XV – Uma casa de duzentos anos

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Acordamos na velha rotina, arrumar toda a mochila. Carregamos tão pouca coisa que, em cada parada, precisamos de quase tudo. Ou seja, todos os dias nos reorganizamos.  

Combinamos de tomar café às oito, já com tudo pronto para partir. 

Saímos pela lateral do hotel, quando ouvimos nosso amigo brasileiro chamar, estava fumando na janela. Perguntou sobre o café, indicamos o da própria pousada, nos despedimos e ficamos de nos encontrar em breve. 

Minha bolha parecia começar a cicatrizar, incomodava menos que o dia anterior. Mesmo assim, não estava a todo vapor, vi logo que minha velocidade não era a mesma e que, se forçasse, pioraria meu estado. 

Por causa da proximidade de Santiago, parece que o caminho afunila e você passa a ver cada vez mais gente caminhando. Entrentanto, ainda havia uma parada, e gente te passando pode significar menos lugar para dormir. 

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Encontramos a amiga americana, a que gostava de caminhar sozinha. Ia bem devagar com uma grande máquina fotográfica. Nos cumprimentamos e ela falou que estava sem pressa, aparentemente, havia um grande albergue onde ela achou que seguramente haveria lugar. Disse que estava aproveitando os últimos dias para pensar um pouco em what is this all about. E eu, com meus botões, pois é, também não sei ainda do que se trata tudo isso. Mas não tenho muito tempo para descobrir. 

Chegou um momento que resolvemos nos separar. Eu estava lenta e me sentia mal tentando acompanhar o ritmo da minha amiga. Ela por sua vez, devia estar de saco cheio de se segurar, ainda mais vendo aquele povo todo passando. Melhor assim, vai andando na frente e reserva um lugar para a gente.  

Nesse dia, foram 19 km, dos quais a metade fizemos juntas, o restante sozinhas. Achei bom caminhar sozinha também. Parei mais de uma vez para cuidar dos pés, sem me sentir atrapalhando ninguém, apesar dela nunca reclamar. Mas o principal é que ainda tinha alguns assuntos pendentes em que queria pensar com calma e foco. 

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… se meus joelhos não doessem mais… diante de algum motivo que me traga fé… 

A música do Rappa ressoava na minha cabeça, seria cômico, se não fosse trágico. Vá lá, também era um pouco cômico. Não seria bom acabar o caminho com minha fé recuperada? Não seria bom se o céu se abrisse em uma grande e definitiva revelação? Que raios estava buscando afinal de contas? 

Não tinha tão grande pretenção, mas nas minhas fantasias, no fundo acreditava que poderia ao menos encontrar uma certeza, a de que queria ser mãe. Na minha cabeça se formava uma história bonita de se contar, sobre o exato momento em que, em pleno Caminho de Santiago, decidi ser mãe. 

Faltava uma peça na minha história bonita, o momento não chegava. 

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Cheguei a Rúa, e o nome da cidade é esse. Ia aos trancos e barrancos, vi uma casa rural bem cuidada. Pensei que talvez fosse um bom local para dormir, mas minha amiga já estava na frente, havia chegado em Pedrouzo e não ia sugerir que voltasse. 

Liguei para ela, que estava com dificuldades de encontrar algum local para ficar. Mas não dei tanta importância, por uma questão de prioridade, primeiro precisava encontrá-la. 

No meu guia constava Pedrouzo/Arca. Cheguei finalmente em Pedrouzo e encontrei o casal de italianos que não sabia onde ficava a tal de Arca e muito menos se ali havia algum hotel. Perguntei a um entregador que fez cara de total desconhecimento. Cassilda, onde estava afinal? 

Era Pedrouzo, acho que Arca é a região, sei lá, nunca consegui entender direito. E encontrar minha amiga foi uma tarefa árdua, parecia que falávamos idiomas diferentes. No dia seguinte, descobri que ela entrou na cidade por um caminho e eu por outro, por isso nossas descrições não batiam. 

