa Carioca… mas tente compreender, hoje à tarde a ponte engarrafou… Não resisti, para que estava correndo tanto mesmo, completei: e eu fiquei aaaaa pé 

Vim cantando com ele e minha amiga, ajuda a distrair. Adiante, o outro brasileiro também parou um pouco para descansar e nos esperar. Queria parar, mas para mim não dava, se parasse dificultava a voltar. Ficaram os dois, segui com minha amiga. 

Passamos pelo alemão schleker e avisamos que os brasileiros vinham atrás. 

Chegamos a um bar e aí precisávamos comer ou tomar alguma coisa. Saímos muito cedo e ainda estávamos sem café da manhã. Aproveitei para revisar os curativos e retocar a vaselina, como sempre. Logo em seguida, chegaram os amigos, sendo que o brasileiro e o schleker pareciam irmãos siameses, ligados pelo fio do ipod. 

Não tinha fome, só tomei um suco de laranja. Decidi ir andando na frente, não seria difícil eles me alcançarem. Minha amiga decidiu ir junto e partimos. 

A medida que a quilometragem diminuía, aumentava minha angústia e ansiedade. Refletia no corpo, os pés doíam, a bolha crescia. O tempo estava acabando e não havia resolvido meus enigmas. Na verdade, havia resolvido sim, mas não gostava nada da respostas. Seguia regurgitando, na esperança de perceber algum detalhe que não havia notado. 

Buscava referências no passado, fazia analogias e complicava ainda mais minha vida.  

Perdi a fé com 15 anos. Não aconteceu em um só dia, mas houve esse dia em que entendi. Havia algum tempo percebia que não era igual, que me escapava, não me satisfazia mais. Procurei religiões diferentes, explicações distintas e nada. Cheguei a conclusão que devia ser agnóstica, isso não era exatamente um problema, até soava inteligente, mas ainda não resolvia. Apareceu a oportunidade de participar de um encontro de jovens, da religião católica. Já havia participado de alguns e, de certa forma, voltava com as crenças fortalecidas. Então, me inscrevi, sinceramente buscando motivos para crer. Foi a mesma sensação de ser um bicho estranho, de ouvir coerências onde eu não cabia. O encontro era encerrado com uma missa e, em seguida, o organizador escolhia algumas pessoas, aleatoriamente, para ir na frente da igreja e dar seu depoimento. É lógico que ele me chamou. Foi mais ou menos dois minutos depois da minha ficha ter caído e ter entendido que simplesmente não acreditava. Aquele momento em que você deseja que o chão se abra e você desapareça. Mas fui dar meu depoimento e perguntei antes se ele tinha certeza que queria que eu falasse, quase como um pedido de socorro. Ele disse que sim, que podia falar. Comecei pelo início, disse que havia ido lá porque sentia que estava perdendo a fé. E ainda fico nervosa em lembrar dos olhares de amigos sorrindo convictos que eu diria que tudo acabou bem. Eu quis muito dizer que tudo acabou bem. Mas tudo que tinha para dizer e disse foi um choroso não acredito, não adianta. Fui me sentar um pouco assustada e sem entender porque me aplaudiam. De qualquer forma, foi uma lição de generosidade de quem esperei pedras. Foi quando também entendi que as pessoas não merecem ser enganadas porque no fundo respeitam a verdade, por menos que concordem com ela. 

Lá ia eu outra vez no mesmo barco. Fui para um encontro de jovens e voltei ateísta. Fui ao Caminho de Santiago e volto cética como um pedaço de pau.  

Tudo bem, mas por que precisava acreditar? Ou melhor dito, por que precisava acreditar igual a todo mundo? Por que tudo tinha que fazer tanto sentido ou seguir a lógica humana? Sobrevivi até agora, paciência. O que não se pode mudar, não se muda. Vai ter gente me perguntando sobre esse lado espiritual, é o normal, que posso fazer. Não pode ser mais difícil que ir para frente de uma igreja e falar em público que sou ateísta. É decepcionante, porque também é uma decepção para mim, mas é a verdade. 

E o resto, como fica? Cadê aquele momento mágico que descubro que quero ser mãe? E por que preciso descobrir isso aqui no Caminho? A quem estou enganando, não preciso de pressa porque a viagem está acabando, preciso resolver porque tenho quase 38 anos e meu tempo está realmente acabando. 

Acho que essa confusão se refletia na minha cara, mas felizmente tinha uma bolha-álibe e uma dor infernal nos ossos dos pés, que eram o menor dos meus problemas, mas contraditoriamente serviam para manter minha sanidade e justificar o humor oscilante. 

Minha amiga puxava canções, era seu jeito de se motivar e me animar, funcionava. Vínhamos cantando e houve momentos onde esquecia completamente de tudo só pensava em lembrar das letras e respirar para não perder o fôlego. Brincávamos com outros peregrinos no caminho. 

Havia um alemão ou holandês que foi com seu cachorro. Já havíamos cruzado com ele algumas vezes. O cãozinho era uma simpatia e aguentava bem o tranco. Em Portomarín, lembro dele completamente apagado no colo do dono, devia estar exausto. Mas durante o dia, acompanhava a caminhada como quem estava se divertindo. Na subida ao Monte do Gozo, o encontramos novamente, com umas amigas. Uma dela agarrou minha mochila como se pedisse um reboque para subir. Fui puxando com careta de esforço. Rimos e nos separamos, como normalmente funciona. 

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Pouco depois ouvimos nossos amigos, quase nos alcançando. Terminamos a subida juntos. Paramos em um bar para descansar. Só fui ao banheiro e dessa vez nem quis retocar os curativos, estávamos muito perto e cada vez mais tinha a sensação de que se sentasse não levantava mais. 

Segui primeiro, mas fui alcançada muito rápido, havia perdido velocidade outra vez. Eles diminuiram o ritmo para me acompanhar. Achei gentil e solidário. Mas o que acontece é que também me senti um pouco mal de estar segurando os outros. 

Paramos no Monte do Gozo, de onde se avista Santiago, a cerca de 5 km. Em português o nome soa quase sexual, mas seu significado é a alegria, o regozijo de saber que se está quase lá.  

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E eu feito uma barata tonta, sem conseguir sentar, sem conseguir conversar. Espero ou continuo? Eles pararam em frente a uma capela e começaram a conversar e tomar alguma coisa, tinha bastante gente por ali. Precisava ficar sozinha, precisava fazer uma última pergunta, precisava resolver logo.  

Subi até o monumento que fica bem no topo do tal Monte do Gozo, sentei e me perguntei o que só não era mais previsível que a resposta. Não, não queria ser mãe. Não posso falsificar esse momento. Se no futuro mudar de idéia e não puder mais, arcarei com as consequências, mas hoje não posso. 

Fiquei triste e não pelo conteúdo das minhas decisões, mas porque não consegui me converter na pessoa que queria. Não tinha mais porque retardar minha chegada. Falei com os amigos, vou descendo na frente e vocês me alcançam. Eles pareciam felizes, não sei se estavam, mas pareciam.

Não queria atrapalhar e dessa vez, realmente não precisava de ajuda, senão teria pedido. 

Uma consideração sobre “XVI – O último dia de caminhada”

  1. eu acho que as pessoas vao mais devagar porque o ultimo dia, quase chegando, é festa! É o teu dia! Nao tem mais que caminhar depois disso hehehe…nós fomos muuuito devagar, cantando, tirando fotos, muito descontraídos e felizes por estar chegando!
    E eu fui masoquista e dormi em Monte do Gozo, pra chegar em Santiago no domingo, de manha, e ir de mochila pro Gran Finale: a missa do peregrino 🙂

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