Uma hora a gente se encontrou, com caras de meio mortas. Meus pés, nas últimas! Ela me deu a notícia que não queria acreditar. A cidade era feia, pequena e não tinha hotel. Havia algumas pessoas que alugavam quartos em casa, obviamente, com banheiros compartilhados. Não queria ficar ali, o maior baixo astral. 

Liguei de volta para os amigos brasileiros, que já estavam me ligando a essa altura, e dei aquela bomba de notícia. Vamos ver o que dá para fazer. E eles, o que arrumarem para vocês, a gente está dentro. 

Quer saber de uma coisa, podemos voltar para Rúa, na tal casa rural que achei bonitinha, ela também lembrava do local. Mas acontece que não tinha mais a menor condição de caminhar. Depois, voltar ou sair do caminho é muito desgastante. Enfim, resolvi que poderíamos pegar um taxi, não era nada demais, estava fora da rota. 

Bom, pergunta daqui, pergunta dalí, descobrimos uma moça que tinha um taxi e fomos bater na casa dela. Ela nos levou para Rúa, na tal casa rural, que já estava lotada. Ali perguntei sobre algum outro lugar e ele me disse que estava tudo cheio pelos arredores, mas que já que estávamos de carro, poderia tentar uma outra casa rural, há uns 5 ou 6 quilômetros dalí. Não tínhamos grandes alternativas, pois então vamos lá. 

No próprio caminho, perguntei se a taxista poderia nos buscar no dia seguinte e nos deixar no mesmo local onde pegamos o taxi, assim prosseguiríamos sem ter saído da rota. Ela concordou, mas precisava ser bem cedo, pois ela já tinha compromisso depois. 

Quando chegamos na tal casa, por fora não dei muita bola, mas se tivesse quarto com banheiro, estava dentro. Tinha e o preço era bem razoável. Voltamos no taxi, dissemos que ficaríamos e acertei com ela de voltar no dia seguinte.  

A impressão sobre o lugar mudou em alguns segundos, a casa era ótima! O quarto excelente! Liguei para os brasileiros e expliquei a situação, o lugar é muito bom, mas tem que sair um pouco do caminho, se quiser, tem o número do taxi. Eles toparam, mas viriam caminhando mesmo. 

Fiz a reserva para eles, com as brincadeiras da minha amiga dizendo que estava na hora da gente cobrar uma taxa por agenciamento de hotéis. 

Perguntamos se haveria algo para comer. Estávamos mortas de fome, não havíamos almoçado, é que sempre me preocupava mais o lugar para dormir que para comer. Bom, a dona da casa não servia almoço, só jantar, mas muito solícita, nos fez um lanche com frutas, pão, queijo e presunto. Naquele momento, era um banquete! 

Cada vez gostava mais do lugar. Era uma casa de duzentos anos, toda em pedras, umas paredes que deviam medir bem um metro. Por dentro, reformada, com piso e móveis de madeira clara. Um banheiro antiséptico, com uma convidativa banheira branca. 

Minha amiga foi deitar do lado de fora, no sol e eu fui morgar na banheira. Depois ela subiu, para assumir seu posto na tal da banheira e fiquei de preguiça até os amigos brasileiros chegarem. Já tinha lavado minha roupa e estava tudo mais ou menos organizado para seguir no dia seguinte. 

Escutei o mais jovem chegando antes e dizendo que o outro vinha logo atrás. Daqui a pouco ele me liga, em uma chamada cheia de interrupções, o sinal de celular era péssimo. Percebi que ouvia sua voz da janela, e de lá perguntei rindo por que estávamos falando por telefone?  

Ele disse que havia acontecido uma coisa esquisita que depois ele contava. Falei que já descia. Nos encontramos na terraza, uma mesa e cadeiras ao ar livre, muito agradável. Eles também pareciam gostar do lugar, principalmente o mais velho. Minha amiga sugeria sair pelos arredores para ver se havia alguma coisa. Eu me perguntava, que coisa? Ali no máximo tinham vacas! 

Aliás, não é que elas apareceram. O amigo brasileiro, com a máquina fotográfica na mão, me puxava, vem vem! Já sei, só pode ser uma manada de vacas! Não deu outra e dessa vez me meti entre elas, sem medo, os chifres eram finalmente cortados. O pior é que toda hora que ele conseguia bater uma foto, a vaca tinha passado. Pareciam que estavam de implicância comigo, vacas tímidas. Pensei em abraçar uma, de farra, para cumprir a promessa da fotografia agarrada com a vaca, mas tinha muita mosca e não havia mudado tanto assim. No final, saí abraçada com a pastora, que ria sem graça, com vergonha de sair na foto, mas ao mesmo tempo, gostando da brincadeira. 

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Finalmente, o brasileiro contou o que de esquisito havia passado. Ele acordou com o braço dormente e pensou, agora ferrou. Abusei. Será que era por causa do cajado? E se não fosse? Na sua cabeça fez todo o filme, ainda por cima vou estragar a viagem de todo mundo, vai ser uma confusão para enviarem meu corpo… enfim, viajou na maionese com o que tinha direito e com todos os fantasmas que surgem quando a gente não tem certeza do que se trata. Duvidou que pudesse seguir viagem aquele dia, mas aos poucos, foi melhorando. Acabou decidindo continuar. 

Pouco antes de chegar ali na casa rural, logo que se separou do outro amigo, que tinha pressa em chegar, voltou a sentir o braço dormente e parou. Será que ainda faltava muito? Ele não falou com todas as letras, mas deve ter batido um medo danado. Seu braço ficar dormente no meio do nada, depois de caminhar pesado, claro que a primeira coisa que passa na cabeça é um enfarte! Vou morrer! Nisso o telefone dele tocou, era um brasileiro com quem ele havia encontrado logo no início do caminho, que disse o seguinte, estou com uma pessoa aqui que quer falar com você. Entrou um outro homem que ele não conhecia, sou o fulano e é só para te dizer que você está em Pedrouzo, você está bem, e o lugar para onde vai está logo em frente. A ligação caiu em seguida. 

Para ele, veio como um sinal, acho que o tranquilizou. Caminhou um pouco mais e chegou na casa rural, onde nos encontrou. Esquisitices do caminho? Talvez, mas para ele, minha amiga e eu, soava como algo absolutamente natural. Não nos surpreendeu.  

O brasileiro mais jovem ficou inquieto, mas como assim? Quem era? Mas disse o que? Ele queria explicações, certezas, razão. Para nós, possivelmente por motivos diferentes, não havia o que explicar, era o que era. 

Antes de fazer o Caminho, nunca havia imaginado que algo de realmente mal poderia acontecer ali. Mas pode. Durante a nossa viagem, por exemplo, soubemos de uma brasileira que morreu de trombose, em pleno albergue. Tem gente que se machuca mais sério, gente que precisa voltar, se internar. Tudo isso acontece. Felizmente, a grande maioria chega em segurança. 

Seguimos na varanda, tomando vinho e beliscando queijos, enquanto o jantar não era servido. Chegou um senhor alemão de bicicleta, pedindo informações, sim é aqui mesmo. Na sequência, mais um casal de ciclistas alemães, que viajavam com ele. Pareciam de uma certa idade, mas estava acostumada a ver gente mais velha pela estrada, no maior pique.

 Minha amiga conversava comigo empolgada, entre outras coisas, contava como a experiência a preparava para maternidade, a coisa de que não importa o que você tenha feito ou queira fazer, um filho vai te acordar do mesmo jeito no dia seguinte e você tem que estar pronta. Se referia à noite que passamos em claro, dizia, quer beber, quer se divertir, mas no dia seguinte tem que levantar do mesmo jeito. Um chamado à responsabilidade. Falava que no meu caso, nem foi uma opção, mas poderia ser comparado a uma febre, ou um dia que o filho estivesse doente, por exemplo,  onde também precisaria estar pronta. Ela falava de si mesma, mas acho que do seu jeito, tentava me animar e buscar minha empatia. Tinha razão em boa parte do que me dizia. O que ela não sabia, nem poderia saber, é que tudo que a levava a um sim, me ressoava como um rotundo não.

Pouco depois, desce o senhor alemão, já tomado banho, com uma garrafa de vinho na mão, perguntando se poderia se juntar ao grupo. Pois claro! A conversa não era de todo fácil, não falava inglês e seu espanhol era curto. Mas não precisava muito, acho que o que importava era estar todo mundo ali. Ele disse que tinha 70 anos e seus amigos também estavam nessa faixa, haviam se conhecido pela estrada, o casal vinha pedalando desde Alemanha. Puxa e eu achando que estava fazendo alguma vantagem, caraca! Quero envelhecer assim. 

O jantar ficou pronto e nem preciso dizer que estava uma delícia. Simples e perfeito. Salada de folhas verdes, bem temperada. Arroz branco, como a gente faz no Brasil, e um frango flambado muito saboroso. Começou a cantoria, ou na nossa mesa, ou na do alemão ao lado.  

A sobremesa não consigo mais me lembrar, minha idéia já ia longe. Não estava mais ali. Minha amiga desceu com um ipod e ficava metade com ela e metade com um dos amigos. Os dois cantando partes de música, que não ouvíamos e o outro amigo encarnando neles.  

Saí à francesa, fazendo de conta que era discreta, e fui para fora ligar para Luiz. Era o único lugar onde o celular pegava e me era conveniente aproveitar essa desculpa. Ele não sabia se ia ou não me encontrar em Santiago, como havíamos combinado no início. Tinha uma reunião não sei do que, mas se fosse difícil para mim… Difícil? Do que ele estava falando? Qual era a dificuldade em pegar um trem e voltar para casa, que besteira, claro que não era por isso que queria encontrá-lo. Quer saber, melhor você não ir. Sem problemas, mas assim ganho liberdade de combinar o que quiser quando chegar a Santiago. Tínhamos vontade de ir a Finisterre. 

Depois de desligar, não voltei para dentro de casa. Precisava ficar sozinha. Escutava ao fundo a voz do alemão e do amigo brasileiro cantando, era bonito, mas estava em outra dimensão de novo. 

Só conseguia pensar que estava tão perdida quanto havia chegado. As poucas respostas que tinha, eram negativas. So, what’s the hell is this all about? Precisei vir para o meio da Galícia, pisar num monte de cocô de vaca e estar cercada por paredes de duzentos anos para dar de ombros e não ter a menor idéia.  

Lá ia outra vez na montanha-russa.  

Os amigos saíram e o papo continuou do lado de fora, não sei se perceberam que estava estranha. Às vezes acho que dissimulo bem, outras que está escrito na minha testa. De qualquer forma, ninguém perguntou, o que foi melhor. 

Não fiquei muito mais tempo, não tinha nada a adicionar. Resolvi descansar, quem sabe no dia seguinte, o último dia de caminhada, me baixasse um daqueles fenomenais insights e tudo fizesse sentido. 

Combinamos de sair juntos pela manhã, eles aproveitariam o taxi conosco até o centro de Pedrouzo, de onde deixamos a rota. 

2 comentários em “XV – Uma casa de duzentos anos”

  1. hehehe
    nesse trecho eu tb pensava a cada um que me passava: uma cama a menos! Que inferno!!!! é uma corrida de obstáculos esta ultima parte! 🙂
    (to relendo teu blog antes de escrever o meu hehehe)

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